


Este foi mais um bom ano na vossa companhia amigos, todos vocês que escrevem poemas para o Poetry Café, todos vocês que o visitam, todos vocês que o comentam. Este tornou-se aos poucos não só o meu cantinho mas também o vosso.
Assim aproveito o mote para lançar mais um desafio. Aproveitando uma brilhante ideia sugerida pela Nancy Brown, convido todos os interessados a redigirem um texto, um poema, o que preferirem, sobre o Poetry Café.
Os textos serão exibidos durante as primeiras semanas do ano e será uma maneira original e, sem sombra de dúvida, memorável de começar com o pé direito, este ano de 2005 que espero ser bom e cheio de poesia.
Resta-me desejar a todos um excelente fim de ano e um melhor começo de ano novo... a todos um abraço e os votos de que todos os vossos desejos se realizem.

Correm os nossos corpos,
Urgentes,
Procurando o prazer escondido
Sublime, encontrado, perdido,
Que de nós emana.
Devoram-se os nossos corpos,
Ardentes,
Entregando-se nesse instante fugaz
Absoluto, faminto, voraz
Que em nós se profana.
(era mesmo assim de um poema destes que eu estava a precisar de ler para me recordar do quanto gosto de poesia... um obrigado grande e beijinhos)

RoseBud by Pedro Marques Pereira
Gente virtuosa demais me desagrada.
Prefiro os imperfeitos.
Gosto daqueles que lutam pra não enlouquecer.
Preciso daqueles que têm medo,
e ainda que de pernas bambas, seguem.
Sonho com aqueles que trazem a esperança por um fio.
Aqueles que não sabem rezar.
Aqueles que se perderam de si próprios.
Apaixono-me por aquela gente que traz um olhar perdido,
como quem se prepara para dar adeus.
Necessito de gente cuja boca tenha beijado tantas outras,
que já perdeu as contas.
Não por um simples capricho sexual ou uma promiscuidade sem poesia,
mas por necessidade de mais vida.
Prefiro gente que um dia trepa, no outro fode e no terceiro faz amor.
Gosto de gente que erra tanto, que conseguem ousar sem neura.
Preciso de gente que ama e odeia;
porque de indiferentes o mundo já está cheio.
Vibro com gente que não aceita desrespeito.
Anseio por gente que vai pras ruas,
que toma tapa na cara e não dá a outra face.
Gente que num dia desiste e no outro tem fé.
Amo gente que ama sem se importar com o gênero.
Gente que salva desconhecidos.
Gente que enxerga onde os olhos já não podem ver.
Realmente eu preciso de gente imprecisa.
Porque a imperfeição é perfeita, dentro do que se propõe.
de autor desconhecido
enviado por Antonio Kovalski Junior

Farfalle by Michele Gereon
Estou de joelhos
Odiando-me cada vez mais,
Odiando o que sinto,
Odiando os meus pensamentos...
Estou de joelhos
E chorando...
Lágrimas e mais lágrimas
De uma dor sem fim...
Uma dor que volta a me consumir...
Uma dor que me faz perder as forças
E as pessoas...
Estou de joelhos implorando
A alguém que esteja olhando por mim
Para extinguir essa dor lacinante
Que insiste em existir dentro de mim.
Estou de joelhos...
Sentindo gotas de chuva
Misturando-se com minhas lágrimas...
Meu corpo pesa,
Meu pensamento pesa,
Minha dor é insuportável...
A chuva é desconcertante...
A desilusão comigo mesmo
Deixa-me envergonhado
Do meu próprio reflexo
No espelho...
Meus olhos inchados
Fecham-se ao toque suave
Das gotas de chuva no meu rosto
E no meu corpo...
Já não sei mais quem sou
Ou quem deixei de ser
Ou simplesmente
Quem eu sempre fui...
Estou de joelhos...
Suplicando, chorando,
Doendo, molhando,
Sofrendo, odiando...
Morrendo e morrendo...
Enquanto a chuva banha meu corpo
Inerte e solitário,
Doído e envergonhado...
Arruinado...
Fadado à solidão.
de Marcus Vinicius Costa Almeida Junior
(ajoelhemo-nos perante tanta dor...)

untitled by Rene Asmussen
Ia de noite com o meu amor; era uma estrela do mar que não sabia nem as coisa do mar nem as coisas da noite. Era uma estrela muito ignorante e meiga. Um dia um senhor inquiriu-a sobre assuntos de cultura geral. Ela apenas o acariciou. Ele era um senhor importante, ela uma estrela ignorante e meiga.
Que posso fazer com uma estrela ignorante?! Talvez emprestar-lhe uns livros, levá-la ao cinema, acompanhá-la á ópera. Então certa noite a estrela foi á ópera e com os olhos cansados de ignorância ficou a dormir no colo de uma senhora de idade que tinha bebido chá tília. Ela e a senhora ficaram intimas e meigas e deixaram o homem importante desprezado. Sempre que eu for á ópera podes ficar a dormir comigo, eu conto-te histórias.
Achas que eu vou entender?! Penso que vais sentir e sentindo vais adormecer. A estrela começou a ir mais vezes á ópera e tomou o gosto pelo chá tília, ela até ouvira dizer que o rei Salomão era sábio porque bebia chá tília. O chá torna as pessoas mais comunicativas.
O senhor importante ficou sozinho, ele era um tipo que não tinha bebido chá em pequenino.
de Lobo
(e o talento do amigo Lobo não se fica pela prosa... vejam só...)

Gold by Marina Cano
como leves penas do mais
leve beija-flor
são teus seios
acabados em girassóis
que
ora fecham
ora abrem se
o sol te sorri
e as pintas do teu rosto
[dourado
não são sardas
(não são bem sardas)
e os sinais no teu pescoço
não são bem sinais
é o que resta das
lágrimas de alegria
[amor
que aí deixei
quando te beijei.
de Paulo Fogg, 15OUT03
(mais um belíssimo poema deste nosso amigo...)
Angles and Curves by Light& Shadow
Colhe o fruto, meu amor.
Amadurece os lábios na conversa
da manhã. Há sinais
de sol na boca
quando o aroma é fértil,
e o loendro
deixa sinais de chá
no corpo, o chão
de todos os inícios.
de José Félix
inédito (01.12.2004)
(uma caneca de poesia quente para aquecer a alma...)

Composition With Armenian Pot by pnina evental
Em gestos vejo o teu olhar,
nas vontades o sonhar,
Pregas teus passos
a meus sentimentos,
Carregas em ti todos os meus sofrimentos;
Vives com esse nó na garganta
que não te deixa dizer!
Que não te deixa falar,
nos sentimentos tão singelos,
que tão facilmente poderias expressar!
Tens razão coração mas que hei-de eu fazer ?
Quando a boca se cala, o coração se amarra
nada mais nos resta que esperar!
Sonhar que um dia talvez tenhamos
coragem pra enfrentar o que a vida nos tem pra dar!
Talvez um dia sonhe acordado e te tenha
Simplesmente aqui
unicamente, só a meu lado....
In Bolero Tavares por Agostinho Oliveira Guto
(e nesta quadra natalícia nada melhor do que um singelo poema para exaltar o que de melhor e mais precioso existe em cada um de nós: o Amor...)

This tender moment... by Haleh Bryan

Está já aí o dia da Natal, sendo que esta é, apesar dos momentos dificeis que atravessa o país neste momento, uma época de paz e amor, um tempo de fraternidade.
Em celebração desta quadra bonita que é o Natal, o MP3za tem o prazer de apresentar belas melodias de Natal, músicas que marcam este tempo de altruismo.
Assim, daqui até ao Natal, não percam no MP3za as músicas de Natal em mp3.
Os meus votos antecipados de bom Natal para toda a gente, sobretudo os amigos que vocês já são.

Andamos no nosso passeio, olho dentro dos teus olhos, no vazio deles tenho a sensação que começa a aventura do mundo. Olho dentro dos olhos e parece que vou dentro das casas. Tu és esta incerteza! Depois entrelaço as minhas mãos nos dedos escondidos da rua. Vamos tentar uma fuga, temos de escapar a esta rotina, aos teus pés estendo a estrada, ainda esta tudo como antes, ou quase... voltou à rua a musica do velho António e o pregão do sem pernas o cauteleiro está mais rouco. Olho-te apetece-me outra liberdade, nós ainda continuamos pobres, de uma pobreza que nos mostra como é grande o coração. E nós abrimos os livros e eles são pérolas. Tu gostavas de um pouco de poesia. O realista olha e aponta o dedo como se apontasse uma incerteza. A poesia não paga as contas, não põe gasolina nos automóveis. E logo vem de dentro de mim um poder que eu não sei de onde vem. Olhe! A poesia deixa-me chorar, não quero toda esta matéria, o pó que toda esta aparência levanta. A riqueza deles é uma máscara, ela cai e não há nada que ver, não há rios, nem flores, nem bichos a rastejar. A riqueza deles é uma vida gasta, nós andamos descalços, ricos na nossa liberdade, eles caminham num sapato apertado, andam naquela limitação de um horário, do dever conjugal e dos filhos que embalamos para esquecermos toda a frustração.
de Lobo
(de volta aos grandes textos)

untitled by Szymon Gdowicz
Está um dia mais frio do que habitualmente, a gorda apelidada aqui na rua de serviços secretos espalhou que o inspector andava doente, parece que os médicos tinham diagnosticado um tumor. Alzira deixou cair uma lágrima, o maldito Garcia da novela mexicana é que devia ficar podre; Alzira tinha simpatia pelo inspector, ainda mais por ele ter elogiado a sua receita secreta de bacalhau. Deus criador não fazia ideia que um dia viesse á sua presença um inspector da judiciária. Não sabemos nós a religião dele, nem nada sobre a sua vida pessoal, sabemos que nasceu num País frio, que gostava de bacalhau e por gostar muito de bacalhau, um dia depois de muita eternidade pediu permissão para vestir o fato dos sabores descer á terra e visitar a mulher da fruta. Alzira desejava também ter um encontro com ele, uma vizinha dizia ter comprado uma antena receptora de espíritos coisa que ela podia encontrar na loja asiática. Antes da descida do inspector á terra deram-lhe um holograma formato bacalhau com batatas. O realista sobre este assunto disse que se tratava de uma farsa, não cabia na cabeça de ninguém essa teoria de por os mortos a comer bacalhau com batatas, ele desafiava qualquer um a provar o contrário. Como as mulheres tem o dom de levar o argumento dos homens á água do seu moinho, Deus o criador fez-se mulher e convidou o realista a sentar-se perante as câmaras de televisão e discutirem sobre o assunto. O realista não tomava atenção aos argumentos da dama, passou todo o tempo a olhar-lhe as pernas e acabou por ficar sem resposta. Tinha sido ludibriado por Deus na forma de uma bela mulher. Entre as três da manhã e as quatro da tarde deu-se o encontro entre o inspector e a mulher da fruta.
- Está um lindo dia.
- Vai chover.
- É a vida
- Bacalhau com batatas.
- Era o meu prato preferido.
- Quando comias o meu bacalhau com batatas, babavas-te todo.
- Não ficava bem um espirito aparecer todo babado.
- Queres provar um pouco.
- A que horas vêm o teu marido.
- O meu marido hoje não vem.
- Achas que sou bonita?
- Pareces uma maçã rosada. De repente Deus o criador resolveu desligar este momento, dera-lhe o holograma do bacalhau com batatas, não um Cd-rom de sexo virtual. Enquanto tudo isto se passava chegou á rua das lagrimas com chuva um estrangeiro. O realista e o alfaiate, a algibeira descosida não falando a língua dele metiam-lhe aos lábios o bom vinho de receber e o bom pão de fazer ficar e ainda o discurso: tu falas a tua língua, mas quando provas o nosso bagaço, a nossa comida, quando metes a paisagem na veia dos olhos, nós percebemos que tu não és de outro planeta, as tuas dúvidas são as nossas certezas. Faço agora um parênteses para evocar a memória do senhor inspector, não sendo eu católico mas acreditando piamente na virgem do azeite sugiro que encomendemos uma missa do terceiro dia em virtude do pouco dinheiro, pois esta vida de poeta dá para uns cigarros e para uns comprimidos para a bronquite. A algibeira descosida e o velho musico estavam de acordo em fazer aquela homenagem. O realista embora não fosse crente não se importava em fazer a festa. Acabado o discurso todos bateram palmas e o estrangeiro que não tinha percebido nada dizia que sim com a cabeça e até deu uma nota de dólar para ajudar á missa do terceiro dia.
Boa tarde amigos...
antes de mais quero pedir-vos desculpa pela minha continua ausência no blog. Tenho postado menos e ando muito em atraso com a poesia que me enviaram, mas foi por uma boa causa...
Após muito enclausura embrenhado no estudo, o afinco e o trabalho duro frutificaram e finalmente passei à cadeira que me faltava e assim acabei o meu curso...
Sim... sou oficialmente um recem licenciado em Direito a caminho do estágio da advogacia...
Mas por agora estou é de regresso de corpo e alma à poesia linda que vocês me enviam!
Obrigado por continuarem a acreditar neste projecto, mesmo quando ele anda mais parado, e por me continuarem a visitar e a comentar. Vocês são o melhor que este blog tem.
O meu sincero e emocionado abraço e muita música de festa...
"Desde pequena que sempre gostei do faz de conta. O meu jogo preferido era brincar com as bonecas durante horas e inventar histórias sem fim, onde eu fazia vozes diferentes de acordo com as peripécias que criava.
O meu sonho secreto sempre foi fazer teatro, quando cresci tornei-o realidade.
Com umas amigas tenho um grupo de teatro chamado 'Maria Quatro', somos 4 Marias, apesar de nenhuma de nós se chamar assim. Confesso que foi um homem quem nos deu este nome.
Somos as 4 muito diferentes umas das outras, temos em comum a paixão pelas palavras e dar-lhes vida emprestando-lhes o corpo, e muitas vezes a alma.
Sempre achei que nos devemos dar por inteiro ao que amamos, vale sempre a pena, seja qual for o resultado. Para mim fazer teatro é um acto de amor.
Quando não fazemos teatro dizemos poesia, e mais uma vez as palavras ganham corpo..."
O Grupo de Teatro Maria Quatro, depois de um ano de ausência, está de volta e desta vez com dois serões de poesia.
Dia 17 de Dezembro, pelas 21h45, em Vila Nova de Gaia, na Casa Museu Teixeira Lopes, na Rua Teixeira Lopes n.º 32 (atrás do Hospital de Gaia, numa rua mais ou menos paralela ao tribunal );
Dia 18 de Dezembro, pelas 23h00, no Porto, no Pinguim Café, na Rua de Belomonte ( perto do palácio da Bolsa).
As 4 Marias (Ana Balona, Cláudia Novais, Linda Moria, Regina Novais) gostariam imenso de ver por lá.
Quando olhei para ti não havia mais nada,
só o atraso das minhas mãos em cuidar do teu corpo.
As palavras que depois usei, não viveram felizes para sempre na cabeça de ninguém
As outras experimento-as quando estiver ainda mais só.
Luisa ainda não bebeu o suficiente para que o desinteresse em relação a mim durma comigo.
Nunca tivemos duas semanas com o recheio dos dias bonitos a lamber-nos os olhos.
Nunca sentimos a falta do outro no cortar de uma fatia de pão.
Os nossos braços caíram juntos, uma noite, sobre o ferro da varanda do bar e foi só isso que aconteceu.
Ela podia trabalhar nos congelados de uma grande superfície e ainda assim ser uma mulher de temperatura muito elevada,
ter uma grande saudade de si durante e após o horário de serviço,
morar num lugar onde se chega depois da chuva.
“quantos cães existem dentro da tua solidão, soubesses tu a cor do focinho deles...”
Ninguém se mata para que eu possa meter conversa e uma mão no teu ombro,
ainda que eu urinasse aqui, entre nós, nenhum cogumelo nasceria urgente neste chão de pedra.
Ouves os meus olhos esmagarem em silêncio tudo aquilo que vêem?
Ouves também o grito desesperado do que não se recupera a entoar nas paredes da única casa?
Sabes que será por aquela rua que vou quando sair daqui com os ombros bem documentados pela tristeza de também a ti não te ter dito nada que amasse um estranho.
“será que quando morta o cabelo de uma mulher também sofre com o vento,,,”
A voz do corpo foi outra coisa que não conheci, do seu, por isso a fiz magra, corda última do lume de uma guitarra, no fim da noite, incêndio da língua na boca da noiva, foi o que ouvi.
Não lhe ter dito nada deu-me gravidade à voz, assustou as aves, causou choro nas crianças que àquela hora mamavam tranqüilas nos seios das suas mães de sangue.
Não lhe ter dito nada levou-me a mim para os braços das coisas tapadas quando as fazemos dormir.
de Miguel Patricio
(era já com muita saudade que aguardava mais um texto teu Miguel, tal como referi na pequena entrevista que demos na rádio, tu já fazes parte desta casa e igualmente da boa poesia que neste país hoje se escreve...)

Found by Haleh Bryan
Nunca perdoarei
Nunca teres pedido desculpa
Nunca perdoarei
Nunca teres percebido a culpa
Nunca perdoarei
Nunca peceberes o sofrimento
Nunca perdoarei
Nunca teres percebido o sentimento
Nunca perdoarei
Nunca realizares a importância
Nunca perdoarei
Nunca entenderes a mágoa que causa a tua ignorância
Nunca perdoarei
Nunca...
Nunca perdoarei
Nunca...
de Someia Umarji

Untitled by Jörg Gründler
Entrou e recostou-se no canto do salão. As abas desconfortáveis do fauteil, a
humidade das janelas, o soturno ambiente primaveril incomodaram-na
drasticamente, uma vez mais. Tentou abstrair-se.
A casa vivia virada para si.
As suas fantasias, ideais de um tempo desusado, metamorfosearam-se em imagens difusas, reflexos da imaterialidade do tempo.
Os livros, parceiros descontentes, permaneciam, estáticos, abrigando
religiosamente o pó do tempo, escondendo a ânsia nas leituras erróneas
renovadas.
A mesa do salão, de início do século, outrora magnificente e recheada, nunca
parecera sentir a necessidade da presença humana o seu porte permanecia
tranquilo e arrogante, diria ofuscante, e este seu comportamento não era
alheio à importância da sua função social: acreditar em si para poder acreditar nos outros.
O tapete espreguiçava-se pelo soalho velho de tábuas longas e emendadas e,
amiúde, contemplava adormecido as notícias da ocasião, acordando, por vezes,
interiormente ouvindo os namoros descarados ao tempo das suas vizinhas; ele já se sentira assim um dia, agora esperava apenas pelo seu momento, silenciosa e tranquilamente. A vida passara e a espera atendia o aviso da morte.
A sala encaminhou-se desconfortável e reconhecida e, sem necessidade de atestar a sua sobrevivência, encostou-se calma e serenamente no canto do salão, afastando adequadamente todos os seus pavores da infância.
de Nancy Brown
(mais uma grande participação da nossa amiga Nancy...)

EXPECTATION (Portrait) by Yuri Bonder
"Quis deixar o teu nome escrito na água,
camuflado por entre as ondas.
E o vaivém das marés o há-de levar,
balançando-o ternamente.
Eternamente,
no seu cofre migratório."
de Paulo Fogg
(é um incrivel cheiro a mar que este poema lindo me oferece...)

texas seashell by foureyes .
Um mundo de triste existir em céus de cor parda
bandos quedos de nuvens
outrora
numerosos gases em debandada, em brincadeiras de criança
agora migração de incontáveis lágrimas
pássaros tolhidos
reféns em afluentes de comoção
o acidular de dor num pomo enrugado
o mundo agora é deserto
estes dedos nús
outrora envoltos em vida
na vida, filigrana de vida
sem o terno crepitar do teu cabelo
nús de vida
leva tempo a amar-te ainda o tempo suficiente
de Renaldo Ventura
(dedicado exclusivamente a quem por grandeza de espírito fez o favor de enviar um poema meu para o teu site)

Pôr do Sol 1 by Jorge Rosa
Estás dividido em dois meridianos um deles é um deixar ir, uma sensação de não se saber, de não se pensar o sentido de isto tudo acontecer. A tua amante estava nua, um navio chegou para resgatar a sombra do corpo dela ao calor da praia. tu tens os olhos abertos, o policia gordo está completamente cego, pensamos que não irá cometer mais crimes, também não é por isso que vão acabar, nem as declarações de amor, nem o cheiro a suor que vai ficando nas salas de espera. Olhando mais de perto vem uma voz. Não são precisos olhos para matar, pode ainda usar as mãos. Que Deus criador use a sua misericórdia, que lhe dê a duplicar a cegueira aos olhos e ao pensamento. Mas isso não são os planos dele, a cegueira dos olhos e do pensamento coisa que nunca resolveu o problema das guerras e das doenças. É preciso uma justiça, um chão de pedras outro de folhas para amortecer. Seja o criador, sejam os desígnios da natureza que não se deixe em perdição o que pode ter a luz de volta.
de Lobo

Silence by Karim (Kim) Khamzin
3
A dona Alzira a mulher da fruta perguntava numa carta se sémen fazia bem aos olhos? A cenoura, sabia ela que fazia bem, agora que sémen fizesse bem aos olhos! Que fizesse bem à vida, que fosse o liquido fertilizante que faz nascer os reis e os plebeus, os amos e os escravos, os homens perfeitos e os pretéritos imperfeitos instalados nas suas cadeiras giratórias, nas suas bengalas, nas suas apagadas memórias. Ejaculam eles nos lábios de suas amantes e a mulher da fruta pergunta se costuma nevar no céu-da-boca? A directora da revista a propósito dos homens que ejaculam flocos de neve sobre o céu-da-boca responde num suspiro idiota que é possível que o concílio Vaticano segundo faça referencia ao assunto. A dona Alzira e os outros moradores da rua, principalmente aqueles que acreditam numa vida para alem desta, gostariam de saber que rumo seguiu a mulher encontrada morta com sémen nos olhos? Sabemos que ainda tinha aquele líquido nos olhos quando fez a troca de corpos. Desconhecia ela o aspecto que tinha no momento em que deixou o corpo físico, para onde ia não eram permitidos espelhos, registos fotográficos, nem qualquer outro tipo de gravação. A mulher não sabia que requisitos eram precisos para se apresentar! Ela tinha pratica a dactilografar, trabalhara em partime numa loja de perfumes, usava meias de vidro e uma mini-saia que subia e descia consoante o pensamento de quem olhasse. Os alunos do professor João analisavam o parágrafo desta existência e para eles sémen nos olhos era uma figura de estilo, uma figura de estilo era a do polícia gordo a vaguear pelos quartos, a fazer subir a febre ao corpo. O polícia gordo ia ser enviado para um lugar que ainda não tinha nome, que ainda não era lugar nem existência.
Alice,
Isto não é o país das maravilhas
O buraco na estrada não é toca de coelho
É saneamento básico com obra embargada.
A rainha de copas é capa da Caras
E ainda tem direito a carro novo.
E o povo de tanga na corda bamba
Em cima do muro lá faz de Sr. Ovo
O gajo que cai e sempre se esborracha
E nem todos os cavalos do rei
Ou os fundos comunitários desviados
Vão ser suficientes para o colar de novo.
O povo que se partiu
E a democracia puta que o pariu
Com uma mão à frente e outra atrás
Isto não é o país das maravilhas,
Alice,
Isto é Portugal.
Vai trabalhar mais se queres aumento.
É o défice…
É o défice…
Valha-nos o bom senso do Presidente...
"off with his head...!
off with his head...!"
de João Natal

(desculpem-me o devaneio... mas estou tão feliz... hihihi)