Na casa velha, as paredes de cal
Onde é guardada a história da família,
Presunto fumado cheio de sal,
As manhãs de Inverno com chá de tília.
O lar que envelhece apartar o mal
Esquece guardando toda a quezília,
Juntam-se todos só em funeral
Choram copiosamente na vigília.
Naquela casa de campo eu cresci;
No meio do milho e meio da vinha,
Brincando na seara e na desfolhada
E não me esqueço hoje que cresci
Esta bonita história que é a minha
Da casa d'Avó p'ra sempre lembrada!
João Natal
11/10/2004
Já previamente aqui...

Pensamentos de António Dimas
Começou a caça. Sou uma presa fácil que não resiste às tuas investidas de predador. Abocanhas-me um seio e eu imploro mais desse prazer que me eleva aos extremos da loucura. O meu coração bate cada vez mais depressa a um ritmo galopante. A euforia do teu olhar fulmina-me a alma em chamas. As tuas grotescas mãos reanimam-me a pele; os poros abertos sugam o teu desejo animalesco. As faíscas do choque dos nossos corpos incendeiam toda uma atmosfera perversa e ao mesmo tempo púdica. Imploro-te mais e mais desse prazer infinito, nunca antes sentido, nunca antes imaginado. Grunho como um animal selvagem e irracional no cio; deliro com o que fazemos... Cada vez mais ofegantes, penetras-me instintiva e profundamente; nesse momento o vácuo apodera-se da minha mente onde os pensamentos não têm lugar; nada existe, apenas o tesão que nos queima e que nos une. Somos um só corpo, um só espírito, um só ser... Atingimos a perfeição na explosão de um orgasmo inesquecível.
de Teresa Sousa
(um texto quentissimo para começar de forma tórrida esta semana de frio... sensualidade ao rubro não concordam?)

NU_000018 by Michael Ezra
Pode a palavra reter a imensidão contígua
de uma coluna de sombras
O espírito não se revolta nem prova
o toque áureo da existência,
assiste ao desgaste de um corpo bruto
que ganha forma sob a força de um cinzel de tempo
Pode essa ponte que se lança contra a matriz de silêncio
ser, ela própria, o abismo que atravessa
Sem boca ou mão que transvasem
a força oculta na matéria
que subtrai à distância a separação que oferece,
numa esfera em que cada ponto é um centro
sem entrever circunferências
Pode o canto de um pássaro
reter no seu encanto a origem de todas as vozes
que na palavra una procuram
a reminiscência de todos os sentidos
de Bruno Amaral

Shadow 2 (or Hand-writing) by Ben Goossens
Há muitas coisas de que não me lembro já. Palavras e pequenos nadas.
Mas lembro-me da luz. A luz do sol a entrar pelas frinchas da cortina fazia a sala quente. A luz era dourada na cara dele, na pele dele, até era dourada nos olhos verdes dele.
E a toda a volta a luz era vermelha, não vermelho-sangue, vermelho-luz.
Consigo ver agora a sala que não existia à nossa volta, só a luz vermelha dourada e um sorriso aberto para mim, um sorriso com os olhos, com os lábios, com o respirar. Um sorriso como o meu, um sorriso-reflexo porque era também o meu.
Não me lembro que horas eram, mas era uma tarde brilhante de sol, havia tanto sol naquela sala.
Agora não há nada.
Nunca houve, sonhei aquela tarde toda e a outra e a manhã também. Sonhei que acordava de madrugada e lhe ouvia a voz, a chamar por mim, a dizer tenho saudades tuas Inês muitas mesmo.
Mas sonhei e os sonhos não existem a não ser na nossa cabeça, à noite, quando não se vê de olhos abertos.
Sonhei e quem me dera não acordar.
de Ninian Ninian
(mas que grande estreia tem esta poetisa aqui...)

RED DREAMS by Yuri Bonder
Deambula Hamlet nobre príncipe
pelas nossas avenidas guturais
e reflecte intimamente
sobre as presentes
pérolas civilizacionais
Questiona o desejo,
o ter e as aparências
e as novas facetas rituais,
a aragem, a etiqueta e os milhões
dos nossos actores tão geniais
Fleumático e irónico interioriza
os caprichos dos modernos estadistas
e delapida então a sua retórica jovial,
e sobre a realeza compõe enfim
um drama um tanto ou quanto sobrenatural
Repousa Hamlet nobre príncipe
pois tão ténue é a faina actual
quanto a dos predecessores
e para quê de novo questionar
a razão dos nossos novos horrores
de Nancy Brown
Ser ou não ser... eis a questão...

Hamlet by Dali
o crepúsculo é o espelho da aurora.
a flor tem um riso simples na gota de água
que permanece na corola aberta ao beijo.
assobios de vento na frágil claridade
lavam os olhos nas pétalas de fogo;
consomem as cinzas do outro lado da página.
de José Félix

media.... by Elena Getzieh
Que encanto tem seu beijo
Que me traz tanto desejo
De te beijar mais e mais
E não me cansar jamais?
Que encanto tem seu olhar
Que me deixa hipnotizar
E a ti pronunciar
Que não quero te deixar?
Que encanto tem seu abraço
Que me deixa desconcertado
Quando, envolto em abraços,
Perco-me em seus laços?
Que encanto tem você
Que me faz sempre te querer
E a ti entregar
Todo o Amor que tenho pra te dar?
Meu Amor, Eu Te Amo!
À Cibele Neves
de Marcus Vinicius Costa Almeida Junior
(e de lados opostos deste oceano que tanto nos inspira unem-se a sensibilidade do Marcus com o talento da bubuletinha neste post de hoje... um café quentinho a ambos)

Drive by bubuletinha
Chega um certo momento e a noticia entra no corpo, assim pão de jornal na barriga do mundo. Ouviu-se da boca do agoiro que naquela rua se tinha praticado um crime. A vítima era uma mulher de feições gregas. Fora ela violada com tanta brutalidade que o sol acordava em dores de nunca mais desejar nascer. No mesmo dia outra mulher olhava as nuvens... que terrível crime! Mas aquilo que acontece quando o gume da ignorância está afiado é uma perdição aos caminhos da natureza. O pastor evangélico apontou o dedo na direcção dos órgãos genitais dos membros da sua igreja, enquanto ele aponta o dedo os fiéis são atingidos por uma culpa no meio das pernas. Digo-vos eu que o corpo na sua essência não tem pecado a não ser a mentira que lhe deitam.
A noite está um forno, a mulher olha as nuvens e vai folheando as folhas do livro guardadas há muito nas gavetas do pensamento secreto. A mulher que foi violada, a que tinha as feições gregas, alem de ter a pele queimada, havia vestígios de sémen nos olhos. A frio ainda se fala do crime, uns e outros num jogo de adivinhar um culpado elaboram suas investigações, o velho do saxofone atribui á causa do crime uma desafinação hormonal. A tal desafinação hormonal é uma bomba filha de uma grande puta. Afinal quem matou a mulher? Tudo tem de ficar registado: a quantidade de álcool no sangue, o sexo, a idade, se era velho, se novo, se tomava café com açúcar ou se costumava pôr sacarina?!
O inspector que está a tomar conta deste caso é um tipo forte que quando anda arrasta os pés, tem um sotaque nórdico e um modo afável. Agora anda interrogando os moradores daquela rua, a dona Alzira a mulher da fruta não sabendo nada dá ares de saber tudo.
- Cá para mim o culpado é o Garcia da novela mexicana. Insistia ela.
de Lobo
(mais um capitulo deste conto fantástico)

..wandering.. by Lars Raun
Como já foi escrito nas páginas anteriores o movimento surrealista foi inaugurado em 1924 na cidade de Paris. Neste momento o relógio da torre marca as 11, num dos muitos exames efectuados ao corpo da vítima sabe-se que o autor do crime se deitou sobre ela assim uma vírgula no corpo da palavra. As autoridades pensam que há mão surrealista por detrás do crime e embora não havendo culpa formada foram detidos os seguintes suspeitos:
O poeta Alexandre que na hora de ser detido exaltava as qualidades do cherne peixe incluído na dieta dos pedreiros e outros conhecidos trolhas, tem ele, este poema traduzido em ucraniano, croata e checo. O Sem Pernas, cauteleiro de profissão é no entender do Ministério Público um disfarçado surrealista por conseguir jogar futebol e ter uma capacidade de corrida que ultrapassa a velocidade do pensamento. António Magia professor de música apanhado com a boca no meio das pernas de uma clave de sol. Foram pois presentes a tribunal os três surrealistas, assim chamados também por andarem a surrar sobrevivências. Estes três que por terem um aspecto de Deus nosso senhor Jesus Cristo formato calendário das barbearias, aos olhos do povo tinham que levar o selo de criminosos violadores. O autor desta história sabe quem foi o homem que matou a mulher que foi encontrada com sémen nos olhos.
Antes há que explicar porque é que o criador resolveu contratar um polícia gordo para guardar as portas do céu, escutemos o seguinte diálogo.
- Pedro tens que fazer alguma coisa!
- Fazer alguma coisa senhor, veja a minha idade não posso sair, o frio ia me fazer mal aos ossos.
- Olha por uns tempos alguém vai ocupar o teu lugar e tu vai pescar, olha vai pescar bacalhau.
Pedro foi pescar e Deus contratou temporariamente um polícia gordo para guardar as portas do céu. Avançando na história o verdadeiro assassino era o policia gordo que com o espirito das duas narinas guardava as portas do além e fazia descer ao mesmo tempo o corpo á terra onde se saciava de sangue e lúxuria. Gostaríamos de saber o que é que teria passado pela cabeça do Criador ao contratar um polícia gordo, recrutado numa das mais baratas empresas de segurança. É verdade que um polícia merece a confiança do povo e se o Criador o escolheu de olhos fechados mesmo sofrendo de miopia na mão direita é porque sabia o que estava a fazer. Descendo à terra na rua das lágrimas com chuva o realista tem uma nova teoria sobre a crença em Deus: acreditam em Deus todos os pobres que admitindo todas as pobrezas não conseguem aceitar a pior de todas, a solidão. Quando são apanhados em flagrante nostalgia atiram-nos á cara que Deus está sempre com eles. O algibeira descosida o místico da rua disse assim: - Deus está sempre comigo, está quando estou com a mulher e lhe faço filhos e com os filhos quando atiram as minhas dúvidas ao tapete. Enquanto aqui na rua o realista e o algibeira descosida defendem teorias diferentes sobre a existência ou não de Deus o criador que tudo vê e que tudo sabe mas que para cúmulo dos cúmulos não sabe aquilo que se passa na sua casa que é o céu lugar alugado aos anjos e aos pássaros em turismo. Se não sabe o que se passa na sua casa, não deve estar informado que tem uma nova inquilina, a mulher morta com sémen nos olhos.
Ora acontece que o polícia gordo esse que durante uns meses de eternidade guardou as portas do céu até ao regresso de Pedro o pescador, ele que tinha a chave dos enigmas e fazia acender a luz dos astros, resolveu o polícia confessar o crime que havia praticado. Estava ele vestido de corpo invisível quando entrou na casa de banho de um café e trocou a vestimenta invisível por uma roupa olhos de ver. Atravessava ele na passadeira quando reconheceu pelo andar o inspector que arrastava os pés. Logo ali se ajoelhou segurando as calças do inspector, este perguntou se ele tinha a tensão baixa? O outro respondeu que era um criminoso e que tinha violado uma mulher e toda aquela confissão saia a jorros. O inspector olha o homem ajoelhado a seus pés, tem uma expressão de cão danado, a seguir tira do bolso do casaco uma pistola e aponta aos olhos. Grande escuridão! Parece que desligou o interruptor da existência. Foi tudo tão rápido, de um clique a luz do nascimento, depois outro e vem a escuridão da morte. Tu sopraste nas narinas do teu amante, o paraíso está quando tens o amor e quando não o tens armas o teu negócio, um bilhete de ida e volta por essa estrada dentro. O paraíso és tu. Quem te pode expulsar?! Só o engano te atira para fora do teu lugar conquistado.
É já este Sabado, dia 20 às 14:30, o 3º Encontro promovido pela Liga Portuguesa Contra a Epilepsia e pelo Epicentro.
O temas a debater são "A Epilepsia - Causas, diagnóstico e tratamentos" e "A Epilepsia - Grupos de Ajuda Mútua", sendo esta uma reedição do primeiro encontro realizado no Porto.
Desta vez o local escolhido é o auditório do Hospital São Gonçalo em Amarante.
O encontro contará com a presença de médicos especialistas, técnicos competentes, elementos do núcleo do Epicentro-Porto e ainda com os testemunhos preciosos de quem mais sofre com esta doença, os próprios doentes. E espero que também poder contar com a vossa presença.
Esta não é uma doença marginal ou de pouca expressão, pelo que apelo e agradeço a todos a vossa colaboração. Seja com a vossa presença, seja com a simples divulgação.
O meu reiterado obrigado, um abraço e continuação de uma boa noite...

Aqui... onde o fogo da boa escrita nunca pára...

um beijinho de agradecimento Encandescente
Tira uma última passa nesse cigarro
velho marujo, lobo-do-mar.
A faina aguarda no mar revolto
onde solto procuras pescar
sempre envolto na fé de voltar.
Abotoa o casaco até cima
que a brisa matinal gela.
Sopro do mar, aquela mulher bela
que no abraço ciumento,
do seu quebrar violento,
te diz serena que tu és dela.
Em terra fica o pranto,
nos trajes negros de quem espera
na saudade voraz que aperta.
A vida dura de vida incerta
de quem no mar tem a sua quimera.
Tira uma última passa nesse cigarro
sem precipitação ou pressa.
Porque essa pode ser a tua última passa.
Que o mar sozinho decide quem regressa
e nem mesmo a Deus ele confessa
aqueles que leva quando o mar os abraça.
de João Natal

,, by choi chulan
Claro que sim amor,
estarei um destes dias junto de uma paragem à tua espera
com um chocolate quente
porque eu hei-de saber a hora certa da tua chegada.
A vontade que terás de me abraçar já a tenho em mim
um cerco no tempo do beijo para que a minha língua te leve ao cinema
é isso que eu hoje quero um amor igual à bola de Berlin
acabada de sair do forno para eu soprar
não conheço a cidade mas amarei cada dentada que lhe deres
gosto dos teus dentes Sara
ninguém precisa saber o teu verdadeiro nome
se é que ele existe quando temos fome
os homens brancos lembras-te?
A entornarem água na farinha, ovos e açúcar
um amor desses feito à mão, era assim que eu queria
As pás enormes resgatavam um pão tão bonito
Nós vamos estar lá na madrugada, não vamos?
Eu acredito que sim.
de Miguel Patrício
(0 desejado regresso em grande deste maravilhoso poeta que "já é da casa")

Berlin by Juergen Stumpe
"A mentira é a pérfida ilusão da falsidade"
de Teresa Sousa
10/12/98

Untitled by Jörg Gründler
Como garranos num prado
como crianças no recreio
sem culpa sem pecado
sem decoro nem asseio
como cometas lustrosos
numa overdose de luz
como dois cristos formosos
juntos e ao vivo na cruz
fomos amantes sem freio
na curva dos dias
derrapando sem receio
na triste curva dos dias
como um poente na praia
em queda livre de Outono
como o dançarino da noite
cheio de fumo a de sono
como o sonho adolescente
que embate no mar real
ao ver a paixão ardente
perder-se no areal
fomos amantes sem freio
na curva dos dias
derrapando sem receio
na triste curva dos dias
como o acto teatral
da peça que tudo diz
um Shakespeare total
onde ninguém fica infeliz
porque o amor se cansou
acabar é então o preço
só a tragédia é bonita
só ela traz outro começo
fomos amantes sem freio
na curva dos dias
derrapando sem receio
na triste curva dos dias
de Carlos Tê

**.** by Piotr Kowalik
Sentir-te tão junto a mim
Na fragilidade dos segundos
Que antecedem tudo ou
coisa nenhuma...
Sentir o calor do teu corpo
Antes ainda de o tocar
Vibrar com o toque eminente
que ainda não o é...
E perder-me, finalmente,
Nos segredos da tua pele...
Ao Francisco
de Joana Guimarães
(uma bela estreia desta poetisa... espero ver mais poesia tua Joana)

Untitled by Yuri Bonder
Parecia ficção cientifica comentava ele. O rapaz que desenhava como as crianças, que injectava nas veias a morte, essa que parece ter um sorriso feliz, sabia que o criador tanto existe na folha de um papiro, como no interior de uma velha lagarta de guerra. Exista ele ou não ficamos agradecidos á terra por nos dar uma certa dose de luz e uma certa dose de escuridão, essa escuridão íntima desenhada em lençóis de linho. Aqueles que dormem no frio das pedras, que nos últimos dias bebem o caldo de galinha no hospital público não conseguem chorar , nem sorrir, nem sabem explicar as dores que tem. O realista andou a circular pelo mundo, viu os gordos do império e os magros que a ele se submetem. A moral e a Ética não existem, existe o corredor da morte, uma grande nação terrorista e uma grande besta a trabalhar nos jornais, nas televisões, nas rádios... esta nação é uma ideia vazia. Mas o melhor é pegar uma flor, ela não é uma ideia vazia, ela cheira o perfume dos homens. Na gruta dos comboios anda um temporal, é uma peste que já dura á vários dias, alguém se vai lembrar de que há uma intenção terrorista no criador das coisas ou na natureza. Seja o criador das coisas ou seja lá quem for parece que anda por ai uma coisa que faz desacertar os relógios do mundo. Que absurdo comparar o criador a um fabricante de relógios. Este comentário foi proferido por um pastor evangélico que anunciava a salvação como se Deus tivesse andado pelo mundo a apregoar detergentes.
- Como se chama.
- Pastor Lucas.
- De onde é?
- Estados unidos.
- Já adivinhava que havia em si algo estranho!
- Estranho?!
Um misto de comédia com náusea. O pastor faz um sorriso e sai caminhando na direcção da sua igreja. Cai a noite, oiço o tilintar das moedas, há uma percussão de misérias a bater na saia da cigana romena e no chapéu do velho que toca saxofone. O velho que padece de reumático antes de ser músico da rua era professor numa escola do interior.
- Esta praga já cá anda desde que era professor
- Anda por aí um veneno. Diz o caixeiro-viajante.
- E que coisa é essa? Pergunta o sem pernas, o cauteleiro que costuma circular naquela rua.
- Obesidade mórbida.
- Pode ser coisa do diabo. Sugere o pastor.
- Continuo na Minha, você é um gajo estranho, o diabo a causa da obesidade, o inferno deve ser pegajoso como mousse de chocolate. Ironiza o realista.
Entretanto no gabinete do presidente toca o telefone:
- Aqui a brigada xl
- Do que é que trata?
- Bombas e assalto á mão armada.
- Deve ser engano!
- Nós nunca nos enganamos, a brigada xl é mais perfeita que uma linha recta.
- Mas eu sou o presidente;
- Serve, um tiro certeiro e temos um presidente em linha recta.
- Vou desligar.
- Tome os comprimidos para o coração
- Todos os presidentes que estão nos nossos ficheiros sofrem desse mal.
Durante a madrugada dois homens de espingarda ao ombro andam de um lado para o outro. Perto da janela há um homem amarrado a uma cadeira. Aproxima-se dele um dos homens.
- Quer um cigarro?
- Não fumo.
- Não te queres contaminar! Sabes que se eu te der um tiro ficas contaminado para todo o sempre?!
- Amem diz o outro homem. A seguir dá-lhe um pontapé na boca.
- Estás a ver o gajo?!
- Dá-lhe um tiro!
- Posso? O outro carrega no gatilho.
- Deixa-me contar quantos buracos lhe fizeste no corpo?
- Achas que consegue lá poisar uma borboleta.
- Talvez.
de Lobo
(e a saga continua...)

Death by Marino Thorlacius
......Depressa me canso de mim.
Olho à minha volta e só vejo recordações. Uma terna claridade (ou será obscuridade?) invade o meu quarto e me rodeia de mansinho. Já reparei várias vezes: vem sempre acompanhada do silêncio! Nunca soube o porquê de tal evento. É uma luz difusa, lenta, como que surgindo a medo e com ela, um opaco silêncio; algo que nada traz a não ser paz. Mas trazê-la já é bom. E é nesses momentos que me sinto só. E sabem porquê? Porque não tenho com quem partilhar esse momento! Algo que sempre desejei fazer um dia na minha vida: partilhar a minha solidão. Dizer a alguém: “Vês? Estás a ouvir? A minha solidão está aqui, é isto que vive aqui comigo. Entendes?” Mas nunca consegui e nunca o consegui porque nos momentos em que a solidão me visita eu nunca estou acompanhado; engano, estar acompanhado estou mas apenas de mim mesmo e dessa luz e desse silêncio. Já somos três. Estendo-me então no leito dessa luz (ou será escuridão?) e deixo-me levar pelo barulho do silêncio que me invade. Nunca é tarde para experimentar novas sensações, só que esta é já demasiadamente minha conhecida e então apenas nos olhamos e nos aceitamos mutuamente. Nada mais fazemos senão partilhar aquele momento, uma partilha a três numa solidão solitária de um só. Estendido nela e com o silêncio deitado a meu lado, olhamos o tecto que lentamente se separa de nós em tons de cinzentos cada vez mais escuros; passo os braços pelo silêncio e aperto-o de encontro ao meu peito. Sinto o seu respirar lento e compassado; é um som simpático, eu sei, mas ao mesmo tempo ousado na medida em que invade o som do bater do meu coração; e o silêncio deixa de ser silêncio para ser um baque surdo ritmado aqui, ao meu lado, deitado. No entanto, continuo abraçado a ele e ele sente-se bem porque acarinhado. É um abraço puro mas forte; ingénuo mas apaixonado. É apenas um abraço de silêncio compartilhado num leito de claridade a escurecer em lentos tons que tem o anoitecer. Porém, já quando o tecto se separa de nós e nos abandona entregues que ficámos à luz das trevas que entretanto nos envolveram, o silêncio se aperta contra mim e me possui. Penetra-me fundo e a respiração torna-se ofegante, sufocante.
O que até então era um prazer compartilhado passa a ser dor e algo que corrompe. Penetra-me cada vez mais fundo e a dor aumenta. O bater e o som do meu coração ultrapassa o silêncio que entretanto se esvai num orgasmo de sons delirantes de espasmos gigantes que se avolumam dentro de mim. O tecto já não existe, a obscuridade ainda persiste com mais intensidade. É um estar sem vida, sem morte e sem idade. Apenas habita em mim numa eterna cumplicidade. Respiro o espaço que me rodeia. E a escuridão cai sobre tudo e me envolve como uma teia. Já tenho mais uma companhia. O doce sono vem de mansinho amparar meu corpo e cobre-o com carinho. Adormeço lento, extenuado de tanta amargura, numa vã procura do próximo amanhecer que de novo me vai trazer o fim de tarde, neste terno ciclo de amor e ódio em que espero pela eternidade.
(normalmente são as pessoas que me enviam poemas e textos para serem editados, mas ao ler este gostei tanto que fiz questão de o trazer para aqui, com a devida autorização do seu autor)

The vision of HOPE by Ilona Wellmann
O jardim,
cheirando a hortênsias
e Margaridas abandonadas.
O mar,
brincando na toalha
e nas pernas elegantes
das raparigas.
O sol,
acariciando a pele
e incitando
à fluidez efémera
de uma entrega.
A terra,
contente e verdejante
nas sementes sazonais
e os pés dos miúdos
cobertos de pó
nas raízes do tempo.
A felicidade
prostrada à janela
e cuidando silenciosamente
das suas personagens.
de Nancy Brown
(mais um poema que é uma viagem desta nossa amiga que regressa...)

Shortly before the storm by Yiannis G.
Parabéns pequena princesa e um feliz dia de aniversário!!!
Sei que vagueei tantas vezes perdido
Longe de ti p’lo caminho errado.
Mas foi sempre amor ao teu doce lado
Que encontrei na vida todo o sentido.
E hoje sinto-me feliz e querido
E no teu quente abraço tão amado,
Porque mais do que ser teu namorado
Sou cúmplice no teu rumo escolhido.
O teu sorriso lindo de criança,
Esse teu belo olhar verde curioso
É tudo o que na vida sempre quis.
E em nós eu tenho toda esta esperança
Porque no teu abraço carinhoso
Sou menino pequenino e feliz.
de João Natal (Nuno Branco)

(a minha pequena flor e musa)
Era uma tarde, como outra qualquer tarde de Outono. Fria, mas luminosa. Igual, mas curiosamente invulgar. Sentiu-a mal acordou.
A noite passada, estranhamente esquecida durante as primeiras horas do dia, voltava agora com a força de um segredo que nunca deve ser contado, que nunca deve ser lembrado. Afinal, aconteceu.
Tinha saído sozinha, para beber um copo no sítio de sempre. “Com certeza vou encontrar alguém conhecido”, disse para o espelho do elevador. Mas, o caminho que tomou levou-a para longe de tudo o que conhecia. Estava frio. Eventualmente teria que voltar para trás ou entrar em algum lado. Decidiu continuar.
O rio, tão familiar, lembrava-lhe as tardes de Verão passadas descalça, na pedra aquecida pelo sol do paredão. Nunca sentia saudades desses momentos, porque achava que ao senti-las, os iria querer voltar a viver, e ela tinha há muito deixado de querer viver fosse o que fosse.
Começou a chover. Deu uma corrida e entrou na primeira porta aberta que encontrou. O ar estava abafado e húmido. No palco pequeno, uma banda tocava uma qualquer música de jazz para meia dúzia de pessoas. Sentou-se, pediu uma bebida ao empregado e tentou prestar atenção à música. “Conheço-a de algum lado”, pensou. Ficou mais uma hora. Quando saiu, apercebeu-se que estava totalmente sozinha. Não há duas ou três horas, mas há anos.
Voltou a casa pelo mesmo caminho que tinha feito. A noite fria, sem lua, aguçou-lhe os sentidos. Lembrou-se da última vez que tinham feito amor. Ele, sempre tão cuidadoso, tinha-a possuído ali mesmo, num banco de pedra, junto ao rio. Ela pressentiu a diferença. Mas ignorou-a.
Ao entrar em casa, sentiu pela primeira vez que o perdoava. Olhou para o relógio, três e meia. “Vou ligar na mesma”…
Era uma tarde, como outra qualquer tarde de Outono.
Invulgar, porque pela primeira vez em dois anos estava leve. Nunca mais se sentiria sozinha.
Tinha-se reencontrado…
Estela Ribeiro
(um texto repleto de intensidade da primeira à última linha... bravo!!!)

Fugindo da luz.. by Ricardo Faria
E porque o Poetry também tem outras preocupações para além da poesia, aqui fica este alerta a pedido do amigo Golfinho!
Repassem a mensagem!!!

Mas...
que se passa aqui? Porque estão esses copos vazios?
Porque é que estão por aqui fora quando a festa louca da música dos anos oitenta continua neste sitio???


Toca a entrar já e a abanar o capacete!!!
A música está no ar, a pista de dança está quente e a companhia é sempre boa...
Espero por vocês lá!!!

as minhas mãos gretadas são
testemunhas do frio. e toco-te
na face como sonhando o
impossível. transformo-me
testemunhando a injustiça de
ser. infiltro-me no teu olhar,
na complacência suave de
um vaso que recebe
um punhado de vazio. o que
nascerá do nada? o que
florescerá de mim? a sucessão
que sugere a sobreposição de
espaços, as rugas na tua face,
os fantasmas de delírio e as
minhas mãos gretadas, as
testemunhas do frio.
de Bruno Amaral
(um bom regresso da tua poesia a este espaço amigo!)

Fragile by Abdul Kadir Audah
Amá-la
ainda que com pequenas mãos
contudo, tão àvidas
diriam-se prenhes
dos derradeiros ventos solares e da tonalidade murcha dum Outono casual
em segredo confesso
sou ainda o albergue do último arco iris da nossa vida
amordaçado em ti meu amor
num clima de suspeição
vive-se num contínuo acto pio de repulsa
os primeiros anos dos que ainda restam por eclodir.
Não te mereço, não voltes mais
não me faças assim emergir deste casulo
qual ser alado
estropiado
no rastro húmido das tuas lágrimas.
de Renaldo Ventura
(um regresso em grande deste poeta que já tinha brilhado por cá)

+++ by Jörg Gründler
A eternidade é o momento que o criador dos céus e da terra transformou no jogo da sua solidão pessoal. Como pode ser possível o criador guardar a solidão das suas criaturas nos cinco dedos da sua mão humana?!
O realista conhecido nesta rua como o mais convicto dos materialistas não acredita na eternidade. Ás mesas serve-se o pão duro e o vinho azedo; assim é a guerra; uma terra vermelha e um céu azul de fazer cair os olhos no filme trémulo da paisagem. O realista não acredita que haja um espirito a mexer as águas, nem crê num criador capaz de fazer fenómenos. No fim desta rua há um polícia gordo que guarda as portas do céu. Por guardar a rua, não pode estar ás portas do céu. Entre as portas do céu e as portas da morte fica uma lavandaria, própria para a lavagem das palavras sujas. O realista o que defende a teoria da não existência de Deus pergunta a todas as criaturas presentes na assembleia se alguém viu olhos nos olhos o ultimo silêncio das criaturas? Ninguém ou quase ninguém, soube responder; houve um rapaz surdo-mudo que na linguagem gestual contou que quem criou o mundo o fez fugindo á palavra, tinha que optar entre o poder da criação e o desgaste da linguagem. Como nesta rua existem crentes em Deus, ouvimos que ele fez os montes e os vales, os vales pareciam sinais de pontuação costumava dizer o senhor João professor de português crente em Deus. A Rosalinda conhecida por gorda e apelidada também por “serviços secretos” diz que a gramática é assunto do diabo. Ela diz existir a gramática das tentações.
São seis da tarde hora de ponta, o rapaz negro pinta de vários tons a gruta dos comboios, ele tem o estilo inconfundível das crianças e não é por fazer deste modo que tem de aguentar o desprezo de um qualquer natureza morta, esses que passam arrogantes, sem cheiro de imaginação! Merecem eles o gozo de seus cães e de seus gatos e das pulgas que pulam no colchão dos enfermos. Enquanto as pulgas saltam, o avião cai a pique no meio do urinol, não sei se isto vem descrito no livro de fiados ou no manifesto surrealista publicado na cidade de Paris em 1924.
Ando a passear no jardim público, por lá há uma estátua que guarda todas as dores, todos os velhos mendigos urinam seus litros de vinho e cerveja e num repuxo acertam na boca aberta do ilustre. A estátua que guarda todas as dores, lembra-me a minha velha máquina fotográfica capaz de esconder a idade dos homens e revelar as rugas na pele dos dinossauros. O realista, homem da ciência e do cálculo pensa que o calor do ouro pode mudar a natureza e deturpar a verdade exacta das coisas. Não é garantido que o ministério da poesia e dos malabarismos tenha sido inaugurado. O carteiro entregou os convites na residência oficial do Dr. Jorge enjaulado nos seus deveres de presidente da selva pátria. O presidente espreitou da janela e condecorou o pára-quedista com a grande lágrima do crocodilo cobarde. O realista diz que o crocodilo cobarde não existe, opinião diferente tem o algibeira descosida o alfaiate desta rua e guardador de rebanhos quando criança. Discutiram eles sobre o crocodilo cobarde e foram dar á criação do universo e no meio veio á recordação aquele garoto tão cheio de sol que desejara com muita força ter uma nuvem para levar na mão no caminho da escola. Na sua inocente distracção foi apanhado pelas rodas de um carro de bois e morreu. Enquanto eles discutiam e no meio metiam os carros de bois com as nuvens e a morte de um rapaz cheio de sol o mundo fazia as suas armadilhas.
Esta expressão escutei-a de um jovem Marroquino a quem as musas lhe haviam dado o poder de negociar com o profeta a venda de alcatifas para a decoração do paraíso. Penso eu que as alcatifas levantam pó e com o bater das asas dos pássaros muitos problemas respiratórios podem acontecer. O realista a propósito do bater de asas que levantam pó lembra a vinda do rei envolto numa cápsula de nevoeiro.
de Lobo
(e a saga deste autor continua... por aqui com um café quentinho enquanto chove lá fora!)

Dreams about by Vladimir Lestrovoy
O lugarejo jazia há longo tempo na profunda terra-de-ninguém. A lua. Cheia de luz obscura cinzenta esquecida. E o frio. Demasiado. Adormece o pensamento. Movimentos curtos e apenas os essenciais. A única luz artificial vencia intermitente a névoa rasante. Vermelha. Alternava. O brilho ténue com a escuridão total permitida pela lua.
Foi aí que parou vindo de lado nenhum a caminho de um algures indistinto. Demorou-se à porta. Um olhar sedutor mostrou-lhe a entrada. Calor. Música. Luz. Perfeito. Já havia sonhado com aquele lugar. A companhia ocasional ofereceu-se champanhe. Breve circunstância de conversa. Um cigarro apressado completa o prazer fugaz. Mal apagado no cinzeiro meio cheio de muitos mais que não dele. Um boa noite até amanhã fingido porque amanhã já nem sei quem és. Respiração fora de ritmo vence mais uns metros de estrada.
A boleia tarda como tarde é a noite que se esquece de dar lugar ao dia. Subitamente olha o pulso e o relógio esquecido na pressa da saída. Ofegantes passos invertem o caminho e voltam à luz intermitente. Nós gelados dos dedos soam secos na madeira envelhecida quase podre. À ausência de resposta pede licença a ninguém e abre a porta apenas encostada. A luz é agora breu, o calor frio e a música silêncio ensurdecedor. Só um último fósforo aceso deixa ver os sinais de abandono quase eterno. Nada mais existe o lugar é vazio.
No entanto, algo parece brilhar no mais escuro dos negros. O relógio desaparecido marca ainda a mesma hora. Foge de imediato evitando pensar. Empresta à estrada o som preocupado do seu correr fugitivo. Eis que acaba a estrada e começa um portão não desconhecido. R.I.P. são as inicias feitas de ferro forjado imperfeito iluminado pela lua cheia. Para trás não ousa voltar. Segue então em frente e entra. A névoa cerra mais rasante o possível que permite a solenidade do jardim. Por todo o lado procura uma saída inexistente.
Exausto da busca inútil, senta-se e descansa o momento que o medo observa. Ao olhar em volta, descobre por entre os cinzas escuros daquela noite aquilo que mais temia. Na lápide em frente está gravado o seu nome e incrustada a sua melhor fotografia. E a data é a de ontem.
(mais um texto teu incrivelmente belo e negro ao mesmo tempo, este terá lugar de destaque também no Nox...)

graveyard.... by emil schildt