janeiro 31, 2004

A vida antes...

Como bonecos de madeira,
fantoches
manobrados por milhões de fios invisíveis,
um fio para cada gesto:
um sorriso,
um aceno,
um simples pestanejar...
...controlado por alguém
por algo...
neste grande pequeno palco
sem plateia...

excerto de "o Pacto" de João Natal em exibição no Abismo Negro de Sonhos Esquecidos, um sitio onde me sinto em casa.



Publicado por D_Quixote em 12:18 PM | Comentários (6)

Gota de Água

Eu, quando choro.
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.


de Antônio Gedeão

(uma pequena homenagem à gotinha...)

Just playing in kitchen... by Mikko Alanenpää

Publicado por D_Quixote em 11:59 AM | Comentários (1)

janeiro 30, 2004

Lá fora...

A chuva bate na vidraça
lá fora...
os carros passam
numa lenta marcha,
borrões de luz
melancólica,
hipnotica...

Vento sopra
lá fora...
folhas esvoaçam,
papeis elevam-se no ar
como estrelas caídas
voltando ao chão
molhado,
frio...

Vultos encontram-se
lá fora...
abraçam-se,
escondem-se no escuro,
envolvem-se num beijo
furtivo e perigoso,
quente,
proíbido...

lá fora...
vive-se,
morre-se,
ama-se,
lá fora,
algures lá fora estás tu...


de João Natal
20/08/2002

faster by Namrata Chattaraj

Publicado por D_Quixote em 01:23 AM | Comentários (8)

Solidez

Conforta-me
que o meu sorriso minta
e que ninguém pressinta
a minha solidão,
e muito mais ainda,
quando esse alguém
não me acredita
porque nele palpita
idêntica razão.
Somos assim dois amigos
solidários,
menos solitários
e mais enriquecidos,
oferecendo um ao outro
a mesma dor
num mesmo amor
desentendidos!


de "Anónimo"

Enviado pela Roxy

Publicado por D_Quixote em 12:41 AM | Comentários (1)

janeiro 29, 2004

Momentos

E olhar chamejante do sol, estava lá
as mesmas ruas, as mesmas gentes
o mesmo rodopio de indiferença
a mesma luta incessante
do caminho para o nada,
o barulho imparável feito por nós e pelos outros
o arrepiar do egoísmo,
a conquista, a traição
a luta infindável de ser maior,
a fabricação diabólica de mais um perdedor,
tudo, ou quase tudo, pois falta amor!
Senti-me rejeitada e tão diferente,
deixei de pertencer,
de ser,
identificada com alguém,
resta-me o direito,
a ter saudade das paixões
e poemas arrumados na gaveta,
e apenas posso reter em mim,
alguns momentos
que são meus, pois não os dei
e que me obrigam a pensar
que todos eles foram feitos,
não no lugar
mas por alguém que junto a mim esteve lá,
assim como o olhar chamejante do sol
que já não está!


"Roxy" - Mundo - Hoje

Inconfundivel... dispensa comentários...

Publicado por D_Quixote em 01:30 AM | Comentários (9)

janeiro 28, 2004

Crónicas do Nada - Persistências

Hoje decidi ir de novo esperar-te. Estacionei o meu carro perto do teu e saí, olhei em volta perscrutando em redor, vigilante, atento. Segui ligeiro até à montra da loja onde trabalhas, o teu pequeno aquário. O frio é o habitual nestes dias ingratos de Janeiro, belisca-me a pele, incomoda, abotoo o casaco para me agasalhar melhor.

Tu trabalhas serena, não tens muito que fazer hoje, estás sorridente com os olhos colados no monitor… deves estar a ver algum e-mail engraçado, ou a ler algo de agradável. Fico quieto no frio do exterior, no escuro da rua, vou repartindo a atenção pelo material em exposição na montra e a empregada risonha atrás dela. Não consigo evitar o meu próprio sorriso… tu olhas… o teu sorriso aumenta… o meu também!
“ – Olá”… aceno trémulo.

Dou meia volta e regresso ao carro, aproveito para fumar um cigarro, não quero que ela veja que agora fumo, que adquiri mais um pequeno tique, fruto da crescente esquizofrenia derivada da sua ausência, seja pela minha fraqueza de espírito, seja pela apenas fútil tentativa de lhe chamar a atenção… de lhe mostrar que não estou bem. Seja como for… prefiro que ela não me veja…

Espero meia hora pela hora de saída, dirijo-me à mesma esquina de sempre, aquela ampla, iluminada pela agência do Barclays, enfeitada de semáforos, a nossa esquina… sabes?...
Ali aguardo, espero pacientemente a tua vinda, até que se torna perceptível no escuro do cimo da rua as linhas inconfundíveis do teu vulto. “ -És tu…” Penso…

“ – Olá!” Dizes…
E o teu sorriso suplanta a iluminação da rua. Acompanho-te até ao carro, incrível o que eu não faço por dois minutos junto a ti. Pelo caminho apenas consigo dizer-te isto:
“ – Por vezes sinto-me confuso, não sei se continuo aqui por uma questão de persistência, ou se serei apenas lento de raciocínio, pois já me devia ter apercebido que não estamos a ir a lado nenhum…” Estas ultimas palavras sufocaram e acabaram por sair de forma muda e imperceptível… julgo que ela não as ouviu…
Riu-se apenas e retorquiu… “ – Só podes estar maluquinho para estares aqui ao frio assim…” Calei-me outra vez cobarde…
Ajoelhei-me aos pés dela e disse “ – Fica comigo!”
Ela sorriu e foi embora…

de João Natal
27/01/04

silence by Cenk Soysal

Publicado por D_Quixote em 12:23 AM | Comentários (13)

janeiro 27, 2004

Spies

Take me to the desert
I’m lost!
filled with emptiness
I’m a suffering expert.

Guide the through the stars
Search the love
Take me to Venus or Mars
and remain with me for light years

We shall find each other
in a lost universe
we will be spies
in the Sea of Love

The currents will take us
to our deepest and most exotic dreams
We’ll emerge from the bottom
knowing all the treasures

knowing everything.

de Filipa Paramés
25.12.00

(obrigado Filipa por partilhares mais um dos teus poemas aqui)

Publicado por D_Quixote em 11:18 PM | Comentários (0)

estrada negra

Nesta noite escura
Galgo sozinho a negra estrada de alcatrão
Onde o meu carro afunda no borrão de luz ténue
Na vertigem da velocidade desenfreada
Na loucura
Venho de ti sem saber p’ra onde vou
Perdido algures na noite
Num caminho deserto e incerto
Com os dedos trémulos nos lábios
E o teu perfume na boca.
Com tanto por dizer
E tanto já dito
Tanto já feito...
E a estrada continua negra por entre as flores de betão
Os prédios apagados no breu da hora tardia
Como arvores mortas algures de pé
Roubei-te um beijo
E tu roubaste-me a alma...
Terá sido assim tão bom negócio?
Terá mesmo valido a pena?
Trocar toda a minha vida por um breve segundo
Condenar-me a isto
A esta semi existência sem ti
A estrada continua negra
E eu nunca mais voltei a casa nessa noite...
Nunca mais...


de João Natal

02/10/03

Publicado por D_Quixote em 01:30 AM | Comentários (4)

Ava Adore

it's you that I adore
you will always be my whore
you'll be a mother to my child
and a child to my heart

we must never be apart
we must never be apart

lovely girl you're the beauty in my world
without you there aren't reasons left to find

and I'll pull your crooked teeth
you'll be perfect just like me
you'll be a lover in my bed
and a gun to my head

we must never be apart
we must never be apart

lovely girl you're the murder in my world
dressing coffins for the souls I've left to die

drinking mercury to the mystery
of all that you should ever leave behind
in time

in you I see dirty
in you I count stars
in you I feel so pretty
in you I taste god
in you I feel so hungry
in you I crash cars
we must never be apart

drinking mercury to the mystery
of all that you should ever seek to find

lovely girl you're the murder in my world
dressing coffins for the souls I've left behind
in time

we must never be apart

and you'll always be my whore
cause you're the one that I adore
and I'll pull your crooked teeth
you'll be perfect just like me

in you I feel so dirty in you I crash cars
in you I feel so pretty in you I taste god
we must never be apart


dos Smashing Pumpkins

Simplesmente lindo... não?

Publicado por D_Quixote em 01:00 AM | Comentários (2)

janeiro 26, 2004

Tapas os caminhos que vão dar a casa

Tapas os caminhos que vão dar a casa
Cobres os vidros das janelas
Recolhes os cães para a cozinha
Soltas os lobos que saltam as cancelas

Pões guardas atentos espiando no jardim
Madrastas nas histórias inventadas
Anjos do mal voando sem ter fim
Destróis todas as pistas que nos salvam

Depois secas a água e deitas fora o pão
Tiras a esperança
Rejeitas a matriz

E quando já só restam os sinais
Convocas devagar os vendavais


de Maria Teresa Horta

Thunderbolt by Boguslaw Szedny

Publicado por D_Quixote em 01:46 AM | Comentários (3)

O fio da navalha

Tu és completa e perfeita
Ela não é sequer bem feita
Tu pões-me à noite a sonhar
Ela tem a núpcia no olhar
Tu és do tipo cerebral
Ela é apenas emocional

Entre ficar e partir
Nem sempre é facil decidir
O fio da navalha
O fio da navalha

Tu és submissa nas tuas atitudes
Ela diz sempre palavras rudes

Entre ficar e partir
Nem sempre é facil decidir
O fio da navalha
O fio da navalha


dos Taxi

(para quem lembra, e para quem não conhece, este é o meu tema preferido de uma banda fantástica dos anos 80, os Taxi, resolvi afixar porque apesar de curto, é um poema forte...)


Publicado por D_Quixote em 01:18 AM | Comentários (5)

Chocado

Fogo... estou chocado... ver um jovem de 24 anos cair redondo no chão num jogo de futebol... logo um profissional daquilo, acompanhado regularmente por médicos, com exames, com uma vida saudavel e cheia de exercício fisico... assusta... assusta muito...

A vida é mesmo uma coisa frágil e precária... não somos nada, não valemos nada... resta-nos amar como se fosse hoje o ultimo dia pois pode muito bem ser...

Paz à alma do jovem Miklos Féher...

1979-2004

Publicado por D_Quixote em 12:45 AM | Comentários (3)

janeiro 23, 2004

Crónicas do Nada - desencontros

Paro o carro junto à cabine telefónica perto de tua casa, chuvisca intensamente lá fora. Saio e tranco as portas, subindo as golas do sobretudo para minimizar o frio. Afundo as mãos trémulas nos bolsos e escavaco à procura de moedas para te ligar.

Era suposto apanhar-te ao entrares para casa, mas o maldito transito reteve-me longe e cheguei atrasado a ti como a chego a tudo na vida. Agora só me resta ligar-te...

Espero junto à cabine, duas raparigas muito novas fazem chamadas curtas e risonhas a amigos coloridos, sorriem e coram à medida que se embrulham na conversa, completamente alheias à chuva que cai e a mim que espero pela minha vez...

Finalmente desligam, aqueles minutos pareciam uma eternidade, mas a necessidade de ouvir a tua voz era demasiado grande para eu ter desistido de te ligar. Digito o teu numero, espero... ouço o sinal de chamada misturado com o som do vento que investe contra mim. Ninguém atende... (não percebo... já devias estar em casa... penso)... pouso o auscultador, primo o reedial, aguardo de novo... o telefone vai tocando continuamente sem que ninguém atenda.

Atiro de vez com o auscultador para o lugar dele, recolho as moedas e afasto-me desiludido do telefone mergulhando as mãos profundamente nos bolsos.
Deambulo à deriva até chegar debaixo da tua janela, olho para cima e vejo luz, a persiana entreaberta permite-me vislumbrar o teu vulto que se torna perceptível no contraste. Ali fico largos minutos quieto...alheio aos carros que passam, às pessoas que olham, que comentam, continuo estático de cabeça erguida, olhos fixos num vulto de uma janela, num sexto andar, numa rua molhada do Porto em pleno Novembro.

Já nem reparo na chuva que aumentara de intensidade, agora molha-me o cabelo, encharca-me a roupa, bate-me na face fria e desliza no meu rosto, misturando-se numa fusão perfeita com as lágrimas que verto.
Continuamos desencontrados amor...

João Natal

23/01/04

InHiding by Monika Szymanska

Publicado por D_Quixote em 08:24 PM | Comentários (7)

janeiro 22, 2004

Mata-te, enquanto ainda medes um metro e oitenta e quatro

Mata-te, enquanto ainda medes um metro e oitenta e quatro.
Olhos castanhos, caracóis de cabelo e o lábio superior quase inexistente
mãos magras de nunca as ter dado a ninguém.
Mata-te enquanto o aeroporto ainda se situa na Portela
se for lá serás noticia
Como diz o Sampaio ninguém morre sozinho.
Sobe nu ao edifício maior da capital
arranjarão um médico de saúde mental.
Tudo o que ele te disser
aumentará o teu desejo suicida
amplifica a conversa, instala microfones
cria temporariamente um feedback com a vida.
Pede uma garrafa de vinho Rodrigo
um fotógrafo e um padre que já tenha feito amor
um colar de ameijoas, um pão de trigo
e o mesmo avião inibido de motor.


de Miguel Patrício

(que dizer disto?... simplesmente perfeito...)

Publicado por D_Quixote em 11:49 PM | Comentários (5)

Inexorável

Encurtam-se os dias,
as manhãs e as tardes,
as próprias amizades
e os amores.
As flores
murcham,
tarde ou cedo,
e secam as raízes
quase a medo.
Tudo é lento, mas acontece,
à medida
que a vida
devagar, se esquece!


de autor desconhecido

(enviado pela Roxy)

Publicado por D_Quixote em 08:46 PM | Comentários (3)

Wishes

I’m a twinkle star
among a starry sky, somehow
I try to be seen,
to be found, somewhere, far away

The moon is mournful
surrounded by the world
this giant ball cries alone
claiming the sun’s company…

Finally I’m discovered
before I die; I share a secret
having a wish as a mission
and the moon’s smile as a memory

As I become a falling star
I wonder whether death
is a sign of immortality
or a life recognition.


de Filipa Paramés
16.10.00

(enviado por ela mesma que já se tornou uma certeza confirmada cá no café)

Starry Night by Vincent van Gogh

Publicado por D_Quixote em 12:30 AM | Comentários (5)

janeiro 21, 2004

Fantasia

Fecho os olhos ao fim da tarde
encanta-me a cor do crepúsculo
quedo o mais pequeno músculo
e deixo passar a vida...sou cobarde!

E é este arrepio que me faz bem
o apagar-se o dia, vem a noite calma
fico sozinha dentro da minh'alma
parece que morri, que já não sou ninguém!

É-me preciosa esta fantasia
misto de raiva e melancolia
qu'importa o mundo que ficou lá fora!

Então eu sou só minha, á minha maneira
prefiro esta ilusão, mesmo passageira
pois é fácil apagá-la e ir-me embora!


"Roxy"
88.09.21

(enviado pela malandrice em pessoa... :-D)

She ... by Max. Adiyuniarko

Publicado por D_Quixote em 12:40 AM | Comentários (9)

Estou livre

Estou livre amor, estou livre!
Ainda barbeio a luz, mas estou livre.
Ouço a voz do avô, sinto-lhe os passos no parque,
já não os evito porque estou livre.
Corto as unhas ao vento, porque alguém tem de o fazer,
é nossa função limar a sua brisa, para que não nos corte a caminhada.
Estou livre porque resisti firmemente ao diagnóstico,
ainda defendo as arvores como nossas irmãs!
No fundo é isto, sempre que salvo um gato de uma casa em chamas,
é um recém nascido que salvo.
-Bem sei que estranham a minha cara porque sorrio muito,
mas há em cada sorriso, uma braçada para a margem,
e é isso que eles ainda não sabem!
Desconhecem o sentido da praia, mas conhecem-me os passos,
pois ando muito pela cidade, estou livre!
E estou livre, porque escutei todos os silêncios residentes em mim,
e para cada um deles escolhi uma musica de fundo.
Estou livre porque em cada pedaço de madeira que levo ao forno,
está uma parte do aluguer do meu quarto.
-Bem sei que resisti ao diagnóstico, porque levei até ao fim a defesa das arvores como minhas irmãs.
Mas hoje, elas já não se importam,
gostam que seja eu, a levá-las ao forno.
Sorriem-me de dentro do fogo e cantam uma das musicas de fundo,
de um dos meus muitos silêncios.
È o preço de se ser livre.
Bem sei que resisti ao diagnóstico!


de Miguel Patrício

(fantástico como sempre... obrigado)

Publicado por D_Quixote em 12:30 AM | Comentários (2)

Agridoce

Hoje foi o enterro do meu tio, o ultimo adeus... saí do funeral e fui a correr para o hospital... o meu afilhado, o Luis, está a nascer... a vida é realmente cheia de surpresas e ordenada por uma lógica estranha e maravilhosa que nos transcende...

Estou agridoce...

Publicado por D_Quixote em 12:23 AM | Comentários (3)

janeiro 20, 2004

adeus tio...

Hoje foi um dia triste, um dia ainda de acordar do grande abanão que sofri no domingo. Fui ver o meu tio, gravar na memória uma última imagem dele, como uma foto que se tira, algo que se grava no coração.
Saí de lá sem esboçar reacção... acabei por sofrer longe dali, quando me vieram ao pensamento todos os momentos bons que tive com ele e me apercebi das saudades que ia sentir.
Lembrei-me das tardes a jogar cartas em que ele inúmeras vezes fazia batota, do quanto defendia o Sporting e atacava o meu FCP dizendo que o Pinto da Costa comprava os arbitros... lembro-me do orgulho que sentia quando os "dragões Sandinenses" iam longe na taça... lembro-me das brincadeiras, das "macaquices" que fazia, mordendo a lingua de lado e nunca estando quieto... era um homem muito bom, e não conheço ninguem que não gostasse dele. Talvez por isso Deus o tenha chamado, talvez precise de homens assim para tarefas maiores... é a unica maneira que tenho de ainda conseguir encarar bem isto tudo, esta ideia estúpida de ir perdendo aqueles de quem mais gosto.

Fui até à beira mar depois... fiquei sentado largos minutos a olhar o mar revolto e a escutar o quebrar das ondas nas rochas... enchi o peito de ar e olhando o mar simplesmente disse... " - adeus tio..."


Coloco assim uma música muito especial, que fala de quem já partiu...

ahhh... e que o teu Sporting ganhe ao meu Porto se te fizer feliz...

um abraço para ti...

Publicado por D_Quixote em 01:23 AM | Comentários (11)

janeiro 19, 2004

"E a Morte Perderá o seu Domínio"

Hoje venho afixar um poema que já afixei, não por perguiça, ou por erro... mas porque sim... porque a vida assim o quer! Quando o afixei a vida era diferente do que é agora e, talvez agora mais, ele se justifique e vocês o apreciem mais... eu sei que eu o faço...

A parte mais cruel de envelhecer, não são as rugas que nos cobrem a face, nem o cabelo branco que nos aparece, não são as dores dos ossos, a barriguinha que cresce, não é nada disso... O cruel de envelhecer, a ironia, a mágoa, o sofrimento, é irmos vendo partir aqueles que mais amamos, é vermos as pessoas importantes da nossa vida morrer...

Hoje acordei com um telefonema, o meu tio Albino, irmão da minha mãe, tinha acabado de falecer. Era um homem bom, de alma generosa, honesto e trabalhador... teve contudo uma vida triste, marcada por um casamento triste com uma mulher que não o sabia amar ou fazer feliz mas a quem ele foi fiel até o fim dos seus dias, e marcada por uns filhos pródigos, ingratos, que sempre se serviram dele, e da ingenuidade e pureza daquele homem que os defendia com todo o amor do mundo, contido num coração de pai...
Era meu tio, mas mais do que isso, era um bom amigo... um dos melhores (para mim e para o meu irmão com quem passava infindaveis tardes a jogar cartas).

Dias como hoje são dias tristes, dias de perda... mas tambem dias de reflexão sobre o que somos e para onde vamos... deixo-vos com um poema que leio sempre que perco alguem, e com toda a minha dor deste momento...

amigos... o café fica por vossa conta... até breve...

E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corda em direcção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.


de Dylan Thomas

Onde estiveres tio, eu sei que estás bem, porque o mereces... um grande abraço meu...

Publicado por D_Quixote em 01:15 AM | Comentários (15)

janeiro 18, 2004

Conformados

Este oceano vasto que vos afasta,
tem tanta água quanto o vosso lamento
quando descobrem tarde o sentimento
de todo o amor que muito não basta.

Vossa família permanece casta
e tão pouco mudará no momento.
Não há decisão, nem afastamento,
divórcio ou consequência nefasta.

Será melhor continuar afastados.
Assim evitam-se tantas mudanças...
...afastados é melhor certamente!

Pois fora da aventura são casados,
ambos têm uma família com crianças,
mas ambos se amam... eternamente.


de João Natal

16-01-2004

Publicado por D_Quixote em 02:07 AM | Comentários (8)

2 (CORPOS UNIDOS NO CHAO)

2 corpos unidos no chao.
Assim imagino o paraiso.
Labios colados à pele,
Doce harmonia de um riso,
Desejo tatuado na mao.

2 segundos de amor.
Assim sonho um olhar condenado
Antes mesmo de partir.
Medo perfeito, inacabado,
Caricia de rosto protector.

2 caminhos à luz da lua.
Assim vejo a estrada estelar
Que revela o sopro escuro
De um mergulho em qualquer mar;
Instante de entrega nua.

2 seres que se procuram
Num universo de deuses.
Neles a terra renovara seus segredos.


de Anna Tomás

(enviado pela própria... obrigado Anna)

Publicado por D_Quixote em 02:02 AM | Comentários (1)

janeiro 16, 2004

Crónicas do Nada - mundos de vidro

Sabes? ...passei por perto no outro dia, algo me puxou para o mesmo sitio onde repetidamente tantas vezes já fui. Segui o coração como um prego atraído na força quase mágica do magnetismo de um íman... pestanejo... esfrego os olhos... dou comigo na frente da montra do sítio onde trabalhas. O casaco negro que me abriga confunde-me com as sombras da noite, o que me permite observar-te recatado, furtivo, incógnito, quase invisível... (nada de novo portanto na nossa atípica relação...)

Lá dentro trabalhas, flutuas entre luzes e brilho de tarefa em tarefa, martelas no computador como um pianista concentrado, e o irritante barulho plástico delas torna-se música etérea para mim...
Nem reparas em mim, fico ali parado largos minutos, colado ao vidro, quieto, bebendo todos os teus movimentos como néctar divino, do licor que me embriaga, no êxtase da alegria até à agonia da ressaca.
Sinto-me uma criança pequena, colada à montra de uma loja de brinquedos em vésperas de Natal, de cabeça cheia de sonhos e olhos no que não posso ter.

Sempre assim foi... não? Tu como uma pequena boneca brilhante numa redoma de vidro e luz, como um pisa papeis cheio de brilhantes a esvoaçar... tu nesse pequeno mundo tão longe do meu... eu com as minhas mãos fortes e grotescas de volta dessa esfera, protegendo-te de tudo, tocando sempre e apenas no vidro frio que te cobre a afasta de mim. Querendo sempre fazer parte desse teu mundo bonito, nunca percebendo, estúpido como sou, que é lá que pertences e eu cá fora, longe de ti. Os nossos mundos são diferentes, e embora as barreiras que nos separem sejam invisíveis, vidros frios e desumanos... o teu mundo não é o meu, nunca será...

"- Merda... está frio cá fora... tanto que já deliro... só posso estar a delirar estando aqui..."

Afasto-me da montra, entro pela porta e dirijo-me a ti, movo-me como um criminoso audaz perpetrando o assalto da sua vida... levantas os olhos serenamente, arquejas as sobrancelhas de espanto e... sorris... sim... o teu sorriso novamente...
" - Olá..." (respondo)
" - Já tenho o que vinha buscar... obrigado..." (e parto)


por João Natal

Publicado por D_Quixote em 01:22 AM | Comentários (11)

janeiro 15, 2004

Hoje acordei-te

Hoje acordei-te com um sorriso.
Tirei-te do sonho que estavas a ter,
com o sonho que te quero dar.
Pequei no telefone e liguei sem aviso,
com tantas coisas para te dizer
...ou simplesmente ouvir-te acordar.

E foi tão bom meu sonho,
ouvir a tua voz doce e quente,
o teu primeiro sorriso do dia.
E fiquei ali perdido e risonho,
não cabendo em mim de contente.
Com o meu olhar cheio de alegria.

E o resto do meu dia;
foi apenas tempo sem ti,
perdido nesta fantasia.
Que o meu olhar brilha quando o teu sorri...
... meu sonho...


de João Natal

Nude by Daussin

Publicado por D_Quixote em 01:35 AM | Comentários (9)

ARMADURA

A resignação
interior
foi a última oferta
que me fiz na vida,
e a melhor,
saio sempre vitorioso
sobretudo das minhas
derrotas,
como um herói de paz
que perdeu tudo
para ganhar
na memória
das sombras
a cor rosácea
das azáleas bestadas
pelo sol.
Fertilizei de tal forma
a indiferença
pelo meu sofrimento moral
pela injustiça
e pela comiseração
dos tempos,
que a consciência
de que serei honesto,
no essencial
me basta!


de autor desconhecido


(enviado pela já cliente habitual Roxy)

Publicado por D_Quixote em 01:32 AM | Comentários (1)

janeiro 14, 2004

Insapiens

Que homem é este que não se compadece
Com o mendigo a quem atira a esmola
E é magra a migalha da gorda sacola
Que ao corpo nutre e o espírito emagrece

É menos homem do que parece,
Tal o fogo do consumo que o imola
Que todo o ouro do mundo o não consola
E ao seu toque, o que é belo apodrece

E vai ao culto desfiar hossanas
Com a cabeça turva de imagens profanas
De querubins e anjos em orgias

Não é obra-prima mor da criação
Este monstro vazio de paixão
Não foi Deus que criou tais porcarias


de João da Silva

Reallyn it is my life by Qasem Shukran

(este é o último dos sonetos enviados pelo João da Silva, todos foram fantásticos, mas este é o meu preferido... João, obrigado pelo teu enriquecedor contributo, espero poder ter a honra de continuar a afixar poesia tua por estes lados...)

Publicado por D_Quixote em 12:50 AM | Comentários (6)

New World

I vanish myself in the thin air
Wandering around, looking for love
hoping to keep a smile
as I cross despair.

Now, night arrives; I cry in vain
moonlit eyes are all around me
Lost souls share my pain

Among these children of night
I retire myself into a dream
where a little game is played,
and only to give is right

Tenderness beats scars;
beloved smiles surpass the Horizon
A new world is created
as we’re riding on stars


de Filipa Paramés
16.09.00

(enviado pela própria... obrigado Filipa e benvinda...)

Publicado por D_Quixote em 12:00 AM | Comentários (7)

janeiro 13, 2004

UM PEQUENO CONTO OLÍMPICO

Quando tinhas a chama a tua vida era olímpica,
a plateia celular do teu sangue puxava por ti
o teu olhar deslocava o dardo, a alma atingia o seu recorde.
Quando soava o tiro de partida já havias cortado a meta, sabias-te lá!
Eras um atleta no expoente máximo da sua forma.
O pódio sujeito às vozes apoiantes antecipara o teu nome,
o mais alto de todos eras tu
o campeão e o seu sorriso de mármore!
Quando o estádio se despiu de gente e perguntaste as horas ao outro classificado,
este ofereceu-te a sua medalha de bronze e afastou-se pela relva...
Ainda hoje, há na tua lembrança, três miúdos à beira de um pequeno rio construindo uma ponte, perguntas-te qual deles eras tu?
- A ponte ainda lá está.


de Miguel Patrício

(com a qualidade a que nos habituou)

Publicado por D_Quixote em 11:33 PM | Comentários (0)

janeiro 12, 2004

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí.


de José Régio


Whisper by Lesley Silvia

Publicado por D_Quixote em 09:54 PM | Comentários (9)

Metade

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo o que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste.
Que a pessoa que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece
nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de
sentimento.
Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma
e na paz que eu mereço,
Que essa tensão que me corroe por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste,
que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso
que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba, e que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a plateia e a outra metade, a canção.

E que a minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e a outra metade...também!

de Oswaldo Montenegro

(enviado pela Roxy que não pára de surprender... obrigado...)

Publicado por D_Quixote em 08:20 PM | Comentários (3)

Um Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual


de Alexandre O'Neil

(claramente, um dos meus autores preferidos)

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Publicado por D_Quixote em 12:12 AM | Comentários (3)

janeiro 10, 2004

Justitia mater

A dama cega finou-se no despacho
Exarado em folhas numerosas
E não servindo às almas sequiosas
Tornou-se, da finança, um capacho

Pudera haver vida além do tacho
E o mundo todo serem rosas
Como as que em refinadas prosas
Extinguem à verdade o ardente tacho

Mesmo a verdade ( a existir ) é bem mais dura
Que a justiça vai formosa e não segura
Irá cega, mas de luzes da ribalta

A cegueira já só é astigmatismo
A balança não passou em eufemismo
E a espada de tão romba não faz falta


de João da Silva

(mais um soneto fabuloso enviado por este cliente novo...)

Publicado por D_Quixote em 06:07 PM | Comentários (4)

Catedral

O deserto
Que atravessei
Ninguém me viu passar.
Estranha e só,
Nem pude ver
Que o tempo é maior,
Tentei dizer
Mas vi você
Tão longe de chegar
Mais perto de algum lugar.

É deserto
Onde eu te encontrei,
Você me viu passar
Correndo só.
Nem pude ver
Que o tempo é maior,
Olhei pra mim,
Me vi assim,
Tão perto de chegar
Onde você não está.

No silêncio uma catedral,
Um templo em mim
Onde eu possa ser imortal,
Mas vai existir,
Eu sei, vai ter que existir,
Vai existir nosso lugar.

Solidão,
Quem pode evitar?
Te encontro, em fim,
Meu coração
É secular
Sonha, desaba dentro de mim amanhã,
Devagar,
Me diz como voltar.

Se eu disser
Que foi por amor
Não vou mentir pra mim.
Se eu disser:
"deixa pra depois"
Não foi sempre assim.
Tentei dizer,
Mas vi você
Tão longe de chegar
Mais perto de algum lugar.


de Zélia Duncan

(enviado pela Tita Geraldes)

Publicado por D_Quixote em 06:04 PM | Comentários (3)

Ímpeto de coragem

Se viver sem ti implica morrer,
Há muito eterna me tornei,
Pois viver sem ti me transformei
Em algo que todos hoje podem ver!

Foram momentos terríveis de dor
E quase a padecer disse a chorar:
"Não me destruirá a vida este amor,
Muito existe ainda para sonhar!"

E foi num for te ímpeto de coragem
Que sobrevivo ao tal desalento,
Reconstituindo aquela minha imagem.

Valeu a pena por tudo passar
E tu acabaste por me ensinar
Que nunca se ama sem se ser amado!


de Teresa Sousa

Publicado por D_Quixote em 05:58 PM | Comentários (1)

janeiro 09, 2004

Razão e justiça

Ditosa razão velha companheira
De outra jovem ditosa a justiça
Que cria tão puras como a noviça
E as revejo prostitutas de primeira

Assim descompostas quais rainhas de poeira
Preferem a firmeza, à areia movediça
A nova foi trocada pela conta na Suiça
A velha leiloada por retalho numa feira

Eu, armado de cavaleiro andante
A defender tais damas de um chulo pedante
Que as prostitui e por cima lhes bate

Pobre cavaleiro não tem mais do que pose
Que a razão morreu já de overdose
E a justiça barricou-se numa boîte.


de João da Silva

(enviado pelo próprio... obrigado João pelos sonetos, irei servi-los por aqui, quentinhos com o café)

Publicado por D_Quixote em 08:01 PM | Comentários (4)

amor é flor que no teu corpo encarpo.

no espelho do teus olhos não me cuido
de olhar a nua breve transparência
que apaga por instantes a ausência
no tempo da palavra eternidade.

talvez assim eu possa ver a idade
nudez a que se dá aos permitidos
harpejos harmonia dos sentidos
na leve pele gestos em descuido

nos lábios róseos de loendro aroma
perfume jovem sempre que se toma
dos sábios a arte de beber o corpo.

no olhar do espelho que reflecte e vejo
a minha própria sede sai do copo
que molda e verte todo o meu desejo.

amor é flor que no teu corpo encarpo.


de José Felix

(já que tão gentilmente me foram oferecidos, aproveito aqui para vos dar a conhecer este fantástico soneto e este autor que gosto de ler)

Publicado por D_Quixote em 01:40 AM | Comentários (4)

Café Tags

Amigos, clientela habitual e novas caras...

Já está disponivel aqui uns pequenos banners para me linkarem de forma mais divertida... se vos apetecer claro...

ou se gostarem mais deste...

espero que gostem!

um grande abraço...

Publicado por D_Quixote em 01:26 AM | Comentários (2)

janeiro 07, 2004

pestana

Às vezes...
queria ser uma das tuas pestanas,
para o brilho do teu olhar
ser o meu sol,
que nascia de manhã
para à noite se pôr
e dar lugar ao sonho.

Queria ser como já sou,
pequenino junto a ti.
Quase insignificante,
mas sempre lá,
junto a ti...
sem que muitas vezes me visses
mas sempre no teu olhar,
risonho...

E mesmo um dia
que morresse,
caísse,
me desprendesse de ti.
Não queria mais nada amor,
que cair lentamente
e repousar
no teu sorriso
onde ainda hoje
estou...

de João Natal

20/08/2002

Publicado por D_Quixote em 11:54 PM | Comentários (7)

D_Quixote

Quebram-se os elos,
da banalidade,
dos valores,
desta vida edificante,
perdem-se os sentidos,
... vulgaridade,
o que fez de mim,
este ser errante?
É que neste mundo,
pleno de vaidade
tropeço a toda a hora
na mentira,
no terror,
na hipócrisia
e no falso amor,
que é feito da paixão
e da verdade?
Serei eu um D.Quixote,
sempre a lutar,
contra dragões,
montros e moinhos,
sem um escudeiro para me ajudar?
De tanto batalhar,
contra esta gente,
perdi as minhas lanças,
a minha espada,
fiquei só,
com a minha armadura reluzente!


"Roxy"
93.03.25

(enviado pela propria Roxy, uma nova cliente que será sempre benvida e que assim faz a sua estreia... obrigado malandra...)

Publicado por D_Quixote em 07:51 PM | Comentários (6)

Desejos

enviado pelo amigo (maluco como tudo) Hugo Amaro...

(e afixado graças à preciosa ajuda do Paulo da loja dos templates que igualmente deu uma ajudinha com o som da casa... obrigado Paulo...)

Publicado por D_Quixote em 01:56 AM | Comentários (7)

Quando não estou triste não escrevo

Quando não estou triste não escrevo
visto um fato de bailarina e vou para junto dos meus amigos
para os fazer rir tropeço nas fraquezas e não lhes digo onde estão os degraus
para que possam cair também não uso virgulas
não quero dúvidas sobre o feliz estado em que me encontro
se existisse pontuação eu estaria na luz vermelha
e o único acento que neste momento me fica bem
é o que mora nos lábios da Emilia do sitio do pica-pau amarelo
assim como estou significa que estou na minha infância
acabei de me trair mas não importa a Emilia não se zanga comigo
os lábios dela continuam a ser os mais bonitos
tenho duas pernas e amo o saci embora não saiba escrever o nome dele
sou o Zé Carneiro da poesia e por enquanto tenho rebuçados que cheguem para todas as crianças do mundo
não há Capitão Gancho que me amedronte nem Cuca capaz de distrair a minha missão
afasta-te porque estou desesperado com tanta felicidade
posso contagiar-te e não te dares bem com isso
um bolo Anastácia de fubá tudo por um bolo teu
na cozinha da Benta corro para o tabuleiro
Pedrinho Narizinho hoje cheguei primeiro
esta manhã pus corretor sobre a aula de português no meu horário escolar
tu um dia saberás mãe o professor talvez não
o quanto aprendi com eles
o visconde a fazer de Quixote alertando-nos para os nossos moinhos
Barnabé e o cachimbo cozido
Elias o avarento
eu ainda estou no labirinto do Minotauro
acredito na galinha dos ovos de oiro
desculpa tia ter partido alguns mas um homem tem de experimentar
a ser criança de novo
ponto final mas sem para parágrafo porque ainda tenho tanto para sonhar


de Miguel Patrício

(um pequeno passeio de volta à infancia... quem não se lembra do sitio do picapau amarelo? ai... as tardes que não passei a ver o Agora Escolha... "sorriso")

Publicado por D_Quixote em 01:22 AM | Comentários (4)

janeiro 06, 2004

Crónicas do Nada - adeus amor que partiste

Esperei por ti um pouco, como sempre fazia quando te procurava, parei o carro perto do teu e desenhei no ar nuvens de vapor quente respirando no ar gelado... tremo de frio... ou será do nervoso miudinho de te ver novamente?...
Vens ligeira, com o teu passo firme e decidido, levantas a cabeça e afastas o cabelo num só gesto perfeito.
"-olá..." digo timido e desajeitado...
E a noite torna-se dia quando sorris e respondes... "-olá!"
Falamos de tudo um pouco nesses minutos, como sempre fizemos desde que nos conhecemos, como dois irmãos, dois amigos, como uma confissão que se rabisca num diário, sejam coisas importantes ou a mais trivial das banalidades...
Disseste-me que ias partir... que a vida assim o quis e que é melhor para ti...
Falavas em como ia ser melhor, em como ias finalmente singrar... Eu...? Eu apenas escutava estonteado, demasiado zonzo para esboçar uma reacção...
Falavas com eloquência, do sitio para onde ias e do que ias fazer, eu escutava apenas os quilometros que te levavam, a ausência que já existia e o tempo... sabes... o tempo... apercebi-me agora do quanto ele por nós já passou, ao vislumbrar as pequenas rugas que se avizinham, ao tactear as primeiras brancas que surgem...
De repente voltei, tu ainda falavas das novidades (curioso como as mulheres falam tanto), eu apenas acenei com a cabeça, engoli a saliva seca na minha garganta apertada e balbuciei... se te faz feliz vai, se for o melhor para ti é tudo o que eu quero... encontra o teu caminho e não olhes para trás, sobretudo não olhes para trás para algo que não vale a pena... não olhes para trás para olhar para mim...
"-João... tenho de ir"... disseste... eu sorri e disse adeus...
Vi-te partir, tirando desajeitadamente o carro do estacionamento, ias a sorrir acenando, nem reparavas contudo no que ficava para trás, no velho cansado de braços caidos, na ruína humana de culpas pesadas...
Voltei a ficar com tanta coisa para dizer, voltei a não dizer que te amava...
A noite voltou a ser noite, voltou a ficar frio... só cá fiquei eu, o teu perfume no ar e uma lágrima contida... adeus amor que partiste...

por Nuno Branco

untitled by Sarah Nader


Respondendo a um desafio do Fernando afixo hoje pela primeira vez, um pequeno conto em prosa, fruto da minha imaginação, que fala de alguem que perde alguem... espero que gostem... eu gostei de o escrever, gosto muito de escrever ficção, de me entrelaçar com as personagens, dar-lhes vida, dar-lhes dor... em breve estarei a trabalhar tambem no Há Coincidências, um blog que será um livro... cheio de personagens para eu "colorir"... depois espreitem... e sejam condescendentes comigo... foi a minha primeira aventura na prosa...

Publicado por D_Quixote em 02:04 AM | Comentários (10)

janeiro 05, 2004

Flor Mulher

Abraçada ao lenho firmemente,
Oh linda e encantada orquídea,
Com suas folhas esparramadas,
Qual coxas displicentes:
Expõe sua lânguida flor
Como uma boca sensual.

Suas pétalas labiais
Lembram-me, libidinosamente,
A flor íntima da mulher amada.

Admiro-a, extasiado,
Com desejos de antúrios.


de Juarez Figueiredo Santana

(enviado por Juê)

Publicado por D_Quixote em 11:40 PM | Comentários (2)

Estrela da tarde

Era a tarde mais longa de todas as tardes
que me acontecia
eu esperava por ti, tu não vinhas
tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca,
tardando-lhe o beijo, mordia
quando à boca da noite surgiste
na tarde tal rosa tardia
quando nós nos olhamos tardamos no beijo
que a boca pedia
e na tarde ficámos unidos ardendo na luz
que morria
em nós dois nessa tarde em que tanto
tardaste o sol amanhecia
era tarde de mais para haver outra noite
para haver outro dia.

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza.

Foi a mais bela de todas as noites
Que me aconteceram
Dos nocturnos silencios que à noite
De aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois
Corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa
De fogo fizeram.
Foram noites e noites que numa só noite
Nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites
Que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles
Que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto
Se amarem, vivendo morreram.

Eu não sei, meu amor, se o que digo
É ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo
E acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste
Dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida
De mágoa e de espanto.
Meu amor, nunca é tarde nem cedo
Para quem se quer tanto.


de Ary dos Santos

(enviado pela amiga Ana Duarte)

......I'm already there by Tess Campbell

Publicado por D_Quixote em 01:30 AM | Comentários (12)

Factível Fusão

Fecundo favo feminino,
Frágil e ferino em figura,
Que força, fatidicamente,
Uma florida felicidade e férvido feitiço,
Com sua fidalga face festival.

Que felina fórmula tem essa fenda
Para, faceiramente, fomentar fervor,
Frisson e faíscas sem floreios
Em flácidos floretes
Fazendo-os flamejar facilmente
Frente a essa franca e fatal fortuna?

Feromônio?

Ferrolhos ficam fogosos e flechantes,
Famintos por folguedos nessa fluida fenestra,
Numa fissura sem fingimentos,
Pois é o fado de todo falo,
Em face de formosa forquilha,
Fagulhar essa favorita flor
Fulminando-a festivamente com frêmito e frenesi.


Poema da autoria de Juarez Figueireddo Santana

(enviada por Juê... obrigado Juê e desculpa por só afixar agora... ando com algum atraso a afixar os poemas que me enviam e sem tempo nenhum para as mudanças do template... desculpem-me o atraso, e desculpem-me o aspecto mais piroso que isto possa ter... ando ainda em experìências com a cor...)

Publicado por D_Quixote em 12:59 AM | Comentários (0)

janeiro 03, 2004

Uma cama para quem ainda está de pé

Um homem na noite come cães e tenta sorrir o mais que pode,
se continuar a beber vai deixar de se preocupar que os seus dentes estejam limpos.
A higiene é inimiga de uma certa libertação,
com o passar do tempo os gestos tornam-se mais sujos,
os bolsos vão esperando as nossas mãos,
uma cama para os que ainda estão de pé.
Intervalo, saída de campo para o recanto onde mijam todos,
sacode-se o pingo e fecha-se a breguilha.
Nada nos impede de cumprimentar quem de novo nos aparece,
afinal já todos mijámos esta noite!
É na ausência da luz que nos aproximamos uns dos outros,
é a essa fome que entregamos os olhos,
se a reciprocidade aguentou um minuto,
acabámos de enganar o estômago do desejo.
O amor nasceu sem lábios.
Boa noite senhora que encontro neste corredor que dá acesso ao bloco de trabalhos de cirurgia reconstrutiva,
o trânsito é tão intenso que não pude evitar ir contra si!
Agradeço ter aberto os braços,
vamos esperar que a confusão passe,
a nossa hora há-de chegar!
Um separou-se da mão num prolongado adeus,
os dedos ainda tocam essa melodia num saco de gelo.
Outro pergunta se a pode usar para segurar a sua orelha caída no chão da barbearia,
tem pejo de a transportar e como se identifica tanto com a musica...
Esta hora e nós aqui, um diante do outro!
Sem que alguém desse pela amputação,
os nossos lábios foram separados logo pela manhã.
Antes fosse sempre noite nesse corredor e eu jamais me despediria do teu cabelo.
Desfigurava o pejo e manteria o gelo.


de Miguel Patrício

Publicado por D_Quixote em 01:45 AM | Comentários (4)

janeiro 02, 2004

depois do jantar

depois do jantar
as mulheres falam muito
os homens estão quase sempre calados
atentos
perseguem-nas com olhares ternos
os dedos movendo-se hesitantes em redor dos copos

elas falam sem cessar riem
perdem o fôlego comem bolos
voltam a rir cada vez mais forte
bebem anis sabendo que os homens as observam
silenciosos amam-nas furtivamente no escuro das casas
importando-se pouco que elas se embriaguem
devagar...

... as mulheres falam muito
têm o riso arguto nos lábios acesos pelo anis
sempre que os homens as desejam
noite adiante... calados

de Al Berto

in “ Trabalhos do Olhar “
1ª edição, 1982

(enviado pela Maria... mais uma vez... obrigado Maria...)

cheers to Mona Lisa by Manuela Filip

Publicado por D_Quixote em 01:49 AM | Comentários (5)

Ano-novo

Ano-novo

Meia-noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
da vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta)

de Ferreira Gullar

(enviado por Jaime Martins... obrigado pela tua presença e pelas tuas palavras... que este ano seja muito bom para ti e para os teus...)

Publicado por D_Quixote em 01:30 AM | Comentários (0)