março 31, 2005

União

Não me mostres o caminho,
percorre-o antes comigo.
Caminha ao meu lado
e constrói, comigo,
esses pequenos momentos
que fazem uma vida.
Acompanha-me, passo-a-passo,
numa vivência a dois
que une sem nunca separar,
não verdadeiramente.
Completa-me em todos os sentidos
e eu serei para ti o outro lado,
aquele que não conhecias,
que nem suspeitavas existir.
Seremos os dois
o caminho percorrido
e o caminho a percorrer,
o que foi, é e será.
Completos. Unidos.


de Maria José Carvalho

(é absolutamente lindo este teu poema... tem como se uma melodia intrinseca! Acho que é o teu maior dom, um ritmo só teu!!! Ah... e de referir que a música também é brilhantemente interpretada por ti, e eu não podia deixar de demonstrar aqui mais uma faceta do teu talento)

The sense of the life by Miguel Angel de Arriba Cuadrado

Publicado por D_Quixote em 12:51 AM | Comentários (7)

março 30, 2005

Não Sinto A Tua Mão

não sinto a tua mão.
faz frio e o rio gelou cansado na sua corrida.
não sinto a tua mão que apenas imagino:
pequena,
dócil,
macia.

tua.

(um cigarro atrás de outro
propositadamente
na sua vã tarefa de me distrair com as formas
que o fumo toma no ar)

já nem sequer o contrabaixo que
cadenciadamente
marca o ritmo desta ‘waltz for debby’
(que o bill evans toca para mim e não para ti
debby, estás enganada)
me consegue aquecer.

está frio e falta-me essa mão
mais do que os teus olhos
mais do que a tua boca,
que o teu corpo.
essa mão de certeza meiga
única porque tua
que
afinal
nunca senti.


de Paulo Fogg


(e eu não sinto as mãos dormentes de tanto aplaudir a tua poesia Paulo... bravo!)


IR - The spring is coming by Roger Sandgren

Publicado por D_Quixote em 12:06 AM | Comentários (11)

março 28, 2005

A noite se faz nas mãos

A noite se faz nas mãos como um pão escuro aquecido no fundo da terra e no calor da alma dos nossos irmãos camponeses que se mataram por causa da poesia que não conseguiram inventar quando a guerra e a fome passou na aldeia deixando uma cicatriz de silencio nas bocas que não conseguem cantar o amor.

A noite se faz nas mãos como um novelo de linho que os olhos vão fiando como quando despes o teu amor que pode ser a árvore ou a rua que fica deserta quando já não tens palavras nem vontade para iluminares os muros com a água que brota dos teus olhos e que fazem os homens levantarem-se flutuando por cima dos telhados onde há um pássaro inventando o cansaço de não ser possível morrer.

A noite se faz nas mãos como um pão escuro aquecido no sangue dos homens e no vinho bebido pelas feras que fazem o ritual do sol para o nascimento dos profetas.

A noite se faz nas mãos como um pão escuro aquecido no fundo da terra e no calor da alma dos nossos irmãos camponeses e no coração dos seus filhos cujas veias são pétalas de flor perfumando a pele das árvores e os cabelos de todos os aventureiros sem destino.

A noite se faz nas mãos como um pão escuro e tu fazes-me uma canção tão quente e forte como um café com amigos que acendem novas fogueiras para os frios diversos e seja isso o fim de todas as indiferenças.

A noite se faz nas mãos como um pão escuro que é a luz que alimenta o trabalho quando o homem fecunda a mulher e esta tem o privilégio de ter um pequeno mundo e ser ela um grande universo.

A noite se faz nas mãos e se faz na língua húmida e por isso a água da boca serve para moldar o pão da alma e por isso te ofereço a musica que não consegues escutar a menos que fiques em sintonia com os pensamentos das forças que rasgam a terra e te dão a luz renovada e sempre pura dos pensamentos primordiais.

A noite se faz nas mãos.

de Lobo

(pois é amigo... e a poesia também se faz nas tuas mãos, como ceramica linda que moldas a teu bel prazer)

Hand made by Ben Goossens

Publicado por D_Quixote em 10:27 PM | Comentários (6)

março 26, 2005

Boa Páscoa

O Poetry deseja a todos os clientes e amigos uma boa e santa Páscoa.

Christ of St John of The Cross by Salvador Dali

Publicado por D_Quixote em 06:17 PM | Comentários (8)

março 24, 2005

Cintura

Quando escrevo isto estou a olhar para ti, não há retrato.
Não foi retratado, não há roupeiro ou gaveta que o guarde, por isso não foi.
Tentarei sempre que não seja.
A única coisa que perdi foi o à vontade de ser ordinário contigo, naquilo que escrevo, coisas que as palavras perdem de corpo, ausência.
Escuso dizer lamento, não lamento, não seria justo, amo.
Ainda é cedo para tudo, escrevo-te, ainda é tão cedo para tudo.
Há tanto espaço para ti na minha vida sem ti.
Se encurtar esse espaço, também será por tua culpa, por aquilo que me ofereceste, pelo amor que me acompanha.
Quando me lembro de ti não vou a correr buscar-te, nunca fui!
Mas há em mim um lugar teu, ( ) se há em mim um lugar teu, sem mácula, um lugar teu.
Em todas as coisas que faço, porque foste, eu.
As tuas palavras estão em mim com o silêncio delas, e o teu sorriso guardado junto do pudor amado dos momentos de que não falo,
todos têm uma pele acabada de amor.
Tu és tão grande, só as rugas dos teus olhos já não andam de comboio, tu continuas a ser tão grande!
Amo-te.


de Miguel Patrício

(como sempre Miguel... "grande jogo de cintura" para mais um poema... e o resultado é isto: mais um poema incrivel que não vai embora da cabeça depois de o ler!)

Rain............... by Yuri Bonder

Publicado por D_Quixote em 12:43 AM | Comentários (5)

março 23, 2005

Paixão

….amanheceu…
…e os corpos cansados, que outrora se evitaram, entregam-se por fim à paixão…
Sem pensar, porque a paixão arde, cresce e faz com que deixemos de raciocinar… e até mesmo de ver…
E o que conta?
Apenas e só o momento… os corpos tocando-se, numa dança de prazer sem fim, numa ânsia tão grande, que até parece que o mundo começa e acaba ali…
E não acabará?
Será que o mundo dos amantes não começa e acaba a cada momento de entrega…
Não sei, talvez ninguém saiba….
Depois durante algum tempo vem a saudade…
da entrega… da paixão, das roupas caindo… dos corpos unindo-se…
dos beijos… Esses travessos que fazem com que tudo comece… como se um beijo fosse uma prece… um pedido…

de Sofia Ramos

(com esta temperatura quente... não há água que chegue... não há não... lindo...)

untitled by Chris Henry

Publicado por D_Quixote em 01:10 AM | Comentários (5)

março 22, 2005

Um dia...

Um dia...
O que seremos um dia?
Tu... eu?
Seremos vivos?
Amaremos alguém?
O que seremos um... para o outro?
Serei para ti apenas uma boa memória? Ou triste?
Um dia, quando mais não fores do que uma caixa com fotografias e cartas,
arrumada num canto da arrecadação...
Um monte de sorrisos e lágrimas arrumados num canto da memória...
Achas que aí já seremos felizes?
Achas que (tu) serás feliz?
Um dia...

de Nuno F. Duarte

(um dia... recebi a tua poesia no mail, e não consegui nunca mais deixar de gostar dela Nuno... não deixes nunca de continuar a envia-la)

The Color of a Memory by Lissa Hatcher

Publicado por D_Quixote em 01:24 AM | Comentários (18)

março 21, 2005

Make Me Wanna Holler

my mother used to whore herself
and my father... would reap the benefits of her labor
it was almost as if she was absent
absent from her own life
i remember
she would scrub the floors for the white folks
just to come home
to cook and to clean for the man who broke her
and i Love to watch her dance to the tunes on the soul stations, yeah
just to ease her mind
but my mother
she was vindictive in her own fashion
so she passed down to me her traits
like that of her brown eyes and her dark hair
she passed down to me
her sadness

make me wanna holler
the sadness fills my heart
make me wanna holler
make me wanna holler
make me wanna holler
baby
make me wanna holler

my child will one day ask me what will i be?
as a child i promised myself
i'd never be
like my mother or my father
i would ask myself,
"did he feel so much pain
that it would make him wanna hurt another?"
but there was no excuse
there was no excuse to make up for the pain
that i knew my mother felt
but somewhere my destiny came
that i too became a slave, to my heart
wanting Love so badly
that i'd do anything
no matter the shame

make me wanna holler
i... Love me
make me wanna holler
tell me
make me wanna holler
mmm, so sorry
make me wanna holler
so sorry

why?
i never got the nerve
to ask my father "why?"
but my mother she would say,
she stayed for my brother and myself
but i would have sold my soul
just to share in one day
of my mother's desired happiness
when night fell
sometimes when night fell
i'd close my eyes
and i'd hide
close your eyes
when they would yell and scream
when my father would paint her
with a dark face
of being belittled, disrespected and set aside
his liquor, the salve
for the unseen wounds
i learned so much from him
what did i learn?
how to hurt all of those
who try to get too close

make me wanna holler
make me wanna holler
sometimes i get so...
make me wanna holler
i just don't understand
why?
make me wanna holler
tell me why
mmm, so sorry
so sorry for the pain
make me wanna holler
so sorry

i'm so sorry
just play for me... play for me

she would close her eyes and cry
he would close his heart and hide
she would close her eyes and cry
after all this time
nothing's changed

make me wanna holler
make me want to holler
yes i do
make me wanna holler
sell my soul just to see ya happy
so sorry for the pain
make me wanna holler
so sorry, so sorry, so sorry, yeah
make me wanna holler
so sorry for the pain

i always thought my mother
deserved so much more
but i never knew how to fix that
i drown myself in guilt
i just don't know what to do
no
mama I Love you.

de Me'Shell Ndegeocello

Image hosted by Photobucket.com

(desculpem amigos hoje fugir ao alinhamento normal de poesia... mas consegui neste fim de semana, graças à Teresa, algo que já procurava há muitos anos, esta linda obra de arte... um dos meus poemas preferidos... e não consegui ficar sem partilhar com todos vocês. Muitos me contactaram por causa da música que tocava no outro dia, desta mesma artista... Me'Shell Ndegeocello (livre como um passaro em Swahili), é uma talentosa compositora/activista que é uma referência obrigatória para mim... espero que esta música se torne tão inesquecivel para vocês como é para mim... ouçam lá!)

Publicado por D_Quixote em 12:21 AM | Comentários (2)

março 20, 2005

Domingo de ramos

Hoje é Domingo de ramos e eu estou triste
pensativo na tua partida
ausente pela tua ausência
já faz quase um ano que Deus te beijou na face
e eu tinha ainda tantas flores para te dar.
Cumpri as minhas promessas todas
mesmo aquelas mais dificeis de cumprir
tudo para te fazer feliz
tudo para que não chovessem as tuas lágrimas
na dura realidade que foi partir e deixar tudo para trás.
Hoje vou dar-te na mesma flores
deixa-las pousadas com carinho
no marmore novo da tua campa fria
e o único folar que pretendo este ano madrinha
é o teu sorriso no céu
mais belo que qualquer anjo de Deus.

Fica bem pequenina...

Rosa by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em 10:40 AM | Comentários (5)

março 17, 2005

Antagonismos

Entre o mar e a terra
Habita a razão
De uma verdade fera
Que em ti semeia
Ventos e devastação.
Entre a noite e o dia
Há uma luz crepuscular,
Que de mansinho nos guia
Para um magnífico luar.
Entre o frio e o calor
Há um intenso sentimento
Ao qual eu chamo amor
E tu, terrível tormento.
Entre o meu e o teu ser
Há pura incompatibilidade,
Um admirável equilíbrio de se ver
No espelho da tua vaidade.


de Teresa Sousa

(um poema fantástico... com uma ausência de luz que me fascina...)

Shadows Lurking by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em 11:53 PM | Comentários (9)

Tenho uma porta no tecto da minha casa

Tenho uma porta no tecto da minha casa
que abro quando a musica faz de mim um telhado com luar.
uma faísca em sentimentos de riacho que corre em fúria por entre rochas.
Não é fúria. a textura da água em corrente equilibra-se com a realidade
que tenta impor a sua existência. mas a água
esconde em segredo
o dia em que vai fazer desaparecer a rocha.

A água é tão mais forte que eu.
energia que tem receio de se libertar. de reconhecer que
a realidade não existe. apenas surpresa. brilho em cada olhar
que sorri cada esforço por não ser real.
Isso é vida. Uma flor que levo no bolso da camisa. Um desenho
que pinto na face antes de sair de casa.
Uns sapatos a quem digo “Bom dia”. Um grito
que dou deitado na areia de uma praia.
Um licor que bebo fora de horas ou um luar
que ouso não gostar. Uma árvore sem folhas que procuro para ter sombra.
Um velho com olhar de quem não quer saber. uma cor nova
que tento inventar. um café curto porque sim.
Um caminhar pela berma ousando cada estrela.

A porta é de madeira escura. Lembra um daqueles baús misteriosos
que sonhamos.
A porta esconde coisas antigas que observo. Pormenores de tempos
passados em que recortes de orgulho preenchiam a vida. sem pressas.
Era vida em cada objecto.
Tem lá um candeeiro em forma de flor. Ferro eterno
que se cruza em horas dedicadas a um aroma.
O chão. é de madeira encerada
que lembra domingos em família e tardes sem razão.
Um dos cantos da sala pertence a um cadeirão. Madeira envolvida em
couro de cor usada sobre uma sombra de mistério e poder.
Quero sentar-me nele: sentir-me parte de alguém que já lá se sentou. Que
lá deixou fantasias: subiu a um banco de jardim e falou alto para quem passava:
“quero que me achem louco. mas que acreditem em mim”
E eu fico a ver a luz, sôfrega. Tremula no reboco irregular da parede. e passeio
o pensamento pela textura defeituosa que me atrai. me embala o olhar
na perfeição com que me abstraio da sua forma. Imperfeita como eu.

Escondido na penumbra vive um móvel escuro de madeira. sem brilho.
com cinco gavetas que nunca abri. Quero que tenha lá dentro brinquedos antigos
e fotografias sem cor. de pessoas que não conheço. daquelas com olhares
como o meu quando olho para mim.
Quero que tenha também relógios antigos que não se usam mais. muitos.
Mas não sei se algum dia as abrirei.
Em cima do móvel que sinto por vezes distante está uma jarra em porcelana.
com desenhos em tinta azul que se perdem na realidade. Historias que alguém sonhou.
alguém viveu. estampadas no tempo que passa
como figuras que enfeitam uma jarra.
Sei que são mais que isso. Tesouros. Tempo perdido num sonho que perdura
apenas para quem sonha. E na jarra existem flores.
Sempre acabadas de colher.
Talvez alguém viva aqui.


de António Costa "Amac"

(caro amigo... e a minha boca fica como a minha porta, escancarada de admiração por este poema... da mesma maneira que terei sempre as portas abertas para te receber por aqui... pelo Porto...)

pela berma by Amac

Publicado por D_Quixote em 01:11 AM | Comentários (4)

março 16, 2005

Ausência

as tranças, as tuas tranças...
cruzando aneladas as minhas ancas
e um alarido tempestuoso
na suavidade
de uma luz hesitante.

a face, a tua face
espiando um pesadelo
na aurora axadrezada
e o quê?
- sussurrando -
nas paredes angustiadas.

os lugares, os teus lugares
caminhando no ermo do deserto
Laurence das Arábias?
Oh sim, esquecê-lo!

Jack your Jack
beliscando o caos dos sentidos
e no semblante?
não sei onde!
não! não sei onde...
e nesta tarde,
devasso e solitário,
e a tua ausência no futuro...

ternas as mãos, as tuas mãos...


de Nancy Brown

(mais um poema lindo e inesquecivel dos teus, Nancy... vou aguardando o teu regresso deliciando-me com os poemas que enviaste)

intimacy #13 by marília campos

Publicado por D_Quixote em 12:48 AM | Comentários (4)

março 14, 2005

Na consoa da memória

No espelho partido
o teu rosto cubista
é um arlequim azul
na modéstia do sorriso.

Acendes com as mãos a casa.
O café é só um paliativo
para trocarmos o leme dos dias

num pedido mútuo
sem explicações.

Ambos saímos sós,
acompanhados um do outro,
bebendo filhos e agruras
numa navegação dupla
para a mesma viagem.

O regresso é o desejo
para regarmos as plantas do jardim;
no pó da mobília
desenharmos os rostos
que aparecem à mesa
para a consoa da memória.

de José Félix

(já nem preciso de ver quem assina para te reconhecer a poesia José... ela é inconfundivel... um abraço ainda à espera de te pagar um café quando vieres ao Porto)

Old Times by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em 11:36 PM | Comentários (3)

março 13, 2005

Faz amor comigo

“Faz amor comigo, porque hoje, é a minha primeira vez e eu quero voltar a ser quem era, não ontem, mas antes…”
Estas foram as últimas palavras que lhe disse antes de sair pela porta do quarto onde horas antes tinham discutido. Não queria realmente saber se dependia dele ou não, não queria perceber se era o destino que a chamava ao inferno de existirem juntos, não queria acordar mais uma vez e olhar para o espelho sem ver nada mais do que uma sombra.
Era como uma criança perdida num mundo cheio de regras indecifráveis e cinzentas como a água do rio onde dias antes tinha pensado em desaparecer. Onde estava o brilho daquela mulher feliz, vestida de pele, sem pele, entregando-se a um amor diferente e muito mais real do que ela teria pensado? Era uma estrela de um palco sem luz, vivendo por um olhar de amor que nunca mais chegava. Um dia, num dia, ainda seria feliz nos braços de um qualquer amor.

“Faz amor comigo” e deixa-me correr à tua volta, deitar-me no teu colo profundo feito com as tuas lágrimas e lembranças de outros dias. “Faz amor comigo” e desperta os meus sentidos escondidos na minha alma assustada pelo brilho desta lua que é mais tua do que minha. “Faz amor comigo” e dá-me de volta a essência do que sou, perdida numa tarde de amor debaixo das luzes verdes e transparentes de uma floresta de beira de estrada, suja e perfeita de tanto pó. Como te amo, como eu te amo, profundamente, pelo tanto que me tiras e nunca repões, pela dor de saber que tudo isto nunca será nada mais do que uma velha memória na boca de uma criança que não é tua.
Como eu te amo, pelo tanto que me fazes crescer. Como eu te amo, por me teres feito perceber que a estrela que teimava em não ver, afinal existe num céu cheio de côr, cheio de risos, cheio de palavras. Como eu te amo, pelas noites infinitas que passo nos teus braços, pelo cheiro que trago entranhado no sangue e que me diz que nunca mais serei tua porque finalmente sou minha. Como eu te amo, pelo tanto que agora me és indiferente.
Crescer foi a mais dura batalha da minha vida. Ser feliz é o meu sonho mais real e a única batalha que irei travar depois de hoje. Percebe que o ar que respiro nunca foi teu, que o corpo que gritava debaixo do teu, gritava por ele mesmo e nunca por ti, que as mãos sujas de tinta de tanto escrever, escreviam por elas mesmas e nunca pelas tuas lágrimas que teimavas em deixar cair no tapete da minha sala vazia. Percebe que hoje sou mais do que um pássaro, sou a corrente de vento que o leva para o caminho de casa. Percebe que hoje morri para voltar a nascer no corpo de uma jovem mulher, sem mancha e sem medo.
“Faz amor comigo” para que eu esqueça que os livros são feitos de papel, e que as escadas do nosso paraíso nunca existiram, nem sequer no teu mundo solitário onde apenas exististe tu e tu mesmo. “Faz amor comigo” para que eu nunca esqueça que amar é fruto do acaso dos nossos sentidos humanos e imperfeitos.
“Faz amor comigo”, porque hoje, é a minha primeira vez e eu quero voltar a ser quem era, não ontem, mas antes...


de Estela Ribeiro

(um texto absolutamente lindo, que eu não podia deixar de mostrar a toda a gente com as devidas palmas...)

untitled by milos mashed

Publicado por D_Quixote em 10:46 PM | Comentários (7)

março 12, 2005

Diário da tua ausência – a chuva no vidro

Eu já não me consigo lembrar de nós. Estranho porém que não te consigo esquecer a ti. Mas a imagem de nós juntos parece já tão distante e indistinta como o vidro baço onde as gotas de chuva fria deslizam no pó do pára-brisas do carro sujo. Ligo as escovas e a minha visão da vida volta a ficar nítida por mais uns segundos até voltar ao mesmo padrão disforme do vidro molhado... será o amor tanta chuva que nos embacia as janelas e não me deixa ver… não me deixa seguir o meu caminho…

E assim espero sozinho neste sábado à noite perto de tua casa. Dentro do carro apressadamente estacionado numa rua tão normal como tantas outras normais, distinta apenas por ser o local onde combinamos encontrarmo-nos e onde aguardo pacientemente por alguém que nunca chega, nunca vem, nunca está, nunca é…

Vou contando ansioso os minutos que não passam, seguindo com os olhos os carros que chegam com os faróis no escuro como olhos esgazeados, como borrões indistintos de luz no vidro embaciado mas nenhum deles é o teu, já não me lembro da última vez que foi o teu. O teu não brilha no escuro da minha espera é apenas lembrança do pouco que ainda me consigo lembrar.

Já passaram duas horas… tu já não deves aparecer… tanto tempo depois de te teres ido embora, esperava que nos reencontrássemos de novo. Esperava que o tempo te tivesse feito perceber que a borboleta que és um dia cansa as asas e a árvore que tenho sido, onde sempre pudeste pousar, tem os braços cansados como galhos de árvore velha que morre e onde os passarinhos já não fazem ninhos. Esperava que percebesses que não sou eterno como o meu amor por ti nesta eterna espera.

Tu já não deves aparecer… dói, mas é verdade! E a visão borratada do mundo continua, não sei se pela chuva que bate na vidraça do carro se pelos olhos rasos de lágrimas que sofregamente enxugo num suspiro. As gotas salgadas que me rolam na face como as gotas pequenas geladas que deslizam pelo vidro abaixo lá fora. Às vezes gosto de imaginar que somos duas gotas que deslizam no vidro, na estúpida probabilidade matemática de nos unirmos algures no caminho numa gota só.
Mas não deve ser hoje… tu já não deves aparecer… e eu já cá não estarei.
Limpo as lágrimas, limpo o vidro, dou à chave e sigo em frente.


de João Natal

Rainy Nights by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em 01:13 AM | Comentários (13)

março 11, 2005

És tu / Perfil

Para o Miguel

Oh!, meu pequenino atleta!
bailarino encantador
de serpentes, monstros
jacarés,
que danças em bicos de pés...

Toda a atenção é pouca
(a cabeça fica louca!)
príncipe mais-que-perfeito,
meu Senhor das Marés...

Para a Catarina

Olhos de amêndoa num sorriso de cristal.
Lágrimas fáceis enroladas em sal.

Valsa lenta, leva o dia,
dolce vita sem guia
em crescendo, até final.

de Paulo Fogg

(não há poesia mais linda que aquela que brota do amor de um pai pelos seus filhos... Paulo... és um pai babado de dois poemas lindos... parabens!)

untitled by Mark Lucas

Publicado por D_Quixote em 12:03 AM | Comentários (7)

março 10, 2005

O Adeus. O Amor

Abracei hoje o meu desalento
Não mais conseguirei dormir
sob o leito
onde outrora esteve o meu amor.
Dias passaram desde a sua partida
o hábito. cada vez mais marcado
asfixia-me.
não mais o seu cheiro na minha pele
o sorriso no seu rosto
infinitamente meu.

Ó mágoa
parte de mim partiu
Ó saudade
- feiticeira do amor -
tornaste-te o meu destino
e eu a ti
me entrego.


de Cristiana Gaspar

(e haverá melhor maneira de a tua poesia começar aqui Cristiana?... vou ficar à espera de mais poemas teus enquanto saboreio este...)

untitled by Pavel Krukov

Publicado por D_Quixote em 12:18 AM | Comentários (9)

março 09, 2005

Procura

Eu não sei nem quem sou
nessa falta de carinho
procurando por um pouco de atenção,
por um ombro amigo!
Ando juntando pedaços
de um coração partido,
é como um quebra-cabeças,
faltando uma peça.
Parte de mim sumiu,
no infinito de uma constelação desconhecida pelos humanos.
Não sei porque me sinto assim,
Por você, talvez.


de Pricila Kovalski

(e mais uma estreia promissora neste nosso palco... espero ver mais poesia tua brevemente...)

~ In the Wardrobe ~ #2 by Mark Tso

Publicado por D_Quixote em 12:28 AM | Comentários (5)

março 08, 2005

A Est(r)ela do meu Paraíso inventado

Decidi procurar-te, reencontrar-te de novo, aqui, neste mundo de papel virtual onde construímos aquilo que somos..porque acredito que existe uma só
Est(r)ela para cada um de nós que nos conduz ao Amor.

Quantas vezes dei comigo a querer estar contigo.
Hoje continuo a querer muito.
Mas depois de tudo, depois do que se disse, da forma como sentiste..o receio veio ao de cima... saltou de dentro do baú, escondido, onde o tinha bem fechado.
E o "castelo encantado"..deixou de o ser. De repente. Numa velocidade alucinante de palavras, percebi tudo o que disseste. Entendi. Assimilei.
E hoje ao acordar senti as portas do castelo fecharem.

Ontem à noite imprimi tudo o que escrevemos... sentei-me na cama... espalhei as tuas palavras... as tuas fotografias e sonhei contigo...
Transportei-me aos momentos de amor... aos encontros de amor, à cumplicidade que temos, ao carinho... à paixão...
Revi abraços, suspiros, beijos, olhares cumplices, mãos dadas.
Peguei no carro e vi-me junto ao mar contigo
Um pôr do sol na praia.
Um beijo de amor como nunca tinha dado, nem sentido...
Uma caminhada junto ao mar.
Os teus pés descalços.
Uma dança.
Escrever-te na areia molhada o quanto te amo..
Mil sorrisos transformado num único sorriso jamais captado por uma foto.
Mil fotos.
Noites magicas, estreladas...
Noites de luar..de abraços apertados...
De silencios... que diziam tudo...
De um encontro... de uma primeira vez que gaguejei e fiquei sem jeito...
De uma banheira de espuma...
Do teu cheiro.
Do teu sorriso.
Do teu olhar... antigo...
De um salmão esturricado...
Uma vela acesa à pressa.
De um gelado a dois.
Uma cama grande.
Quente.
De amor.
De nunca me ter sentido assim...
De cantar para ti.
De te fazer corar... e rir...
De um cantinho no chão.
Numa sala.
De tudo.
De tudo!
Um aperto no coração...
Outro...
Vou chorar outra vez.
Não quero.
Mas choro.
Porque me fazes feliz..milhões de borboletas...

Ainda hoje não sei porque te perdi...
Porque te amava? Porque me amavas?
Não quero acreditar que perdemos isso...
Ainda hoje não consigo ouvir Diana Krall sem me lembrar de ti...
Das noites que vivemos juntos...
De tudo.

Sei, como quem me ama sabe, que nem todos sentem borboletas na barriga... e tu sentias comigo.
Hoje acordei com a sensação de que, de tanto não te querer desiludir... acabei por faze-lo.
No final de tudo, queria poder pedir-te que me aceitasses, que gostasses de mim na mesma, mesmo não tendo eu as asas de dragão, ainda que as tenha na alma...

Fica a sensação que conheci apenas uma pequena parte de tudo aquilo que tu és, do teu verdadeiro Amor.

E o mundo das emoções, está fechado num paraíso inventado onde, sempre que espreito, vejo um homem /dragão sentado numa escada de papelão, sorrindo para uma princesa, com um olhar sem igual.

de Miguel Cruz

(que bela maneira de te estreares aqui... a música... tal e qual como pediste... abraço)

untitled by Lisa Grant

Publicado por D_Quixote em 01:30 AM | Comentários (9)

março 06, 2005

Ontem à noite... o encontro!

Fomos poucos mas eramos bons... ontem à noite o encontro correu de forma incrivelmente bem.

O local do crime foi o Kikionda, um pequeno bar simpático na Ribeira de Gaia, com o rio como pano de fundo e lá dentro um ambiente relaxado com muita música brasileira regada a caipirinhas.

Lobo, Estela, Teresa e eu comparecemos à chamada e os quatro ocupamos uma mesa cheia de animação, conversas cruzadas e ideias trocadas, pequenas e grandes experiências de vida relatadas. Estava cheio de vida o nosso pequeno canto... e ali fomos ficando noite dentro sem reparar na hora que passava.

E foi bom... foi muito bom para mim conhecer as pessoas que todos os dias passam pelo blog, que me enviam textos, que me falam no messenger. É sempre muito bom conhecer gente nova, sobretudo quando são tão boas pessoas, tão interessantes, tão únicas.

Acima de tudo uma certeza... que mais que tudo ontem uma semente foi lançada à terra... a amizade.

Espero agora que cresça, floresça e dê frutos... e que mais encontros assim tão bons no futuro se repitam...

À Estela e ao Lobo... um grande obrigado, e já um abraço de saudade... até à próxima vez... À minha Teresa um beijinho especial... aos outros todos... fica já lançado o convite para o próximo encontro... até lá!

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by Lobo

Publicado por D_Quixote em 11:42 AM | Comentários (11)

março 04, 2005

1º Encontro Poetry Café

Boa noite amigos e amigas...

Há pouquissimo tempo fui surpreendido com um email da Estela (Senhora das Estrelas) que, juntamente com o talentoso Lobo me preparavam uma surpresa.
Um encontro aqui, no Porto, sob a luz de neon do Poetry Café, de pessoas ligadas ao blog... desde mim, o seu autor, aos poetas que nele brilham e às pessoas que nele passam para sorver um poema, inalar uma música, saborear um café.

Assim está confirmadissimo para este Sabado, às 22:00 no Cais de Gaia, com o Porto como pano de fundo, o primeiro encontro Poetry Café, com amigos e poetas.

E assim fica aqui, o meu sincero convite a todos os que se queiram juntar a nós para tomar um café e dois dedos de conversa. Por favor confirmem a vossa presença para o meu email, para não haverem desencontros... e vemo-nos no Sabado.

Um grande abraço

Nuno Peixoto Branco

ponte sobre o Douro by Amen's no Sapo

Publicado por D_Quixote em 01:01 AM | Comentários (10)

março 03, 2005

Não sei se os olhos são frios

Não sei se os olhos são frios! Gostava de saber quantas pulsações batem dentro do tronco das arvores quando as raízes apertam as mãos dos solitários. Não sei se os olhos são frios, nem se a noite é a casa do nosso abandono. Gostava que o amor fosse a luz cheia do mundo e que o coração iluminasse a terra e os oceanos e houvesse em todos os lugares pensamentos mais fortes e poemas mais suaves. Não sei que tesouros há para guardar! Mas gostava que a chuva fertilizasse a seara e o fogo aquecesse o pão e a música embalasse o espírito e a cor acendesse o sol e a nuvem dos caminhos. Não sei se os olhos são frios mas creio que o beijo húmido toca o chão e as lágrimas tocam as estrelas e a nossa paixão vai além do que se pode conceber. O amor é caminhar, caminhar com o trigo, perceber o sentido do joio e provar o pão universal; ficar feliz com os que estão aliviados de dor, aliviados de culpas e de ódios. Não sei se os olhos são frios nem se as tuas mãos se distanciam dos meus cabelos. Mas eu gostava que a música tivesse o mesmo sabor da água e que o teu trabalho fosse a força dos que andam fracos de esperança e desabituados de importância. Não sei se os olhos são frios. Eu sinto que o caminho é o amor. Não pode haver amor onde existam algemas a prender, nem ódios como pedras nas páginas dos jornais. Eu quero fazer dentro de mim o amor, fazer assim como se faz um apertar de mãos, fazer assim o amor quando o pão que se reparte é como a verdade dos amigos que não são aparentes e que as guerras são os livros da nossa consciência. Gostava que a minha luta fosse o poder da minha transformação, gostava que a justiça filtrasse todos os venenos e a compreensão apaziguasse todas as culpas. Não sei se os olhos são frios mas acredito que podem ser quentes e cheios de fogo como as mãos que embalam a cria e aquecem o universo. Não sei que tesouros há para guardar mas acredito que é possível adormecer com a tranquilidade dos rebanhos e despertar com a tempestade no coração dos guerreiros. Sei que ainda trago dentro de mim, medos e ódios, mas vou tentar que a solidão não me cerque e que Deus seja o meu refugio interior.

de Lobo

(não sei se são apenas os meus olhos... ou acabei de ler mais um grande texto teu amigo!)

untitled by Yuri Bonder

Publicado por D_Quixote em 12:32 AM | Comentários (5)

março 01, 2005

À Mulher Que Fui

O champanhe quente
Contrasta com a frieza do meu coração;
Façamos então um brinde
À mulher que fui,
Aquela que tu generosamente destruíste.
Discurso?
Pedes-me para discursar
Quando as palavras se romperam
Por entre os estilhaços
Do teu olhar de vidro que se quebrou;
O sentimento foi arrastado
Pelos algozes da desilusão
E permanece no degredo.
Deixa-o estar...
Não me peças para assumir
A qualidade de ser humano
Quando tudo o que te dei
Foi a minha humanidade...
Não digas nada, cala-te!
Prezo o silêncio agora
Mais do que nunca;
Nele encontrei um amigo
Para toda uma vida sem ti...


De Teresa Sousa

my suffer from delusion by Natalie Shau

Publicado por D_Quixote em 12:12 PM | Comentários (12)