Almoçava só e só escrevia poesia
de caneta na mão e olhar no nada,
cadernos com caligrafia riscada
na curta mesa de confeitaria.
Aquilo que eu ia escrever não sabia
ia improvisando de forma ritmada
era até a poesia ficar acabada
ou chegar a refeição que pedia.
Nos meus tempos felizes da Boavista,
nos breves intervalos de almoço,
na minha solidão que pretendia,
eu escrevia poesia como um cronista
contando e descrevendo em alvoroço
aquilo tudo que eu por ti sentia.
de João Natal
16/04/2004
(mais um soneto meu, que também podem encontrar na areia fina onde o meu mar revolto descansa)

Through words by Rus Alexandru
intersecto-me com o medo o sono acaba
enquanto te penso enquanto me ergo
alastro a madrugada mortiça pelo quarto cego em que
dormi
neste momento
a alvorada é um fogo latente
é o cheiro a vinhas e a pinhais
o cheiro do mosto
crescendo a terra
que assim, branca e densa e quente
é o ventre que me cobre de repente
que me esconde no sossego
de um tronco a germinar
vem cá
acorda depressa no meu braço
só assim descanso
só assim alcanço
o controlo desta fúria que me vive
de A.S.
(mais um contributo muito bom deste poeta que é dos novos talentos por estes lados)

Despondent by Carol Watson
Já enchi os dias de lutas vazias:
estou gasto, cansado e dormente.
E a um pouco de sexo, ou muita poesia,
ainda não fico indiferente.
Fala comigo na palavra falsa da fantasia:
chovem amigos na festa da praça do meio dia.
É certo que as flores parecem maiores que toda a virtude do mundo:
com um pouco de sexo, ou muita poesia, ainda me sinto profundo.
Se este mundo fosse feito para ser doce
eu seria doce fosse eu quem fosse.
de Valsa quase antidepressiva, do disco Exílio do Quinteto Tati; letra de J.P. Simões; música de Sérgio Costa
(enviado pela amiga Claudia)

..life is a beach and then we dive.. by Lars Raun
Divide-te e faz
adianta e resolve!
Trabalha estúpido. Vá!
Atarracha a porca, prega o prego,
prime a tecla, limpa a merda.
Não protestes,
não te queixes,
nem sequer deixes que te apanhe a sonhar.
Tudo o que tens é tudo o que mereces e mereces mais.
Por isso não percas mais tempo
que tempo é dinheiro
e ainda por cima me pagas.
Gosto de ti...
...vou chamar-te escravo e pagar-te o mesmo.
de João Natal
20/04/2004

Charlie Chaplin Film Set Modern Times (1936) by Max M. Autrey
(a todos, especialmente a quem comentou o meu poema anterior)
que não sabia, noite, o cerne das palavras
rumo ao tempo, dia, quando o que fomos
era um campo resistindo, noite, ao avanço
da luz pelo ombro do dia, perguntaste, noite,
Porque é que não pode ser sempre assim,
um dia, uma noite, e haver alguma verdade
nisto, Como por exemplo o quê, perguntei-te,
Como por exemplo nós, respondeu alguém,
mas então a noite já se misturava com o dia
e o universo amanhecia num leve tom diferente
de Rui Costa
(obrigado eu Rui, por mais um poema fantástico...)

A Different Perspective by Alan Siqueira
Durante a travessia do deserto, vi imensas miragens. Quando julguei ver oasis, na verdade via apenas areia. A cada dia que passava, ficava com mais sede, fui perdendo a força. O desalento de não encontrar água, deixou-me enfraquecido, deixando-me correr quando devia repousar. Não sei porquê, mas nunca usei o cantil que trazia pendurado ao pescoço, mesmo sabendo que tinha água. Acho que tive medo de desperdiçar aquela água, que era tão preciosa. Continuo sem perceber porque o fiz. Perdi o entusiasmo de continuar a viagem, como muitas vezes já o tinha perdido desde o seu inicio. Mesmo assim, vou continuando a caminhar com uma esperança descrescente, até chegar ao meu destino, que nunca será escolhido por mim.
Foi tudo mais uma miragem...
(com a qualidade que se lhe reconhece)

Kuwait, 1991 by Steve McCurry
Trinta anos depois querem tirar o r
se puderem vai a cedilha e o til
trinta anos depois alguém que berre
r de revolução r de Abril
r até de porra r vezes dois
r de renascer trinta anos depois
Trinta anos depois ainda nos resta
da liberdade o l mas qualquer dia
democracia fica sem o d.
Alguém que faça um f para a festa
alguém que venha perguntar porquê
e traga um grande p de poesia.
Trinta anos depois a vida é tua
agarra as letras todas e com elas
escreve a palavra amor (onde somos sempre dois)
escreve a palavra amor em cada rua
e então verás de novo as caravelas
a passar por aqui: trinta anos depois.
de Manuel Alegre
(enviado pelo amigo Jaime Martins neste Abril controverso que para mim terá SEMPRE um R na Evolução... para que a luta de muitos nunca caia no esquecimento... Revolução amigos... Revolução...)

Foi ontem à noite no Rivoli - Café concerto, e foi um sucesso.
O ambiente estava muito bom e vivia-se revolução em todos os sons e momentos.

Estivemos lá...
Viva o 25 de Abril!
Vozes nocturnas
esmaecidas pelo caudal de um rio
flutuam sobre as águas fartas,
de um oceano futuro.
Peixes ímpios que se escondem
atrás de pérfidos rochedos,
agastados pela erosão dos anos
sobre a carne viva,
de secretos adeus.
Vozes penetrantes
oriundas de cavernas distantes,
moradas de monstros antigos
que se esbatem em solos perdidos
por amores jamais encontrados
porém, jamais esquecidos;
O som fremente de um beijo a cair na almofada;
O cálido sussurro de um gesto pungente
O desvelo de uma carícia abafada
pelo som de uma porta entre-aberta
O abraço entre dois corpos que se desejam
e se consomem com a presença da ausência distante.
Vozes que existem
No imaginário mundo de dois seres
surdos de amor
Sedentos de querer ouvir
palavras tão lindas como a lua.
de Ana Marta
(mais um talento mais do que confirmado por estes lados)

Waterlow Pond by Paula Goddard
Tu és um segredo subtil
e inquieto
és uma a fuga transcrita
na voz que desaparece
antes de surgir
Os instantes em que te penso
amor
duram um bater de asas
e demoram todo o tempo
de A.S.
(um poema fantástico de alguém novo aqui no café, mas que espero ver mais vezes)

The hand by Magda Marczewska
Brotavam no coração e vertiam pelos olhos, minhas lagrimas formavam uma poça no chão entre meus pés, nela eu via se refletir teu rosto, teu sorriso, o brilho de teus olhos e mais uma vez o desespero tomava conta de minha alma, meu caos já não tinha limites, no céu as estrelas pareciam se apagar, já não sabia se era o vinho a me entorpecer ou o terror da perda estrangulando meu coração.
Após ter abandonado-me, não se passou um dia se quer em que não tenha pensado em você, meus sonhos tomados de dor e saudade, dias de trevas, noites em claro e um pensamento assombrar-me, quando a terei em meus braços?
"Palavras jamais expressam a dor, mas algumas vezes é tal a intensidade com que arde a alma, que conseguimos esboçar com meia dúzia de palavras jogadas uma pequena parte de nosso sofrer.."
de Antonio Kovalski Junior
(uma cara nova que eu espero ver mais vezes por aqui, a tua escrita Junior é muito boa e será sempre um prazer acolher a tua poesia...)

Despair by K Clarke
Se eu a negro escrevo o que negro sinto
no tão negro escuro do teu olhar,
logo não nego isto e se nego minto
o quão negro fico se não te amar.
E mesmo nem tão nego o meu instinto
dos teus negros olhos procurar.
Eu nego só tanto que é tão distinto
o negro vazio de não te encontrar.
Tenho as minhas trevas no coração
onde só tu, és a luz da esperança
do negro escuro dar lugar à cor.
Nos negros labirintos da razão,
é só em ti que tenho toda a confiança
de me fazer acreditar no amor.
de João Natal
16/04/2004
(para a minha menina dos olhos verdes)

Missing you... by Adriana Najar Smith
Corro pelas imagens em passagem,
risos, gritos,
dor e prazer,
sonho
já não o sei fazer
sem por ti passar.
Agora,
neste segundo que passou
e levou o que te digo,
mergulho no rio vermelho
e deixo-me ficar,
com esta dor sem nome.
de Ccc
(fantástica como sempre)

eva[adore] by Jo Pez
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
de Alberto Caeiro
(enviado pela fantástica amiga Melancia)

A minha mulher enganou-se e correu para mim,
com o nome do amante a sair-lhe dos lábios.
Eu não estou colectado na associação dos transportes,
mas faço-a chegar lá!
Segundo se sabe, Deus também não tem lugar sentado
e é ainda desconhecida a posição em que se encontra.
Por tudo isso, o Júlio é apenas um amigo,
que partilha comigo a minha mulher.
Nunca desconfiei,
porque achei sempre, não ter legitimidade para tanto.
Quem sou eu para segurar o ímpeto sexual da minha mulher?
Além de ganhar mais do que eu,
tem uma vida sujeita a essas frivolidades.
Afinal de contas o cabrão é só mais um gajo
que não vai à ópera!
de Miguel Patrício
(o bom filho à casa retorna, obrigado Miguel por mais um poema... confesso que já estavamos com saudades deles)

The tear of a clown by Joe Nathan
Algum dia saberei da tua verdade?
O caminho é muito dificil, vale a pena lutar por um sonho?
Ou um sonho é apenas um sonho e devo desistir?
Já não sei o que sonhar. Perdi-me!
Hoje estivemos mais perto,
Estivemos juntos mais uma vez a rir,
A trocar olhares comprometidos,
E a despedir-nos com os olhos,
Porque tivemos medo das palavras
Que o nosso coração queria dizer.
A tua mão de seda tocou a minha,
E sentiste um choque a percorrer o teu corpo.
Adorei o teu olhar de despedida,
Mas soube-me a pouco, muito pouco.
Vi nos teus olhos, que a ti também te faltou o beijo de despedida.
Será que eu estou errado?
Tu não sabes... e deixas-me sem saber...
(uma estreia auspiciosa aqui no café)

El beso by Carlos Romero
Saudade dentro do peito
É qual fogo de monturo
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.
Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.
Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.
Saudade é canto magoado
No coração de quem sente
É como a voz do passado
Ecoando no presente.
A saudade é jardineira
Que planta em peito qualquer
Quando ela planta cegueira
No coração da mulher,
Fica tal qual a frieira
Quanto mais coça mais quer.
de Patativa do Assaré
(Antônio Gonçalves da Silva)
enviado pelo nosso cliente de sempre Jaime Martins

b/n by Marcus Pieghi
Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré, nasceu numa pequena propriedade rural de seus pais em Serra de Santana, município de Assaré, no sul do Ceará, em 05-03-1909. Filho mais velho entre os cinco irmãos, começou a vida trabalhando na enxada. O fato de ter passado somente seis meses na escola não impediu que sua veia poética florescesse e o transformasse em um inspirado cantor de sua região, de sua vida e da vida de sua gente. Em reconhecimento a seu trabalho, que é admirado internacionalmente, foi agraciado, no Brasil, com o título de doutor "honoris causa" por universidades locais. Casou-se com D. Belinha, e foi pai de nove filhos. Publicou Inspiração Nordestina, em 1956. Cantos de Patativa, em 1966. Em 1970, Figueiredo Filho publicou seus poemas comentados Patativa do Assaré. Tem inúmeros folhetos de cordel e poemas publicados em revistas e jornais. Sua memória está preservada no centro da cidade de Assaré, num sobradão do século XIX que abriga o Memorial Patativa do Assaré. Em seu livro Cante lá que eu canto cá, Patativa afirma que o sertão enfrenta a fome, a dor e a miséria, e que "para ser poeta de vera é preciso ter sofrimento".
O poeta faleceu no dia 08-07-2002, aos 93 anos.
O texto acima foi extraído do livro "Ispinho e Fulô", editado pela Universidade Estadual do Ceará/Prefeitura Municipal de Assaré - 2001, pág. 138.
Não sei se você já morreu. Estou a escrever isto num comboio que atravessa a França de Montepellier a Paris, os solavancos da carruagem tornam-me a letra esquisita e não sei se você já morreu. Quando o vi no hospital do cancro, magríssimo, sem cabelo, sem forças, quase incapaz de falar, pensei
- Vai durar um ou dois dias, uma semana no máximo
e portanto não sei se você já morreu. Na cama ao lado da sua um homem olhava para mim de uma maneira que não vou esquecer, parecia um bicho aterrado. Você tinha atrás de si a fotografia da equipa do Belenenses, escrito à mão na fotografia - porque não havemos de ser campeões?
e mesmo que sejam campeões você não saberá porque você vai morrer. Vai morrer aos trinta e quatro anos (cedo não é?) vai morrer de cancro, não há um centímetro do seu corpo que não esteja apodrecido pelo cancro, você vai morrer Tó, você vai morrer. Vai morrer enquanto eu, em França, vivo o sucesso do meu livro, dos meus livros, tenho a imprensa e os leitores aos pés, o editor trata-me como se eu fosse (e sou) a criatura mais preciosa deste mundo, os críticos pulam de alegria, ando de apoteose em apoteose e você vai morrer, Tó, vai morrer e, se calhar, pelo facto de ir morrer, pensa que pode obrigar-me a pensar em si o tempo inteiro, a não ligar a esta barulheira à minha volta, a esquecer que sou um génio, que fui eu, não o Belenenses, quem ganhou o campeonato este ano, pensa que pode ocupar as minhas noites com o seu sorriso, a sua coragem, os seus dedos magríssimos a apontarem uma televisão pequenina
- Faz-me companhia
e as pálpebras a fecharem-se, exaustas, a sua dignidade, a sua ausência de pieguice, a sua morte tão próxima, Tó, a sua morte aqui mesmo porque você vai morrer. Ninguém é mais pobre que os mortos, disse uma escritora americana que também morreu nova, você não é só pobre morto, Tó, foi também pobre vivo, não tem o direito de perseguir um homem importante como eu (quem é você ao pé de mim, você não é nada ao pé de mim, você não sabe que não é nada ao pé de mim) deixe-me em paz, não me aborreça com a sua vontade de viver, a sua vontade de lutar, não seja mais valente do que eu (você não é nada ao pé de mim) porque sou eu que estou vivo, Tó, e você vai morrer, não me atormente com os seus projectos, os seus planos, você sente que vai morrer, Tó, você vai morrer.
Ao sair do instituto do cancro, depois de visitá-lo, só tive ganas para me encostar a uma coluna e permanecer ali, estupidamente, a olhar os arbustos, as árvores, as pessoas que entravam, o seu pai que tirou o lenço do bolso das calças quando a voz lhe tremelicou um bocadinho, o seu pai que se recompôs logo, Tó, num pudor que me custou ainda mais, o seu pai
- São uns dias
e você lá dentro, perto da janela, a morrer. Disse-me
- Gostava que lesse umas coisas que escrevi
isto não na visita ao instituto do cancro, um tempo antes, pelo telefone, eu
- Claro que sim
para não contrariar um moribundo, um rapaz de trinta e quatro anos todo roído pela doença, eu sem a menor intenção de ler fosse o que fosse, a desculpar-me, calado
- Não posso ler tudo o que me mandam e, no entanto
- Claro que leio, Tó, claro que leio
tentando ser agradável para si porque você é pobre, porque ninguém é mais pobre que os mortos e você vai morrer. Vai morrer e devia ter tido a educação de não me arrastar na sua morte trazendo-me à cabeça pessoas de quem gostei e que partiram, morreram de uma morte igual à sua, Tó, morreram e deixaram-me e agora é a sua vez, percebe, não tenha esperança, Tó, desista, não adianta ter esperança porque você vai morrer, está a morrer, você está a morrer e eu aqui, no estrangeiro, no meio deste aplauso todo (que vitória a minha, inveje-me) a voltar para o hotel, a fechar-me no quarto e a vê-lo o tempo inteiro à minha frente, Tó, o seu sorriso, o seu aperto de mão sem energia alguma, os seus gestos sem força e não se iluda que você vai morrer, não me mace com os seus planos (você não tem espaço para planos) os seus projectos (não há-de cumprir nenhum projecto) os seus sonhos (que veleidade a sua, ter sonhos) acabe com as fantasias, Tó, você vai morrer, um dia ainda, dois dias, cada vez mais sonolência, mais morfina, vai morrer longe de mim, em Lisboa, no meio dos outros cancerosos que vão morrer também, você vai morrer. Na janela do comboio árvores, rios, o sol, calcule, calor, calcule, um tempo lindo para mim, não para si, o tempo terminou para si, logo telefono para casa
- O Tó? (e, se calhar, um silêncio, o mais provável é que um silêncio, eu)
- O Tó?
e então, no meu ouvido
- O Tó morreu, sabias?
- O Tó morreu. Vou acabar isto, amigo, escrevi demais sobre a sua morte sem importância alguma, sobre os seus trinta e quatro anos sem importância alguma, quem era você? Por quem se toma você? Só acho que isto é um pesadelo, Tó, que não é verdade, só acho que nada disto é verdade, só quero achar que nada disto é verdade, percebe, garanta-me que nada disto é verdade, garanta-me que não morrerá, Tó, não morrerá, eu leio-lhe os contos, prometo, e pode ser que goste deles porque simpatizo consigo, porque (acho eu) gosto de si, porque me dói vê-lo morrer, Tó, faça-me um jeitinho, não morra, diga-me, com a sua cara magríssima, os olhos apagados, a boca sem cor que não morrerá, que, com um pingo de sorte, o Belenenses há-de ser campeão e precisa de viver para assistir a isso, precisa de assistir a isso, Tó, o Belenenses campeão, imagine a alegria que vai ser, meu Deus, o Belenenses campeão.
crónica de António Lobo Antunes
na revista Visão de 9 de Outubro de 2003

candels by Ghada Noman
Quem me conhece mais de perto, sabe a dor que estou a atravessar neste momento. Todos temos os nossos "Tós"... o meu é a minha madrinha, a minha segunda mãe, que definha rapidamente à medida que sucumbe a esta maldita doença. Este texto do Lobo Antunes fez-me pensar muito nela e, por isso mesmo, apesar de extenso, o quis postar...
Espero que gostem...
Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem. há uma semana. há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.
de Rui Costa
(uma estreia em grande deste poeta que promete, com a colaboração do Capitão na escolha da foto)

Hanging Around by Richard Thornton
Menina dos olhos tristes
o que tanto a faz chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar
Vamos senhor pensativo
olhe o cachimbo a apagar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar
Senhora de olhos cansados
porque a fatiga o tear
o soldadinho não volta
do outro lado do mar
Anda bem triste um amigo
uma carta o fez chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar
A lua que é viajante
é que nos pode informar
o soldadinho já volta
está mesmo quase a chegar
Vem numa caixa de pinho
do outro lado do mar
desta vez o soldadinho
nunca mais se faz ao mar
de José Afonso
(dado a conhecer pela fantástica e enigmática Dina)

Even in the darkest hour
When the world is fast asleep
I sit by candlelight with memories
When the wind was oh so cold
I used to hold you baby, hold
I'd like to hold you in my arms just like before
I thought I could live without you
That it wouldn't be so hard
But now when you going loco
I'm left with my losing card
How I wish the rain could fall like pearly dewdrops from the sky
Similar to the teardrops falling from my eyes
de Jay Jay Johanson
Basta um segundo de silêncio;
Para mim, um minuto de tortura
Meus olhos perdem-te no vazio
Da escuridão da noite que perdura
Basta um olhar vago e cansado
Colidir com as montanhas do pensamento
Desvelam-se medos antigos
Arrastados pelas sombras do momento.
Bastam horas insones de ausência
Do teu corpo prometido
Desejos pagãos que se perderam…
…fluíram num caudal de leito proibido.
Bastava uma carícia sincera
Para me teres perto de ti.
Quem te magoou foi o teu peito
Que não se quis abraçar a mim.
Agora…bastam-me apenas
Cheiros de rosa carmim
Adormeço num sonho abraçada
Á espera que te lembres de mim.
de Ana Marta
(uma cara nova aqui no café, que se estreia da melhor maneira possivel, com um poema muito bom)

Lonesome in the night by Carl Aage Henriksen
Engoli algumas palavras... para não te magoar
Baralhei os meus pensamentos... para não te abandonar
Resolvi puzzles e problemas... para chegar a uma conclusão
Mas por mais voltas que desse... só encontrei uma solução
Não fui eu que te escolhi... foi o meu coração
Mas fui eu que te vi partir... coberta por uma ilusão
Andei ás voltas... por um labirinto chamado amor
Nunca cheguei a encontrar o caminho certo... apenas a dor
Abri a porta no momento errado... ainda estava frio lá fora
Perdi-te...perdi-te... e não sei o que fazer agora...
Vou continuar perdido... á procura do meu rumo...
Entretanto sento-me na lua... a olhar para este Mundo...
Sem ti
de Sérgio Fortunato
(muito bom como sempre... e acompanhado por um trompete mágico para dar ambiente)

Man with trumpet by Margot Haag
As tuas mãos irrequietas
percorrem os espaços esquecidos.
Ao longo do teu toque expande-se,
poro a poro
a ânsia de te pertencer.
Passo a passo,
O odor
Meu e teu,
Tudo preenche
Penetrando pelo vazio que nos rodeia,
Na chama do encontro,
As bocas fundem-se.
No calor do esquecimento,
Os corpos evaporam-se.
Na brisa do suspiro,
Voa
de Ccc
(com o talento com que já nos habituou)

You and I by Dave Slaugenhoup
E porque a poesia assume muitas formas e muitos feitios, e não escondendo a escola de onde venho (passada uma decada quase esquecida)... recomendo a todos os clientes do Poetry Café um album excelente. Mais um pequeno marco nos muitos que surgem pela musica de qualidade, diferente, urbana, portuguesa.
Aqui o meu tributo a homens e mulheres que rabiscam a poesia com grafitti nas paredes ou com rimas na batida.
Porque o meu coração também é feito de Hip Hop.

A editora Horizontal responsável pela edição do álbum “Educação Visual” de Valete, vai agora lançar a compilação Poesia Urbana, já no dia 24 de Maio e conta com a participação alguns dos mais prolíferos Mc’s do Hip Hop nacional.
Esta Compilação estará à venda a 10 EUROS. Este é o preço recomendado às lojas. Podes também comprar através do site www.valete.net por 7 EUROS mais portes de envio. A Poesia Urbana terá também uma faixa multimédia, onde poderão ser vistas imagens de vídeo exclusivas. Neste site também poderás comprar o álbum “Educação Visual” de Valete por 7 EUROS mais portes de envio.
mergulho na multidão...
vou penetrando cada vez mais
no amalgamo de gente,
cruzo-me com rostos vazios...
expressões de nada,
caras sem traços,
sem expressões,
nadas...
“isto não é gente”
penso para comigo mesmo...
são peças de uma maquina,
animais de criação,
gado na engorda
com o tempo contado
e a vida pré determinada...
porcos...
cruzo com um velho pedinte
ele é diferente...
os seus olhos não são vazios...
são borrões pretos de magoa
como aguarelas desbotadas...
são dor...
ele olha para mim fixamente...
reconhece também a minha diferença,
o meu “não vazio”,
no fundo somos iguais...
somos gente,
desenhados pelos contornos da vida,
rasurados, riscados a grafite pela tristeza,
pela contrariedade...
o nosso olhar troca-se uma ultima vez...
como se despedisse,
num misto de cumplicidade,
de estima,
de pena...
apesar dele ser um sem abrigo,
eu não tinha mais tecto,
pois não havia tecto que abrigasse
nem paredes que conseguissem albergar,
tanto espaço negro que eu trazia comigo...
e ele via-o
estava estampado no meu rosto
como se tivesse a face tatuada com uma palavra...
“solidão”
de João Natal
(este é um pequeno extracto de um dos meus projectos, "o Pacto", que já tive oportunidade de ir mostrando, tanto aqui como no Abismo Negro dos Sonhos Esquecidos... espero que gostem)

Madness by Magda Marczewska
Who am I to need you when I'm down?
Where are you when I need you around?
Your life is not your own
And all I ask you
Is for another chance
Another way around you
To live by circumstance, once again
Who am I to need you now?
To ask you why, to tell you no
To deserve your love and sympathy
You were never meant to belong to me
And you may go, but I know you won't leave
Too many years built into memories
Your life is not your own
Who am I to need you now?
To ask you why, to tell you no
To deserve your love and sympathy
You were never meant to belong to me
Who am I to you?
Along the way
I lost my faith
And as you were, you'll be again
To mold like clay, to break like dirt
To tear me up in your sympathy
You were never meant to belong to me
You were never meant to belong to me
You were never meant to belong to me
Who am I?

Sem sombra de dúvida... a minha musica preferida dos Smashing Pumpkins, pelo poema e pelo som.
O fim de tarde demorava-se esperando a noite. A casa parecia perseguir os últimos suspiros de sol. Nariz encostado à janela fria de ontem, penso em amanhã. Retiro um livro da estante repleta de livros nunca lidos. Este, já o li vezes sem conta. Parece-me sempre a primeira. Hoje foi o dia em que te olhei pela primeira vez. Já te tinha sonhado. Sempre. Toda a vida. E agora encontrei-te num dia de chuva. Abrigámo-nos no mesmo café em mesas diferentes. Pedimos o mesmo café em mesas diferentes. Creio que vivemos a mesma vida em vidas diferentes. Os nossos olhares cruzaram-se por instantes mas fingiram fixar a parede branca e desinteressante. A chuva não parou mas fizeste-te coragem e partiste apressada por entre as gotas. E eu fiz-me esperança e apressei o passo mas não mais te encontrei. Mas mesmo que não te volte a olhar, amar-te-ei para sempre enquanto vasculho memórias de ti neste livro gasto de tanto lido. O livro que esqueceste em cima da mesa. Hoje foi o dia em que te olhei pela primeira vez. É por isso que chove lá fora mas o sol brilha só para mim. É por isso que o tempo passa mas parou só para mim. É por isso que direi hoje até morrer.
de Gustavo Vasconcelos
(obrigado Gustavo por tanto talento)

I miss you... by Ricardo Tavares
No teu olhar
vi o amanhecer
de um sorriso,
nesse mago lugar
onde sonhos se avistam
e segredos se escondem...
No teu olhar,
às vezes perdido
por caminhos só teus,
vi-te por inteiro,
sem máscara
sem disfarce...
Olhei para ti
e também sorri...
e desejei ficar,
para sempre,
nesse verde olhar
em que me perdi
e me encontrei...
de Maria J. Carvalho (18/05/2003)

"colours of autumn" by Maciej Chojnacki
Nós nús numa noite negra
não negávamos nada
nem ninguém.
No nosso namoro nocturno
nómadas novatos
num narcótico nocivo
novo Niilismo.
Noto-te nervosa nisto.
Não nos negues nunca!
Não necessitamos naufragar noutro nexo,
navega na nossa nau
nesta névoa nívea nítida.
Nascemos novamente
na natureza neutra.
Nutro noção nisso!
Não negues nossos nomes
nunca!
Não negues nós
neste Nirvana
não nos negues
nunca!
de João Natal

N u d e by Yuri Bonder
Foi um dia de sorte, confesso. Fiz o convite a medo, como um puto que atira uma pedra e esconde a mão a seguir atrás das costas. Nunca pensei que fosses aceder, nunca pensei ouvir um sim como resposta. Aliás foi de tal maneira inesperado que nem sabia onde te levar para sairmos juntos. Sempre te via como tão inatingível e etérea que todos os sítios me pareciam demasiado vulgares e inapropriados para um momento a sós contigo. Aliás, ainda nem sequer tinha pensado no sítio até estar contigo, confesso… talvez mostre falta de preparação da minha parte, talvez sinal da minha insofisticação, fruto da minha simplicidade rústica e naïve. Foi ainda na deambulação atordoada de uma traça feia e tonta na hipnose da luz florescente que dei por mim a conduzir-te para a beira-rio, lá no lado de Gaia, onde o Porto nasce na bruma da noite, no brilho das luzes citadinas no reflexo aveludado e negro do rio Douro. Lá onde os bares acolhem vultos desconhecidos, criaturas da noite, seres do ócio e da vida sedutora da juventude que a noite traz. Lá onde o chão molhado do cais brilha como um chão de estrelas.
Sentamo-nos numa esplanada fresca, com o céu como tecto e a brisa as paredes. Tomaste um carioca de limão quente que te ruborizou ligeiramente a face, eu tomei o meu frio porque me distraí a olhar perdido para ti. Observava cada tique, cada gesto, cada pormenor delicioso do teu rosto cândido. Ofereci-te uma rosa comprada a um vendedor ambulante que ali passou. Sorriste e guardaste-a como algo de valioso. Nem reparaste que não era só a rosa que te estava a dar, mas também o meu coração.
Levei-te a casa logo após, a hora tardava na noite que avançava, em direcção ao desconhecido, e a noite era frio como esse desconhecido.
Acompanhei-te até à tua porta onde cordialmente me despediria de ti como sempre o fiz. Mas algo em mim irrompeu do sufoco da opressão auto-infligida, agarrei-te pela cintura, encravei o elevador no interruptor de emergência e beijei-te. Tu sorriste e retribuíste o beijo como se retorquisses “estava a ver que nunca mais o fazias João…” Paraste o beijo e continuaste a sorrir. Deixaste-me a beijar o teu perfume no ar e foste embora sem dizer mais nada.
A noite voltou a ficar fria…
de João Natal
Ponte D. Luis à noite by Amen
Como esquecer, como apagar...
Quando o antes deixou de ser o antes,
Quando o depois deixou de ser o depois,
Quando o agora não existe.
Simplesmente se respira para voltar a ficar
Sem folêgo,
Esbate-se um sorriso ao voltar à lembrança
Do que é rir.
Sente-se um arrepio gélido ao voltar
Saudosamente aos teus braços.
Simplicidade que não se volta a repetir,
Volta que tarda em voltar.
AH a profundidade do teu olhar
Em busca do meu...
A magnitude dos teus olhos,
Encontrar-me neles e nunca mais
Perder-me deles...
Tudo em mim reclama por ti,
O teu odor, o meu odor,
O nosso cheiro...
É o sufoco, a agonia da ressaca,
Da droga que me deste,
Meu querido!
Livre, autêntico, puro,
Se tens de ir, vai!
Mas não voltes a mostrar-me
O que já não és,
A sentir que não perdi o que perdi...
de ccc
(uma das estrelas do firmamento do café)

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