1.
Estalam as pinhas -
há foguetes, romaria
à entrada da aldeia.
já saltam os gafanhotos
no meio do capinzal.
2.
Um grande alvoroço
entre a folhagem dos plátanos -
o dia escurece.
os pirilampos voejam
à volta da romãzeira.
3.
Noite enluarada -
uma sombra de pardais
voa com as folhas secas.
na casca grossa da árvore
ainda resiste a cigarra.
4.
A flor amarela
é do chá de São Roberto -
o estômago flato.
sobre a mesa de pinheiro
há duas rosas vermelhas.
5.
Gota a gota cai
das mãos para as outras mãos
a água do ribeiro.
um casal de corvos de água
brinca na erva salpicada.
6.
Páginas rasgadas -
alguns encontros da vida
fogem para sempre.
vai coleccionando selos
dos mais diversos lugares.
7.
À luz do luar
brilham os pinheiros mansos
no tapete branco.
já há fiapos de neve
que escorrem pela cabeça.
8.
O velho cajado
caminhou muitos caminhos -
um pau de nogueira
a nuvem de folhas secas
assusta o cão rafeiro.
9.
Muitos girassóis
já começaram a abrir -
piam os abibes.
as andorinhas do sul
têm os primeiros ninhos.
10.
Brilham as giestas
enfeitadas com mil sóis -
fogo de artifício.
uma hera no jardim
seca por falta de água.
11.
Do buraco estreito
saem as formigas pretas -
acabou o velório.
à porta da velha igreja
o tilintar das moedas.
12.
A rã de bashô
não salta para o ribeiro
de água marulhante
na margem vários meninos
põem os pés na corrente.
13.
Um ramo de abetos -
quando a distância é longa
e vaza a planície.
as cerejas na ramada
brincam nas tuas orelhas.
14.
Com o espanador
os lábios cor-de-cereja
ficam mais carnudos.
a fotografia velha
regressa à adolescência.
15.
A lua de prata
pousa sobre as folhas secas
do cardo bravio.
meio século de vida
já são muitas estações.
16.
Searas vazias
com as alfaias agrícolas -
cheira a pão saloio.
os montes silenciosos
só albergam os pardais.
17.
Há uma desgarrada -
duas mulheres discutem
o peixe na lota.
as amendoeiras perdem
as flores de neve rosa
18.
A pirotecnia -
todas as ameixoeiras
já estão em flor.
as jovens adolescentes
descobrem os ombros alvos.
de José Félix
(em homenagem ao amigo Aníbal Beça)
Um kazen Renga tradicional

untitled
Copyright © 2005 by Patrick Shuck
Nota: O Renga é uma forma poética japonesa que tem centenas de anos de exercício, no Japão. Evoluiu para o tanka que é composto de um poema de 2 versos de 17 sílabas (5-7-5) e um dístico(7-7).
Normalmente é feito por duas pessoas que fazem uma ligação poética segundo as regras de Jane Reichhold .
Convém ler alguma coisa sobre este assunto para poder e saber analisar o Kazen de Verão que eu acabei de escrever. É de notar que qualquer tipo de sentimento está sublimado em algumas frases ou palavras. Em alguns haikus percebe-se que fala da Primavera, outros do Verão, outros de Inverno, e outros ainda de Outono. As estações do ano e a Lua estão lá segundo o programa de Jane Reichhold. Se fossem dois interlocutores seriam mais de 18 partes em virtude disso mesmo. Como fui eu próprio que assumi o «eu» e o «outro» optei por classificar segundo o tanka.
por José Félix
Olhos profundos
De um castanho que não sei descrever
Olhos que se escondem do Mundo
E de mim querem esquecer
Lábios perfeitos
Que fazem inveja a qualquer mortal
De amores quase perfeitos
Em beijos duma boca tão sensual
Teus cabelos macios
Que em meus dedos fazes passar
Como seda em finos fios
Que me deixam sonhar
Coração duro
Para quem queres mostrar
Coração puro
Para quem como eu
Só te quer amar.
de Teófilo Pinto
(mais um poema lindo que nos chega do Teófilo... obrigado amigo por esta tua forma tão especial de amar e de mostrar como amas.)

o castanho do teu olhar verde
Copyright © 2005 by Nuno Peixoto Branco
Haverá dor maior
Do que aquela que sinto
Por te ver sofrer
Num sofrimento profundo
Que te deixa assim
Cabisbaixo e moribundo
Num gélido calor
Que derrete a esperança
E congela aquele teu olhar,
O teu olhar de criança?!
Não, não, eu não minto,
Afoguei a mentira
Num mar de lágrimas salgado;
Sobrevive em mim a verdade
Num mundo vil e malvado
Onde a ilusão que crio
É dócil e verdejante,
Onde me deleito e me regalo...
É este espaço físico
Que dá corpo a uma alma perdida
Por entre a loucura e o vazio
Que preenche os escassos
Metros que nos separam...
Dá-me a tua mão,
Sente-a como tua
E não a largues nunca!
de Teresa Sousa
(que posso eu dizer sobre a tua poesia que já não tenha dito?... é absolutamente linda e fascinante, sobretudo quando abraças temas mais tristes e negros... tu sabes faze-lo como mais ninguem... e o teu blog hoje está sublime)

So small
Copyright © 2005 by Nuno Peixoto Branco
Numa tarde chuvosa neste Porto
No Outono frio, ventoso e cinzento
Um homem vende doses de calor
Em folhas de jornal velho embrulhadas.
No pedaço de papel o conforto
Do bom petisco assado no momento
P’la perícia antiga do vendedor
A preparar as castanhas assadas.
Diz-me velho vendedor de castanhas
Que já fazes parte desta cidade
Nos dias frios que só tu entendes!
Quanto é mesmo aquilo que tu ganhas
Com o meu sorrir de felicidade
Ao comer com prazer o que tu vendes?
de João Natal
02/11/2004
Vendedor de castanhas
Copyright © 2004 by Pedro Vasconcelos
O meu destino preferido é ir a Marte
Enquanto não é possível só posso andar na Lua
Ou então, ir à praia, apanhar o Sol deste Verão
E tenho Mercúrio para curar as queimaduras deste Sol
E nesses dias de Saturno
Vou mergulhar nesse mar de Neptuno
E ao menos, levantar os pés assentes da Terra
Ir aos saldos das camisas, num planeta que se chama Venús
E uma vez pUrano
Não volta vem o Plutão
Na bola há craques novos, Como o Júpiter ou o Falcão
Os velhotes são estrelas cadentes
E o Real tem constelações, são os galácticos
Tanta conversa,
Mas um um dia hei-de ir a Marte
Enquanto não é possível, vou andar na Lua
Ir a mar, mergulhar, afastar a solidão
E já nem Mercúrio cura as feridas deixadas, no meu coração
Porque eu só quero ir a Marte
Eu sei que um hei-de ir a Marte
Eu sei que um dia vou a Marte.....
de Alexandre Batista
(uma estreia aqui verdadeiramente brilhante como uma explosão de uma supernova... obrigado pela tua poesia Alexandre... é uma verdadeira lufada de ar fresco, espero que envies mais)

Mare Tranquilitatis
Copyright © 2004 by Francisco Méndez Fuentes
A cada dia sinto a chuva forte, chuva de solidão!
Sem saber o que me esperava disse,
Disse o que sentia, disse tantas palavras.
E hoje, o que tenho a dizer?
Simplesmente andava,
Não sabia o que procurava...
Via o teu rosto em cada coisa,
Em cada esquina parecia te descobrir
Via teus olhos me seguirem,
Ouvia os teus passos,
O teu caminhar atrás de mim...
Parava... só encontrava vazio...
E tu não estavas
Voltava a correr...
As tantas já não sabia o que sentia,
Estava dormente...
Gelada por fora, vazia por dentro
E Triste... tremendamente triste.
A chuva me acompanhava,
Cada vez mais forte,
Cada vez mais densa...
Caí no chão, fraca de vontade de continuar,
Fraca de vontade de andar,
Fraca de vontade de não te ter aqui comigo.
Porque me deixaste...
Volta...
E vem me tirar dessa chuva
Que insiste em cair cada vez mais forte.
Volta meu amor e me tire dessa solidão!
Vem me esquentar com seu calor,
E me encher de paz e amor!
de Ana Luiza Reis
(um poema muito frontal e sincero... obrigado Ana por o partilhares aqui!)

Martamorta
Copyright © 2004 by Pedro Leão
Quando o poeta morreu, as minhas palavras estavam a morrer.
Eu não estava triste e um cavalo galopava na pálpebra dos olhos.
Morreu aquele poeta e tudo o que sangrou foi o que escreveu no peito dos guerrilheiros da montanha.
Quando o poeta morreu, tu acordaste-me e tinhas fogo nas mãos e eu fiquei possuído das palavras que ainda não tinham sido proferidas.
Quando o poeta morreu, as minhas palavras estavam a morrer.
Preciso dos teus olhos. Que eles façam cicatrizes no meu corpo. Preciso de sobreviver antes que chegue o abandono.
Quando o poeta morreu e eu soube que era uma viagem, senti que o coração dele batia dentro do tronco de uma velha árvore.
Quando o poeta morreu, e agora passado todo este tempo volto a sorrir, tu olhas-me e parece que o poeta me olha através de ti.
de Lobo
(quando tu morreres amigo, o poeta que tu és continuará eterno nas coisas belas como esta que deixou às sementes. Obrigado amigo por partilhares aqui no café mais esta pequena perola do teu conhecimento)

Whispers
Copyright © 2004 by matt fruge
Escalei montanhas,
Trepei a árvore da vida,
Percorri caminhos,
(Uns sedosos outros pedregosos),
E aqui estou...
Sinto os espinhos cravados nas mãos
Das rosas que acariciei;
As pétalas secaram
Por entre folhas de livros
Esquecidos na prateleira
E cobertos de pó.
Foram 30 anos recheados
De alegrias, de tristezas,
De sorrisos, de lágrimas,
De esperança e desespero,
Mas aqui estou
Disposta a ir mais além...
Afinal, muito falta
Para alcançar os ramos e as folhas,
O cimo da montanha está longe,
E os caminhos abrem-se incessantemente.
30 Anos, uma vida...
E tanto por viver!
de Teresa Sousa
(fizeste hoje 30 anos... minha laranjinha metade... e que bela vida tem sido para dar origem a este poema tão maravilhosamente lindo. Beijinho especial neste dia que passei contigo.)

Glamour
Copyright © 2005 by Nuno Peixoto Branco
Senti que a solidão até me fica bem à cor da pele da alma...deixa-me espaço para pensar em tudo entre o nada .... Prendo-me na madrugada... só... mas aqui! Viva, desperta e refeita de momentos de loucura cometidos no delírio da noite adentro. Bate-me a insónia do sono por dormir. Relembro-me entre lençóis salpicados de areia áspera onde corpos desnudados deslizam no aveludado da pele e se fundem em gotas de seiva humana. Sabe-me a sal a pele que toca os meus lábios... sabe-me a mel o cheiro a nós!
Ficámos assim naquele para sempre do instante breve extasiado.Não sei. Já não sei se tenho tantas certezas, opiniões e verdades na ponta da língua... apenas me parece que já não abro mão de me oferecer porque sou tua!...Cruzo os braços e de perna traçada deixo o tempo voar rasteiro. Sem tempo ou com tempo aprecio este momento em que sou só. Parto... entre pensamentos imaginados e refaço as histórias que vi, porque lhes vivi a emoção escondida!
(quando vi este texto no teu blog amiga, fiquei cheio de vontade para o trazer para aqui, pois tanto o texto como a fotografia estão de uma beleza indiscritivel, e eu sou um sortudo por andar com poemas assim pelo meu blog. Mais uma vez Maria, obrigado e beijinhos)

... cheiro a nós! by Maria São Miguel
copyright of the photographer
Convenci-me que conseguiria continuar sem ti…
Virar as costas e chorar baixinho,
Até que do vazio nascessem sombras regadas pelas minhas lágrimas
E que a porta que se fechou deixasse entrar o sol por uma fresta,
Tímido ao princípio,
Forte o suficiente para aquecer as sombras e
Transformá-las em verde de esperança.
Pensei que se não te dissesse adeus,
Não guardaria nos lábios o gosto dos teus beijos,
No corpo, o calor dos teus braços
E na lembrança, o cheiro da tua pele quente.
Achei que poderia fingir
E apagar memórias cravadas como ferro quente
Na pele esculpida pelos teus carinhos,
Até que mais nada restasse do que poros vazios de sentir
E folhas em branco por preencher.
Cuidei mesmo que te poderia esquecer
Como se esquece a cor do primeiro banco de escola
Ou a dor da primeira ferida.
Esqueci-me que não consigo fechar a porta
E que não há luz para além da tua presença…
Que fazes parte de mim
E que o teu cheiro mora nas minhas entranhas
Como o passar dos dias…
Não contei com as noites que me trouxeram os teus beijos
Molhados pelas lágrimas da manhã
E cortantes como a dor da tua ausência…
Não, não consigo arrancar-te do meu peito
E seguir viagem amputada de vida…
Antes sofra por amor a ti,
Do que me gele o sangue nas veias
E aprenda a contar os dias
Como tábuas rasas.
Antes morra num momento
Do que viva sem tempo…
de Cláudia Oliveira
(Cláudia... é assim... este é sem sombra de dúvida um dos melhores poemas que li até hoje... e vou guarda-lo por perto em documento de word para poder reler sempre que tiver com saudades de poemas assim... obrigado por o teres enviado)

I belive I can fly
Copyright © 2005 by Miranda Pacolli
A lágrima cai
segue o rosto
chega ao coração
afoga-se
no leito
da esperança
A lágrima cai
espuma
desse oceano
do vento
da saudade
A lágrima cai
mágoa
desse destino
da ausência
A lágrima cai
mas no coração
onde aporta
extingue-se
na luz
do acreditar
(e com este poema bonito e incisivo dá-se a estreia do Filipe aqui... obrigado Filipe e ficarei à espera de mais poesia tua... um abraço)

she says she doesnt like db
Copyright © 2005 by pawel szymanski
não me disseram que os arbustos falam
a linguagem dos gnomos e
que os pássaros desenham, de manhã
sons rondeando as pedras em silêncio.
tudo isso soube-lo quando a voz de meu pai
voltou a ser o sacrilégio da casa.
na viagem interrompida caminha
sobre a mobília, na leveza do pó
e nas paredes com fotografias
onde a ausência é um missório
no discurso religioso do tempo.
é nos gestos mais simples dos meus próprios
gestos, que a presença ausente
se poliniza na liturgia dos dias.
a palavra, essa, corrompendo a fé
desliza breve nos ouvidos secos
quando apetece a comunhão
no pecado lavado de confidências.
os duendes, no seu labor, cativam
relíquias suspensas da hera
que abandonas as raízes como hóstias
no conforto dos crentes.
de José Félix
(obrigado amigo por mais um poema muito unico... muito teu! abraço)

untitled
Copyright © 2005 by Jonathan Truesdale