maio 29, 2005

A noite tem pele

A noite tem pele, talvez no Inverno tenha rugas, esta história foi contada pelo patriarca Jacinto ás crianças do acampamento.
- A noite é escura como a nossa pele dizia ele olhando o pequeno João o mais novo dos ciganos.
- A noite não gosta de tomar banho, é como os ciganos, ria uma cigana gorda batendo com os pés no círculo da fogueira acesa.
- Conte a história da noite!
- Já contei vezes de perder a conta.
- Você conta sempre diferente.
- Conto se comeres o caldo e não esperneares.
- Como tudo.
- Bem; era uma vez uma rapariga bonita como o sol e que vestia a noite, contavam naquele lugar que ela era a própria noite cobiçada por toda a classe de homens, desde os trovadores, aos negociantes, os homens políticos, os religiosos, todos a desejavam. Desde pequena que estava destinada a um rapaz que tocava a sua viola nas andanças das feiras.
- De que cores eram os olhos dela perguntava a pequena Mariana olhando uma dessas revistas cor-de-rosa que a mãe tinha lá por casa.
- Eram castanhos.
- Castanhos como os olhos das princesas?!
- Castanhos como os olhos da terra que é nossa rainha e que nos dá a água e o fogo, a musica suave e os frutos maduros.
- Jacinto é um poeta comentou um rapaz que construía caixas flamengas.
- Continuando estava ela destinada a ser desposada pelo cigano tocador, o que não era coisa da sua vontade, mas é da nossa tradição.
- E o que é a tradição?
- A tradição é os príncipes casarem com as princesas e os ciganos com as ciganas.
- E qual é a tradição da noite.
- A noite, essa que dizem ser da raça cigana vinha descendo a montanha quando encontrou uma velha, ela sabia que ela tinha o poder de mudar os destinos.
- Ela não ia casar com o cigano trovador? Perguntou Mariana.
- Ia mas o rapaz morreu.
- Morreu?! De que doença?
- Morreu atingido por um raio enquanto tocava debaixo de um castanheiro.
- Nunca mais jogo ás escondidas debaixo da árvore que está perto do rio, o raio pode descobrir-me diz um pequenito com o ranho pendurado no nariz.
- O motivo do raio ter caído é que o anjo que faz os casamentos a olhava a ela tão triste que até parecia que o mundo andava em suas guerras e outros males por causa de viver um amor contrariado. O anjo sabia da tradição e sabia que aquela que pode unir pode também separar. Ter de viver um amor forçado parecia a sua sina para o resto dos dias. Então o anjo foi falar com a morte. A morte esta na sua tenda.
- A morte vive também numa tenda como nós?
- Sim vive numa tenda e é errante como os ciganos.
O anjo foi então falar com a morte.
- Morte preciso de falar contigo!
- Eu não trato de coisas de amor.
- Como sabes tu que o que me trás á tua presença são assuntos do amor.
- Eu tenho também comigo a sabedoria da vida.
- Se tens a sabedoria da vida, deves também conhecer os propósitos do amor.
- Eu conheço a prudência das palavras e ás vezes na boca dos amantes há dizeres imprudentes.
- Que estás tu a dizer?
- Se o amor acontece feliz, dizem que foi a sorte que lhes bateu á porta, se o amor acontece infeliz ou desilude dizem logo que foi o azar, dizem até que o azar casou com a morte. Eu estou presente quando o amor se deixa cair na imprudência de se teimar cego.
- Não te conhecia esses dotes para a filosofia! Mas o que eu te venho pedir é que resolvas este enigma que me trouxe a ti.
- Dizem os homens que eu sou um enigma que eles não conseguem resolver e tu o anjo do amor vens pedir-me a mim que resolva o enigma do amor, por certo tão difícil como o do amor.
- Tu sabes que trago sempre comigo um arco e um punhado de flechas, conheces a minha certeira pontaria... só que eu não consigo unir o que a vontade da tradição quer separar.
- Quem é que quer separar quem?
- Uma rapariga cigana que dizem parecer a própria noite está destinada a casar com um jovem cigano tocador das feiras.
- E ela não quer...
- Não, ela ama um velho artesão.
- Sim!
- Tu podias arranjar uma morte ao rapaz.
- E como posso eu fazer isso?!
- Tu és a morte.
- É verdade mas vai-me faltando imaginação.
- Isso não te falta.
- Na verdade já não acho o trabalho muito divertido.
- Olha! Dá-lhe uma morte num dia em que ele esteja mais inspirado.
E então a morte matou o cigano tocador e pôs-se a dançar flamengo.
- Se eu conseguisse sempre ver morrer alguém feliz, nestes últimos tempos foi uma lista cheia de gente doente, de guerras e lutas entre religiões e etnias, um ver se te avias de desgraças, nem percebo como consigo comer tanto.
De seguida o miúdo com o ranho pendurado no nariz exclama!
- A morte é gorda como a minha avó.
- É gorda e só come porcarias dizia outro miúdo.
- Ó pai Jacinto a morte tem os dentes estragados?
- Deve ter, mas continuando a história pergunto se vocês estão a gostar?


de Lobo

Gato preto Gato Branco... quem não adorou este filme?

(deixo-vos aqui um texto lindo e incrivelmente único... que posto assim grande pois estarei ausente até dia 3 do Poetry. Peço-vos igualmente que durante a minha ausencia não enviem mais poemas para a minha caixa de correio. Ela está a abarrotar e precisarei de uma semana extra para escoar a poesia. A todos um grande abraço... levarei o Poetry e os seus amigos no coração durante esta semana)

- Sim.
- A morte que sempre aparece em dias cinzentos resolveu que aquele dia em que o rapaz ia morrer seria um dia de sol.
- E depois?!
- Depois vestiu a sua pele de um tecido suave como uma nuvem da manhã e suavemente empurrou o rapaz para debaixo da tal árvore e segredou-lhe ao ouvido:
- Toca uma música alegre. E o rapaz tocou. A sua música era tão surpreendente que o céu exclamou a sua admiração trovejando elogios e foi então que a morte lhe lançou um raio no mesmo modo de quem lança flores ao palco depois da actuação do artista.
- Quando há trovoada é porque Deus comeu feijão pergunta João o mais novo dos ciganos.
- Se ele provasse a feijoada que a minha Mãe faz andava sempre a correr para trás das nuvens.
- Depois cagava os homens todos.
- Mas continue a contar-nos a história!
- Aconteceu pois que mal se soube da morte do rapaz todo o acampamento ficou lavado em lágrimas e num tal pranto que se confundia com a brutalidade de uma praga. Durante a madrugada a rapariga, essa que se pensa ser a noite resolveu fugir. Ora sem que ninguém desconfiasse costumava encontrar-se ela ás escondidas com o velho artesão de nome Jeremias. Fugiu ela deixando atrás de si a marca dos seus pés nus no frio da terra.
- Pai Jacinto quero fazer uma pergunta disse a pequena Mariana com o dedo levantado.
- Faz.
- Porque fugiu ela descalça?
- Talvez não tivesse sapatos.
- Se calhar tinha uns sapatos que lhe apertavam os pés disse em modos de palpite a cigana gorda.
- Ela fugiu descalça para não acordar a família.
- É verdade foi o que se passou mesmo. A moça fugiu pois com o tal do velho artesão, ele fazia sapatos e roupas de pele capazes de aquecer a terra e fez para ela umas roupas abençoadas com o calor do sol. A viagem que eles iam fazer era uma viagem perigosa, não por causa dos bichos selvagens que iam encontrar, não por causa dos salteadores pois eles eram pobres, possuindo apenas o amor que para as pessoas da aldeia era incompreensível. O perigo daquela viagem era o ódio que se tinha acendido na família do rapaz da nossa raça que pretendia castigar a noite essa cigana ainda hoje errante e amaldiçoada.
- Mas é ela que faz dançar o nosso povo diz o rapaz que faz e que toca as caixas flamengas.
- Faz dançar as criaturas e influencia os movimentos da mulher quando vai parir. De repente fez-se uma pausa, uma rapariga cigana que tinha ficado até ao momento calada pergunta se ela a noite era virgem.
- Sim, se não o fosse não podia ser prometida ao cigano bailador.
- Ele não era só tocador?!
- Era tocador e bailador.
- E que aconteceu por ter fugido com o velho artesão?
- O pai do rapaz chamou á sua presença dois rapazes novos e corpulentos, faziam eles contrabando de tabaco e andavam sempre com duas pistolas á cintura, um deles tinha os dentes forrados á ouro e quando ria encadeava os olhos a qualquer que por ali passasse. O pai do rapaz disse numa voz firme e autoritária:
- Procurem o artesão e tragam-no até mim!
- E se a encontrar-mos a ela que fazemos?
- Rasguem-lhes as roupas e tragam-nos nus.
- Com o frio que faz vão ambos morrer falou um dos rapazes.
- Façam o vosso trabalho! Quando estiver feito dou-vos dois sacos de moedas de ouro.
Todo aquele dia andaram á procura deles, levaram pois dois cães do melhor que havia na arte de encontrar. A rapariga e o velho artesão estavam dentro de um buraco de terra e parecia que aquele esconderijo era tão secreto que parecia ate ser desconhecido do mundo. Ao longe ouviam-se os latidos dos cães, de repente o grande buraco de terra iluminou-se e á frente deles apareceu o cigano bailador erguendo os braços ao alto e entoando óles.
- Bons dias senhorita.
- Em nome de Deus vai-te embora.
- Venho em nome de Deus para vos proteger
- Vai-te embora!
- Sei que sois perseguidos, o meu pai enviou dois jovens para que fosseis capturados e trazidos nus á sua presença, eu com a minha musica provocai-lhes tal encantamento que agora seguem eles a estrada do bosque nús como dois parvos da aldeia.
- Porque razão me perdoais!?
- Que crime foi o vosso?
- Talvez o crime de não vos amar, mas o meu coração bate por Jeremias.
- Não me amais, mas não és minha inimiga
- Não sou inimiga de ninguém... que má fortuna a minha. Andar a fugir da própria família e ter agora o destino mais incerto que antes.
- Posso tocar para vós.
- Sabes alguma canção Bretã perguntou Jeremias esfolando uma ovelha que tinham encontrado no bosque quando iam a poucos dias de caminho.
- Conheço esta canção.
E o rapaz tocou uma música Bretã e o velho artesão ia batendo com os dedos na terra e as palavras saíam como fumo das chaminés: ela é a noite e eu sou o seu velho trovador. E o refrão repetia-se. A seguir ouviu-se um barulho de um ramo a mexer-se. A rapariga, o velho artesão e o fantasma em carne e osso do cigano tocador levantaram as cabeças para o céu que se via daquele buraco destapado e viram a sombra de uma raposa a correr. O sol que brilhava fazia reflectir na sua pele a cor vermelha que depois era projectada no tronco das árvores e nas nuvens que deslizavam com o vento dando cor á água e ás canções da infância.
- Hoje aprendi uma canção nova na escola disse a pequena Mariana.
- Que canção aprendeu perguntaram as outras crianças?
- Aprendi aquela que diz assim: a noite estava escura, não havia luar, ouviu-se ao longe um cucu a cantar. O resto já não me lembro.
- Prosseguindo, quando a rapariga e o velho artesão se encontravam no fundo do grande buraco da terra não havia lua.
- Quer dizer que estavam ás escuras atirou á sorte o rapaz cigano que sabia fazer caixas flamengas.
- A luz que havia era a que havia nos olhos dela, a paixão vocês deviam de saber pode destapar toda a escuridão e a lua que não estava visível no céu estava dentro dela assim como um pássaro dentro da liberdade.
- Pai Jacinto quanto tempo estiveram eles na profundeza daquele buraco. Se fosse comigo ficava cheio de medo, podia encontrar uma cobra ou um espírito.
- Se fosse bonito como o cigano tocador.
- Como sabes que o cigano tocador era bonito perguntou o rapaz á pequena Mariana.
- Devia ser, se fosse feio não morria com música.
- E como é que morria?
- Morria a ver a sua cara reflectida no lago, uma cara verde como a de um sapo.
- Há sapos bonitos!
- E há sapos que fumam
- A rapariga, ou aquela que diziam ser a própria noite achava-o a ele muito bonito, mas não é isso o que decide a paixão, o reflexo da água ama o sapo feio porque lhe vê o coração e porque a natureza tem aquele batimento que é a vida.
- A vida é uma mulher?
- É uma feiticeira.
- E que feitiços faz?
- Muda de forma.
- Como?!
- Um dia é homem outro mulher e outro água do mar e outro ainda luz do fogo. Mas seguindo com a nossa história os dois jovens ciganos que tinham sido mandados em perseguição dos dois amantes corriam agora nus por aquele bosque. A sombra deles era visível na pele da raposa. Depois de algumas horas de corrida parece que tomaram noção do estado que a nudez deles evidenciava.
- Que fazemos assim nus?
- Não sei.
- Parece um sonho estranho!
- Que frio!... Acho que vamos morrer.
- Vamos fazer fogo!
- Com o vento que faz não sei se vamos conseguir.
- Enquanto estavam neste diálogo á frente deles estava a raposa com a sua pele vermelha.
- Tirem-me a pele ordenou ela.
- Estamos mesmo doidos, será que foi alguma coisa que comemos.
- Lembro-me de ter comido só uma maça que apanhei no caminho.
- De seguida junto a eles estava uma formosa mulher envolta num manto, eles viram-na a despir-se e a lançar bocados daquele manto para os pés deles. Começaram a vestir o manto, faziam-no de olhos no chão, mal acabaram de se vestir estava ao pé deles uma poça de sangue e não havia nem vestígios de mulher nem de raposa.
- Estou com sede disse um deles.
- Já não tenho água e o rio ainda está longe.
- Podia beber aquela poça de sangue.
- Parece da cor do vinho.
- E eles provaram? Perguntou a cigana gorda
- Provaram.
- E a que é que sabia?
- Um deles disse: sabe a vinho quente. O outro pôs uma ponta do dedo na poça e exclamou:
- É doce!
- Olha agora me lembrei que temos de regressar.
- Não me apetece.
- A mim também não, nem sei o que vamos dizer ao nosso chefe.
- Se contamos aquilo que nos aconteceu não vão acreditar em nós.
- E... se dissermos que fomos apanhados por salteadores que nos levaram o dinheiro e as roupas e que foi um peregrino que seguia em peregrinação á terra santa que nos deu roupas e dinheiro recomendado-nos a estalagem de um amigo.
- Não vão acreditar em nós; os ciganos não são aceites nem nas igrejas, nem nas estalagens.
- Podemos dizer que estávamos disfarçados de religiosos.
- Pois! Nem sabemos o que inventar.
- E se nós entrássemos no acampamento vestidos como leprosos, assim éramos expulsos e podíamos seguir outro rumo nas nossas vidas. Vamos fazer isso?!
- Eu tenho mulher e filhos, sabes, sempre que matei um homem me lembrava que podia estar a matar um pai de família e muitas vezes me lembrava dos meus filhos.
- E nunca recuaste?
- Uma ordem é para ser cumprida, se eu não cumprisse perdia a honra e o respeito da minha família.
- Vamos voltar?!
- Se quiseres ir, tu não tens família, podes seguir outro caminho, posso dizer-lhes que te matei.
- Estavam eles nesta conversa continuava o patriarca, quando ouviram o som das trombetas. Estavam rodeados dos guardas do rei.
- Estão presos disse um rapaz novo que devia ser o comandante.
- Que fizemos nós.
- São ciganos, filhos do diabo.
De seguida um outro soldado segreda algo aos ouvidos do comandante.
- Dizem-me que um de vós matou um homem por não vos querer na sua terra.
- A terra é de Deus.
- Também a vida é de Deus.
- Vocês andam a roubar os pobres camponeses e quando não querem pagar os impostos vocês matam-nos, eu tenho na minha conta muitas mortes, mas quase todas foram para sacar o dinheiro dos ricos e para matar a fome aos filhos.
- Levem-no gritou o chefe deles.
- Que aconteceu ao velho artesão e á rapariga? Pergunta Mariana.
- O velho artesão caiu doente, parece que foi atingido por febres altas, suspeitava-se que a peste o tivesse atacado, durante esse tempo a febre fazia-o delirar. Ao lado dele estava a rapariga com o seu vestido longo e negro, o tocador cigano e descendo vinha a raposa num modo de andar elegante, mal pisou o fundo transformou-se numa mulher, a rapariga reconheceu na mulher a velha que tinha o poder de mudar destinos. Ela voltou por momentos á forma de raposa e ia lambendo a testa do artesão com o propósito de lhe fazer baixar a febre.
- Ele tinha mesmo peste? Perguntou uma rapariga que era irmã do cigano que sabia construir caixas flamengas.
- Julgo que sim respondeu o patriarca.
- E como é que ele apanhou o bicho?
- Talvez alguma ratazana ou algum enfermo com o mesmo mal tivesse estado naquele lugar deixando o cheiro da doença.
- Não sabia que as doenças tinham cheiro! Mas conte! O que aconteceu depois? Ele morreu?!
- Morreu.
- Coitada.
- Pois é, agora estava sozinha, quero dizer que uma parte dela estava sozinha mas por outro lado tinha uma nova família, a velha metamorfoseada de raposa e o cigano bailador que era até aquele momento o seu fantasma protector. Depois da raposa ter arrastado o corpo e ter escavado com as patas uma cova do tamanho de um poço, enterrou o artesão e logo cobriu de terra e humos o lugar. A rapariga estava com ela quando isto se passou e quando a raposa voltou á forma de mulher, ela a convidou a viver na sua companhia e a ser sua aprendiz, lhe ensinaria todas as magias que sabia fazer desde criança. A rapariga que diziam ser a noite perguntou se ela lhe ensinaria a forma de se converter num animal, podia ser um pássaro. A velha que agora se apresentava na sua forma jovem disse-lhe que um pássaro podia ser uma coisa perigosa pois por aquele bosque eram frequentes os caçadores e se ela adoptasse a forma de raposa era mais fácil esquivar-se dos cães e das setas. Contou ainda os seus casos amorosos com os caçadores, eles perseguiam-na como raposa e ela aparecia-lhes como mulher, uma jovem mulher como a água fresca do rio. Depois namorava-os deixando-os loucos e cegos de paixão que se entregavam ás filhas dos reis ou ás estrelas que brilhavam cintilantes no ferro das espadas ou nas gotas de água que caiam da montanha e que na loucura deles pensavam ser uma mulher vestida de terra.
- Quanto tempo viveu a noite com a raposa encantada? Perguntaram todos.
- Viveram juntas alguns anos, não viviam sempre no mesmo sítio.
- E como faziam?
- Umas vezes viviam em buracos que os castores cavavam, outras alturas dentro do tronco de árvores velhas e centenárias, também habitavam celeiros abandonados.
- E onde é que ela aprendia a magia?
- Quando iam á procura de alimento e paravam para comer os animais caçados ou provavam como sobremesa o néctar de certas flores, a mulher assumindo a forma de raposa escrevia com as patas a fórmula das metamorfoses, ela conhecia também a metamorfose das estações.
- A Minha avó diz que faz sol quando devia chover.
- A tua avó é uma metamorfose diz um rapaz
- Olha! Não chames nomes á minha avó que não é para aqui chamada.
- Tenham calma! Estava eu contando o modo como viveram durante certo tempo e como a rapariga aprendia com a velha as artes da magia. Alem da arte da metamorfose ela aprendeu a fazer remédios que tratavam algumas doenças e dentro dos frascos onde se introduziam as substâncias de certas flores ou fungos ou ainda o sumo de certos frutos havia um segredo revelado ao homem pela natureza. Acontece que naquele tempo a igreja perseguia todos aqueles que praticassem a medicina popular eram chamados de bruxos e deitados á fogueira. Muitos anos antes a velha costumava andar nas feiras onde distribuía gratuitamente remédios aos enfermos e vendia compotas que ela confeccionava. Pelas feiras andavam os guardas do rei. Certa ocasião os guardas tentaram prende-la e foi graças á magia da metamorfose que conseguiu escapar. Agora não queria voltar ás feiras pois não queria por em perigo a vida da rapariga cigana que embora estivesse aprendendo as artes da metamorfose ainda não dominava com segurança o processo magico. A rapariga cigana que se dizia ser a noite, essa noite que veste os céus e que se fez mulher graças ao desejo dos homens que pedem ás estrelas a realização dos seus desejos de amor impossível, ela que nascera de um ventre cigano e que descobrira nos olhos de um velho artesão o amor universal que não pode estar sujeito a nenhuma lei olhava o buraco escuro onde ele e a mulher que naquele momento tinha a forma animal da raposa que deitada sobre o corpo dela a aquecia.
- Uma raposa deve ser quente como uma fogueira
- Eu nunca cheguei perto de uma.
- Se chegasses podia morder-te
- Queimar-me é que não.
- Uma raposa pode queimar diz o pequeno João.
- Explica lá desafiaram os outros miúdos em coro.
- Se ela for a raposa cor de fogo.
- A raposa da história parece cor de fogo.
- Se a raposa fosse quente como o fogo ela queimava-se e as princesas não se podem queimar diz a pequena Mariana com aquela sua expressão viva nos olhos.
- A noite não é atingida pelo fogo, ela é como a água diz o miúdo que andava sempre com o ranho pendurado no nariz.
O patriarca cigano resolveu fazer uma pausa pois a noite ia longa e os pequenos precisavam de descansar. No dia seguinte voltou a ele a contar mais um pouco daquela história:
- Enquanto a raposa se enroscava no corpo da rapariga cigana o espírito dela viajava em sonhos por lugares que ela conhecera durante a fuga que empreendera com o velho Jeremias, sonhou que era criança e que o pai a embalava e lhe cantava canções de embalar e ela ria-se quando na aldeia lhe diziam que era parecida com o sol e bonita como ele.
- Ela era filha do sol não era? Perguntou em duvida um rapaz que estava olhando a sua fisga de atirar aos pássaros.
- Era filha do sol que como vocês vão ficar a saber é ourives.
- Porque é que ele é ourives? Perguntaram.
- É ele que faz os colares e as pulseiras de ouro que as mulheres ciganas usam.
- É mesmo assim pai Jacinto? Perguntou Mariana.
- Na verdade é uma lenda cigana.
- O que é uma lenda?
- Uma lenda é a verdade dos sonhos que não acontece sempre na nossa vida.
- A história que nos está a contar é uma lenda.
- O que vos conto é uma verdade guardada à muito tempo na memória dos contadores de histórias, uma história que atravessou os mares, que entrou nas prisões, que apaixonou poetas.
- Conte mais! Pediam os miúdos.
- Tinha chegado aos ouvidos de um dos mais famosos piratas que havia uma criatura que sabia fazer o ouro mais valioso da terra, o sol lançou um dos seus raios ao ar que caindo em cima de uma mulher lhe provocou dores de parto e o nascimento de um rapaz que seria destinado a trabalhar o ouro, ouro que tornaria bonitas todas as mulheres e importantes todos os negociantes cujas roupas fossem bordadas a ouro. O famoso pirata desejava encontrar-se com o ourives para tentar sacar-lhe o que considerava ser o segredo mais valioso e a seguir matá-lo. A rapariga cigana acordou e viu que a raposa ou a mulher velha, ou a mulher nova já não se encontrava ali, levantou-se e andou pelo bosque, andou mais um pouco e presa a uma armadilha estava a raposa que daquela vez não conseguira usar a arte da metamorfose e por isso estava com o pêlo esquartejado pelos ferros afiados da armadilha e a boca jorrava sangue. A rapariga ajoelhou-se e chorou, chorou um choro tão forte que se podia escutar o mais longe possível. Agora estava sozinha naquele bosque, não confiava em homem nenhum, dentro dela havia um desejo de vingança, matar aqueles que tinham perseguido até á exaustão do ódio a sua companheira, a sua raposa e velha sábia que conhecia a natureza dos homens e sabia que um dia não ia escapar da única armadilha onde toda a criatura acaba por cair e que é a morte.
- Foi a morte que pôs lá a armadilha? Perguntaram as crianças.
- Foi a guarda do rei. Nesse dia vestiram a morte e mais tarde haviam de a encontrar.
- A história está a ficar triste lamentava-se a pequena Mariana.
- Quero dizer-vos que embora tivesse perdido a companhia física da velha que tinha o destino de ser raposa e o destino de ser jovem mulher, todas as criaturas daquele bosque, desde o animal feroz ao animal mais dócil se entregaram ao seu serviço para a fazer sentir que o mais duro da vida é como um vento que pode empurrar de novo a alma para uma nova vida desabrochando sempre a flor do amor. A firmeza de ficar de pé, é a prova de que somos resistentes e que a reafirmação da liberdade é uma luta nossa e da natureza.
Enquanto a jovem cigana e conhecida por todas como a mais bela, assim a noite que adormece os homens resolveu ir em viagem os dois ciganos que tinham sido mandados em perseguição da rapariga e do velho tinham conseguido fugir. Ouviram também eles falar do famoso pirata que cobiçava o ouro que diziam ser aquele que sai das mãos do sol e queriam eles fazer um acordo com o tal pirata e sua tripulação. O pirata conhecido com o nome de Vagos costumava parar num bar que se chamava gavião das ondas, bar frequentado por prostitutas, mendigos, nobres que tinham perdido fortunas e que agora exploravam o negócio da prostituição. Os jovens ciganos fugidos da prisão, andavam disfarçados de leprosos para que não fossem reconhecidos. Chegaram ao cais onde ficava situado o tal bar, já sem o disfarce perguntaram quem era o famoso Vagos, o que lhe indicaram uma mesa onde estava ele mais outros da sua guarda jogando á bisca.
- Quem é que quer jogar? Perguntou ele num tom resmungado
- Nós responderam os ciganos que estavam fugidos.
- Tendes dinheiro? Ou querem uma corda á volta do pescoço?
- Temos uma informação.
- Falem!
- Tem que ser em particular.
- Levem-nos ao meu navio, falamos lá, espero que seja uma boa informação. Tomem conta deles!
- Chefe pode ficar descansado disse um deles.
- Eles iam contar o segredo do ouro ao pirata? Perguntou o pequeno João.
- Sim e sabem vocês em troca de quê?
- Não responderam em coro!
- Em troca de uma parte desse ouro... tanto os ciganos como os piratas sabiam da existência do ourives que era o sol na forma humana mas não sabiam onde era a sua morada. Os dois jovens iam inventar que conheciam o sitio e em troca de uma parte do ouro queriam atravessar uma ponta do mar á outra ponta.
- Onde fica a casa do ourives? Perguntou Vagos o pirata aos dois ciganos.
- Só vos dizemos se nos levarem de uma ponta do mar á outra.
- E onde fica isso?
- Queremos ir na direcção de outra vida, o ouro que conseguirmos é para mandar á família e pagar a um padre a absolvição dos nossos crimes.
- Podem lava-los na água, por aqui há muita e é tão salgada como as nossas vidas riu-se ele. Estava a pensar agora como é que eu sei que essa vossa história não é invenção?
- Se não tendes confiança na nossa palavra...
- Sois ciganos
- E vós sois piratas, vos saqueais as coisas do mar.
No bosque continuava a viver a jovem rapariga que tinha feito um juramento de vingança, agora odiava tanto, como tinha amado o velho artesão e a velha raposa que sabia a arte da metamorfose, agora ela que conhecia tão bem aquele bosque tinha um plano para liquidar toda a tropa de caçadores do reino e roubar todos os cobradores de impostos cujo caminho fosse aquele.
- E qual era o plano dela perguntou uma miúda?
- A jovem pensou preparar um perfume cujos ingredientes eram extraídos de um cacto que existia em volta do buraco fundo onde ela continuava a dormir. Enquanto apanhava umas bagas que eram parte do tal cactos, pediu à águia que a alertasse caso aparecesse algum intruso. Ela queria que aquela operação fosse secreta. Ela ia criar o perfume da sedução fatal, depois espalharia o mesmo nas roupas dos soldados dos reis quando andasse a passear pelas feiras. O cheiro daquele perfume a que ela seria imune atrairia quem o cheirasse para o cimo de uma torre onde se atirariam convencidos que se tinham tornado imortais, outros caminhariam na direcção dos poços e convencidos que Deus em pessoa os baptizava se afogariam nas profundas águas. Levou ela mais de dez anos na apurada escolha dos bagos e outros dez na preparação do tal perfume. Logo que o perfume estava pronto a ser usado ela lançou um assobio frio e logo apareceu o seu cavalo selvagem. Partiu ela ainda muito cedo e a dado momento aparecendo dos ramos altos de uma árvore saltou uma figura uma parte era o desenho de um humano em forma de fogo, um fogo de paixão que ao envolve-la a cegou.
- Quem és tu? Que me fizeste?!
- Sou aquele que é parte da tua escuridão e sou a parte da luz que tens em ti. A vingança perde as criaturas.
- E ela ficou muito tempo sem ver?
- Quando fechou os olhos e imaginou que olhava o coração, o que há de mais verdadeiro, os olhos dela abriram-se. Abriram-se os olhos e os braços respondeu o patriarca.
- E depois ela apaixonou-se outra vez?
- Depois ela assumiu a forma do espaço em volta e quando deu conta, já não era mulher, nem animal, a sua metamorfose era ter conseguido ficar noite.
- Olhem as estrelas gritou um miúdo!
- Parecem o ouro que os piratas desejavam.
- E agora a floresta ficou sozinha pergunta Mariana?
- Ela continuava a proteger aquele lugar e quando havia a intenção de destruir aquele sítio os que tentavam ficavam cegos e não conseguiam descobrir o caminho. Anos mais tarde o rei que governava aquela terra foi derrubado e o povo elegeu um cavaleiro cuja espada era afiada de justiça.
- E os piratas? Perguntaram todos.
- Os piratas ainda navegam, crentes que vão na direcção da casa do ourives que fica situada na mentira dos rapazes ciganos. Na verdade é a loucura que os faz seguir, a loucura e a cobiça e será isso que os irá perder.


de Lobo
3 de Dezembro de 2004

Publicado por D_Quixote em 11:46 AM | Comentários (11)

maio 28, 2005

Sugestões

No dia 1 de Junho, quarta-feira, Dia Mundial da Criança, às 21h, no Palácio das Galveias (Campo Pequeno, Lisboa) acontece o lançamento da Antologia “A Poesia do Nascer”, na qual se insere um poema de João Natal. Esta antologia é uma compilação de 100 poemas com a temática do nascimento/maternidade, reunidos pelo médico pediátra Dr. Mário Cordeiro, que conta já com um vasto trabalho nesta área de medicina "dos mais pequeninos".

Na cerimónia haverá uma pequena tertúlia sobre “Nascer em Portugal”, com o Professor Eduardo Sá (psicólogo infantil), a Drª Isabel Cordeiro (geneticista), a Drª Eduarda Carvalho (psicóloga e musicoterapeuta) e a Drª Ana Perdigão (jurista).

Peço a todos os amigos deste espaço, que possam, que compareçam.

Igualmente... apelo a todos a comparência em Leiria, a este evento promovido pelo amigo poeta José Félix, que versa entre outras, a temática "Poesia na Internet" (algo que nos diz portanto muito respeito...) e igualmente faz o lançamento do livro "Antologias de Escritas nº2".

Não faltem!!!


Publicado por D_Quixote em 04:17 PM | Comentários (3)

maio 27, 2005

Trazia um lenço com bordados de morangos

Trazia um lenço com bordados de morangos
e na sua boca macia e sedenta...
esboços dos últimos retoques...
de uma pintura ciumenta.

A saia de branco linho suas pernas encobria
e no adivinhar das suas ancas sombrias,
se perdeu o meu entendimento.

Algures... pormenores de uma cintura esguia,
um aroma adocicado
e embora por ali e sempre retocado,
um fino esgar idoso e sombrio.

Nos seus seios minhas mãos errantes
os seios... os seus imperfeitos seios...
tortuosos e sem rodeios,
em fuga rumo a um qualquer Levante.

E o pensamento entre o pescoço altivo e anelar,
resguardando um tortuoso e etéreo mal-estar
e correndo aflito em busca do vento...

Trazia um lenço com bordados de morangos
aquela cujos lábios suculentos
injuriava um ténue atrevimento...


de Nancy Brown

(este teu poema é uma Primavera de sensualidade Nancy... fresco... mas tão quente...)

Coy by Haleh Bryan

Publicado por D_Quixote em 12:52 AM | Comentários (2)

maio 25, 2005

Árabe

Estou tão triste, hoje, especialmente hoje, tristemente hoje, estou
sem pássaros no sangue, ou rios
escadas para ti
hoje estou sem escadas para ti
beija-me ainda, para que saiba em que degrau me encontro
neste desencontro
diz que me habitas
que me divides e unes
todo o edifício que sou
ruínas e braços
restaurando o amor
diz-me que sou, de novo
na tua boca
os ombros que o mar amou
diz-me
em que oceano te encontras sepultada
para que eu um destes dias
também morra feliz
diz-me
as horas de viver
contigo
diz-me antes que enlouqueça
onde estão os beijos
perdidos no emprego
na jaula do macaco
diz-me o sitio exacto do tempo
antes do fim do abraço
para que fique contigo
a árabe identidade e mais nada.


de Miguel Patrício

(o que dizer deste teu texto incrivel Miguel... poesias assim são tapetes voadores onde todos podemos voar sem limites... absolutamente lindo... e confesso que já andava com saudades que enviasses poemas!)

nu64 by Robert Farnham

Publicado por D_Quixote em 01:25 AM | Comentários (7)

maio 24, 2005

Lentamente

Lentamente,
As tuas mãos percorrem o meu corpo,
Suaves,
Como se soubessem de cor
Os meandros do meu prazer!

Lentamente,
A tua boca aviva os meus sentidos,
Quente,
Como se o tempo parasse
Para me sentires nos teus lábios!

Lentamente,
A ternura de um desejo sôfrego,
Apaixonada,
Liberta-nos de nós
Na fusão perfeita de dois seres!


de Joana Guimarães

(um poema quente e sedutor neste regresso da tua poesia...)

from the Ultraviolet II series - love the wonderful glow around the model. by Carsten Tschach

Publicado por D_Quixote em 12:40 AM | Comentários (3)

maio 23, 2005

Chuva Interior

Chuva que bates fora na vidraça
Vem cá bater no meu rosto dormente
Só para ver se a tua água disfarça
A mágoa da água que choro demente.

Chuva que cais lá no chão da calçada
Vem cá bater neste meu triste olhar
Vem esconder a minha face molhada
Deste triste ser que aqui está a chorar.

Olho o céu cinzento directamente
E faço dos meus olhos jarras a encher
Com esta chuva que cai sem parar

E talvez esconda convincentemente
Que está no meu coração a chover
Mais do que fora me possa molhar.


de João Natal

(já antes aqui em colaboração com o amigo Alves)

untitled by TCA

Publicado por D_Quixote em 01:09 AM | Comentários (5)

maio 20, 2005

Branco e salgado

Eram apenas sons. Acordes de música breve e desigual, parecidos com os meus sonhos distantes e incertos. Eram apenas sons, mas por eles subi como se a escada do paraíso fosse o caminho certo para mim. Eram apenas sons, mas em cada um deles via as curvas estreitas da minha alma branca e salgada.
Cada escada uma nota, cada passo, o destino mais perto de mim.
Sorri, como se os segredos que escondia não fossem mais do que palavras. Apressei os sentidos e preparei o corpo para a certeza de te saber ali, por mim, para mim.
Chegaste carregado de sons e de medos subtis, e soubeste que era eu que ali estava, por ti, para ti. O olhar foi breve e bastou para que eu sentisse que tu eras a imensidão daquela noite de luz clara, branca e salgada como a tua alma.
Dei-te uma mão molhada pelo medo e tu seguiste o meu corpo ansioso e sozinho. Pertencer-te nunca foi a dúvida.
Em cada passo que demos descalços, senti que voava pelas escadas do paraíso branco e salgado que éramos nós. Deixar-te começava a ser a dúvida.
Não consigo deixar de te dizer que nunca, em parte alguma da minha vida, me senti como me senti neste pedaço da minha vida contigo. Tudo, em cada canto daquela noite, me disse que tu eras muito mais do que eu queria que tu fosses. O teu colo, tão profundo e quente de todas as lágrimas que sempre choraste… Os teus braços, perfeitos em mim, que me fizeram esquecer que era mortal e feita de pó e feita de sonhos. Para mim, tu eras o sonho da realidade.
Dessa noite, trouxeste uma caixa de areia branca, salgada pelo mar que lhe deu a vida, salgada pelas lágrimas que chorei e que lhe tiraram a vida. A ferro, porque tinha mesmo que ser, porque o infinito é finito quando a distância e a vida nos fazem perguntar uma e outra vez porquê. Porquê? Porquê?...
Consegues ouvir o que ouço, quando fecho os olhos e peço que as tuas palavras sejam apenas pó? Grita, grita comigo porque eu não posso deixar de te dizer que sempre te quis. Pára de me olhar e olha para dentro do muro de pedra que és, que ergueste e que o meu amor não conseguiu destruir…pára de me olhar, porque o meu medo é tão grande e eu não consigo perder-me, outra vez, nos braços de alguém que eu nunca soube se me quer… Pára de me olhar.
Queres um castelo feito de ar mas eu sou feita de terra e de sangue e de fogo e de memórias de outros dias que afinal foram apenas ar. Ar.
Em cada pedaço de mim, existe um pedaço de ti. Porque eu hoje sou o que me ajudaste a ser. Em cada lágrima, em cada sorriso, em cada gesto. Percebe-me a girar à tua volta e sente a certeza que eu sempre senti de que era a tua mulher.
Não se é mulher por qualquer razão. Ser mulher é saber que se encontra. Eu soube. Tu não…


de Estela Ribeiro

(doce... muito doce é o sabor que fica nos olhos ao ler este teu texto salgado... muito bonito amiga... mesmo muito bonito)

untitled by Tim Youles

Publicado por D_Quixote em 12:00 AM | Comentários (8)

maio 18, 2005

Rui Costa na FNAC

É verdade amigos... o grande poeta Rui Costa que já passou muitas vezes com a sua poesia por aqui, tem o seu primeiro livro editado e será feita a devida apresentação na FNAC no próximo dia 21 de Maio pelas 18 Horas.

Pede-se a todos os amigos e clientes do Poetry Café que passem por lá para um cafézinho e dois dedos de conversa.

Um abraço grande e os meus parabens ao Rui...


Publicado por D_Quixote em 12:19 AM | Comentários (8)

maio 15, 2005

Corro Para Ti Num Tempo Que Se Esqueceu de Mim

Já não tenho mais dois anos...
Sinto saudade desse tempo;
Do teu colo,
Do teu sorriso enternecido,
Do brilho do meu olhar,
Que só a ti via,
Da minha alma,
Que só a ti pertencia.
Foram os melhores momentos
Os quais guardo na memória,
Escondidos,
Para os poder reviver um dia.
És a estrela
Que ilumina os meus dias escuros
E as noites passadas em claro;
És a peça essencial
Do puzzle da minha vida
Que a morte desfez;
És o tudo que tento abraçar
Num mundo "nada" que me atormenta
E me faz recorrer ao sonho,
A TI!

de Teresa Sousa

(quando vi este poema no teu blog, não consegui deixar de sentir uma vontade enorme de o trazer para aqui... porque o sei simples, sincero e lindo... maravilhosamente lindo, nos sentimentos que tem como alicerces... beijinho doce!)

Untitled by MacGregor Anderson

Publicado por D_Quixote em 11:14 AM | Comentários (11)

maio 12, 2005

maria puta de lisboa

Estou a pensar que significa voltar a ver-te, sempre te encontro quando chove e o fumo do café se parece a um génio. Apetece-me chorar e não sei porque o faço. É me indiferente as gotas de limão que usas ou o golpe que fazes nas veias para que me comova da tua solidão. Agora eu finjo, todas as formas de teatro me foram uteis para ficar nas ruas onde me vendia. A minha familia desejava que a minha vida fosse tão imaculada como um cú virgem. Estou a pensar que tu não podias ficar, a mentira faz mexer os pés. Os livros mentem, as obras de arte também e eu levanto o tampo da sanita e cago esta presunção de festas com champanhe e os prémios dos escritores importantes. Estou a pensar que todos os dias vejo Deus e eu pergunto-lhe como se lhe perguntasse as horas, se ele gosta das putas, se ele ama as putas acima de todas as coisas. Estou aqui embrulhada em histórias fingidas, pensei consultar um psicólogo, eu Maria, natural de Bragança, violência no corpo e na memória, não tenho filhos, não tenho homem e aqui estou a contar esta minha odisseia a que dei o nome , Maria puta de Lisboa.

de Lobo

Tattoo2 by petek arici

(é por textos como este amigo, que espero mesmo que não te vás, e que a tua poesia e alma continue a encontrar o caminho da minha caixa de correio... e o que te disse é verdade... dá-me um toque que estarei por perto... abraço)

Acabei de chegar á capital, na terra de onde venho o trabalho é pouco e o senhor Januário prometeu-me um lugar de corista no teatro, para ele eu era um talento de corpinho feito, ele dava ares de muitos conhecimentos, conhecia ministros, jogadores de futebol e passado quase um ano divido um velho quarto com um travesti, a Rosário que é sero positiva e dá à força toda no cavalo. Atirada à rua ganho a vida a fazer broches dentro de Ferraris e outros carros de marca, ás terças feiras canto o fado vadio numa taberna, o senhor Januário, o chulo, dizia que eu havia de ser o orgulho de minha mãe. Na taberna onde canto o tal de fado vadio conheci um poeta que quer escrever para mim, ele é um velho doce. Eu não sei o que ele escreve, mas se o que ele escreve for o sorriso dele vou gostar do que escreve. Na estante do meu quarto tenho alguns livros, só não gosto de livros católicos, as igrejas só servem para dormir; quando olho a virgem que tem o meu nome e vejo as pessoas a darem-lhe moedas, digo-lhe que na rua ganhava mais e que o pecado é uma treta, basta fechar os olhos e tudo se converte em virtude. Pego na mala e apanho um taxi, estou no ano de 89. Da janela do taxi vejo uma carrinha da policia com putas lá dentro, muitas vezes me encontrei na mesma situação, sentia-me uma vaca dentro de uma camioneta, sinto os pés doridos, peço para parar uns minutos numa farmácia, o empregado parece um alfaiate a tirar-me as medidas.
- Que quer?
- Tenho os pés doridos.
- Aqui tem.
- quanto é?
- 250 escudos.
depois volto para o taxi e passados uns minutos estou em casa. O prédio é velho e cheira a mijo de rato. A entrada não tem luz por isso subo as escadas com cuidado, acendo o isqueiro e vejo restos de seringas espalhadas, Rosário está na casa de banho a cortar o cabelo, ouvesse uma musica flamenca, a voz de camaron da ilha.
- Há café grita-me ela
- vou para a cama.
- estás bem?!
- sim e tu?
fiz dinheiro para a dose e para os cigarros.
- amanha é dia de pagar a renda.
- eu sei antes de sair deixo a minha parte debaixo da porta do teu quarto.
- está bem, até amanha.
Rosario costuma ir ao domingo ao cemitério, diz que vai tomar chá com a alma da sua avó.
- ó Rosario as almas não bebem chá.
- se cheiram incenso porque não podem beber chá?
- não se pode fazer nada com os mortos.
- só morre aquilo de que não se gosta.
- e que coisas morreram para ti?
- sei lá eu!
- bem vamos abrir uma garrafa.
- vamos beber o sangue das nossas vidas.
- à saude
- à saude.

Rosário por causa da sua doença se encontrar nas ultimas teve de ser internada, eu mudei de casa, uma assistente social arranjou-me um trabalho de recepcionista na santa casa da misericordia. Agora moro numa casa com quintal, moro eu e o meu gato. Ontem recebi uma carta da minha mae, como pensa que eu trabalho no teatro pede que lhe envie entradas para ir ver a revista, eu escrevo que vou viajar, que vou em tourne, mas prometo-lhe que quando regressar lhe ofereço as entradas. Ofereço-lhe também um estojo de beleza. Na ultima carta contava-me que o meu pai lhe batia, não conseguia parar de beber. O pai da Rosário também batia na mãe e quando esta era pequena por diversas vezes a tinha violado. Faz uma semana que ela morreu. agora imagino que está a beber chá com a alma da sua avó, ontem enquanto escutava a musica do amolador vinha-me ao pensamento que a morte tem a música da chuva, pensar isto não aquece o coração, se ela agora aqui estivesse tentariamos recomeçar. Ou talvez seja uma desculpa para se fugir àquilo que tinha de ser vivido. Rosário tu nunca amaste ninguem, mas também nunca foste amada por ninguém ou não houve tempo para que descobrisses as coisas que demoram tempo. Penso ter-te conhecido bem, mas nao estive na tua pele, as nossa dores são coisas muito nossas e não existem medidores capazes. Podia escrever-te uma carta, mas não há o correio das almas. Tenho o gato sobre o meu colo, limpo uma pequena lágrima ao seu pelo e fico quieta como se eu fosse ele e o mundo tivesse parado. A nossa vida é um muro branco que apetece sujar ou simplesmente tornar o seu aspecto uma coisa mais autentica do que era antes, podemos imaginar um homem de fato branco, um tipo como o senhor Januário que está podre e parece casto nas finas maneiras de se insinuar no primeiro encontro, ele está filiado num partido de direita, tudo o que foi construido ilegal, toda a sua riqueza pessoal se fez na angariação de mulheres e no tráfico de droga. Agora veio a lume o seu envolvimento no lado escuro do futebol. O senhor Jánuário terá sempre a protecção dos seus padrinhos, a familía politica não o vai deixar cair em desgraça. Ninguem está limpo, eu tento recomeçar, não é sempre por motivos pesados que vamos parar aquilo que outros adjectivam de pior. O pior pode ser a moral, a religião, o pior pode ser não se conhecer o lado escuro e levar-se com luz demasiado forte nos olhos. Agora me lembrei que são poucos ou nenhuns os retratos de infancia, parece que o vento leva a infancia como leva os papeis do chão, parece que leva as roupas do corpo, o gato parece que me percebe, ele é o meu homem, o meu amor verdadeiro, imagino que espalha a cinza da lareira sobre os meus cabelos, parece um ritual ortodoxo, finjo que sou a Madalena apedrejada nos predios e nos centros comerciais e que ele é um Cristo agil se escapando para os telhados perdoando aos homens que caiem na tentação de representarem demasiado bem o amor. O meu trabalho decorre normal, costumo encontrar por perto o velho poeta, costumamos conversar um pouco, as nossas conversas são o assunto dele que é a poesia, fala-me do Luis Pacheco que é um poeta surrealista que anda a comer dos caixotes do lixo e que é o poeta mais puta de lisboa, ele e o Cesariny são todos a melhor puta de poesia. Conto-lhe que ás vezes escrevo, o meu sonho era o teatro e ele elogia-me a voz, que tenho uma garganta de água tão cristalina como a garganta do sol. Eu desato a rir e bebo o meu café. Olho a rua e lembro-me que tenho de passar pela mercearia da Rosa e comprar comida para o gato. O velho poeta olha-me e toca-me as mãos e parece que acrecenta vida, vida verdadeira aos anos que julgava ter perdido

Publicado por D_Quixote em 01:00 AM | Comentários (10)

maio 10, 2005

Aliteracia

Todo aquele poeta que o é realmente
Até escreve versos como respira
E assim escreve apenas o que sente
Nem que não sinta e escreva mentira.

E aquele que lê, pois é diferente
Nem sempre percebe o que tanto admira
Às vezes engana-se totalmente
Na conclusão que do poema retira

E assim tantos livros aqui se vendem
Neste pequeno país aliterado
Para uma população que não lê.

E aqueles que os vão ler pouco entendem
Mas fica feliz o que é enganado
Pois parece culto p’ra quem o vê.


de João Natal

20/09/2004

pencil by salih güler

Publicado por D_Quixote em 11:41 PM | Comentários (12)

Ó minha concubina

Ó minha concubina Na noite escura
Entregaste tua excelsa carnação
Para lenta & desejada degustação
Por minha caprichosa loucura

Como era doce teu seio seguro
Tuas unhas de cereja cristalizada
Teus lábios devorei na noitada
Com o seu tom rouge de fruto maduro

Consumido teu glorioso ventre altar
Semeei em teu quente sexo debruado
A altiva horda do prazer imaculado
Que meu corpo reservou para te amar

Místico era o suor que se libertava
De teu lascivo corpo nacarado
& que como um vinho consagrado
Minha ávida boca o libava

Como estavas deliciosa naquele serão
Em cada suave movimento fremente
De nossos corpos virados a Oriente
Como dispostos por sacra ordenação

Ó minha concubina
Naquele serão
Iniciámos uma religião

de Xil Veríssimo

(uma estreia auspiciosa aqui no blog... ficamos ansiosamente à espera de mais poesia tua)

better touch... by Natalie Shau

Publicado por D_Quixote em 12:52 AM | Comentários (3)

maio 09, 2005

reflexões sobre a morte

1.
perdi o nome
o rosto que lhe pertenceu.

nesse dia havia flores
e silêncio nos ciprestes.

2.
cai a folha velha de fuligem.
o sorriso é um contorno da sombra

na luz de um crepúsculo.

de josé félix

(já nem tenho mais maneiras de te dizer o quanto a tua poesia me encanta José... abraço!)

Prisoners of Desire: Infinite Triangle - I by Eugeny Kozhevnikov

Publicado por D_Quixote em 01:21 AM | Comentários (19)

maio 06, 2005

Epilepsia - Factos

Hoje em dia existem pessoas de todas as posições sociais que sofrem de epilepsia e, por conseguinte, é algo surpreendente que ainda surjam mal entendidos. Na verdade, o receio da possível estigmatização ou preconceito faz com que muitas pessoas ocultem a sua epilepsia dos amigos, da entidade patronal e por vezes até mesmo da sua própria família.
A epilepsia alcançou indubitavelmente uma imagem não invejável nas mentes das pessoas, talvez isso se deva em grande parte aos seus efeitos imprevisíveis, dramáticos e por vezes assustadores. Embora haja muitos tipos diferentes de ataques, é a convulsão - cair no chão, espumar da boca, tremores nos membros - que vem primeiro à mente das pessoas quando se menciona a palavra epilepsia. É o acontecimento dramático que sempre alimentou a imaginação das pessoas; os ataques epilépticos são mencionados nos primeiros documentos babilónicos e hebraicos. Na Grécia Antiga, numa época em que as pessoas viviam obcecadas por deuses e espíritos, Hipócrates foi um dos primeiros a tentar dissipar o misticismo dos ataques epilépticos. Ele acreditava convictamente que a epilepsia tinha origem no cérebro e chegou mesmo a condenar todos os charlatães que sugeriam que a epilepsia se devia à possessão demoníaca.
Contudo, nos 2000 anos seguintes, foi esta teoria de possessão demoníaca que fez com que as pessoas epilépticas fossem afastadas, encarceradas e sujeitas a experiências desagradáveis, dolorosas e humilhantes em nome da cura. No relato da morte do rei inglês Carlos II, existe uma descrição do tratamento dos seus ataques; este incluía sangrá-lo, dar-lhe substâncias que o enjoavam, clisteres repetidos, rapar-lhe a cabeça, empolar-lhe a pele e depois, finalmente, obrigar o rei moribundo a engolir uma mistura desagradável.
Ainda mais recente, no século XIX, propunha-se a circuncisão e a castração como curas para a epilepsia. Somente no final do século XIX foi introduzido o primeiro medicamente eficaz, o brometo de potássio, e pela primeira vez o tratamento com o medicamento permitiu que a maioria das pessoas com epilepsia levasse uma vida normal e sem ataques.
No entanto, ainda existe, até certo ponto, um estigma ligado àquilo que é uma doença comum (quase todos nós conhecemos alguém com epilepsia, muito embora não tenhamos consciência se essa pessoa sofre realmente da doença).

Até que ponto a epilepsia é uma doença comum?
A epilepsia é uma doença extremamente comum. Existem entre 40 a 70 mil epilépticos em Portugal e todos os dias são diagnosticados novos casos. Além disso, uma em cada 30 pessoas pode vir a desenvolver epilepsia. No entanto, a maior parte das pessoas com epilepsia melhora e, na verdade, é isso que acontece; em cerca de seis em cada 10 pessoas a doença desaparece por si. A epilepsia afecta homens e mulheres quase igualmente, embora determinados tipos de epilepsia sejam mais comuns em um ou outro sexo. Afecta todas as classes sociais e todas as raças.
Por conseguinte, a epilepsia é extremamente comum e normalmente tem tendência a melhorar - esta é uma mensagem importante para todos os que desenvolvem a doença.

(in "Epilepsia" de Dr. Matthew Walker e Prof. Simon D. Shorvon)

Hoje resolvi postar um texto diferente, muito bem escrito e divulgado pela Teresa, que nada tem de poético, mas que se afigura importante dar a conhecer.
Eu tomei contacto da epilepsia pela vivência com o meu irmão, cujo infortunio da vida lhe onerou com essa doença para o resto da vida. A minha luta é apenas a dele, e foi por isso que há já algum tempo sou voluntário na Liga Portuguesa Contra a Epilepsia, tentando dar o meu melhor em nome de uma luta nobre.

E foi lá que conheci o Paulo Nuno, um verdadeiro exemplo de como a epilepsia é tudo menos um estigma ou algo que diminua uma pessoa. Pois ele é uma pessoa fantástica cujo blog aqui dou orgulhosamente a conhecer.

A ele o meu abraço, e à Teresa o meu beijinho pelo texto.

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Publicado por D_Quixote em 09:15 AM | Comentários (3)

maio 03, 2005

Partida

Eu a vi acenando
Longe e pálida
Com um sorriso impávido
Com um olhar firme, sem distração.

Destemida andou até o final da esquina
Com passos pesados e funestos
Deixou escapar uma lágrima pertinaz
E nem se deu ao trabalho de enxugar.

Suspendeu o braço e gritou adeus.
Nunca havia ouvido voz tão doce.
Nunca havia ouvido essa melodia
Fúnebre, negra, sem sentido
Triste, abatida...Urgente.

Eu corri avidamente para abraçá-la
Chorei copiosamente sua despedida
Quando cheguei, finalmente,
Era tarde demais, minha vida se foi...


de Marta Silva

(que bom é ter a tua poesia de regresso Marta, e logo com um poema lindo apesar de triste)

the lost Rose by Natalie Shau

Publicado por D_Quixote em 05:51 PM | Comentários (8)

maio 01, 2005

Receita

A tua voz e os teus traços lavando o silêncio, temperando a tua ausência com
sal e pimenta. Ao lume aquele traço inapropriado, aquecido numa vagem de
feijão dourada. Os irrecuperáveis danos gritando sem querer, sem eu querer, e
as tuas sombras, os teus gostos, a tua forma de resgatar o mundo, salpicando a
origem, condimentando um não sei quê rumo a não sei onde. As pingas de chuva marinando os dias enxutos. Os lilazes cortados em gomos, sem eu querer, mas já não salteados e tu em lume brando. A luz do dia ferve. Os retratos de Schiele descascados por toda a casa. A arte em tiras, os pássaros pretos enrolados em forma de tubo e algum endurecimento na minha forma de ser. As palavras laminadas e os obscuros desejos servidos como se fossem bolachas. Salteias pela minha intimidade polvilhado em coentros e eu escorrendo no papel absorvente.
E os outros preparados em polme, nem muito líquido nem muito esponjoso.


de Nancy Brown

(uma barriga cheia de boa poesia saciando a fome que já tinhamos da tua escrita amiga... e ainda temos muito que falar daquela outra tua ideia...)

Another face by Dick Smolinski

Publicado por D_Quixote em 09:59 PM | Comentários (9)