Cruzaste a esquina do meu ser.
Como quem não quer nada. Como quem só vem em passeio.
Cruzaste.
E eu cruzo a tua.
E fazes-me feliz porque - tu - só tens sentido livre.
E faço-te feliz porque - eu - só tenho sentido livre.
Tu sabes que sim, e eu sei que talvez.
Mas está tudo bem.
Porque é assim que deve ser.
Porque é assim que nos conhecemos.
Porque é assim que, nunca sentindo os nossos corpos, nunca nos perdemos de vista.
Porque é assim que queremos.
Agora.
(que bela poesia... que bela imagem que me deixa na cabeça... e que bom é ter novos talentos assim por aqui...)

This night had thousand eyes by Ben Goossens
Eu sou esse rectângulo desconforme
De antepassados gloriosos e raros
De feitos universais por ora escassos
De uma escuta taciturna e intrincada
Reclamar mérito?
Para quê? [enfadado?]
E quanto choro por tais tristes fados!
Eu sou esse último descrente
Desgraçado e arreliado?
Oh, não! [estarrecido?]
Útil glorioso e desmaiado,
De mil levantes nos antebraços tatuados
[Amores vários?]
pois eu sou imenso...
e para além? o infinito!
Eu sou aquele descontraído e secular
Errante reflexivo e apto a conquistar
E se solitário entre a gente
Sou e não sou!
Lesto guardo a velha semente.
De fora espreitando o dentro do mundo,
Sorrindo tola, alegre e desagradado
e nos acasos de mais um Solstício de Verão,
desconcertando o mundo [atormentado?]
pelos pontos cardeais, o seu bordão!
de Nancy Brown
(o regresso da nossa amiga Nancy que prometo-vos que brilhará como sempre nos próximos tempos... pois ontem chegou-me um e-mail cheio de poesia linda... vão ver!)

untitled by Luis P.
Amar é um acto de fé,
saltar no abismo à espera que me apanhes
e acreditar no nosso amor
mesmo nunca o vendo.
Decorar cada pormenor da tua face risonha
como as contas de um rosário velho,
gasto de tanta devoção.
É fechar os olhos e saber
que o mundo pode acabar amanhã,
as estrelas do céu podem apagarem-se esta noite,
o mar engolir os sonhos
e os ossos descarnados dos homens serem o seu único legado,
e tudo restar pó,
que tu estarás ao meu lado no dia a seguir.
Amar é isso…
Acreditar em ti como creio em Deus
e fazer dessa fé
a força que me compele a viver,
a força que me faz acreditar,
que um dia seremos
por fim completos,
no fim felizes.
de João Natal

Fé by Luis Diogo
(obrigado Luis por me deixares usar esta tua foto tão linda... senti vontade de escrever poesia assim que a vi...)
Deixemos cair os muros; um homem não é de pedra mas há alguns que são rochas a pesar a liberdade dos outros.
Um homem não é de pedra, um homem pode ser bicho e não lhe fica mal se for água de um rio. Se não deixamos cair os muros, se faz sentido haver homens de pedra que o sol tenha o privilégio de lhes caiar o rosto e que as ervas nasçam como aquelas palavras que te declamo quando acordas suja e não te apetece deitares os olhos à janela e veres o mundo a cambalear na rua. Um homem, dizem alguns: não é de ferro; que um homem não seja de ferro ou de plástico pois se um homem fosse de ferro era muito difícil o amor, mas se um homem for de ferro o amor pode ser um carro de combate e quando a chuva lhe tocar o amor é sempre aquilo que não vai enferrujar a terra. Um homem não é de ferro, se um homem fosse de ferro seria impossível haver um Deus crucificado e feito à imagem dos homens que vão à guerra. Um Deus de ferro podia dar cinzas à terra e seria um Deus menino filho de um óperario ressuscitado no meio do entulho da fábrica do mundo.
Deixemos que haja muros a cair e muros levantados, muros que nos façam perceber que há guerras e que a paz é dentro das casas e é nas ruas, é tudo nas lágrimas e nos sorrisos. Um homem não é de pedra e se for é a casa onde entram os amigos e as janelas são os olhos que ele abre para saudar o dia. Um homem não é um bicho costuma alguém dizer, como se ser bicho fosse a vergonha de habitar a terra. Um homem é um bicho e qualquer bicho tem a dignidade de qualquer homem.
Os bichos dão calor e os homens recebem o calor do bicho sol e alguém com ar de astrónomo importante vai dizer! O sol é um bicho?!
É tão bicho como a lua é poeta.
Um homem não é de pedra mas se a pedra tiver poros é melhor assim que haver homens que não deixam respirar o pensamento.
Um homem é bicho, é ferro, é pedra, é alma, de todas as substâncias ele é e de todas as substâncias é a vida e do mesmo cumprimento de onda a morte. Um homem também é a água de um rio. Acabemos com esta palavra homem.
Era uma vez uma mulher. Uma mulher não é dos homens. Os homens e as mulheres não são dos escritores que escrevem livros, não são dos filmes nem dos teatros. Uma mulher não é de ninguém, uma mulher é um bicho e um bicho é todo o universo.
Um homem é um homem, uma mulher é uma mulher e nós somos o que quisermos. A pedra das casas e o ferro das armaduras. Assim faz sentido acordar sabendo que não foi em vão adormecer.
de Lobo
(palavras sábias do nosso amigo)

Security guard at the Metropolitan Museum of Art by Tim Holte
O ultimo dia do ano não tem tempo:
o relógio pára na espuma das ondas
que repetidamente desaparece na areia.
Os meus passos arrastam memórias
em sulcos entranhados de decisões
e a tarde acompanha o sol espelhado no mar.
Pela manhã, calcei as minhas botas
mais confortáveis e enterrei os pés no quintal.
Ao lado da laranjeira ergui-me
com braços de ramos verdes a sentir a brisa.
O copo de limonada estava junto a mim
sobre um banco de madeira pintado de azul claro.
Do baú tinha já retirado o papagaio multicolor
que agora esvoaçava agarrado à perna do banco.
Lembrava-me as mil cores da minha infancia:
canetas de feltro em riscos irreversíveis livres.
O sabão cor de rosa guardado para dias especiais
estava já no lavatório, junto a uma toalha lavada, verde alface.
Tinha os pés quentes.Gostava de me sentir
preso à terra entregue aos deuses das árvores.
Fechava os olhos de tempos a tempos
e sentia seiva surgir na folhas verdes.sentia
folhas planarem sobre mim
e cores, laranjas, pesarem-me no coração.
Ouvia a minha mãe dizer que eram boas laranjas.
O rádio tocava em "repeat"
a musica que me acordara pela manha
e exaltava uma noite para comemorar.
Tinha deixado sardinhas frescas à porta do quintal:
os gatos sorriam bigodes deliciados.
depois deste dia nunca mais os veria: talvez no ano seguinte.
Gostava deles assim.
A tarde, na praia, ofereceu-me a noite,
que se aproximou com olhos tintos de vinho
na mesa com toalha branca e
uvas passas.
Estava tudo preparado.
a lenha para a fogueira escondia-se num cesto velho que encontrara na garagem.
Não comi as uvas passas mas acendi a fogueira no quintal
e adormeci em memórias trémulas de chamas
que me aqueceram a noite.
de AMAC
(já tinha saudade de ver a tua poesia por aqui amigo, sabe bem ler poemas assim em dias de chuva como este... um abraço)

Tourists by Heiða Helgadóttir
Peço desculpa por este "apagão"... na origem esteve um problema com os ficheiros no Weblog.pt, mas o Paulo Querido, mais uma vez, foi incansavel e espectacular na resolução...
Espero em breve actualizar o Poetry para uma modalidade paga de modo a poder retribuir o explendido trabalho desenvolvido pelo Paulo Querido e de modo a melhor servir os clientes do café...
a todos um abraço e um obrigado pela vossa paciência!

Era uma vez uma menina,
Frágil e pequenina,
Em busca do sonho perdido.
Trazia na voz o lamento,
No olhar a ternura,
Na pele proféticas marcas
De uma vida repleta de amargura.
Queria abraçar o mundo
Com um único abraço,
Desejava sentir calor humano
Na frieza e na força do embaraço...
Sonhava mais e mais,
Mas seus sonhos caíam por terra,
Criando lados desiguais.
A menina cresceu
É hoje uma mulher;
De memórias recalcadas,
Feridas mal cicatrizadas,
Não esquece tudo, de bom e de mau,
Que outrora viveu...
Traz no coração a saudade,
Na alma o desejo veemente
De conquistar a verdade
Na indiferença aparente.
Ela é a menina-mulher
Por quem lutaste e morreste;
Ela sabe, sente, acredita
Que tu não a esqueceste!
De Teresa Sousa

o castanho do teu olhar verde by Nuno Peixoto Branco
Mais um dia em mil, mais uma página rasgada dum calendário que ninguém repara. Mais um dia passou longe de ti, nesta doença que me consome como fogo aceso, nesta cal viva que me rói o pensamento. Mais um… apenas mais um…
Hoje não fui trabalhar, sentei-me na minha desarrumada secretária com um papel de carta à frente e uma caneta nervosamente roída. Inspirei fundo e ali fiquei, um dia inteiro a olhar para um papel em branco.
Perdi a conta às vezes que comecei a escrever obstinado, sem respirar um sequer fôlego na sofreguidão das coisas que te tenho a contar, no quanto a relva do condomínio cresceu, no casal novo que se mudou para o apartamento de cima que discute o dia todo mas ainda faz mais barulho de noite a fazer as pazes, ou naquele CD novo que comprei para te emprestar, no passpartout vazio que tenho na minha mesa-de-cabeceira à espera de uma fotografia mais recente tua quando ta puder tirar.
Perdi a conta às vezes que arranquei desesperado a folha de papel, lavado em lágrimas amargas de solidão, amarfanhando contra o peito o novelo de cartas rasgadas, com o nó duro na garganta e a palavra perdida nos meus lábios salgados… – volta…!
- Volta para mim…!
E adormeci frio em cima das folhas rasgadas e húmidas, sonhando com um longo e interminável Inverno. Sonhando com um dia triste de chuva agreste, batendo na calçada da rua e na vidraça do carro, em todo o mundo é um dia de chuva esta noite. E eu sozinho, no sonho, na chuva, no mundo triste de Inverno interminável, no frio do meu coração despedaçado.
Acordo já de noite, com a barba por desfazer arranhando o papel amarrotado, borratado pelas lágrimas vertidas, onde se lê apenas perceptível as palavras “volta” e “saudade”. Será que devo enviar-to assim? Não diria eu tudo? Não te chegaria para tu perceberes o que tens que fazer?
Mas é apenas uma carta como as nossas vidas depois de limpar o ténue e borratado… muito pouco ou muito nada… um grande branco…
… uma carta em branco que nunca escrevemos e que nunca te enviarei…
de João Natal
(a desafio do amigo Filipe, lá voltei à minha prosa...)

Transcendence by Alex Hadjidakis
Querer-te em mim
sempre, sempre
ser em ti a ternura
seres em mim a paixão
sermos os dois um caminho
uma só intenção.
Querer-te em mim
sempre, sempre
e ver no olhar o êxtase
sentir o íntimo arrepio
de uma emoção mais forte,
incandescente,
de um momento
passado ou presente,
já nem sei...
Apenas querer-te,
querer-te em mim
sempre, sempre...
de Maria José Carvalho
(lindo a forma como colocas magia em cada uma das tuas palavras... lindo...)

..........................* by Yuri Bonder
Acende uma estrela no chão das palavras. As tuas palavras são a tua dança e esse é o som da terra que te balança o corpo.
Acende uma estrela o teu coração é uma árvore de frutos. É doce adormecer imaginando a lua que embala a noite que anda pedindo abrigo nos nossos olhos.
Acende uma estrela, uma flor e um peixe vermelho.
No teu coração e no teu pensamento anda um poeta fugitivo das palavras. As tuas palavras gritam toda a vontade do teu corpo e a vontade da terra que arranca de si todo o silencio e dele faz toda a tua liberdade.
Acende uma estrela, uma flor e um peixe vermelho. Faz o mundo com mais um passo do teu ritmo e que tudo fique novamente azul e que tudo fique novamente suave.
de Lobo
(precisei de procurar muito por uma foto à altura do teu texto amigo... espero ter encontrado... um abraço)

untitled by Robin Owen
ainda que eu tentasse nunca iria perceber o vazio quando ris...
ainda que eu tentasse a frieza e a arrogância não deixariam de ser
(in)diferentes....
ainda que gritasses não quebrarias o silêncio...
ainda que eu falasse... não compreenderias a vontade de cuidar-te....
não cheguei depois da chuva, naquele momento em que surge o arco iris...
tivesse eu chegado e os teus olhos veriam alguma coisa diferente?
não... as palavras, os gestos, as vontades... sentes?
grito.... não me ouves...
vou então por ali... enganando-me... talvez tropece naquele olhar...
claro, que continuo a sonhar... ainda...
de Sofia Ramos
(e que maneira linda de começar a tua poesia por aqui... vou ficar à espera de mais...)

The Miracle of Life by Virgiliu Narcis
Posso escrever para ti como se te conhecesse?
Como se fossemos íntimos?
Como se tivéssemos um historial de anos e anos (e anos)?
Posso escrever para ti como se fosses minha?
Como se a distância - entre nós - não existisse?
Como se à noite a minha cama fosse a tua e a tua a minha?
Posso escrever para ti?
Como se acordasses de manhã a ouvir a mesma música que eu?
Como se os teus sonhos fossem os meus?
Posso?
Como se fosses tu a acordar-me do meu sono.
Como se fosse eu o que assola os teus sonhos...
Posso?
(e assim começa o fantástico talento deste novo amigo a ser mostrado por aqui... espero que gostem!)

"Lighting & Shadows" by Virgiliu Narcis
"Chegas rompendo o silêncio
com passos de sombra,
levitando meu abandono.
Chegas trazendo chuva
e um amor que já vem tarde
iluminar-se de escuro.
Chegas mais perto teu corpo
mais incerto mais deserto
ancorando desejo no cais da minha noite.
Eu sinto.
Transformo meu lago de espera
em mar.
E contra o teu sabor
mil ondas rebentam.
Mil astros explodem em teu olhar."
de Anna Tomás
(mais um poema belissimo desta poetisa que eu já estava com saudades de ler)

NovenberWind by Eugeny Kozhevnikov
Tenho sofrido neste deserto
A sede aumenta a cada segundo que... passou
Loucura parece querer ser companheira
E a vontade de chorar, cansou.
Tenho os pés marcados
O suor é abundante aqui
Como chamar isto de vida?
Estou quase a desistir
Este vazio ensolarado
Um universo de dor
Meu sonho de voar foi adiado
Tudo é preto e branco, sem cor.
Deserto é choro constante
De um ébrio, desacordado rancor.
Sorriso é fantasia desvairada
É melancolia, labor.
Sonhar é poetizar fantasia
Vazio, utopia.
Desistir é chamar a morte de companhia
Enterrar lembranças e chorar sem melodia.
Viver é passo de dor
Ou precipício de folia?
Dizer não, esperteza
Ou sentença de agonia?
Chorar é consequência
ou apenas uma diversão?
Tristeza é duvidar do
Que está em sua direção.
de Marta Silva
(é bom ter a tua poesia de volta aqui Marta... é bom ver o tão bem que se escreve por gente tão nova nesse lado do Atlantico)

Lucifer the fallen star by Natalie Shau
Ela era quente, toquei-lhe nos ombros e do cimo vi a cidade que parecia andar com os passos das pessoas que vão como o rio com suas luzes na proa dos barcos. Olhei-te e vi que aquilo que tinham os teus olhos não era silêncio. Perguntei-te se estavas indiferente e tu disseste que a indiferença era um passaro suspenso na nuvem de Nova York. Eu tornei a olhar-te e imaginei as tuas costas nuas marcadas com o chicote da caligrafia. Tu sangravas mas isso não fazia de ti o meu amor, nem por isso me desinteressava o teu pobre coração de camponesa incompreendida.
de Lobo
(mais um texto fantástico teu amigo... o resto está oculto... para ir descobrindo com gula)

Sins by Nuno Peixoto Branco
Ela era quente, convinha que fosse quente e que os seus olhos fossem eléctricos como um fio da palavra no cume da montanha onde te vejo cair e na tua morte vejo a morte da cidade e a paixão dos homens da cidade e é plural a definição de homem com cidade. Ela era quente, toquei-lhe no ombro e vi que tinha as asas de um anjo e que atraia os homens e os esfaqueava com o caule das flores e que dormia nos taxis velhos e que vestia o sobretudo dos poetas e que sabia os poemas que cheiravam a cão e ás chaminés das fábricas de Nova York. Ela era quente e quando mexia as ancas as ervas dos muros e os velhos do jardim e as bichas e os paneleiros e os que tiram fotografias e abusam das crianças que posam nos postais e que choram de fome e são os senhores que os comem com a língua do dinheiro frio. E tu continuas quente com uma corda no pescoço e a Coreia não é um céu azul, nem Paris é um Cu. Ela era quente e por cima do seu ombro eu cantei a marcha dos pássaros e depois a sombra desmaiando nos muros era o cemitério dos mortos a voar e tu no teu discurso sublinhas-te que os mortos não podiam voar e eu disse-te que era o espirito que só existe nos livros dos poemas e nas cordas da guitarra dos subúrbios. Olhei por cima do teu ombro, vi o corpo imóvel pendurado no alto do arranha céus e vi que os teus dedos telegrafavam e o sangue caia enquanto chupavas os dedos e a máquina de filmar trabalhava sozinha com o corpo a cair-lhe em cima. Um suicídio em directo. Uma flor em directo a pedir água no noticiário das oito.
A flor era mãe de um soldado um pobre sem destino e que havia de ser morto e não conhecer o destino de morrer e de se apaixonar. Olhei-te por cima do ombro e lá estava o rio e os pregos a boiar na água dos pneus e ele o homem do talho cortava o sexo porque uma vaca lhe fora infiel. Agora chora e não vende carne infiel e mijasse como um atrasado mental que dá o cérebro para o transplante dos hambúrgueres .
Uma vaca passeava de hambúrguer por nova york e por cima do teu ombro essa cicatriz esse dedo marca digital na revista. E nova york é dos cães e Paris é das vacas e os Árabes são os donos das pedras e dos muros e os capitalistas compraram as praias e alugam cronómetros para que o sexo se faça discreto e rápido como o copo de água que se bebe num gole. Olho-te por cima do ombro e a cidade é uma festa e os homens vão cinzentos subindo e descendo as escadas e choram e riem e um dia não o fazem e quando não se faz morresse . se não queres morrer ama e se queres amar mesmo morre, se não é mentira todos os dias, a mentira de nascer e acordar.
Abre as pernas mesmo que seja só um dia, uma borboleta desflorada estará comigo neste sonho de te ver em nova york a gemer.
Por cima do ombro onde o rio bebe o esperma da borboleta que acasalou com o poeta.
Não há mais nada para reflectir.
Depois da morte a capacidade de reflexão fica
reduzida à expressão máxima do silêncio.
É como uma flor morta sobre a campa
no cemitério de Albufeira.
Supõe-se que as plantas estão sempre com viço;
uma forma de prolongar a memória nas visitas
escassas conforme o tempo vai bebendo
o sangue nos carris.
Na mão direita o lápis faber número um, e uma
borracha mole, verde, na outra mão, compõem a sombra no rosto
de António Aleixo; servo de deus, crias um rosto igual
ao do livro da quarta classe, e por baixo
uma das quadras mais conhecidas do poeta.
Sonho-te com o engenho de furar metais, e outras ferramentas,
a coleccionar anilhas e parafusos que servem
para a utilidade nula da respiração.
Admiras como um jardineiro que poda as plantas
e ri com as flores raras e tardias de uma estação qualquer.
A reflexão sobre a sombra é o tamanho
do eco invisível,
a dor que se constrói entre um passo
e outro passo, até que o nome seja a luz
frágil da lareira em fim de conversa.
O cão ladra na cozinha e a tua voz
acaricia os pratos e os talheres.
A conversa flúi como um rio que se faz na chuva
e a doçura das frases fica agridoce
até que te substituis pelas imagens da televisão
com os mortos amontoados no Sri Lanka.
A morte é uma miragem da literatura.
de José Félix
10.01.2005 (inédito)
(mais um poema teu lindo... e de novo sobre a morte, que eu muito pessoalmente acho que é um dos teus grandes temas...)

Calla by emil schildt
O passado de nós dois,
é uma senda que leva ao pasmo.
O passado entre nós dois,
é uma extensão sem algum horizonte.
O passado dentro de mim,
é um vale de perfumes e cores
seladas dentro de uma caixa de pandora.
Debaixo daquela tampa
é mistério energetico e turbolência.
Tudo em volta
Cada dia
Explode dentro um instinto:
sentimento e inconsciencia
de um vicio, de um capricho
assim,
pago o caro preço do extase e da dor
cada vez que liberto aquela memória
impressionada pelo teu sorriso.
Uma perola em equilibrio sobre a minha mão
Um bater da célula
E são grãos
Que escorregam entre os dedos.
Cada dia
o teus olhos perguntam-me onde posso chegar
Cada dia a tua voz
lembra-me que tinha um objetivo
escondido debaixo das solas dos meus sapatos.
Cada dia
Surgem e decaem camadas de pó
Sobre aquela caixa
Cada dia
Ressoa uma dúvida na minha cabeça:
porque uma infelicidade vivida para uma felicidade protelata?
Cada dia
Raiva medo e ignorancia
Lembram-me que envelheço
Um sorriso amargo
Tropeça entre os labios
E entao,
O tempo de nós,
Aprisionado na memoria,
conserva só uma patetica simulaçao de um encantamento irrepetivel.
Cada dia
Sou e sou
inquieto, sereno
eu sei que o tempo
não parasse mais dentro dos teus olhos como naquela epoca!
Mas eu sei tambem que
Não por isto abrirei a caixa de pandora.
de Elia
(este é um poeta italiano que nos visita, já anteriormente tinha lido e postado algo dele, mas este poema demonstra algo de incrivel... já é dificil que chegue escrever um poema com aquilo que sentimos, imaginem agora ainda o ter feito em português... obrigado Elia, um abraço e um café...)

Prayer by Piotr Kowalik
Há um pequeno café
num beco urbano de imaginação,
nas ruas desertas de noites escuras,
onde os neons brilham no escuro do silêncio
ao som do vento do tempo que passa.
Lá dentro os vultos sentam-se
numa pequena mesa de pequeno café,
num canto sossegado a meia luz.
Na luz fosca de uma pintura a óleo
onde o brilho incandescente de cigarros acesos
cintila como estrelas no veludo negro.
Soltando fumo espesso que flutua
levitando nas pautas soltas
da música ambiente que toca.
Sons da noite sentida.
Tons de música escolhida.
Interrompida pela subida ao palco
de poetas que declamam
à poesia todo o seu amor.
E alguém levanta um dedo,
e em voz rouca de segredo,
pede para uma mesa…
“ um café e um poema, se faz favor! “
de João Natal

untitled by Yuri Bonder
(e assim encerro o ciclo de poesia dedicada a este sitio de poesia e café... foram duas semanas com muita poesia vossa, momentos lindos que não tenho palavras para agradecer, pois são vocês o motor deste blog. Eu sou, como a Estela me dizia por e-mail, o homem que vai tirando cafés... mas confesso-me um homem que tira cafés feliz por vos ter a todos como clientes... um enorme obrigado!)
Cheguei sózinha a este lugar. Entrei e sentei-me sem pensar. Ao fundo, o som de muitas palavras, a côr de muitas telas, as lágrimas de muitos olhares. Enamorei-me, como se o encanto fosse o de um amor, o de um amor primeiro. Tanta a magia, tanto o enlevo, tanto a encontrar. Cheguei sózinha a este lugar. Vazia. Despida. Farta de um descolorido dia-a-dia, cansada do banal, do vulgar. Cheguei, entrei, e pedi um castelo feito de ar, uma gota de chuva feita mar, uma simples certeza, a música que estava mesmo a precisar. Em cada dia, olho e encontro lobos e meninas com nome de bonecas. Princesas e dragões. Heróis de outros tempos, não, de outros e deste tempo que é o nosso. Almas. Palavras. Pessoas. Cheguei e chego sózinha a este lugar...Poetry, a vontade é de ficar e ficar e ficar...
de Estela Ribeiro
(e mais um café servido...)

smoke #1 by Rui Bento
Um mundo entre tantos
mas único, de especial,
moínho de um D. Quixote
poeta, sonhador,
tão imaginário quanto real
um mundo de palavras,
transparências da alma
sentidas, sussurradas,
tecidas por um
tocadas por mil...
Palavras confiadas
convertidas em bebida
quente, acolhedora
que apetece beber.
E apetece sempre voltar,
saborear o especial do dia
nesse café virtual
que é teu, é nosso...
Ainda bem que és.
de Maria José Carvalho
(ainda bem que este café tem tanto sabor para ti que dê para escreveres coisas tão bonitas... obrigado pela tua melodia escrita)

Tea cup handle with shadow by Tim Holte
Ali está o poeta
Sentado na mesa de café.
Os seus pensamentos,
Transformados em palavras,
Entoam sons melodiosos
Que escapam da folha de papel.
Sobrevoam um espaço livre
Habitado por corações prisioneiros.
Espalham o sonho e a magia
Num cântico que a todos apaixona.
O poeta ri como louco
Ao vislumbrar tamanha beleza;
Esquece, por instantes, a tristeza
Que traz na alma.
Termina a bica ainda quente
E regressa à realidade.
Ser poeta é isto,
É ser-se autêntico;
É ver, sentir e ouvir
O que mais ninguém vê, sente e ouve.
de Teresa Sousa
(nem tenho palavras para descrever mais este lindo poema teu amor... beijinho doce)

"Blues" by Teresa Sousa