julho 31, 2004

na fragilidade da luz

é uma vertigem
a janela de sol
os teus olhos acendem
quando me chamas para a refeição
e o meu corpo à tardinha planta
a água fresca de uma chuva nova

o sabor do pão tem o teu sorriso
e fujo para a mulembeira a onde
trabalho o visco no piar dos pássaros

também as asas que me agarram vão
presas no teu vestido
onde seguro o aroma lábil na
fragilidade da luz


de José Félix
(inédito)08.07.2004



Publicado por D_Quixote em 06:57 PM | Comentários (3)

Semana James Bond

Deixo-vos hoje uma sugestão em vez de poesia.
Não percam durante a próxima semana a temática 007 - James Bond - Bandas sonoras no MP3za.

Todos os dias terão disponiveis para ouvir ou fazer download os temas que ajudaram a tornar a personagem do agente secreto inglês um mito imortal do cinema.

Imperdivel, no MP3za

Publicado por D_Quixote em 10:50 AM | Comentários (0)

julho 30, 2004

Menina

Lá vai a menina
De farrapos vestida
Sozinha num beco
Descalça e perdida

Sobre pedras e vidros
Caminha... a chorar
A pobre menina
Só quer a fome matar

Cansada e dorida
Procura um cantinho
Sem forças prá vida
Só pensa num ninho

Não entende o abandono
Não conhece a palavra mãe
Só quer que o sono
A leve para o Além !

Enquanto no Mundo
Os homens semeiam ...
Ódio...
Aço...
Pólvora...
Ferro e fogo

A menina continuará
Perdida, e só com uma lágrima
Uma só lágrima
As outras...
Secaram !

de Finúrias

(um poema diferente e uma estreia auspiciosa deste autor)

Afghan Girl

(foto enviada por Finurias)

Publicado por D_Quixote em 12:52 AM | Comentários (5)

julho 29, 2004

Franqueza

Não quero ter pena
de nada
senão de mim,
deste engano
em que andei
sem saber
se viver
era ou não aquilo
que sonhei.
E fui também algoz
da própria dor
com que o amor
me quiz presentear,
agora já nem sei
se amei
alguém
de tanto o desejar!


de Malandra

Less of you by marília campos

(eu já suspirava de saudades dos poemas lindos desta amiga e encaixa na perfeição mais uma foto de beleza indiscritivel da Marília)

Publicado por D_Quixote em 01:26 AM | Comentários (8)

julho 28, 2004

Abandono

Ai, sensação que me abandona
Como, tamanho vazio
E que de meu ego destrona
Tal trópico frio
Ai, dor que me sufoca
Como gume afiado
É o tremer, quente
Que me provoca
Esta dor fria
Da qual, fico cansado
Não, não rasgues
A incerteza deste momento
Porque não é a dor que rasgas
Mas a mingua do nosso tempo.


de Teófilo Pinto

(a poesia deste autor cada vez mais se torna uma referência incontornável neste café)

Torn by Karen Clarke

Publicado por D_Quixote em 12:39 AM | Comentários (3)

julho 26, 2004

Dom Quixote

Já não há mais moinhos de vento
doce Dulcineia.
A minha loucura passou.
Já não há mais lugar para mim neste mundo
pois nem mais no teu coração tenho lugar.
Os teus olhos são doces
mas as tuas palavras amargas.
Volta lá para o teu Sancho Pança!
Vai em frente no tempo
que o tempo não pára!
E quando pára
é só para mim...
Já não há mais moinhos de vento,
gigantes imaginários,
problemas a ultrapassar.
Venci-os a todos à medida que me derrotava,
venci-os para te ter...
Mas rendi-me ao destino,
à evidencia...
Esse escudeiro traidor
que nos dá uma espada torta
para combater a vida,
o duelo...
Volta lá para o teu Sancho Pança!
Volta lá...!


de João Natal

doce dulcineia por Alves

(Há uns meses atrás lancei o desafio a este talentoso amigo, as linhas escolhidas ilustram na perfeição, o ar de desanimo e de desalento do meu cavaleiro... eu não podia estar mais feliz com o trabalho... o teu talento Alves, já se tornou inquestionavel em toda a blogosfera... um abraço... alem do mais... fica aqui explicado, para os mais distraidos, a razão do nome com que muitas das vezes assino a poesia que coloco aqui... talvez por gostar muito deste meu já antigo poema...)

Publicado por D_Quixote em 11:50 PM | Comentários (7)

Ciclo de poesia erótica

Boas noites amigos e clientes...

Aproveito para anunciar, que novamente, a pedido de muitas famílias, será dedicada uma semana inteira à temática poesia erótica...

Assim, convidados alguns dos autores que mais se têm destacado no palco do Café, os poemas têm chegado a ritmo pausado, permitindo-me preparar com afinco a semana que se segue...

Espero que tudo esteja do vosso agrado, sentem-se relaxados para um café quente e uma table-dance de poesia...

NUDES # 1 AU DELA DU PARAITRE - # 11 by Jean Vallete

Não faltem na próxima semana...

Publicado por D_Quixote em 09:04 PM | Comentários (2)

julho 25, 2004

Urgência

Quero-te em mim
descobrindo caminhos
desvendando mistérios
revelando segredos
despertando instintos
gritando vontades
murmurando o meu nome...
... Queres?


de Maria J. Carvalho

(confesso que já estava com saudades da tua poesia Maria...)

no title by marília campos

(mais uma foto com uma beleza indiscritivel da Marília... esta mulher escreve poesia com fotos... sou um fan incondicional!!!)

Publicado por D_Quixote em 12:54 AM | Comentários (6)

julho 24, 2004

na origem

na pele da tua fala a navegação do leme
há cristais de silêncio
no gesto do navio que rompe a água
e um pássaro e outro pássaro
salta dos lábios no voo do teu corpo


de José Félix
08.07.2004
(à Maria Gomes)

The Ship by Salvador Dali


Publicado por D_Quixote em 01:09 AM | Comentários (2)

julho 23, 2004

MP3za

"A música é capaz de reproduzir na sua forma real, a dor que dilacera a alma e o sorriso que inebria." (Beethoven)


Está finalmente aberto um projecto fantástico e inovador que já andava há bastante tempo na forja. Senhoras e senhores, meninas e meninos, está oficialmente declarado aberto o MP3za, o sitio perfeito na Blogosfera para ouvirem as vossas músicas preferidas.

Apareçam e dancem à vontade...

Publicado por D_Quixote em 01:51 AM | Comentários (3)

julho 22, 2004

Inconformismo

Ainda que na garganta
tivesse eu contido
um grito em convulsão,
uma outra voz dizia:
_ainda não.

Ainda que por instinto
quisesse eu lançar
o corpo em contramão,
uma outra força impedia.
_Ainda não.

Ainda que por premência
ousasse eu roubar
o gesto à transição,
um outro, lesto, surgia.
_Ainda não.

Ainda que a impaciência
plantasse na minha
espera a sofreguidão,
a consciência anuía:
_ainda não.

Ainda que o tempo
findo, ordenasse
o corpo frio à rendição
definhando sucumbia...
_ainda não.


de Bruno Amaral

trying to fly. by Maleonn

(Obrigado Bruno pela tua poesia que já faz parte da minha maneira de ver o Poetry e pelas tuas palavras amigas, que irei para sempre guardar... um abraço)

Publicado por D_Quixote em 12:30 AM | Comentários (5)

julho 21, 2004

Diabruras

Ora chegue para cá senhora dona tristeza
e, após servir-se de amplo manjar,
diga de sua rectidão.
Retempere o faisão
e filosofe sobre o estado da nação.
Não se esqueça da utilidade
de uma pitada de sal
e goze simultaneamente do benefício
de um belo naco de chambão
do queijo da serra
e da broa de milho.

Boa banca e existência vareja
é conversa de desabrigado,
talvez também de defunto
e quem sabe de alma anã.
Ora não é esse o nosso caso,
do vinho saibamos tirar o proveito,
da alegria o veraneio
e da jorrada de injustiça,
perfiladas numa mente bem bebida,
escapem ajuizadas boas medidas,
atestando a mesa dos cardeais,
dos ministros e rivais,
talvez analogamente a urbe,
a santa casa e o infantário,
irmãmente um mister
ao elefante das Astúrias,
ao retórico badalado,
ao dirigente agora mal amado
e quiçá com algum proveito
ao autarca ajuizado,
ao construtor mal afamado
e outros que tais que para aí andam,
desertinhos de um novo cozinhado,
talvez um tanto ou quanto mais temperado,
mas com a mesma ânsia de sempre
de serem reis e senhores à mesa.

Chegue para cá dona tristeza
e não diga desta mesa não comerei
seja lá um pouco mais viçosa
e alegre os comensais
com distantes biscates
e alegres despautérios
ria a bom gosto do diverso
e faça do repasto um bom granjeio.


de Nancy Brown
Jul 2004

Dinner for two - first course by Titia Geertman

Publicado por D_Quixote em 12:34 AM | Comentários (6)

julho 20, 2004

Barba negra

Barba negra, negro olhar
de um homem de lixo que no lixo remexe.
Na vergonha incerta como a fome que aperta
não tens que em mim reparar,
sentir culpa, pesar ou vexe,
neste meu olhar que tanto te desconcerta.

A multidão ri-se e escarnece,
desdenha de ti sentido nojo e vergonha
quando pisa na rua o jornal que é a tua cama.
A multidão de pedra que tanto se esquece
que tu és ainda um homem que sonha
e talvez ainda um homem que ama.

Junto ao Continental em Lisboa,
um velho pedinte remexia detritos
em gestos aflitos em busca de comida.
E ainda hoje a lembrança magoa
ao pensar triste nos mudos gritos
tão infinitos de quem sofre assim a vida.

Barba negra, negro olhar
E tanta fome… na moderna Lisboa…


João Natal
19/07/04

homeless by Blerim Racaj

Publicado por D_Quixote em 01:17 AM | Comentários (6)

julho 19, 2004

madrigal

a manhã tem a cor dos inocentes

a borboleta azul caminha o voo
em direcção à morte anunciada
e breve da carícia de um sorriso.


de José Félix
16.07.2004

Butterfly Kiss - by Jeff

Publicado por D_Quixote em 06:55 PM | Comentários (5)

julho 18, 2004

A filha de um poeta

Uma avenida deserta de sentimentos
Num domingo sonolento
Um encontro sem hora e local marcados
E com uma única lufada de vento
Com tempo e ausência de movimento
Palavras mágicas e tudo muda

Não sei explicar o que se passou
Quem eram eles e ao que vieram
Não foi só esta a dúvida que ficou
Foi o que me disseram que me chocou
"Menina bonita és filha de um poeta"
E eu consegui apenas ficar perplexa.

Palavras que sem sentimento
Teriam sido levadas com aquele vento
Mas, quando naquele olhar reconheci
Carinho de avô e orgulho de pai
Cá dentro estremeci
Porque nunca esperei o que ouvi.

Nada daquilo fazia sentido
Até que percebi qual a poesia
Não nos poemas que o meu pai nunca escreveu
Mas no poema que nasceu
E que ali estava naquela avenida
Era eu...

Someia Umarji

4567879.jpg by Nathan Combs

(Mais um poema lindo na senda das memórias desta nossa nova amiga)

Publicado por D_Quixote em 10:51 PM | Comentários (4)

julho 17, 2004

No fundo do mar

Deixa-me descansar os meus cansaços
nos teus braços,
chamo por ti,
dar-me por completo,
quero esquecer-me,
gelam-me as veias de bom grado,
adormecida na escuridão dentro de ti.

Não me faças esperar mais,
seco com o passar do vento,
choro no cheiro que ele trás.

Não pronlongues a minha dor,
mais um vibrar teu
toco-te só de passagem,
vem à memória
a viagem nunca esquecida.

Não penso mais,
sigo-me,
encontro-me
no fundo do mar.

de CCC

(mais um poema fabuloso desta poetisa amiga)

Orchestra Seating by Mitchell Miller

Publicado por D_Quixote em 07:36 PM | Comentários (5)

Nox Scriptum

Já conhecem o sitio com a escrita mais escura da blogosfera portuguesa?

Espreitem lá...

julho 16, 2004

Quem me dera...

Quem me dera poder abraçar
esta mistura de sensações transdérmicas,
que se acopolam à seiva bruta da pele incandescente
pelo fulgor de um olhar indecente.

Quem me dera poder possuir
todos os segundos que se desperdiçam em mim.
Poder agarrá-los e juntá-los numa hora…
Em dias, meses, ou anos sem fim.

Quem me dera poder aprender
palavras sinceras para depois te falar;
Exprimir desejos inefáveis
através de um simples olhar.

Quem me dera te poder sempre ter
Nos instantes em que me lembro de ti.
Para jamais te deixar
Mesmo que deixes de gostar de mim.


de Ana Marta

behind the mask by Jason Tremblay

(Mais um poema repleto de sensibilidade da nossa já tão estimada Ana Marta...)

Publicado por D_Quixote em 12:51 AM | Comentários (12)

julho 15, 2004

Cerejas

Cerejas amor,
Balas de carne fruta
A explodir na boca.
São as últimas cerejas amor
Como se não soubéssemos
Antes que as pesassem para os nossos lábios
Antes que as colhessem para os nossos braços
Abre a cesta que tens na tua boca e leva-me para dentro de ti
Essas cerejas
Normalmente são duas amor
Normalmente são duas
Porque fomos nós separados?
Normalmente separados
Por uma distância de comboio alfa
Eu chamo-me sul, dizem eles que me chamo sul
E tu norte, Braga, qualquer coisa de rua laranja
Que nem lembro a tua morada
E a tua mãe que te pariu
E a minha que me pariu a mim
E o teu, e o meu irmão
E a minha mentira
A minha coragem que não anda de comboio
E o teu corpo que me dói vir a ser tocado por outro que não eu
E agora este silêncio de lábios, os meus e os teus
Acordados por outros, dói-me
Dói-me acordar porque eu gostava dos teus defeitos todos
Todos
E o meu rabo, lembras-te?
Eles não precisam de saber o resto!
Sim é uma mulher não confundam,
Não que isso seja importante.
Cerejas amor, tu sabes que não uso relógio
Na tua boca estive sempre dentro do meu tempo.



de Miguel Patrício

(um poema fantástico com sabor a Verão)

"Bowl of Cherries" by Scott Hendrickson

Publicado por D_Quixote em 12:52 AM | Comentários (4)

julho 14, 2004

Bittersweet

In my hallucination
I saw my beloved's flower garden
In my vertigo, in my dizziness
In my drunken haze
Whirling and dancing like a spinning wheel

I saw myself as the source of existence
I was there in the beginning
And I was the spirit of love
Now I am sober
There is only the hangover
And the memory of love
And only the sorrow

I yearn for happiness
I ask for help
I want mercy
And my love says:

Look at me and hear me
Because I am here
Just for that

I am your moon and your moonlight too
I am your flower garden and your water too
I have come all this way, eager for you
Without shoes or shawl

I want you to laugh
To kill all your worries
To love you
To nourish you

Oh sweet bitterness
I will soothe you and heal you
I will bring you roses
I, too, have been covered with thorns

written by Rumi, edited by Deepak Chopra, reading by Madonna

Illimination by Emerald Visions & White Meadow

(este é um poema divinal, riquissimo de corpo e de profundidade espiritual, mas melhor ainda, é clicarem aqui, fecharem os olhos, e deixarem-se voar ao som desse poema... atrevam-se!!!)

Publicado por D_Quixote em 01:16 AM | Comentários (7)

julho 13, 2004

Um Poema para Galileu

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios).
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria...
Eu sei... Eu sei...
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileu Galilei!
Olha. Sabes? Lá na Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.
Eu queria agradecer-te, Galileu,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileu!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.
Pois não é evidente, Galileu?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da
praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.


de António Gedeão

(enviado pela amiga Alice... obrigado Alice, é sempre bom ler Gedeão... beijinhos)

António Gedeão
Físico, historiador e divulgador da
Ciência, o autor também foi poeta
Este poema escrito por Rômulo de Carvalho
(como poeta adotou o pseudônimo de Antonio
Gedeão), faleceu em 1997, aos 91 anos.

Um Poema para Galileu
Estava agora a lembrar-me, Galileu,
daquela cena em que tu estavas sentado num
escabelo
e tinhas à tua frente
um guiso de homens doutos, hirtos, de toga e de
capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando um perigo
para a Humanidade
e para a civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio
mordiscava os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e
das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas - parece-me que
estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor,
que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu
pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma
Ai, Galileu!
Mal sabiam os teus doutos juizes, grandes senhores
deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões
de braços,
andava a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileu Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer,
homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso, estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.

Publicado por D_Quixote em 12:09 AM | Comentários (3)

julho 11, 2004

o silêncio branco

no equilíbrio dos inocentes
a flor dos dedos
acaricia a casa o pó da casa

brinco sorrisos
no pêndulo do vento
e as portas entreabertas dão notícia
de distâncias cumpridas

o esqueleto da lagartixa fere
como o silêncio branco da parede.



de José Félix
inédito in "a casa submersa

~~~ by Natalie Papadopoulos

Publicado por D_Quixote em 03:16 PM | Comentários (5)

julho 10, 2004

Sonho de princesa

Celebra o tímido sonho de princesa,
adormecendo infanta e
acordando soberana.

Os sonhos e as palavras,
são já libelinhas leves e serenas
esvoaçando pelos alegres campos.

A sua imaginação,
saltita graciosa de flor em flor,
e move-se cristalina e sorridente.

Vence o sono
ouvindo o canto das cigarras
e por fim
cobre-se de silêncio
toda a natureza em harmonia.

de Nbrown

Jul 2004 (mais um texto fantástico da nossa amiga Nancy, desta vez em poema... gostei... ficarei à espera de mais)

the bored princess by Robert Rgloeckner

Publicado por D_Quixote em 10:43 AM | Comentários (1)

julho 09, 2004

Um monstro nasceu...

A alma tem sitios escuros de onde saiem palavras estranhas...

Este não é o melhor sitio para elas, um monstro nasceu para albergar os detritos negros que a alma jorra.

aqui fica o desafio...



Publicado por D_Quixote em 06:58 AM | Comentários (3)

julho 08, 2004

Diário da tua ausência – vinil gasto

A nossa música não toca mais, passou de moda. Os nossos dias já não são solarengos de passeios à beira mar. São antes tristes, chuvosos e cinzentos até no Verão. Tudo o que resta do amor de outrora, dos teus sorrisos abertos no escuro do cinema, do veludo da tua face morna na palma da minha mão, são os sons abafados num canto da memória, sons velhos, quase inaudíveis, como vinil gasto de discos esquecidos de 45 rotações.

Não é justo, eu sei. Mas também não há sitio nenhum no mundo onde esteja escrito que o amor tenha que ser justo ou condescendente com toda a gente que acredita nele. Mesmo assim esperei. Esperei o meu lugar na fila como qualquer outro espera. A minha vez havia de chegar inevitavelmente, pensava. E era a minha vez, acreditava… era a minha vez de tentar mostrar-te que o mundo não precisava de ser imperfeito, que o amor pode existir entre duas pessoas, apesar de diferentes e estranhas, apesar de serem seres alienígenas de mundos diferentes.

Mas o destino, Dalila, sabe mais de nós que nós sabemos dele. Brinca connosco de forma cruel, entrelaçando os nossos dias no quotidiano trivial, separando-nos depois como o dia e a noite separam o sol e a lua, fazendo com que estes amantes nunca se encontrem, mas para sempre se desejem, nesta dança eterna, nesta valsa ridícula do passar do tempo. E assim foste de mim. Os ingressos acabaram no momento de os comprar e a bilheteira fechou as portas deixando-me fora do show, fora de ti. Não é justo… era a minha vez… sabes… depois dos outros todos.

Mas a musica não toca mais. A nossa… sabes… saiu da playlist das rádios e já só é ouvida por quem gosta mesmo, por quem é apreciador, escutada por quem lhe dá sentido, amada por quem a vive e revive como um momento perdido atrás. Algo que já não volta. A nossa música já não toca mais… apenas se tu ou eu a quisermos recordar… apenas se ainda tivermos tempo para parar e escutar um pouco, aí ela toca, nos nossos corações.



de João Natal


Let the Music Heal Your Soul by Peri Kazanci

Publicado por D_Quixote em 12:53 AM | Comentários (3)

julho 07, 2004

Companheira

Deixei pousar minha boca em tua fronte
toquei-te a pele como se fosses harpa
escorreguei em teu ventre como o vento
e atravessei-te em mim como se fosse farpa

Deixei crescer uma vontade devagar
deixei crescer no peito um infinito
morri da morte lenta do desejo
e em cada beijo abafei um grito

Quando desfolho o livro velho da memória
sinto que o tempo passado à tua beira
é um espaço bom que há na minha história
e foi bonito ter dito companheira

Inventei mil paisagens no teu peito
rebentei de loucura e fantasia
quando me olhavas devagar com esse jeito
e eu descobri tanta coisa que não vias

Havia em ti uma forma grande de incerteza
que conseguias converter em alegria
havia em ti um mar salgado de beleza
que me faz sentir saudades em cada dia

Quando desfolho o livro velho da memória
sinto que o tempo passado à tua beira
é um espaço bom que há na minha história
e foi bonito ter dito companheira



de Pedro Barroso
in LP "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher", 1987

The Kiss by Misti Morris

Publicado por D_Quixote em 12:32 AM | Comentários (4)

julho 06, 2004

branco

branca é a estrada e o pincel
é branco o fruto sobre a página
a pátria é branca e branco o sangue
antes da luz branca branca
chegar com seus brancos vegetais

tudo está na não previsão
do sorriso das raparigas
no tronco da pergunta insinuando
o deambular da folha o trajecto
que do rumor apenas nutre ou

a neve emoldura o lume
e nele se traduz pois branca
é toda a chama pensativa
de bago em bago insistindo
o braço para branca ser


de Barbos Antero

snowwhite by Mo Enasni

Publicado por D_Quixote em 01:11 AM | Comentários (3)

julho 04, 2004

Doce Criatura

Doce criatura,
Que de saudade e magia
Banha a minha vida
como o mar quieto acariciando a costa,
enquanto observo a lua e deixo à areia a iniciativa.

Elegante e distinta criatura,
Que da pele sonho transpira
E dos dedos faz nascer as cores
Com as quais pinta a nossa aventura
Sob um perceito de feliz conjuntura.

Rara e límpida criatura,
Que de paixão e ternura
Adorna a sua andança
E de ingenuidade e sabedoria
Ilumina uma incerteza obscura.

Ardente e constante
Esta criatura é única como o sol,
Que de energia enche o universo
E sobre a terra a vida permite
Triunfar agora.

É como uma estrela esta criatura,
Que de luz própria brilha
e de amor rescalda
toda a forma de matéria...porque
É apenas a sua natureza!

Que seria do amor sem o seu objecto?
Que seria da terra sem o seu sol?
E diz-me,
Como pode uma pérola
Deixar de ser
Envolvida e beijada por luz?

Eu estarei aqui outra vez, a escutar as tuas histórias,
Escavando tocas
Na minha memória,
Para conservar todas as tuas palavras.

Torna a abraçar-me
Minha radiante criatura,
Assim acaba esta subtil tortura,
Feita de rumorosos silêncios
E de passivos envolvimentos
Quando a minha mente não pede
Outra coisa senão estar à tua procura.


de Elia Valentini


(se puderam reparar, estes foram dois poemas de amor trocados entre duas pessoas que se amam... e não há nada melhor nesta vida que o amor retribuido, isso só por si, é poesia...)

On one knee, only for you... by Jose da Silva

Publicado por D_Quixote em 11:34 PM | Comentários (1)

Elia

Podia perder todos os sentidos em ti....
No doce e envolvente som da tua voz...
No brilho dos teus peixes verdes
Quando sinto as tuas mãos desejarem o meu corpo
A tua boca inundar-me com os segredos do que os nossos corpos juntos poderiam fazer...
Tudo o resto fica para trás,
Tudo o resto se perde...
E eu também,
Em ti,
Em nós...
Trouxeste a Primavera de volta ao meu coração

de Someia Umarji

(um novo talento a descobrir no café)

Romance by Peter Aczel

Publicado por D_Quixote em 01:12 AM | Comentários (2)

julho 02, 2004

uma poetisa que parte...

Poema

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

de Sophia de Mello Breyner Andresen

(hoje a poesia portuguesa ficou mais pobre, aqui fica o meu tributo a essa grande senhora)

Publicado por D_Quixote em 11:54 PM | Comentários (10)

Epilepsia - 2º Encontro (Sabado)

Quero lembrar todos os amigos e amigas, leitores do Poetry Café, que é já este sabado o segundo encontro de Epilepsia.


Sabe o que é a epilepsia? Junte-se a nós e venha saber mais!


Depois do enorme exito que foi o primeiro, estou ansioso por ver como vai decorrer o segundo. Espero que a todos a quem esta mensagem interesse, que não deixem de aparecer. Que participem, que tirem dúvidas, que partilhem experiências...

Seja como for, aos que forem, vemo-nos por lá.
E um grande abraço a vocês todos.


Porque ajudar o próximo é a poesia das nossas vidas.

Publicado por D_Quixote em 12:40 AM | Comentários (4)

julho 01, 2004

Frio d'alma

Um grito era suposto ser a ave
que voa do meu corpo ao relativo
e lança num sufoco apelativo
as asas à abertura de um sentido.

Brami um prolixo nebuloso
sonoro aspecto informe e contradito,
tremi um frio d'alma inexistente
ao teu olhar, mas não à minha essência.

Só não te digo tudo em que acredito.

Também eu procuro o meu segredo.
Também eu procuro e não desvendo.

Até que a noite caia a luz é quente
e vaga só a incógnita transparente
na qual o sol se põe mas não se rende.


de Bruno Amaral

(já uma certeza por estes lados)

Alone 2 by Adam Kimmerly

Publicado por D_Quixote em 12:12 AM | Comentários (5)