dezembro 30, 2003

Balanço e Votos de um Feliz 2004

Pois é amigos e amigas, o tempo voa e nós aqui, sentados neste pequeno café à luz do neon... lendo poesia e trocando dois dedos de conversa... tudo ao sabor que um cafezinho... este foi o pequeno espaço que eu sonhei, um dia enchi o peito de coragem, deambulei por meia duzia de servidores e aterrei aqui... onde montei o barraquinho e comecei o café...

Hoje muita gente entra e sai pelas portas, há dias em que até faz corrente de ar... mas os amigos que o tempo trás por aqui vão ficando... vão lendo... vão comentando e vão dando razão de ser e de existir a este pequeno sitio...

Sim... coisas boas trouxe-me o meu blog, nunca pensei haver tanta gente a gostar de poesia por estes lados... sempre me senti um "bicho raro", um ser estranho... é bom ver que não estou afinal sozinho!

Aos poucos tive adesão de quem lia (pessoas que me enviavam poemas que gostavam para eu afixar, muitas delas que fazem parte dos Blogs Amigos, outras amigas mesmo no outro mundo...na realidade...), tive até a grande sorte de ter adesão de quem escreve... poetas como o Miguel Patricio (poeta de um sensibilidade incrivel)... como a Teresa Sousa (com tanta dor para partilhar)... como a Gelatina do Xocolaty (que se tornou uma referência na minha leitura pela incrivel capacidade de escrever coisas simples que dizem tudo)... foram contribuindo de forma impagavel para que "isto" crescesse... (e perdoem-me se me esqueci de alguem)...

Mas muito mais aconteceu... arranjei novos amigos que adicionei/me adicionaram ao messenger, conheci muita gente nova... gente que vale bem a pena conhecer... tive mesmo o prazer de conhecer o Professor Angustiado (um grande homem por detrás de um grande blog)... acima de tudo sinto que isto tudo faz parte de um processo que ainda me vai fazer crescer mais enquanto pessoa...

Tive tambem o grande prazer de ver nascer o Zen, o blog da Teresa, um sitio que já me fez chorar ao terceiro post... o que é obra... mas que aconselho vivamente porque tem o dom de nos tocar bem cá dentro...

Aderi a uma data de projectos malucos... como a BlogA!? ou como o Eurico Cebolo... enfim...

Foi, sem sombra de duvida... um pequeno decurso de tempo que me fez mudar muito, expandir horizontes e sonhar... espero continuar por perto e continuar com o Poetry Café... irei fazer algumas (pequenas) alterações, nomeadamente de imagem e irei (por sugestão do Professor escrever mais em prosa), mas o sitio, o café e as pessoas fantásticas que o frequentam, essas espero continuarem as mesmas...

Este foi o meu ultimo post de 2003, até para o ano amigos e amigas, desejo-vos com todo o meu coração um excelente 2004 com muita poesia nas vossas vidas...

aquele abraço
Nuno Branco (D. Quixote)


Publicado por D_Quixote em 01:23 AM | Comentários (11)

dezembro 29, 2003

Hoje só te trago flores

Hoje só te trago flores, abdiquei do meu salário.
Hoje só um beijo triste, um amor operário.
Outra voz me encanta!
O espelho é magro, uma seara de corpos com movimentos de tempo.
Hoje só te trago a poeira das estradas,
como relevo das mãos suadas, uma outra solidão!
Subo a tua saia e firme de desejo descubro-te o sexo,
nele entrando com a raiva de um cão!
O azul é fantástico, o sol explodiu para lá dos montes.
Reparamos agora que a luz do meio dia nos trouxe o perfume das madeiras,
o brilho dos metais,
damos conta de um silêncio visitado, o pingar das torneiras,
o zunir dos insectos, o trabalhar do velho frigorífico,
a música que não existe, e ainda a música que não existe!

Encosto a cabeça ao teu peito, ouço o bater do coração,
Queria que batesse para sempre esta certeza meu amor.


de Miguel Patrício

(obrigado Miguel pelos poemas que continuas a mandar, começam-me a faltar as palavras para tanto te agradecer)

Publicado por D_Quixote em 01:56 AM | Comentários (10)

dezembro 28, 2003

Caminhos

Esta vida é feita de decisões,
escolhas que fazemos dia após dia,
caminhos a seguir e a encontrar.
Destino é o percurso tomado.

Se ouvi cabeças ou corações
para aquela escolha que se fazia...
achavamos que estavamos a optar
pelo percurso mais acertado.

Hoje, volvidos todos estes anos,
rasgadas folhas do calendário;
algures ainda no meio da estrada.

Sei que em vão foram todos os planos
que tudo aconteceu ao contrário
mas tambem que eu não mudaria nada...


de João Natal

.. Sorrow ... by Dennis Fishit

Publicado por D_Quixote em 10:47 AM | Comentários (2)

Lágrimas de sangue

Na vida existem muitos mistérios
Eu em todos creio e em nada creio,
Cansada estou de ouvir esses critérios
À sombra de um destino velho e feio.

Vai-se sacrificando este povinho
Que caminha numa estrada sem rumo
E eu que não quero ver este caos, sumo,
Desejando encontrar outro caminho.

Do alto admiro esta triste paisagem
E ao chorar verdes lágrimas de sangue,
Penso naquela saudável imagem;

Que saudade do passado meu Deus,
Passado onde eu não vivi, nem morri,
Apenas o vi nesses olhos teus!


de Teresa Sousa

Publicado por D_Quixote em 01:11 AM | Comentários (1)

dezembro 27, 2003

... os negros surgem à flor do papel...

passo a passo
entro pela cal ferida das casas e desvendo
portas entreabertas cortinas de riscado objectos polidos pelo uso chitas
nódoas seculares risos cinzas resíduos de comida ossos
mantos de pó penumbras mornas onde se encolhem os gatos
arcos de alvenaria gavetas sem fundo trepadeiras recantos de urina
ninhos que a curiosidade das crianças largou ao esquecimento

... os brancos recortam-se intensos...

a aldeia assemelha-se a uma mandala de líquidos cinzentos
... um pouco de amarelo arde no centro da fotografia

... por detrás dos cinzentos aguados...

ouço guinchos de animais recolhendo às tocas
quando a noite cresce
à medida que o revelador actua
o estrangeiro atravessa o crepúsculo
e pára surpreendido pela luz do flash

depois...
basta meter a folha de papel no fixador e esperar


de Al Berto
in “ Trabalhos do Olhar “
1ª edição, 1982

(uma edição de autor enviada pela amiga Maria)

Publicado por D_Quixote em 03:32 PM | Comentários (4)

Nada sei sobre mim

Nada sei sobre o que sai de mim,
seria triste se o soubesse.
Assim não sou eu quem falha,
mas aquele que não sabe.
Perguntaram-me um dia se não era fácil colocar as coisas desse modo,
Difícil seria saber-me entregue ao lodo.
Nada sei sobre o que sai de mim,
porque não acredito.
Voltaram a perguntar-me se não seria fácil colocar as coisas desse modo,
difícil seria acreditar nisso.
Posso sempre voltar a tentar, talvez a derrota se farte de mim e mude de pista.


de Miguel Patrício

Publicado por D_Quixote em 01:51 PM | Comentários (4)

dezembro 26, 2003

a chuva fustiga-me a cara

Esta chuva fustiga-me a cara,
Como vagas de mar bravio irado,
Quebrando em espuma a bruma da manhã
Na barra o molhe onde o barco amarra

Repara em mim o tempo não pára
Verto as lágrimas de um ser quebrado
No meu esgar de um sorriso que não há
Num triste fado a uma guitarra...

Pois as mãos frias que aqui repouso
O olhar que no horizonte deito
O meu ar contemplativo e triste

São as coisas que eu ainda ouso
O resíduo dentro do meu peito
De um amor que já não mais existe...


de João Natal
23/12/03

Publicado por D_Quixote em 01:19 AM | Comentários (3)

Noite

Ó noite sombria e gélida, escuta
Este meu silêncio mortificado,
Este singelo som enfeitiçado
Sepultado na mais escura gruta;

Sente esta profunda dor que em mim mora,
Esta imensa saudade que em mim chora
Ao recordar momentos de opulência
Na derradeira idade da inocência;

Vê estes olhos que nada vêem,
Pobres, caíram na eterna cegueira
E entregaram-se à mais suja poeira!

Fala-me dos teus felizes horrores,
Desses teus castos e honrosos temores...
Como eu te invejo minha noite amiga!

de Teresa Sousa

The Last Time... by Mitchell Miller

Publicado por D_Quixote em 12:56 AM | Comentários (0)

o meu coração está lá atrás

Hoje fumei com as duas mãos,
Porque perdi recentemente a única mulher que amei.
Cada vez que lembro os seus olhos,
nascem duas negras lindas nos meus pulmões,
Não há quimioterapia que traga o meu amor de volta!
Tinha comigo a idéia de que as nossas mãos nunca mais se separariam,
Que havia algures uma praia feita para nós.
Podem recolher a água e abrir os vossos chapéus de sol,
porque nós não voltamos a ser vistos por lá!
Deixou de ser privado o nosso amor
e passou a ser publico o nosso afastamento.
Essa história de um homem ter de seguir em frente não me apetece,
tudo no meu coração me diz que devo voltar atrás!


de Miguel Patrício

Publicado por D_Quixote em 12:40 AM | Comentários (0)

um pequeno pensamento

O teu sorriso foi o melhor do meu Natal...

obrigado amor por existires...

Publicado por D_Quixote em 12:39 AM | Comentários (0)

dezembro 24, 2003

mad world

all around me are familiar faces
worn out places
worn out faces
bright and early for the daily races
going no where
going no where
their tears are filling up their glasses
no expression
no expression
hide my head i wanna drown my sorrow
no tomorrow
no tomorrow
and i find i kind of funny
i find it kind of sad
the dreams in which i'm dying are the best i've ever had
i find it hard to tell you
i find it hard to take
when people run in circles its a very very
mad world
mad world
children waiting for the day they feel good
happy birthday
happy birthday
and i feel the way that every child should
sit and listen
sit and listen
went to school and i was very nervous
no one knew me
no one new me
hello teacher tell me what's my lesson
look right through me
look right through me
and i find i kind of funny
i find it kind of sad
the dreams in which i'm dying are the best i've ever had
i find it hard to tell you
i find it hard to take
when people run in circles its a very very
mad world
mad world
enlarging your world
mad world


Gary Jules
Title: Mad World
Album: Gary Jules

Esta musica linda faz parte da banda sonora do filme numero um da minha lista... todo o filme é poesia... doentia, confusa e esquizofrénica... um pouco como a minha...
para vos abrir o apetite... (procurem o resto no Kazaa)

descubram o filme...

Publicado por D_Quixote em 12:02 PM | Comentários (5)

dezembro 23, 2003

Atravesso a vida

Atravesso a vida
Marcando-a de pegadas frívolas,
Que nada têm a contar...
Olho para trás,
Vejo os caminhos que criei...
Afanosos, fastidiosos,
Rodeados de detritos de dor inacabados...
Construídos para ocultar a minha indolência,
Servem-me de droga, agora,
Enquanto construo outros...
Sei que preciso de ajuda,
Tento refrear pensamentos perjuros,
Concentrando-me num objectivo...
Esse objectivo que leva demasiadas interrogações,
Que é construído sobre bases fracas,
Devido ao meu ser,
Que cresce timorato e drogado,
Desta substância que todos temem ter...
Não sei quanto tempo resta ainda...
Sei que o tempo nunca acaba,
Para a abrupta e receosa mudança,
Que chegará algum dia...


de Dina Reis, 12/09/2002

(enviado pela amiga Sandra... obrigado pelo poema fantástico)

a day at the beach by Tracy Mccallay

Publicado por D_Quixote em 12:52 AM | Comentários (9)

Instinto canibal

Que saudades eu tenho de ti amor!
Saudade dos momentos que vivemos
E dos pensamentos que hoje não temos!
O romance transformou-se em terror...

Somos dois monstros perdidos na noite
Entregues a bichos abomináveis...
A minha alma fugiu do teu açoite
Para viver instantes odiáveis!

Onde estarás tu amor, tenho fome!
O meu instinto canibal é forte,
Ultrapassando a barreira da morte!

Fomos, desta feita, predestinados
A viver para sempre separados;
Quem unirá o teu destino ao meu?!

de Teresa Sousa

(Este não é um poema sensual porque assim dou por concluido o ciclo da poesia erótica... houveram alguns poemas que ficaram por publicar... talvez numa próxima oportunidade eles surjam... para já, ficam aqui guardadinhos comigo... e venha daí muita poesia doutros generos)

Publicado por D_Quixote em 12:38 AM | Comentários (0)

dezembro 22, 2003

Este amor

Este sonho bom…
Que nos embala…
Esta melodia que nos envolve…
O bater das ondas na areia…
O envolver da água em nossos corpos!
Este corpo que te acolhe…
E esses braços que me envolvem…
Esse Sol que nos aquece…
Essa boca que me cala…
Os gritos de Amor…
Que me invadem!
Estas mãos que te percorrem…
E exploram…
E essa boca…
Que me marca…
De amor!
Estes movimentos…
Que esse Oceano cúmplice…
Insiste em perpetrar…
Este prazer que não é dor…
Nem é ser.
Nem estar…

Este prazer que é UNO…
Tu e eu no mar!


de Gelatina

Obrigado... os teus escritos já se tornaram uma das minhas maiores referências...

Publicado por D_Quixote em 12:53 AM | Comentários (8)

dezembro 21, 2003

O Ciclo de poesia erótica continua...

Pois é amigos... a ideia parece que foi bem recebida e não param de me chegar poemas carregadissimos de sensualidade e erotismo para eu ir afixando!

Hoje afixei mais dois... porque não convem despejar tudo para aqui de uma só vez... chamemos-lhe um ciclo... tantrico? Mas a verdade é que o farei prolongar ainda mais um bocadinho...

A todos... um grande obrigado!

E a pedido de muitas familias... "a prata da casa":


"naquele que te ama"

Deixei de tentar perceber a mulher.
Agora limito-me a ama-la,
deixei de tentar ver uma lógica,
de medir tudo como uma ciência...
Agora limito-me a decorar os traços do teu rosto
com a ponta dos meus dedos,
a sentir os teus lábios quentes na palma da minha mão,
a deslizar o olhar por entre as curvas do teu corpo
e algures ali...
Onde o teu corpo e o meu se perdem num só
encontro-me a mim...
naquele em que quero ser,
naquele que te ama...
Tomo o cheiro do teu cabelo como o ar que respiro,
trago o sabor dos teus lábios como alimento,
deslizo os dedos pelo perfume da tua pele...
como um cego tacteia na esperança de ver!
Encontro nos lugares mais reconditos,
o fogo da tua alma,
onde ardo sereno...
Sim...
encontro-me...


João Natal

20/12/2003

Matin by Alain Daussin

Publicado por D_Quixote em 01:44 AM | Comentários (0)

Figos

A maneira correcta de comer um figo, em
sociedade
É parti-lo em quatro, segurando-o pelo pé,
E abri-lo, de modo a ficar uma flor de quatro
pétalas, pétalas
pesadas, resplandecentes, rosadas, húmidas e
cobertas de mel

A seguir deitas fora a pele
Que fica mesmo como um cálice quadrisépalo
Após terem tirado a flor com os lábios.

Mas a maneira mais comum
É metê-lo todo na boca pela fenda e comer a
polpa de uma só vez.
Todos os frutos têm os seus segredos.

O figo é um fruto cheio de segredos.
Quando o vês a crescer, sentes logo que é
simbólico:
E parece masculino
Mas quando o conheces melhor, hás-de
concordar com os Romanos
É feminino.

Geralmente os italianos dizem que representa
os órgãos da mulher;
O fruto figo:
A fissura, a yoni
A maravilha viscosidade que conduz até ao
centro.

de D.H.Lawrence

(enviado pela Comadre Batalha que tem um blog fantástico e fresquinho...)

Publicado por D_Quixote em 01:14 AM | Comentários (0)

Mais abaixo, meu bem!

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
¿ Mais abaixo, meu bem,
quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
¿ Mais abaixo, meu bem! - num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
¿ Mais abaixo, meu bem!
- disse ela, louca.
Moralistas, perdoai! Obedeci...


de Olavo Bilac

(enviado pela Maria... mais uma cliente nova que tem um blog fantástico que recomendo)

Publicado por D_Quixote em 01:05 AM | Comentários (0)

dezembro 20, 2003

A tua nudez inquieta-me.

Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho um pensamento despido;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
iluminando, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.


de Fernando Assis Pacheco, UM CAMPO BATIDO PELA BRISA

("Aqui vai um poema, espero que gostes, acho que se enquadra na brisa sensual que percorre agora o blog." enviado pela Maria num comentário... Obrigada Maria...)

Le Reveil by Christian Coigny

Publicado por D_Quixote em 01:21 AM | Comentários (1)

Estendida na areia,

Estendida na areia,
Só,
Confortavelmente só.
O meu corpo descontraía-se
No desejo
De se afogar na Natureza.

A meu lado direito,
O mar,
No seu torno e retorno de maré viva,
Desafiava-me com pedacinhos de mar frio.

Lá do alto,
O sol,
Miraculosamente silencioso,
Estendeu-me as suas feições de ouro quente.
Deu-me um segredo.
E eu fiquei prostrada, na areia,
Miraculosamente a sorrir...
Miraculosamente enfeitiçada!...


de Marta

"only sand..." by André Brito

Publicado por D_Quixote em 01:10 AM | Comentários (1)

Do teu cheiro

O gosto da tua pele
sal impregnado em meus lábios
que me mata de sede
à beira da fonte dos teus prazeres.

O teu gosto na minha boca
mel que sacia meus desejos
na hora derradeira
do medo de te perder
em meio aos lençóis.

O teu cheiro impregnado
no meu corpo
perfume raro que nem a chuva
leva de mim...


de Agostina Akemi

(igualmente deixado aqui no café pela Bee)

Publicado por D_Quixote em 12:54 AM | Comentários (1)

Temporal de amor

Um temporal caía lá fora
E o vento soprava forte
Relâmpagos cortavam o céu
E violentos trovões podiam ser ouvidos ao longe

A Natureza estava em fúria,
Mas nada comparado
Às cobertas desalinhadas
E dois corpos suados...

Amávamos com ardente paixão
Com um desejo de fundirmo-nos
Em um só corpo, uma só alma...

Estávamos criando nosso próprio temporal,
Nossa própria tormenta
Afogando-nos em amor...


de Ademir Antonio Bacca

(enviado em comentário pela Bee, uma das melhores clientes da casa... uma VIP já com cartão dourado... mas como os comentários não são tão vistos como os posts, escolhi o poema que ela deixou que mais me encantou e resolvi afixar aqui...)

Publicado por D_Quixote em 12:52 AM | Comentários (2)

dezembro 19, 2003

A Voz

Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido

os dedos que me
vogam
nos cabelos

e os lábios que me
roçam pela boca
nesta mansa tontura
em nunca tê-los...

Meu amor
que quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos...

Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei
para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens.

de Maria Teresa Horta


( e assim continua o ciclo, com mais três poemas carregados de sensualidade)

Publicado por D_Quixote em 12:30 AM | Comentários (8)

A voz do coração

De longe ouço uma voz
Um arrepio voraz domina todo o meu ser
Que som será este tão atroz,
Que cada vez mais me faz crescer?!

De caminhos distantes e afáveis parece vir
Este casto e voluptuoso frémito,
Assim é meu fado sentir
Este grande e inevitável mérito.

Ó céus, que apaziguais almas devotas
Decifrem-me todo este fenómeno miraculoso
Que na face se derrama como gotas
E faz sofrer todo o espírito orgulhoso.

Ele vem cada vez mais ressonante,
Através de um vento húmido de desejo;
Minha alma torna-se ociosamente apaixonante
Querendo experimentar de novo aquele beijo.

Ouço-a agora com mais intensidade num grande fulgor
Certamente ela é a voz da paixão
Que veio afogar de vez a minha dor
E comover impiedosamente o coração


de Teresa Sousa (enviado pela própria, que faz parte tambem da alma deste blog...)

Female Nude - Torso
by Mick Payton

Publicado por D_Quixote em 12:24 AM | Comentários (3)

Coito

Todos os movimentos
do amor
são noturnos
mesmo quando praticados
à luz do dia

Vem de ti o sinal
no cheiro ou no tato
qua faz acordar o bicho
em seu fosso:
na treva, lento, se desenrola
e desliza
em direção a teu sorriso

Hipnotiza-me
com seu guizo
envolve-te
em seus anéis
corredios
beija-te
a boca em flor
e por baixo
com seu esporão
te rende e te fode

e se fundem
no gozo

depois
desenfia-te de ti

a teu lado
na cama
recupero minha forma usual.


de Ferreira Gullar

Publicado por D_Quixote em 12:16 AM | Comentários (1)

dezembro 18, 2003

Desperta-me de noite

Desperta-me de noite
O teu desejo
Na vaga dos teus dedos
Com que vergas
O sono em que me deito
É rede a tua lingua
Em sua teia
É vicio as palavras
Com que falas

A trégua
A entrega
O disfarce

E lembras os meus ombros
Docemente
Na dobra do lençol que desfazes

Desperta-de de noite
Com o teu corpo
Tiras-me do sono
Onde resvalo

E eu pouco a pouco
Vou repelindo a noite
E tu dentro de mim
Vai descobrindo vales.


de Maria Teresa Horta

(e assim começa um ciclo dedicado à poesia erótica que terá lugar nas proximas noites... está lançada a primeira pedra... apedrejem-me o email com mais à vontade...)


Publicado por D_Quixote em 01:39 AM | Comentários (8)

Tristeza e solidão

O sangue alia os alicerces de meu corpo
que me editam a cada passo,
centrando meu corpo no espaço
deixando-me levemente flutuando.

Pairando sobra a vida, o fluxo me domina
cada batimento me repulsa a seguir em frente
pois minha vida se marca no livro das sombras.

Será a soma de solidão mais tristeza, ou tristeza mais solidão?

Pra entender os sofrimentos somente meu coração.


de DaRieN (enviado pela Bichinho de Conta tambem... bigada... és impagável!)

Publicado por D_Quixote em 01:11 AM | Comentários (1)

A tristeza chegou

A tristeza chegou pisando em ovos,
tão lentamente
que ninguém viu ela chegar
Se confundiu entre a bruma da noite
e a galhada das árvores

Espreitou-me lentamente
e com olhos de águia
perscrutou meu íntimo
e resolveu saquear meu coração.

Quebrou minhas vidraças
pisoteou as ervas curativas
derrubou a ânfora de porcelana

Roubou as pérolas da minha alegria
escondeu-as em seu manto negro...
e desapareceu.


de Weverton Fonseca (enviado pela Bichinho de Conta... bigada pelo poema)

Publicado por D_Quixote em 01:02 AM | Comentários (1)

dezembro 17, 2003

Pouca poesia tenho hoje...

Há dias em que não nos apetece fazer nada... hoje é um desses dias para mim... estou demasiado cansado para pensar, afixei dois poemas que gentilmente me enviaram, dei mais uma olhadela pela "vizinhança dos blogs"... e nada... continua a não me apetecer nada...

Houve excepto algo que me chamou a atenção... algo que gostei demasiado de ler para deixar em claro... porque achei muito triste, porque achei muito bonito... acima de tudo porque é real e sincero... isto deixou-me triste... é pena que não seja sempre bom Natal para toda a gente...

Bem... vou para a cama... amanha será outro dia... talvez...

Publicado por D_Quixote em 12:58 AM | Comentários (5)

De tudo ficaram 3 coisas:

DE TUDO FICARAM TRÊS COISAS:
A certeza de que estamos sempre a começar...
A certeza de que é preciso continuar...
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar....
PORTANTO DEVEMOS:
Fazer da interrupção um caminho novo...
Da queda, um passo de dança... Do medo, uma escada...
Do sonho, uma ponte....
Da procura um encontro.


de Live to Tell (enviado pela mesma... uma desconhecida que já marca bem presença... bigado...)

Publicado por D_Quixote em 12:48 AM | Comentários (1)

Poema VI

Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que é loiro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de Princesas e de Fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
De onde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta o céu a torres dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço!


de Florbela Espanca

(enviado pela Gelatina do FrutoXocolaty... bigada miga!!!)

Publicado por D_Quixote em 12:31 AM | Comentários (0)

dezembro 16, 2003

A concha

A concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.


de Vitorino Nemésio

"scattered to the wind"
by Roger Cotgreave

Publicado por D_Quixote em 12:51 AM | Comentários (4)

Con te partirò

Con te partirò

Quando sono solo e sogno all'orizzonte mancan le parole
Sì, lo so che non c'è luce in una stanza quando manca il sole
Se non ci sei tu con me, con me
Su le finestre, mostra a tutti il mio cuore che hai acceso
Chiudi dentro me la luce che hai incontrato per strada
Con te partirò
Paesi che non ho mai veduto e vissuto con te
Adesso sì li vivrò
Con te partirò
Su navi per mari che io lo so no, no, non esistono più
Con te io li vivrò
Quando sei lontana sogno all'orizzonte mancan le parole
E io, sì, lo so che sei con me, con me
Tu, mia luna, tu sei qui con me
Mio sole, tu sei qui con me, con me, con me, con me
Con te partirò
Paesi che non ho mai veduto e vissuto con te
Adesso sì li vivrò
Con te partirò
Su navi per mari che io lo so no, no, non esistono più
Con te io li rivivrò
Con te partirò
Su navi per mari che io lo so no, no, non esistono più
Con te io li rivivrò
Con te partirò
Io con te


de Andrea Bocelli


em Português...
Contigo partirei

Quando estou só e sonho no horizonte faltam as palavras
Sim, eu sei que não há luz em um quarto quando falta o sol
Se tu não estás comigo, comigo
Ergue as janelas, mostra a todos o meu coração que tu acendeste
Fecha dentro de mim a luz que encontraste pelas ruas
Contigo partirei
Países que nunca vi e vivi contigo
Agora sim os viverei
Contigo Partirei
Em navios por mares que, eu sei, não, não existem mais
Contigo eu os viverei
Quando tu estás distante e sonho no horizonte faltam as palavras
E eu, sim, sei que tu estás comigo, comigo
Tu, minha lua, tu estás aqui comigo
Meu sol, tu estás aqui comigo, comigo, comigo
Contigo partirei
Países que nunca vi e vivi contigo
Agora sim os viverei
Contigo partirei
Em navios por mares que, eu sei, não, não existem mais
Contigo eu os reviverei
Contigo partirei
Em navios por mares que, eu sei, não, não existem mais
Contigo eu os reviverei
Contigo partirei
Eu contigo


Foi ontem, à tarde, a musica tocava no Europarque em Santa Maria da Feira, crianças especiais faziam uma coreografia especial, ao som desta musica do Andrea Boccelli... foi a festa de Natal da Cerci Feira e Cerci Lamas, e pessoas com deficiência deram as mãos a pessoas comuns para juntas fazerem uma festa linda... sincera e verdadeira... ontem... Domingo 14 de Dezembro... fez-se poesia... daquela que não se escreve... daquela que se vive...
a toda aquela gente maravilhosa... e a toda a sua luta... a minha humilde homenagem e um grande abraço...

Publicado por D_Quixote em 12:10 AM | Comentários (0)

dezembro 14, 2003

Pai

Pai
Pode ser que daqui a algum tempo
Haja tempo pra gente ser mais,
Muito mais, que dois grandes amigos,
Pai e filho talvez.

Pai,
Pode ser que daí você sinta
Qualquer coisa entre esses vinte ou trinta,
Longos anos em busca de paz.

Pai,
Pode crer, eu tô bem, eu vou indo,
Tô tentando, vivendo e pedindo
Com loucura pra você renascer.

Pai,
Eu não faço questão de ser tudo,
Só não quero e não vou ficar mudo
Pra falar de amor pra você.

Pai,
Senta aqui, que o jantar tá na mesa,
Fala um pouco, tua voz tá tão presa,
Nos ensine esse jogo da vida
Onde a vida só paga pra ver.

Pai,
Me perdoe essa insegurança,
É que eu não sou mais aquela criança,
Que um dia morrendo de medo
Nos teus braços você fez segredo,
Nos teus passos você foi mais eu, eu, eu!

Pai,
Eu cresci e não houve outro jeito,
Quero só recostar no seu peito
Pra pedir pra você ir lá em casa
E brincar de vovô com meu filho
No tapete da sala de estar.

Pai,
Você foi meu herói, meu bandido,
Hoje é mais, muito mais que um amigo,
Nem você nem ninguém tá sozinho,
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz,
Pai, paz.


de Fabio Junior

uma homenagem a um senhor fantástico de quem tenho saudades, o pai da Teresa... onde quer que estejas "magrito"... esta é pra ti...

Publicado por D_Quixote em 01:15 AM | Comentários (4)

dezembro 13, 2003

estas lágrimas que trago

Estas lágrimas que trago nos meus olhos
Já estão comigo há tanto tempo
Que já fazem parte do meu rosto
Nos traços que deixam ao caírem pesadas
Nas cicatrizes que rasgam no meu outrora sorriso
No sabor a sal que me toca nos lábios
Em vez do sabor doce dos teus beijos
Em vez do teu riso
Reflectido no meu
Tenho a cor do desterro no olhar
Tenho a amargura dos homens perdida na expressão
Cinzas, flores velhas e pó
Estas lágrimas que trago nos meus olhos
Já fazem parte de mim...


de João Natal

10/09/2003

Publicado por D_Quixote em 11:50 AM | Comentários (4)

dezembro 12, 2003

When you are old

Quando grisalha e velha e mais de sono cheia
Cabeceares à lareira, pega nestes versos
E lê-os devagar, e lembra os universos
Do teu olhar de outrora, tão profunda teia;

E quantos tantos amaram teu alegre encanto,
Como tua beleza em falso ou vero amor,
E um só foi quem amou de tua alma o ardor,
E do teu rosto a mágoa do mutavel pranto.

Curvada então ao lado das ardentes brasas,
Murmura um pouco triste que o amor se afastou.
Nos sobranceiros montes vagueante andou,
E o seu rosto escondeu na multidão dos astros.


de William Buttler Yeats (traduzido por Jorge de Sena)

Um poema lindissimo, dos meus preferidos... ver a versão em inglês... este poema dá muito que pensar... não acham?

"old"
by Dragan Trifunovic

Publicado por D_Quixote em 01:09 AM | Comentários (7)

os poetas

os poetas


Com as polidas cintilações
das ondas eles enredam o mar
e aspam de brancura o voo das gaivotas

Sua íntima atitude
é a das estátuas por fora
Como elas amam sem noções que lhe doam

O céu foi o seu fundo das pupilas
orto da Estrela da Manhã
Mas volvidos são das paisagens rumorosas
onde nem o corpo do vento se suprime.


de Sebastião Alba

Publicado por D_Quixote em 12:38 AM | Comentários (0)

dezembro 10, 2003

Eu sou

EU SOU

Eu sou dos bares marítimos
Do brilho dos cálices
Dos corpos como barcos, cortando o mar
Eu sou dos que contam a sua vida inteira, numa noite,
Ao primeiro marinheiro.
Dos que se autoconvidam para o desastre salgado,
E na vertigem do beijo morrem,
Por um porto mais do que sonhado!
Eu sou dos que amam, numa cama liquida e pública o anonimato.
Ergo a vela do amante e apanho a sua bolina,
Tão fácil quanto um sulco de mar eu sou!
Dizer-te o quanto isso me fascina
-ainda não!
Mas é para lá que eu vou.
Quando sentado, me digo a mim,
Meu amigo serve-me mais um gin.


de Miguel Patrício

(obrigado Miguel pelos poemas que vais enviando... já fazes parte da casa, e é com muito orgulho que aqui afixo a tua poesia...)

Publicado por D_Quixote em 08:53 PM | Comentários (5)

Quero

Quero


Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao dizer: Eu te amo,
dementes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amaste antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.


de Carlos Drummond de Andrade (enviado pelo amigo do outro lado do oceano Márcio Gama)

"Sense of Touch" by Tiffany Jill

Publicado por D_Quixote em 12:14 AM | Comentários (13)

dezembro 09, 2003

Retrato de corpo inteiro

Retrato de corpo inteiro


No azul do teu peito
ensolarado
há espelhos de cristal
multiplicando imagens.

Emergem risos
lágrimas
promessas
olhares infantis
perdidamente
infinitamente
apaixonados
adolescentes.

A vida renasce
das tuas mãos
tremulas
entrelaçadas
- há muito tempo entrelaçadas -
Reencontradas.

No espaço secreto
da memória,
nosso retrato
- De corpo inteiro -
É o quadro mais bonito
que se pode iluminar.


de Anna Maria Feitosa (enviado pela Ana Vilela)

"o / w!w / !
"
by Lowell Whipple Girbes

Publicado por D_Quixote em 11:45 PM | Comentários (0)

Palavras

Palavras...
...olhares vazios sobre folhas em branco.
Pensamentos, dores, paixões.
Gritos mudos nas lágrimas da nossa alma, caindo gota a gota,
pesadamente, sobre um mundo de papel.
Pombas esvoaçantes que um ilusionista tira da cartola.
Magia, risos, crianças.
Pés de salsa fresca coberta de orvalho
em manhã chuvosa de Abril...
Palavras...


João Natal
Junho de 1997

"Introspection (II)"
by Paulo Carrasco

Publicado por D_Quixote em 12:34 AM | Comentários (0)

Kyrie

Kyrie


Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!


de Ary dos Santos (enviado pela Mónica Silva)

Publicado por D_Quixote em 12:09 AM | Comentários (1)

dezembro 08, 2003

Mãe?

Existe uma palavra que não vive
Dentro desta minh'alma solitária
É como um sentimento que eu não tive,
Até mesmo na fase embrionária!

Talvez esse vento a tenha levado,
Talvez a neve a tenha congelado...
Quem me dirá o que dela foi feito,
Ainda a guardo dentro do meu peito.

Sinto falta de alguém que eu nunca vi,
Alguém que eu nunca na vida conheci,
Alguém que de mim para sempre fugiu...

E se um dia esse alguém voltar quisesse,
Por mais amor e amizade que me desse,
Uma porta fechada encontraria!

(Á Sra. Dona Margarida Oliveira)

de Teresa Sousa

(enviado por Teresa Sousa... sobre a triste dor de quem não teve um amor materno, pelo egoismo de uma senhora que deitou a perder, o maior tesouro que uma mulher pode ter... o amor de uma filha)

Publicado por D_Quixote em 01:14 AM | Comentários (7)

Não sei Quantas Almas Tenho

Não sei Quantas Almas Tenho


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é

Atento a que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti
Releio e digo: "Fui eu?"
Deus sabe, porque o escreveu.


de Fernando Pessoa

(enviado por Ana Vilela... obrigado Ana pelo poema...Pessoa é mesmo dos meus preferidos)

"finding my way..."
by André Brito

Publicado por D_Quixote em 12:59 AM | Comentários (1)

dezembro 06, 2003

With Grace

Reason...

Is there any reason
why my heart must now understand?
We had the fire...
so many times.
Changes like the season
convinces me that we've come to an end
your love... was undiscrivable.

And as i watch
i see before my eyes
the truth is my reality.
My emotions are high
and i'm at risk of falling again
right now... everything's on the line

Beeing alone is not what i breath for
but i got to face this feeling
with grace
I will step aside
but if you're in need
Holler and i'll be around...

Holler! Holler! Holler!

Please don't try
to make me less that i am
let's not... drag it out anymore
With grace
i'll politely remove myself
With grace
i'm all to will it

Cause beeing alone is not what i breath for
but i got to face this feeling
with grace
I will step aside
but if you're in need
Holler and i'll be around...
With grace
I will step aside
but if you're in need
Holler and i'll be around...

Holler! Holler! Holler!


Dj Krush com N'dea Davenport em "Zen"

Não há mais fluidez de poesia e musica em qualquer outro sitio como nesta canção... a instrumental negra e pesada tão tipica de Dj Krush... como um suspiro citadino dos suburbios de Tokio... e a voz quente e poderosa, tão imbuida de dor, e de resignação de N'dea Davenport, fazem desta musica uma das minhas preferidas... descubram porquê... (ouvir) (ficar com ela)


Publicado por D_Quixote em 12:21 PM | Comentários (0)

dezembro 05, 2003

Grandes Renas

Nunca fui edifício, antes corri para junto da poesia do mundo.
Sempre fui mais arvore do que casa, mais mar do que automóvel,
mais criança que ministro.
Nunca percebi nada de banca, mas tive de ir ao comércio fazer-me à vida,
embora houvesse sempre uma tristeza aliada a tudo isto!
Sei muito bem de onde me vinha essa tristeza,
de uma certa impossibilidade, de um silêncio orquestrado,
De uma angustia que será talvez a angustia do mundo.
A mesma que empurra as renas do pai natal para a casa de alguns meninos.
Nunca percebi muito bem,
mas sempre me foi ensinado que não era para perceber.
Era entrar e sentar-me, instalar-me antes que outro o fizesse!
- Quando a tristeza me encontrou, talvez já o soubesse,
por isso se instalou em mim antes que a alegria viesse.
- Avisaram-me agora da existência de uma avaria na casa das máquinas!
Um problema de engrenagem, dizem!
- Bem! Não deram de comer às renas,
do que é que estavam à espera?
Grandes renas!


de Miguel Patrício

(enviado pelo mesmo, com umas palavras de apoio que dificilmente esquecerei... obrigado Miguel pela generosidade das mesmas, e pela honra que me concedes de afixar os teus poemas... para muita felicidade minha... eles já fazem parte desta "casa"...)

Publicado por D_Quixote em 01:15 AM | Comentários (0)

Acto de amor...

Continuando na senda da verdade e da sinceridade no que toca ao assunto das pessoas com deficiência, hoje aconselho-vos um diferente tipo de poesia...

Vistam um casaco bem grosso e quente, peguem nas chaves do carro e vão ao video-clube alugar o seguinte filme... é um tributo magnifico a quem tem "problemas"... um testemunho de dor, de fé, de luta pelos direitos de uma pessoa que se ama... no fundo, é um filme que me faz muito lembrar a luta já tão rebatida dos meus pais, pelo bem estar do meu irmão, pelo seu progresso, pela sua felicidade...

Hoje... aconselho-vos poesia para o olhar... a sétima arte... talvez depois percebam porque choro todas as vezes que vejo este filme...


Lorenzo's Oil - Acto de Amor ... de George Miller, com Nick Nolte, Susan Sarandon

dezembro 04, 2003

Tens um olhar diferente

Sabes...
Tens um olhar diferente,
um sorriso especial, mágico,
misto de inocência e sofrimento...
indiferente ao tempo que corre e à mágoa que fica
como se o desdem dos outros
fosse apenas mais um dia
dos muitos que já viveste...
não vives de pena...
não precisas de compaixão,
de tratamento diferenciado...
só queres ser igual,
quando na verdade não o és,
és tão mais...

Sabes...
Hoje sei porque Deus te trouxe,
porque te pôs a meu lado,
passadas as provações,
só fica o teu sorriso que me acalenta,
e a falta que me fazes...
és uma alma especial, entregue ao meu cuidado
para te guardar da estupidez humana
e me enriquecer enquanto homem...
enquanto me guardas também do mundo lá de fora.
és meu irmão...
és diferente... especial...
para mim...
... serás sempre melhor...

...em cada pessoa deficiente, está apenas alguem que quer ser amado... não queremos todos?...


de João Natal

Para Tiago, meu irmão, a quem a incompetência médica no parto retirou a saude, há 20 anos atrás mas nunca retirou a grande alma, a capacidade para amar e ser amado... é uma alma bonita... que ama tudo o que vê... que sonha, que vive e que nunca deixa ficar mal um amigo... para mim... se há alguem deficiente neste mundo... acreditem que não é ele.

No ano internacional do deficiente, talvez urja abordar as questões verdadeiramente importantes, talvez o Governo possa impor quotas nos empregos, mas não conseguirá nunca impor quotas nos corações. E é aí mesmo, que o verdadeiro problema reside, nos corações e cabeças de todos nós... na maneira como discriminamos todas as pessoas diferentes, mesmo quando elas até são... bem melhores do que nós...

Pensem nisto...

Publicado por D_Quixote em 01:08 AM | Comentários (7)

dezembro 03, 2003

Chove. É dia de Natal.

Chove. É dia de Natal.

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem a quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.


de Fernando Pessoa

Publicado por D_Quixote em 08:23 PM | Comentários (0)

Tudo é teu

Tudo é teu

Descalço venho dos confins da infância,
E a minha infância ainda não morreu...
Em face e atrás de mim ainda há distância.
Ó Menino Jesus da minha infância,
Tudo o que tenho (e nada tenho!) é Teu!

de Pedro Homem de Mello

Publicado por D_Quixote em 08:18 PM | Comentários (0)

Longe de ti

Longe de ti


Longe de ti, se escuto, porventura,
Teu nome, que uma boca indiferente
Entre outros nomes de mulher murmura,
Sobe-me o pranto aos olhos, de repente...

Tal aquele, que, mísero, a tortura
Sofre de amargo exílio, e tristemente
A linguagem natal, maviosa e pura,
Ouve falada por estranha gente...

Porque teu nome é para mim o nome
De uma pátria distante e idolatrada,
Cuja saudade ardente me consome:

E ouvi-lo é ver a eterna primavera
E a eterna luz da terra abençoada,
Onde, entre flores, teu amor me espera.


de Olavo Bilac

"Strange man in empty café" by Elena Zabelin

Publicado por D_Quixote em 01:43 AM | Comentários (2)

Last Blues, To Be Read Some Day

Last Blues, To Be Read Some Day


Foi só um flirt
e sabias, claro -
alguém foi ferido
há muito tempo.

Mas nada mudou
o tempo passou -
um dia chegaste
um dia morrerás.

Alguém morreu
há muito tempo –
alguém que queria
mas não sabia.


11.4.1950 por Cesare Pavese

Tradução de Carlos Leite

Este foi o seu último poema antes de suicidar-se em Turim.

Publicado por D_Quixote em 01:02 AM | Comentários (0)

dezembro 02, 2003

Este Natal

O Natal é uma variz aparecida em Dezembro
Vaso saliente que incha de amor
Uma dor agarrada de igual aos outros dias
Pelos quais o sangue não passa
Como água ausente na flor
O Natal tem o significado de um décimo terceiro mês
A permitir comida diferente na mesa
A minha mãe a tingir as toalhas de vermelho
E o meu pai a beber
Este Natal vou fazer de conta que enlouqueceram todos
Vou tapar os olhos com uma filhós
E procurar adormecer
Sem açucar


de Miguel Patricio (enviado pelo próprio)

Publicado por D_Quixote em 12:43 AM | Comentários (5)

Chuva d'Alma

Lá fora a chuva cai,
Cá dentro a minha alma chora
Do mais ínfimo da terra se ouve um ai,
Onde a mais profunda dor mora.

As nuvens desprezam o céu,
As estrelas perdem o brilho,
O mar cobre-se com um negro véu,
A lua entra em delírio.

As montanhas gritam ao vento,
A morte tudo acalma,
Que mais se há-de pedir ao tempo
A não ser uma intensa chuva d'Alma?!

de Teresa Sousa (enviado pela própria)


"an umbrella" by Bartosz Krzyzanowski

Publicado por D_Quixote em 12:33 AM | Comentários (1)

dezembro 01, 2003

Soneto da Separação

Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


de Vinícius De Moraes

"..." by Kata Kovacs

Publicado por D_Quixote em 11:08 AM | Comentários (4)

Melancolia

Triste agonia em meu ser
melancolia absurda por não te ter
Abate meu coração que por tanto te amar
Clama desesperadamente por esta espera cessar

Que doce ilusão de ser tua
ser amada... é uma loucura!
Fecho os olhos em busca deste doce delírio
Que tanto me domina
E tanto me atormenta
Por não tê-lo aqui comigo

Noites em claro contigo em minha mente
Penso nos momentos que hão de vir e
Lágrimas a escorrer suavemente...
Triste realidade de não estares comigo

Assim então continuo
Com meus doces delírios,
Saudade infinita e
Eterno amor que por ti sinto
E hei de sentir através dos anos
Até que a vida cesse... até o reencontro


de Cristina Suzuki - 21/12/98
(enviado pela própria... obrigado Cristina pelo poema :-D)

Publicado por D_Quixote em 10:48 AM | Comentários (0)

Pra onde vai?

Mais uma vida jogada fora
Um coração que já não bate mais, descanse em paz
Sonhos que vão embora, antes da hora
Sonhos que ficam pra trás
Pra onde vai você? Pra onde vai? Pra onde vai o sol quando a noite cai?

E agora? A dor é do tamanho de um prédio
A casa sem ele vai ser um tédio
Não tem remédio, não tem explicação, não tem volta
Os amigos não aceitam, o irmão se revolta
A família não acredita no que aconteceu
Ninguém consegue entender porque o garoto morreu
Tiraram da gente um jovem tão inocente
E a sua avó que era crente hoje tem raiva de Deus
O seu pai ficou mais velho, mais sério e mais triste
E a mãe simplesmente não resiste
Além do filho, perdeu o seu amor pela vida
E a nora agora tem tendências suicidas
E a namoradinha com quem sonhava se casar
Todo mundo toda hora tem vontade de chorar
Quando se lembra dos planos que o garoto fazia
Ele dizia: "Eu quero ser alguém um dia"
Sonhava com o futuro desde menino
Ninguém podia imaginar o seu destino
Mais uma vítima de um mundo violento
Se Deus é justo, então quem fez o julgamento?

Pra onde vai você? Pra onde vai? Pra onde vai o sol quando a noite cai?

Por quê um jovem que vivia sorridente perde a sua vida assim tão de repente?
Logo um cara que adorava viver
Realmente é impossível entender
Nenhuma resposta vai ser capaz de trazer de novo a paz à família do rapaz
Nunca mais suas vidas serão como antes
E eles olham o seu retrato na estante
Aquele brilho no olhar e o jeitão de criança
Agora não passam de uma lembrança
E a esperança de que ele esteja bem, seja onde for, não diminui o vazio que ele deixou
É insuportável quando chega o seu aniversário
E as suas roupas no armário parecem esperar que ele volte de surpresa
Pra ocupar o seu lugar vazio à mesa
A tristeza às vezes é tão forte que é mais fácil fingir que não houve morte
Porque sempre que ele chega pra matar as saudades
Ele vem com aquela cara de felicidade
Alegrando os sonhos e querendo dizer que a sua alma nunca vai envelhecer
E que sofrer não é a solução
É melhor manter uma chama acesa no coração
E a certeza na mente de que um dia se encontrarão novamente.

Pra onde vai você? Pra onde vai? Pra onde vai o sol quando a noite cai?


de Gabriel o Pensador

o meu ultimo tributo ao Rafael... pois este poema reflecte bem a perda de alguem tão novo... tão cedo...

ouçam bem esta musica e percebam porquê a afixei...

Pismo Sunset #5
by Rob Bishop

Publicado por D_Quixote em 01:49 AM | Comentários (0)