outubro 30, 2005

O poema emudece

O sol não tem cor quando se estica em dia nublado e não me colore nenhum ponto de vista. Simplesmente fura o bloqueio das nuvens e caminha na claridade, ignorando a ausência de chuva.

É quando padecem de indigência os líquidos - esvaziados até de um simples pingo - e a saudade é o único rumor que se ouve nas conchas.

As ilhas Cagarras - rochas leais ao estado de pedra - coroam um mar impassível que, na praia, é íntimo de palmeiras que ondeiam, aquecendo memórias e desejos.

Não há plantações na beira do morro Dois Irmãos, entretanto a relva que recobre a areia exubera intensa fertilidade, numa linguagem varrida de palavras.

Talvez um ar assim, por demais corrompido de lugares comuns, termine por deflorar círculos viciosos; talvez eu venha a colher da brisa um tempo que corra mais célere; talvez eu precise exercer o dizer profano num verbo qualquer, ainda que abreviado da poesia que me silencia os sentidos.

É uma época hábil em parênteses chuvosos, cinza digital a ocupar - em humidades ligeiras - a lentidão das horas ressecadas.

E enquanto o oceano se esvazia de distâncias, o poema emudece.


de Sónia Regina

(Oops... erro meu... este poema lindo é da nossa já conhecida e acarinhada poetisa Sónia Regina, as minhas desculpas, os meus parabens para o teu filho e os meus votos de muita da tua poesia por aqui)

Morro dos dois irmãos by Roberto, Augusto Rosa and Joao Paulo Vianna
copyright of the photographers

Publicado por D_Quixote em 11:56 PM | Comentários (5)

outubro 27, 2005

A minha alma

A minha alma que tu querias guardar no ninho escuro das tuas mãos. A minha alma que é vagabunda quando sentes que perdeste o coração dentro dos corpos e que perdeste o corpo no desejo dos homens solitários.
A minha alma que tu querias ensinar a voar e que inventaste uma dança para descreveres a forma que a nuvem faz quando se insinua nos dedos e no tronco de uma árvore esguia.
A minha alma que julgas ser a musica que escutas, esta alma que por vezes é a noite que te perturba ou que ainda pode ser o vento suave que sopra nos olhos, esses teus olhos é a minha existência. Por onde vai a minha alma, vai o rio que corre com toda a sua água se infiltrando na vida, nas pedras e nas flores, essa água que desagua nas canções que já cantamos juntos. A minha alma que tem o poder de ficar diferente como fica a borboleta ou o fogo. A minha alma é o teu pensamento que se desenha cheio de gestos dentro de mim. A minha alma e o teu pensamento estão dentro de mim e quando adormeço com a não existência descubro a forma primordial do amor.

É possível ver Deus pela descoberta dos sentidos que adivinham o amor antes das palavras.


de Lobo

(amigo... lindo... tu sentes como escreves e aquilo que escreves é como vês e sentes... absolutamente lindo... um abraço grande)

Respire
Copyright © 2005 by Geoffroy Demarquet

Publicado por D_Quixote em 08:40 PM | Comentários (5)

outubro 26, 2005

As Mãos

Sentes?
Os ventos do Outono já não trazem
O cheiro seco da terra do Verão.
O suor da pele já não habita nossos corpos.
Nem os pássaros pousam em nossas janelas.
Os seus cantos foram silenciados, por enquanto.

Sentes os ventos frios da mudança?
A mudança repentina, sem prévio aviso.
Dói-me muito mais assim
Tirar dos armários adormecidos a roupa esquecida em cabides
Ao longo de uma eternidade de meses.

Em meses, sentiste a mudança em ti?
E em nós? E em mim?

Sinto-me estranho.
Parece que a velha roupa do Verão passado
Já não me serve muito bem nos ombros.
Um velho guarda-roupa de camisas de força.

O poeta: A mudança: A liberdade
Três mãos entrelaçadas a caminharem
O mesmo caminho,
A sentirem o mesmo cheiro,
A vestirem a mesma roupa.


de Leonardo Perpétuo

(amigo... a tua poesia é algo de unico... à medida que descubro os teus poemas que me enviaste e que os vou postando aqui, cresce a minha admiração pelo que escreves... um abraço)

This Immensely Practical Self-Help Item for Interfaith Households Offers Subliminal Suggestions for a Relationship at any Stage
Copyright © 2005 by Paul Read

Publicado por D_Quixote em 12:06 AM | Comentários (1)

outubro 23, 2005

WHO ARE YOU?

Pergunto-me quem sejas.
Pergunto-me que faço aqui. A noite não responde. Não sou forte mas tento.
As sombras vêm para me resgatar da tua luz. Eu não quero mas tem de ser. No fundo sei que um abraço teu é um refúgio para estrelas. Abarcas tudo com um gesto, um silêncio infinito. Desejo sempre ser mar para que flutues e não morras. Não morras lentamente, só porque não calculo os passos e os segundos para te amar.
Eu não calculo o amor, é isso. É um mistério tão grande. Tu também. Pergunto-me quem sejas. Só te vi uma vez. Só quis amar o que tu eras. A t-shirt cinzenta que deixaste na minha manhã, perdida e absoluta. Cheia de sol, exposta ao abandono das palavras. À explicação de nada.
És a minha não explicação de tudo. Não respondes? Pergunto-me que faço aqui. A noite já não existe.


de Anna Tomás

(obrigado amiga por regressares com a tua poesia a este sitio)

SleepLess
Copyright © 2005 by Sara abdulla

Publicado por D_Quixote em 11:52 PM | Comentários (1)

outubro 21, 2005

A máquina

A velocidade da vida e o jornal a passar nos dedos. Antigamente era mais devagar. Agora há a máquina, uma boa invenção...ela trabalha e nós olhamos para ela, não olhamos por nós, não olhamos pelos filhos, não cuidamos deles, não damos atenção a eles, estamos viciados a gastar dinheiro. A máquina que foi inventada para nos levar á naturesa está a levar-nos ao esquecimento de nós, ao esquecimento da natureza. Agora trabalhamos mais, dormimos nada, desperdiçamos o sentido do prazer e do amor. Temos fé no engano, acreditamos que nos redimimos pela doença e vamos como cordeirinhos até ás portas da morte. Não é o antigamente melhor; na rede o peixe das misérias e das ignorancias. A velocidade da vida Sr engenheiro. você é o homem mais rico e as suas máquinas as mais potentes e as pessoas mais ignorantes, mais famintas, mais tristes. Quem devemos servir? A pele ou a máquina. Agora é só carregar no botão. é tudo fácil, é tudo limpo, tudo muito filha da puta e muito conveniente. Vamos contemplar o céu ou quereis contemplar o hipermercado.


de Rui Duarte

(obrigado Rui por este poema fantástico que nos pôe a pensar em tanta coisa)

Rainy Skyline
Copyright © 2005 by Chris Hudson

Publicado por D_Quixote em 11:29 PM | Comentários (1)

outubro 19, 2005

Olhos ao vento

Os meus olhos farrapos gritam por ti
Ululando ao vento rouco canções de saudade
Nos caminhos rasgados que percorremos enganados
No chão pavimentado pelas nossas guerras
Os mortos que acenam ao longe, como velas acesas
Como a madrugada que chega dizendo que é hora
É hora de partir
É hora de esquecer os dias
E deitar-me inerte no mármore frio do meu leito
Onde os olhos fecham e o coração finalmente sossega.
E aí ter paz
Longe da terra atirada no meu caixão
Do peso das flores choradas na minha fotografia gasta
No cheiro a cera queimada e fósforo aceso
Daqui parto livre destas raízes
Com os meus olhos bandeiras farrapo
Ondulando livres como quem procura por ti
No vazio do horizonte rectilíneo
Nas nuvens que nada desenham e tudo parecem ser
Quando olhamos para elas com saudade
E vemos parecer coisas queridas
E vemos parecer o que vimos perecer.


de João Natal
07/02/2005

Self Disclosure
Copyright © 2005 by Real Gone

Publicado por D_Quixote em 12:07 AM | Comentários (7)

outubro 16, 2005

... parece-me!

Na doce neblina outonal levanto voo sobre mil coisas que fui. Escuto a espera do esquisso do que se avizinha na esquiça que veda este anoitecer. Vagueio na procura de um rio sem foz nem fonte... esboços que ainda me percorrem a vontade de traçar outro esquisso que não acabe agora! Teimo soletrar o meu nome antes que o desespero se emudeça no anunciado. Olho a doce e apagada réstia da tonalidade velha da vida que está a ir... parece-me!

de Maria São Miguel

(amiga, obrigado por este teu momento lindo, repleto de inspiração... cliquem no respectivo link porque o trabalho da Maria merece bem ser visto, e um bom começo de semana para todos)

... parece-me!
Copyright © 2005 by Maria São Miguel

Publicado por D_Quixote em 11:22 PM | Comentários (3)

outubro 14, 2005

Sem Perdão

Espero o que não espero, nem sol, nem chuva. Apenas um vento gelado a agitar os dias que eu queria quentes.
Onde estás? Por onde andas? Sol quente do meu Verão tardio, já Outono, com folhas caídas e dias cinzentos. Gosto de sentir as tuas carícias tépidas enquanto me enrolo em recordações e sonhos agora irrealizáveis.
Olhos de carvão, bonitos... Sim, ainda lembro os teus olhos negros humedecidos pelas lágrimas enquanto me miram e murmuras:
"- Não me despeço! Não me vou despedir! Não te vou beijar aqui ou não poderei partir."
E vejo-te a ir, na escada rolante do Colombo. Partes uma e outra vez, tantas quantas aquela cena me vem à memória. E eu fico parada, continuo parada. Não corri para ti. Deixei-te ir, a ti e à mala que trazias na bagageira, preparado para ficares comigo.
Tive medo!
Perdi-te quando te deixei ir. Desde então senti que te afastavas, aos poucos porque doía, e íamos ficando cada vez mais distantes. Como se as centenas de quilómetros que nos separavam se fossem transformando em milhares.
Durante muito tempo nada fazia sentido. Sem ti não vi o sol nem a lua. Recusei o mar, os sorrisos e a alegria. Sem ti procurava, procurava-te, mas já não estavas… Aquela escada rolante levou-te de mim para longe e eu empurrei-te. Mesmo quando senti que fugias, mesmo quando não encontrava sentido para os meus dias, mesmo quando a dor da saudade me sufocava. Empurrava-te de mim, com medo do futuro que eu queria perfeito.
Mas o meu futuro, agora presente, não é perfeito, e não vivi o meu presente agora passado.
E hoje, vivo aos solavancos, na procura de um sentir igual que não encontro, que não existe. Não te tenho! Infelizes ambos, sem o futuro perfeito pela frente.
E sufoco a culpa, a minha culpa, porque deixei partir numa escada rolante a única pessoa com quem partilhei a alma.


de Cristina Mesquita

(Cristina... que dizer perante isto?! Este teu texto está absolutamente incrivel. Vou ficar à espera que mandes muitos destes, pois fiquei a gostar bastante do que escreves)

Time to say goodbye
Copyright © 2003 by Abdul Kadir Audah

Publicado por D_Quixote em 12:37 AM | Comentários (10)

outubro 12, 2005

"lá, onde"

(ouvir)

lá, onde
a noite espreita e o sonho aceita
o vermelho da madrugada doce

lá, onde
o dia recolhe a chuva do molhe
na tempestade de mar dos olhos

lá, onde
te encontro no assombro
da agonia consentida

lá.
mais perto
aqui.
mais junto
a mim.
mais sinto
a ti.


de marília campos

(quando vi isto marília não consegui evitar de te pedir depressa para poder postar... obrigado por mais um momento lindo teu aqui no poetry... jinhos)

lá onde
Copyright © 2003 by marília campos

Publicado por D_Quixote em 07:15 PM | Comentários (7)

outubro 10, 2005

Disperso

Disperso,
Disperso
Meu coração se sente
Se a espuma das ondas
Não trazem no seu finar
Um resquício de ti.

Banho os meus pés
Na esperança de banhar-me em ti.
Se mergulho todo o meu corpo
Nas águas turvas e profundas do oceano
- Imerso no silêncio
Eu procuro ouvir a tua voz
A chamar por mim.

E se não te ouço
Clamo por um sinal,
Um vendaval
Que te traga
Mais depressa para mim.


de Leonardo Perpétuo

(este é o primeiro poema de muitos que irei postar do Leonardo. A sua escrita tem um cunho muito próprio e uma alma enorme, será um prazer amigo reler o que escreves aqui, e esta dos Depeche perfeita para aqui...)

Solid as a Rock
Copyright © 2003 by Nana Sousa Dias

Publicado por D_Quixote em 09:20 PM | Comentários (4)

essa escrita

principio tocando de leve e azul
a distante tecla de um escrito
largado na borda do papel

não digo solidão se digo saudade,
mas minhas letras não ressoam todos os dias.
por vezes minha pele é impermeável
e nada me abre os poros de um segredo;
desenhos sem significado me rodeiam
[como tatuagens de brinquedo]
e além da cor amarela nada vejo.

a proximidade parece em calmaria.

num entusiasmo temperado de ligeiras certezas
monto e cavalgo a realidade,
com um sonho entre os dedos

sei que o adiante lá está e nos habita

e ainda que não haja um sol muito eficaz
há um centro que brilha
[nós]
na dor dessa escrita.


de Sonia Regina

(obrigado Sonia por mais este lindo poema, que mal o li só pensei em ilustra-lo com uma foto da marília, pois um poema bonito merece sempre uma foto bonita)

i.
Copyright © 2005 by marília campos

Publicado por D_Quixote em 12:30 AM | Comentários (3)

outubro 07, 2005

Vida de Cão

Anda Portugal
Alça a pata e faz o teu serviço
Lindo menino… rebola!
Agora vá… Busca! Busca!
Busca o emprego atirado para longe
Fareja a vida no chão da amargura
Desenterra um ossito para enganar a fome
Que o fim do mês ainda está longe
E o fundo de desemprego foi curto
E tem mais parasitas na segurança social
Que tu tens de pulgas no cachaço
Alça lá a pata
E faz o teu serviço
Levanta o focinho e ladra grosso
Como um cão grande que não és
E cão que ladra não morde
Faz piquete em frente à fábrica que fecha
Abana o rabo
E alça a pata Portugal…
Alça a pata!


de João Natal
21/03/2005

(e um bom fim de semana de eleições autarquicas para todos)

Impius... my best friend!!!
Copyright © 2005 by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em 04:19 PM | Comentários (3)

outubro 03, 2005

desassunto

Estou a pensar que estando cansado da conversa normal, que por não ter assunto novo, resolvo entrar no desassunto. Podia começar por afirmar que há muitos modos de fazer o desassunto da vida, por isso puxo uma cadeira e sento aos meus pés o grande mar. Começa entre nós o desassunto. Ele com as tempestades eu que estou magro e tenho uma cintura de árvore esguia. As pessoas olham-me sozinho, vêem-me a mim e ao mar, mas não vêem que estou com o mar, que quando mexo as mãos estou á conversa com ele. E as pessoas chegam perto e mexem na água e penso que vão perguntar como se chama, se o pêlo vai perder o tom azul e se podem fazer cócegas no umbigo. Os mais medrosos vão indagar se morde, se tem as vacinas em dia. Mas eu fico a ver o mar, a teimar no desassunto, não falamos de negócios, nem de coisas eruditas. Falo do meu prato de caldeirada e ele que tem peixes e homens e que nunca provou caldeirada olha-me e afasta-se. Afasta-se e eu fico com a noite, ela vai ser o meu desassunto e que desassunto melhor que descrever o movimento do caule de uma flor na palavra que o pensamento faz ondular. O meu desassunto é deixar nela a confusão de não saber se sou louco ou apaixonado. Depois chega o vento e com ele todos os desassuntos possíveis.


de Lobo

(amigo... que mais posso dizer para além de adorar o que escreves? Quando é que tomamos outro copo juntos? Vens cá ao Porto ou vou à tua eterna cidade estudante?... um abraço grande)

Feeling Blue
Copyright © 2005 by Martin Halley

Publicado por D_Quixote em 09:14 PM | Comentários (10)

MARTA

eu queria amar-te
mas é inutil
tentar dar-te o amor que mereçes e pedes
e sufocas ao pedir.
ele é endereçado a uma outra mulher.
todo o meu corpo porém
responde ao teu chamamento
querendo habitar no teu.
E eu queria
queria saber amar-te,
fazer-te minha,
mas não posso,
não consigo.
Tu sorris
e os teus olhos pedem-me uma especie de afecto que não posso dar.
Sempre soube que iria sofrer por amor,
mas nunca pensei que fosse pelo simples desejo de amar.


de José Miguel Rodrigues

(um poema triste mas lindo na estreia do José neste palco... fico à espera de mais poemas teus, porque gostei deste)

...
Copyright © 2005 by Peri Kazanci


Publicado por D_Quixote em 01:33 AM | Comentários (5)