abril 29, 2005

Fuligem

O óleo queimado
Fuligem das nossas lágrimas
Delineia os turvos contornos curvos
Dos rostos vazios quebrados
Cálidos como papeis amarrotados
Presos nos agrafos da saudade
às palavras que já só caiem entre nós
como pétalas púrpuras podres
de uma rosa velha
caindo levemente
neve carvão
O mundo todo é um velório esta noite
Nos gemidos doridos de quem nos recorda
Na mortalha fria que nos agasalha
No cheiro a cera que se apaga
Somos cinza à procura de sentido
Brasa que ateia ao passar o vento do tempo
Mas que o tempo apaga sempre
Quando nada mais resta queimar
Esquece a fé!
Esquece o amor!
Salva-te!
Não olhes nunca para trás
Eu serei arguido e testemunha
Juiz e meu carrasco
Coveiro deste momento
E lenço branco que apara o sangue
Do teu olhar pálido a traços de giz negro
A fuligem das nossas lágrimas
Cinzas do nosso outro
Outrora fogo
Outrora ser


de João Natal

In Darkness I Saw Light by Sue Anna Joe

Publicado por D_Quixote em 04:53 PM | Comentários (8)

abril 28, 2005

Não quero que voltes para mim

Não quero que voltes para mim.
Olha para a água que hoje cai,
e esquece que um dia chorei por ti.

Não quero que voltes para mim.
Foste tudo, agora vai,
já não sei que te perdi.

Não quero que voltes para mim,
não quero que sintas se sou feliz,
não quero que descubras o meu triste sorrir.

Onde estão as promessas que nunca fizeste?
As palavras que nunca escreveste?
As distâncias que nunca venceste?
Não quero que me digas que me amaste,
não quero saber por onde andaste,
não quero que me peças o que sonhaste.

Afinal, cada estrela foi como uma escada feita de ar.
Pó de areia que eu já deixei voar…
Nesse teu mundo só tu consegues estar!

Não quero que voltes para mim.
Hoje, deixei de ter vontade de lutar,
pela tua visão única de amar…


de Estela Ribeiro

(um poema lindo mas triste, mas é sempre bom ver momentos tão decididos e decisivos de uma vida pintados numa poesia... beijinho Estela...)

untitled by Natalie Shau

Publicado por D_Quixote em 09:49 AM | Comentários (6)

abril 27, 2005

Grito Mudo

Quero dizer
mas não sei o quê
na minha garganta
nos meus dedos...
engasga-se o pensamento...
não sei o que tenho
nem o que não tenho
não sinto a vida
como quem não sente um braço
ou uma perna
não sinto nada
nada
excepto a ansiedade
excepto a loucura
excepto o vazio
excepto a razão
e só sei que nada é tudo o que me interessa
e olho à minha volta
e tudo é vazio
e falso
e deturpado
e não encontro a verdade
ou a realidade
que sei existirem algures
que espero existam algures
porque assim
não há nada por que viver.

de Nuno F. Duarte

(mais um texto teu que marca de forma estonteante presença aqui... que bom que é sentir que há poemas assim Nuno... que nos levantam do chão como uma pancada forte)

Faces of War - Part 3 by Piotr Kowalik

Publicado por D_Quixote em 01:12 AM | Comentários (12)

abril 26, 2005

As Linhas Do Teu Sorriso

Percorro de memória
as linhas do teu sorriso
de um traço sonhador
e um leve travo a saudade.
São como um convite
esses lábios que enfeitiçam
murmuram desejos
insinuam promessas
e incendeiam a vontade!
Percorro de memória
esses caminhos que foram meus
e que sei de cor ainda.
E por momentos fico assim,
perdida na lembrança
do delinear de um beijo...


de Maria José Carvalho

(um poema lindo que merecia uma foto não menos linda... beijinho para ti Maria e para a tua poesia)

. by marília campos

Publicado por D_Quixote em 12:07 AM | Comentários (4)

abril 24, 2005

cíclico

Hoje escrevo por escrever.
Hoje os dias são caóticos e desaparecem sem querer.
Hoje respiro e desejo mais qualquer coisa.
Hoje é o dia de saber que sim.
Os dias circulam e o sol não nasce.

Ontem tentei voltar a escrever.
Ontem saboreava os dias e sobrava-me o querer.
Ontem esperava e suspirava. por ti.
Ontem adormecia e dormia, sem ti.
Voltaria a sorrir, pensava ontem...
As noites brancas deixam-me cansado.


de G.B.dos Reis

(mais uma estreia excelente por aqui... espero que envies mais textos como estes, porque sinceramente gostei muito)

Fear of isolation by Rene Asmussen

Publicado por D_Quixote em 10:25 AM | Comentários (2)

abril 21, 2005

arte e ofício (artifício)

serena e grave
na água se reflecte
a manhã do teu rosto sal marinho.
brincam os olhos

derradeira luz
que a sombra impede de ver o sorriso
no disfarce dos lábios
amantinos.

outro aroma navega
entre os dedos
os tecidos de sol

no corpo amanhecido.
o dia vem
com o sabor das uvas.


de José Félix

(e quanta arte tens neste ofício José)

No tittle by Nana Sousa Dias

Publicado por D_Quixote em 12:34 AM | Comentários (7)

abril 20, 2005

Despedidas

Fim
Minhas veias continuam pulsando,
Meu coração continua a bater,
Não sei por que,
Não sei por quem.
No último final de semana,
Docemente ele se despediu,
Disse tchau,
Pedindo para voltar como era antes,
Sei que isso é impossível, antes,
Bem, antes eu não te amava...
Sei que em teu coração,
Mesmo negando com palavras,
Em teu coração, apenas uma imagem permanece,
A dor que sinto
Ninguém jamais sentiu igual,
É a dor de um coração abandonado,
A imagem que esta em seu coração não é minha.

Entrego-me aos cadernos,
Mas não dá certo,
Tua imagem continua a persistir em minha mente,
Em meu coração.

Não sei porque meu coração insiste em bater,
Porque o único alimento dele
Despediu-se docemente.


de Strani-amori

(e é com uma bela despedida que esta poetisa se estreia por aqui... espero que não seja um adeus, mas um simples até já da tua poesia...)

untitled by Terry Palka

Publicado por D_Quixote em 12:32 AM | Comentários (5)

abril 18, 2005

A criança que fui chora na estrada

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.


de Fernando Pessoa

(enviado pela cliente Silvia Costa)

she by marília campos

Publicado por D_Quixote em 09:30 PM | Comentários (6)

Peregrinação

Num múrmúrio parto,
em busca de ti, de nós
na certeza que vale a pena.
Mesmo se não te encontrar.
Mesmo se me perder...


de Maria José Carvalho

(e com um sorriso partimos para mais uma semana de poesia)

untitled by Antonio Carrus

Publicado por D_Quixote em 12:28 AM | Comentários (4)

abril 16, 2005

Identidade

Não sei quem sou.
Algum dia soubeste?
Subo ao cimo do penhasco mais alto e chamo por mim.
Achas que te ouves?
O grito sai e esvai-se no vento, que sopra forte.
Quem és tu?
Desço à gruta mais funda, e escavo em busca de respostas.
Que não estão aí.

Quem sou eu?
Não sabes?
Sou o que vejo neste espelho?
Um reflexo.
Sou o que te digo, ou o que penso?
Uma miragem.
Sou esta carne, viva? Estes olhos, esta boca?
Um animal.

Porque vivo?
Porque vivemos?
Qual o sentido do meu viver? O meu objectivo?
Tem de haver algum?
Porque me olhas?
Porque és eu.
Porque falas dentro de mim e me respondes?
Porque sou tu.

Porque bem lá no fundo,
Sei quem és.
Como tu o sabes.
Porque sou tu.

E tu és eu.


de Nuno F. Duarte

(que belo poema na procura de quem somos Nuno... e somos todos adeptos da tua poesia!)

Forgotten by Dieter Frangenberg

Publicado por D_Quixote em 06:25 PM | Comentários (8)

abril 14, 2005

Não me abandones

Não preciso de venerar
A igreja, ou quem sabe
O desejo de imortalidade

Morrer que seja pelo gume da espada
E não pela saudade

A minha alma foi-te dada
Brandamente pela paixão
Amando seremos reis
Nada já nós somos
De nada nos servirá a razão
Onde está a tua torre de marfim
Nos teus sonhos de puberdade
Enquanto a razão foge de mim
Sofro por ti, já com saudade

Mereces o Sol e o calor
Em vez disso, só te ofereço
Um reino de amor

Amanhã para ti
Nada talvez serei
Juro que me apaixonei por ti
Onde jamais te esquecerei


de Teófilo Pinto

(que a tua poesia nunca nos abandone Teófilo... pois já se tornou uma presença fantástica aqui no café)

Despair. by Alon Brik

Publicado por D_Quixote em 08:50 PM | Comentários (5)

abril 13, 2005

O teu violino, avô

O teu violino já não toca avô
está desafinado pela tua ausência,
pela saudade que te temos
e apesar de não te esquecermos
ganha pó na prateleira da sala
junto à fotografia da avó.

A foto onde estavas risonho
quando juntos éramos orquestra de sonho.
Acompanhava com tacho e panelas
a música de uma casa alegre
“e juntavam-se os dois à esquina
a tocar a concertina a dançar o solidó.”

O teu violino já não toca mais.
Tenho muitas saudades!
Faltas tu na cabeceira de mesa
a distribuir malaguetas com safadeza
nos pratos alheios distraídos
numa travessura sem dó.

E assim dou por mim a pensar em ti
no tom triste deste Outono.
O campo está ao abandono.
Poucos passam agora por aqui.
A avó já está muito velhinha
e sem ti avô, sente-se só…


de João Natal

Sorriso da velhice by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em 01:10 AM | Comentários (12)

abril 11, 2005

Os olhos desatrasam

Os olhos desatrasam quando ficam parados no amor. Navegam os navios e voam as mãos para fazer a água dos rios e as lágrimas no rosto das criaturas.

Os olhos desatrasam quando ficam parados no amor. Sopram os ventos, cantam as aves e ao longe parecem mulheres a voar sobre o corpo dos homens.

Os olhos desatrasam quando ficam parados no amor. Navegam os navios e voam as mãos mexendo a pele e sentindo a terra.

A pele e a terra
A água que cai nos lábios e as palavras que ficam quando os olhos desatrasam o amor, quando ficamos parados a olhar o horizonte destas coisas.


de Lobo

(os olhos atrasam-me ao ler as tuas poesias... num descompasso com o relógio não reparando no tempo voar... lindo amigo Lobo... lindo!)

Somewere Out There by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em 08:55 PM | Comentários (6)

abril 10, 2005

Retrato de um amor antigo…

Estava no pátio de um castelo antigo, construído de emoções. As escadas eram de papel e a música começava a ser a de sempre. Fechou os olhos e ele apareceu calmamente, como se sempre tivesse existido.
Não conhecia o momento a partir do qual ele tinha começado a conhecer o barulho dos seus passos, naquele paraíso inventado, nem sabia sequer se isso o desencanta...O que sabia era que aquela intimidade lhe trazia certezas fáceis de sentir – Gostava tanto de ali estar com ele!
Não conhecia as ruas por onde ele andava, nem o comboio que o levava de volta a casa. Não sabia a que cheirava Lisboa num maravilhoso dia de sol, nem qual a sensação visual sentida ao vê-lo, com a gravata desapertada, no fim de mais um dia de trabalho. Não sabia se os seus olhos mudavam de côr com a chuva, nem qual a cadeira que ele usava quando se sentava na cozinha, a jantar. Não sabia qual o nome do seu amigo mais antigo, nem qual o cheiro do seu casaco de Inverno preferido...
Para ela, ele era um homem de pés descalços, feliz e surpreso, na areia morna de uma praia numa noite de verão.
Uma foto, a dois, num dia de fim de estação, ventoso e frio.
A intimidade de um homem e de uma mulher numa cama a cheirar a sal e numa banheira de espuma a cheirar a mar.
Era todas as músicas deste mundo e do outro. As palavras maravilhosas que escrevia e os dias quentes do Alentejo.
Era cada um dos sonhos partilhados em mais uma noite de palavras na qual as paredes daquele castelo, só deles, tomava forma.
Era o passado e o presente, sem medos.

Não o conhecia pelo que aparentava ser. Conhecia-o pelo que era.
E nunca deixou de assim ser…


de Estela Ribeiro

(um retrato de um amor antigo numa pintura de um poema lindo... muito bom Estela... é delicioso ler-te a contar estas coisas, desta maneira)

Where did the sun go? by Haleh Bryan

Publicado por D_Quixote em 09:11 AM | Comentários (8)

abril 08, 2005

Depressões

Procurar qualquer coisa
que me faça esquecer da vida
tem sido uma saída nesses dias infindaveis.
Os livros tem me levado
a viagens alucinantes,
mas quando chegam ao fim
começa a doer novamente
tenho procurado novos meios
de viver sem notar que estou vivendo,
os amigos têm ajudado um pouco,
mas as depressões e culpas
são maiores que a vontade deles em me ajudar
É dificil acordar de manhã e
ver que eles ainda estão ali
me observando, me absorvendo aos poucos,
acordar e ver que tudo ainda está igual,
os mesmos móveis, as mesmas pessoas,
os mesmos fantasmas, os mesmos medos.
É dificil acordar
e ver que a vida é uma ilusão,
que estou apenas de passagem por este plano,
que horas me faz feliz
e por dias me suga.
Sinto que estou sucumbindo aos poucos.
Estou começando a juntar minhas coisinhas,
sinto que está na hora de dar adeus
e me despedir desse mundo e dessa vida.

de Priscila Kovalski

(lindo apesar de tão triste este poema...)

Anna Si Naga by Sue Anna Joe

Publicado por D_Quixote em 12:38 AM | Comentários (10)

abril 07, 2005

Os poetas e os outros

Lobos, cordeiros e vida,
Ambos vítimas e predadores
E dou-me nesses papéis
Aos outros.
Visto as peles que me exigem,
Deixando transparecer que as habito
Se me pedem, então sou,
Lunática em mim e fora.
Vou colorindo pardacentas
Minhas idades e conflitos
E no que escrevo também sou.
Feras que habitam os sonhos,
De toda a gente, os meus...
Procuro nos outros um pedaço
Da alma que envelheço colorida
Com as garras dessas feras
Que sonho e não esqueço.
Todos... os poetas e os outros,
Vítimas desta máquina que,
Misteriosamente, engendra subterfúgios,
Que habita falsos mundos,
Com receio dos verdadeiros.


de Nina

(que poema lindo que escreveste amiga... espero que esteja tudo bem contigo... não voltaste a dar noticias! Um beijinho cheio de força para ti e coragem para as batalhas que se seguem)

and moths will live in my head by Natalie Shau

Publicado por D_Quixote em 12:15 AM | Comentários (5)

abril 06, 2005

STOP

E o amor avança mundo fora
como um carro em alta velocidade
sugando rectas na auto-estrada
com as luzes de tunning ligadas
e a música aos altos berros
Nós somos os insectos insignificantes
apanhados no choque frontal,
atropelados esborrachados no pára-choques
colados ao pára-brisas
na curta e efémera existência que temos
neste curto voo sem rumo
a que chamamos vida
Por isso caros amigos
Olhem sempre para os dois lados
ao atravessar a estrada!
Não vá o amor distraído
ao sair de um stop ou sinal vermelho
apanha-los desprevenidos
no acidente da paixão.


de João Natal

Turbo by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em 12:49 AM | Comentários (10)

abril 04, 2005

Uma Pátria

Uma pátria é um berço, é um estar sempre remoendo, no quê do porquê e no
duvidar do estranho, contrário à nossa forma de ser...
Uma pátria é um ponto de partida e um ponto de chegada, é uma referência,
uma bandeira cantada, um sentido num qualquer valor...
Uma pátria é um canto, um ponto de encontro, um olhar diferente o mundo..
Uma pátria não se define ideologicamente...
Uma pátria são os Zés, os Miguéis, as Marias e os Manéis..
Uma pátria não se vende, não se compra...
Uma pátria traz-se ao peito, como o medalhão sem valor mas estimado do avô.
Uma pátria revela-se, acarinha-se e bem se trata...
Uma pátria é a negação exaltada da descrença no amor...
A pátria ama-se, apropria-se e rega-se como as sementeiras, na época
adequada..
Uma pátria é o derradeiro amor de um homem desprezado...
E um Homem exibe com orgulho o amor da sua vida... desfigurado..
Portugal cheira a acácias em flor e esse cheiro é assim por aí e em mais
nenhum lado...


de Nancy Brown

(uma pátria é um sitio que cresce por haverem nela pessoas a escrever assim... obrigado Nancy por mais um poema que fica inesquecivel na retina)

Silhueta do Mar by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em 12:29 PM | Comentários (4)

abril 03, 2005

Adeus Karol Wojtyla

18 de Maio de 1920 - 2 de Abril de 2005

O grande homem que ele foi jamais será esquecido.
Parte em paz grande pescador...

Aqui fica uma luz para a sua viagem.

Candle light by Teresa Sousa

Publicado por D_Quixote em 11:09 AM | Comentários (2)

abril 02, 2005

a fala

a vertigem nas mãos
desenha a morte
sobre o corpo que se adivinha frágil
na textura da sombra.

há caminhos
feitos de luz ignóbil que incendeiam
as margens alagadas
de outra sede.

e de leve há um rosto
que sai da úmbria
na convicção do gesto que revive

restos de ausência.
a fala, no outro lado,
é um eco de um sorriso brando e leve.


de José Félix

(um poema de me deixar sem fala, amigo José... que poema maravilhoso... e por falar em fala, quando é que vens ao Porto para dois dedos de conversa?)

So small by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em 04:28 PM | Comentários (5)

abril 01, 2005

Confissão de um utente de Ser

Nem sabes a alegria que me tem injectado
Esta melancolia quotidiana de Inverno!
Nem imaginas a nostalgia que me usurpa, fustiga
(Eu que tenho uma costela de fantasia e maresia)
Ao fitar estas farpas frias da madrugada,
Ao ir, no meu apressado e atordoado ir
(como um bom utente deste Inverno económico,
Transeunte anónimo com a libido castrada,
Sequestrada por uma moral quase moribunda,
Quase ingénua,
Que como um soporífero me canta e infecta
E embala)
Pelos meandros desta pequena vila de veludo cosmopolita,
Ao ir, rente, quase sóbrio,
Pelas margens indefinidas deste horizonte clandestino,
Ao ir, onde sei que não sei ir,
Ao ir onde escutei numa mensagem cravada a suor,
A sangue,
Ao rumor errante de um sonho distante.


de Pedro Peralta

(um grande poema para uma grande estreia... fantástico Pedro... vou ficar à espera de mais poesia tua!)

untitled by Giedrius Neturiauskas

Publicado por D_Quixote em 01:10 AM | Comentários (5)