Não sei com que palavras descrever este estado de espírito actual, inconcreto e indefinido.
Não sei com que tonalidades pintá-lo ou com que formas reproduzi-lo.
Não sei com que vestes revesti-lo ou em que subterfúgios escondê-lo.
O tudo será sempre nada para o tanto que poderia ser.
O mais será sempre menos para o tanto que deveria ser.
Estamos sozinhos, perdidos no meio do nada, à espera que algo aconteça. Mas por nós apenas resvala um tempo que vai imprimindo folhas soltas de uma história antiga e desconexa. Um tempo que já não traz o perdão necessário. O mesmo tempo que insiste em presentear-nos com o vazio do tanto que haveria por preencher. O mesmo tempo que nos oferece a finitude do infinito que nunca chegaremos a conhecer.
São hoje tuas as horas mortas que se passeiam no meu jardim. Reconheci-te, não nas palavras ditas ou nos gestos reformulados, mas no que deixaste por dizer ou por fazer. Nos teus passos pesados encontro a metade de mim que ficou presa ao teu chão, mas também um querer de liberdade que me devolveu à outra medade.
E enquanto corro para as sombras que me mortificam, com a imposição do teu ser, e enquanto me vou refazendo no novo alento que se adivinha pelos cantos da minha casa, trazido num ou noutro cântico de compleição, simplesmente não sei...
Não sei como traduzir este estado de espírito actual, sempre presente e infernal!
de Cátia Pinto
(obrigado Cátia por mais um texto fantástico, agora sim... o Café reabre as portas para mais poesia)

desire
Copyright © 2005 by Magda Marczewska
Olá amigos... por motivos que me são alheios, uma grande quantidade de fotografias do blog encontra-se agora indisponivel. Precisarei de uns dias para conseguir reparar o dano feito.
Até lá peço a vossa compreensão. O Poetry estará encerrado para "obras".
Conto regressar em força até 4ª feira.
A todos um abraço e um obrigado sincero, por tornarem esta casa um dos recantos mais queridos da poesia na blogosfera.
Assim se vestem os meus olhos
Quando me deito
E recordo o teu sabor
Na minha boca
Os meus lábios humedecem
Na lembrança
Dessa pele de algodão doce
Que me lambuza
E me faz deslizar sobre a cama
O meu cantinho da saudade
E do suspiro
Das mesmas palavras que escrevo
Sem me cansar
De repetir
É assim
Quando olho para o meu corpo
E nos lembramos de ti
De tudo aquilo que não queremos contar
Mas que é presente
Em cada retalho da minha pele
- A tua pele!
As vezes que falo dela
Que me cresce o desejo
De a tocar, com os meus olhos,
Com o meu olfacto
Servir-me de todos os sentidos
A tua pele!
Estou tonta
E só um cigarro me pode trazer de volta
(será que são precisas palavras?... adoro a tua poesia Rita... cada vez mais... beijinhos)

untitled by Wojciech Dziedzic
copyright of the photographer
És coração que bate ao compasso do amor,
estrela que brilha e ofusca sem pudor,
dor que esmaga e destrói,
saudade que mata, corrói...
És amor distante, perverso, inconstante,
barreira que não consigo ultrapassar,
respiração acelerada e ofegante,
lágrima que espreita e teima em rolar.
És gota de chuva que escapa entre os dedos,
o último passo antes da precipício,
o mais secreto dos segredos ,
pensamento constante, meloso vício...
És arrepio que me percorre num segundo,
destino que não se deixa prever,
sentimento infinito e tão profundo,
ferida que sangra e insiste em doer.
És a alegria que teima em escapar,
Lençol enrugado pela solidão,
Toda a beleza e força do mar,
Brisa que sopra nas noites de Verão...
Será que és quem penso... Será?
És desejo, paixão ou simples capricho?
És parte de mim, ou eu por inteiro?
Afinal... quem és? Amor?!
de Susana Levita
(uma bela estreia com um poema lindo... obrigado Susana pela tua poesia, ficarei à espera de mais)

Genesis by Jiri Subrt
copyright of the photographer
venham, imagens
e viagens
que não somente rimem
interpenetrem-se
tenham vida própria
acabem com meu cansaço
e fome de destino
ladino
não quero vida comportada
amestrada sinfonia
treinada
penumbra fria
surpresas, tirem-me do sério
expectativas, ousem
um farnel de desejos
entreguem-me sem pejo
ao mar, ao vento quente
com barulho de gente
dêem-me um relicário
pleno de dias claros
sol a pino, estrelas
magnéticos luares
tempestades
e sonhos
realizados, faiscantes
por pão diário.
de sonia regina
(um poema fantástico numa bela estreia aqui no café, obrigado. Ainda bem que a amizade e a poesia faz disto Sónia e vens por intermédio do José de quem já não dispenso a habitual poesia e a quem aproveito para mandar um abraço)

Sunny Afternoons
Copyright © 2005 by Nuno Peixoto Branco
É terça feira e as lágrimas correm pela rua no sentido contrário
Absortas na sua azáfama diária.
Ouvem as notícias e intelectualmente esforçam-se
Compreendendo o mundo no habitáculo transparente
Uma fila simétrica de lágrimas em profusão
À quarta feira as lágrimas continuam
Em sentido inverso
As crianças coram de júbilo pelo dia pequeno
E anseiam risonhas pela tarde
Frente à televisão
Vivendo com intensidade a poesia dos pokemons e Yu Gui Yos
À quinta feira as lágrimas desfalecem pela calçada
Secam e se por acaso a chuva as surpreende
Rabujam no seu lento caminhar
Ansiando a véspera de sábado
À sexta feira as lágrimas aumentam o som do rádio
E ouvem catherine interrogando inquisitoriamente
O político de ocasião
Também ele lacrimeja pelo mau estar neerlandês
Da população
Ao sábado as lágrimas soltam-se e espraiam-se alegremente
Pelos quintais e pela floresta contígua
correm nas pernas do corpo esbelto e suam nas calças de malha do ciclista
gritam nas gargantas das crianças
e evacuam nos aparelhos urinários dos cãezinhos de estimação
Domingo as lágrimas exaltam-se e lamuriam a sua falta de sorte
Recusam-se a viver
E encostam a tristeza na almofada do casamento em putrefacção
Inundam as almas e adormecem soluçando
Segunda feira as lágrimas ocultam os olhos inchados
E brincalhonas percorrem, uma vez mais, o sentido inverso
Correndo aflitas e deixando a tempo o filho na creche
A filha na escola e o trabalho acende-lhes um cigarro
Embora as lágrimas já não poluam o ambiente...
de Nancy Brown
(uma semana cheia de poesia num poema de um só dia... fantástico amiga, adorei)

white fragments of life by marília campos
copyright of the photographer
sento-me à mesa de um café a esculpir palavras
donde sai a poeira que polvilha o pó
nos dias vadios à espera que as margens dos rios
se tornem férteis fartos de pão e pássaros.
uma mesa nua de água límpida no sabor
da língua à míngua de gestos gastos gritos
nas horas pendulares. a vida o pêndulo
o pedúnculo de uma flor cortada no conto de um segundo.
há o sorriso das flores raras
mulheres jovens de carne lisa e desejo a brincar
com o espelho dos olhos com o reflexo lasso
de um poeta sentado à mesa de um café.
travo amargo sem o açúcar de circunstância
o café mal medido comedido
à espera que o pó das palavras se transforme
conforme o previsto.
um poeta tem a beleza de um cacto
simples e cheio de espinhos um estio
desenhado num jardim de inverno um inferno
no éden sémen púbere úbere no cedio do desejo
a mesa. o café tardio sem a surpresa da queda da palavra
o suporte a solidão longe heart with no companion de choen
«para o coração sem companhia para a alma sem um rei para a prima
ballerina que não dança com ninguém».
sou no passo apressado do caminhante o viajeiro errante
à mesa de um café.
decai a tarde no esplendor das folhas
os espelhos das sombras dos pardais perdidos
na luminosidade límpida dos olhos
uma tarde sem nome pronome que arde
sem tempo na ombreira sombria
das sombras diluídas nos olhos dos pássaros
das sombras luídas nas asas dos pássaros
das sombras caídas nas folhas das árvores
do estorvo da luz que zela a sombra
de um pássaro que poisa a brisa no ombro
que mealha as migalhas de searas cumpridas
um café na poesia da tarde oblíqua
na páscoa das palavras remidas. o pecado de um verbo
renasce a face de um fogo uma chama
e todo o tempo que dure essa chama
mas é sempre uma chama que talvez eu penso
incendeie as palavras na babel mesmo assim
que faça o papel a folha a página da árvore
dar a vida na dádiva do incêndio o incenso
da alma que acalma a voz a foz de um grito.
o mês de março tenho-o preso
nas flores murchas mais cedo cedidas
à tempestade dos olhos o reflexo dos espelhos
que toldam a secura dos jardins de promessas.
talvez houvesse que plantar mais dores
nos partos da memória mais sombria como dardos atirados
no escuro sabendo de antemão que os alvos
luzem ao silvo das setas iluminadas.
o mês de março já não é o que antes foi
e também não é o que agora sói
dizer uma explosão de esperança.
uma criança só uma criança pode ter a
palavra com que se cava a terra
e deixar as sementes nas veias do ovo
para que dê uma florescência
provinda da inocência de uma fala
sem a mancha que cala os anjos brancos
nas missas rituais da remissão.
é por isso que vou construindo um
poema no mês de março tardio
vadio de tardes verdes na certeza
de que as giestas amadurecidas
mesmo sem van ghog mesmo sem girassóis
mas com o absinto da cor da agonia.
que importa se os amantes se beijam como antes
no fim do mês de março um traço de primavera
eles plantam canções de florir flores
de promessas cravadas de desejo
nas mãos nas ancas a subentender o sexo
no amplexo suspenso no fio de sol.
vou ter contigo amélia aliada porque
não precisas de mim nem eu de ti tenho precisão
és a parte completa mais completa
de mim onde anuncio as primaveras e
no fio das quimeras planto jardins de margaridas
e flores raras saram a terra aromada
de dádivas nas águas iguais de
na chuva permanente permanecermos rio e foz
duma nascente única corrente.
o mês de março mês que só de marte
tem o nome é tão subjectivo
apesar da explosão de pétalas fogo de cores afago de cheiros.
março é o mês do mar mês de amar
antes de abril abrir completamente as árvores
ao sabor vário das águas jorradas.
amanhã é abril. sei que o sol vem
vasto na laminada luminosidade o gume dos dias os gomos
saboreados como franjas de laranjas novembrinas.
resta-me um março que me foge no resto de março
a simples tarde que separa a margem
de outra margem mais longa que prolonga
declina no crepúsculo anoitecido
de josé félix
(obrigado José por mais um poema memoravel... um abraço)

Rego Praestigiae by Patrick Jacobson
copyright of the photographer
Agora dissolvo o silêncio na água. Tenho frio, é ele que me leva pelo labirinto caótico das ruas. Agora dissolvo o silêncio na água e espero. Agora que me sinto água, que tenho silêncio e água no meu pensamento, enquanto espero poderia voar. Só um segredo teu me puxaria ao chão, o meu amor é o Deus das minhas orações. Agora fico e é o meu modo de ir com os olhos. A que deslumbramentos me levam os olhos, a que horrores se agarram as mãos quando já não se acredita no amor. Estes olhos e estas mãos, o sentido de um corpo ferido que se transforma no gesto esvoaçante sobre a pedra agreste.
Dissolvo o silêncio na água, flutuo na tua pele ou perco-me como uma sombra nas costas curvadas dos homens e dos soldados. Esta água e este silêncio é tudo o que me apetece arrancar do corpo e da terra profunda. Que não sejam só feridas aquilo que se arranca do amor. As mãos vertem água limpa e o milagre das mãos é o milagre das raizes. Dissolvo o silêncio na água, parece que apenas a simples canção cura esta doença, este frio em nós nem sempre é ausencia. Este frio toca-nos e depois nós nos sentimos fortes, faz a vida o sentido da morte que levamos. O AMOR, este silêncio e esta água este amor que é medo e este amor que é esperança. O frio leva-me ao labirinto caótico das ruas. Há o labirinto também das palavras. Grandioso o amor que se perde na forma fisica e que um dia é tão pequeno e universal como uma estrela no céu. Agora dissolvo o silêncio na água e com o silêncio da água adormeço.
de Lobo
(e nestes dias de chuva... esta água que nos dás é pura poesia para beber, amigo Lobo)

Beyond the Sea
Copyright © 2005 by Rafael Torcida
Não te vou amar
por não o sentir.
Não vou ficar longe
de te tocar vou fugir.
Beijar, nem pensar;
ao seu encontro
tendo em ir.
Serei assim ao invés por não puder ser igual à luz que agora arde, fruto da paixão, entre o fogo e o ar, que alimenta o sonho de te puder beijar durante uma vida, por em ti não ter esse lugar.
de Miguel Pereira
17/06/2005
(eu só lamento se poemas destes não chegarem um dia a formato de livro para entrarem pelos nossos lares dentro e serem devorados vezes sem conta... obrigado Miguel, mais uma vez pela tua presença)

gabriel #4
Copyright © 2003 by marília campos
Das palavras como tijolos
Que constróem meus arquitectados versos
Somos números que retiro a plantas
Precisas
Alicerce, parede, telhado
Tenho a meus versos o amor pedreiro
Do que constrói, com suor e argamassa
Altivo edifício
Ergo-os no céu antes plano
Amarro-os aos ventos
Exponho-os aos olhares de quem passa
De quem os habita
Mesmo que seja só eu o fantasma desses sítios
Mesmo que mais ninguém sonhe poentes debruçado em suas janelas
Meus versos arquitectados
Mesmo os mais espontâneos
Alicerce, parede, telhado
Amarrados a amor pedreiro
No meu cérebro enclausurados
Recuperam liberdades matraqueados por estes dedos ágeis
Vão para o ecrã olhar para mim
Com olhos embaciados pelo brilho de uma luz nova
Olha, olha quem nos fez acotovelando-se uns aos outros
Olha, olha donde vimos sorrindo meio imbecis de serem outros
Ai meus arquitectados versos, de planta precisa nascidos
Ai palavras tijolo argamassadas a gramática e rima
Nasçam p’raí à medida da minha vontade escrevinhante
Tapem o sol amarrados aos ventos, sejam vistos em esplendores d’azulejo
Em rigores de telha e ferro forjado em varandas proeminentes de esperança
Eu, parteira pedreiro, irei, na medida de meus dedos
Na velocidade meiga de vos pensar
Dar-vos irmãos enquanto viva
Nesta termiteira sou rainha de inumeráveis ovos
Alimentado a vós protegido por vós, preso aqui
Mas mesmo assim capaz de liberdade
Mãe impossivelmente masculina das minhas letras
Não creio no sexo da escrita, não creio anjos meus versos
E Deus, no adeus sempre presente, nuca me expulsou de nenhum lado
Assim arquitecto de termiteiras de tijolo
Alicerçado na convicção da verdade de mim
Sou mãe – pai dos meus versos
Assim os amo e os solto ao mundo
O mundo estreito da minha convicta liberdade.
(e mais uma estreia fantástica no palco do café... é incrivel ver como todos os dias surgem novos talentos na escrita... ficarei à espera de mais poesia tua Paulo. Um abraço!)

Number 66 by David Pemberton
copyright of the photographer