A dor bateu
No fundo
Sem fundo
E mergulhou
No negro oceano
Da lágrima incolor.
A semente da razão
Germinou murcha
No terreno fértil
Da injustiça;
As tuas palavras
Cortaram,
Como lâminas,
A felicidade
De um só momento
Que se esvaiu em sangue
E morreu...
Não consegui estancar
A hemorragia.
A dor funde-se agora
No conformismo marado,
Num brilho baço...
E o sonho,
O sonho é tudo o que resta.
(já te tinha dito e foi de forma muito sincera, a tua poesia cresce de dia para dia à medida que escreves, e não escreveres é algo de muito importante que se perde, poemas lindos como este)

dreams by ankit aggarwal
Copyright of the photographer © 2006
Meu amor,
Numa escura e fria noite de Inverno,
Partimos.
Numa escura e fria noite de Inverno,
Havemos de voltar
E resgatar o nós
Que deixámos para trás.
Meu amor,
Se tu partires
E não voltares,
Por favor,
Leve a dor que deixaste.
Meu amor,
Não te vás!
Juntos somos imortais:
Eu, tu e a certeza de nada mais.
de Leonardo Perpétuo
(mais um grande poema do já nosso amigo Leonardo, abraço)

untitled by Rene Asmussen
Copyright of the photographer
Mergulho
no silêncio do escuro
e sinto a saudade.
O manto
negro da noite
chega e cobre de murmúrio a cidade.
A garrafa
vazia na mesa
vai-me dizendo que é tarde.
E o gosto
amargo da bebida
sabe-me a fogo que ainda arde.
Às vezes temos que dar um passo atrás
para ver melhor a dimensão de tudo.
Demasiado longe o coração não vê
e demasiado perto eu sei que me iludo.
E é longa a noite perdida de insónia eterna
onde a luz do teu sorriso não me larga.
O chão molhado reflecte neons da noite fria
e longo é o silêncio da noite que me amarra e me amarga.
E nunca tem fim…
E nem as folhas que morrem ao vento,
nem os homens sós que dormem ao relento,
nem toda a dor do mundo em sofrimento,
consegue ser maior que este lamento
em mim…
que nunca tem fim.
de João Natal

Shadow Crossing
Copyright © 2005 by Tony Smallman
dá-me a pedra amor a pedra macia
do teu joelho, a pedra cintilante da tua coxa
na pedra macia coloca o coração sem som
um pedacinho de carinho de cor coerente
a alma certa
já sobre o teu corpo, já dentro, abre a força
lenta de te florir onde as águas te inclinam
e voas como as gaivotas que amas no Leblon
chama depois o fogo do ardente e da cintura
rebenta-me nas axilas, faz-me trevo de quatro
folhas de prazer e dá-me outra vez a pedra, o osso
o joelho onde a minha mão toca até pressentir
o movimento da água dos lábios bem escondida
na música, a canção que te arrepia, Zorba
numa silaba ou praia escura ,ornamenta-me depois
com beijos todos os meus orgãos como os sinos
do convento e na memória do calor
desce as escadas
despe o prédio onde
a telha voou com a saia
é preciso fazer a tempestade!
com amor
é urgente desmaiar os muros da burocracia
e transformá-los numa gota perdida no oceano
porque um homem te espera
no porto de Lisboa
trespassado pelo vento
e pelas trovoadas
um homem te espera, sempre em fé
contra o frio, os obscuros dominios
os envenenados e os impossiveis
como diz a canção
haja o que houver
eu estou aqui
dá-me a pedra
mágica
de José Gil
(mais um belo poema do José Gil que nos chega pela mão da amiga Sónia Regina)

Copyright © 2005 by marília campos
bolas de sabão
para ti
porque até é gesto despropositado para ti
não me sinto criança ao fazer bolas de sabão
nem entro em países encantados
fazer bolas de sabão pode ser doloroso
tal como sonhar
as bolas de sabão esfumam-se
como acordo. à tua procura
choro
não de tristeza
nem disso de saudade
uma das bolas de sabão chocou com um dos meus olhos
agora já não tenho lágrimas quando quero
só quando sucedem acidentes
tal como a água de sabão das bolas
também as lágrimas acabam
invariavelmente, por secar.
de Alexandra Gil
(um poema lindo que nos faz voar até aos tempos mais queridos da infância... ficarei à espera de mais Alexandra, obrigado pela tua poesia.)

Soap ball I (Soap ball I)
Copyright © 2003 by Alfredo V Sousa
O sol bate-me morno na face, neste dia morno de Outono. Com o sol a espreitar tímido mas forte por entre nuvens cinzentas de solidão. Estou parado dentro do meu carro, com a chave na ignição e sem ideia de para onde ir. Não me apetece trabalhar, não me apetece ser ou fazer nada hoje, muito menos ser eu, ligo para o escritório e digo que tenho que levar o carro à revisão, numa mentira rebuscada que sai mecânica, como se estivesse mais do que pronta e estudada, à espera de ser usada.
Sigo para onde moravas. Estaciono o carro no sitio de sempre, onde abria o tejadilho e ficava horas perdido a olhar-te na janela, fecho os olhos e imagino-te lá, abro os olhos e imagino-te onde? Saio. Caminho triste com as mãos sepultadas nos bolsos, com a cabeça baixa e olhar compenetrado e percorro aqueles pequenos jardins, apanhando em cada esquina memórias de ti como fragmentos de luz, onde tudo se torna mais claro e te vejo por breves momentos e te esfumas a seguir na mesma luz que te trouxe nesta ilusão insana.
Sento-me naquele banco em pedra onde estivemos sentados os dois juntos. Com o meu cachecol preto a abraçar-te como eu te abraçava e a sorrir. Lembro-me daquela manhã morna, juntos a sonhar com dias mais quentes. Lembro-me do cheiro que ficou no cachecol que nunca mais lavei, até ao cheiro desaparecer como tu um dia depois desapareceste. E lembro-me de ti claro. Como se me lembrasse das coisas mais felizes da minha infância. Correr no meio das canas do milho à procura de tesouros escondidos, andar descalço no chão rugoso em cimento nas tardes quentes de Verão à sombra da ramada, marcar o golo da vitória no recreio da escola e refrescar-me com o leite escolar achocolatado, sonhar em tocar um dia na lua com as próprias mãos e voar… sonhar que um dia podia voar como um pássaro livre. E é assim que me lembro de ti. Como o de que melhor teve a minha vida, nunca pela dor de não estares aqui, comigo.
Os óculos de sol são a única coisa que impede que as pessoas na rua percebam que os meus olhos agora choram. Choram de felicidade e de saudade por ti. Volto para o carro assim, prostrado. Sento-me… olho mais uma vez pelo tejadilho, na esperança tonta de te voltar a ver um dia. Como se estivesses lá…. sorrio para uma janela vazia e parto. A noite já se aproxima e é melhor regressar a casa. E será assim que me lembrarei sempre de ti.
de João Natal
(mais uma página do "diário" a pedido de algumas pessoas... abraço ao Fernando que um dia me desafiou a escrever prosa, e assim nasceu esta ficção que não consegui mais parar de escrever...)

Leave the sunset behind
Copyright © 2006 by Nuno Peixoto Branco
Onde estás que não te vejo?
Sinto-te a toda a volta,
sinto-te em mim.
Mas não te vejo...
Sinto-te na alma, sinto-te no coração
quase tão real, que quase poderia
segurar na tua mão.
Mas não te vejo...
Procuro por ti
em cada rua, em cada canto
para terminar a minha busca,
num triste e amargo pranto.
Mas não te vejo...
Não te vejo mas eu sei
que não será sempre assim,
pois eu colho da paixão
a força que trago em mim.
Eu não te vejo...
mas será isto ilusão, será isto locura...
ou talvez na sua forma mais pura,
apenas amor e desejo?!
Não te vejo,
mas digo com o saber de uma alma que sentiu.
Não é só o desejo de te encontrar,
é também a saudade
de quem nunca de mim saiu.
de Luis Nascimento
(mas que bela estreia esta Luis... ficarei ansiosamente à espera de mais poesia tua! Abraço.)

Contemplation #2
Copyright © 2005 by Petero Reszke
Parte I
A esperança se foi há muito, nunca vou saber se conseguiria.
Teu rosto é apenas uma doce lembrança, triste e intocada em cada traço.
Sou apenas silêncio, sussurros do mais puro desejo.
Teu corpo é uma ferida aberta sangrando o meu passado.
Jamais te esquecerei, mesmo sem nunca tê-la em meus braços.
Sei que te perdi para sempre.
Observo em sua ausência, a palidez lânguida e soturna de minha figura intimista.
Tua face e teu semblante angelical destacam-se em minha paisagem decadente
Propiciando um cenário dotado de uma beleza casta e sã, absorvida por uma melancolia intensa.
Acostumado a perder toda a ambição, e lutar apenas para manter o que resta
Encontro um certo conforto na solidão. Sabendo que você nunca voltará
Fecho meus olhos para não enxergar o que realmente aconteceu, e forço a escuridão para dentro de mim.
Parte II
Em meio à escuridão gélida, ao despetalar dos sentimentos
Meu corpo transpira sofrimento, adormece em ardor.
Denuncio o meu silêncio já cansado de tanta angústia.
Tranco no calabouço de meu peito vestígios de uma triste recordação.
Prisioneiro de mim mesmo, choro pela tua falta
Desejo que esta estação seja a última, e que não existam mais outras por vir.
Ainda escuto a tua voz delicada e suave ecoando em meus ouvidos.
Lembro que eram tantos os sorrisos, mas tu levaste todos
Restando-me apenas o império devastado, ruínas de uma ilusão.
Esculturas sacras adornam teu túmulo no meu cemitério de sonhos
Enquanto o eterno orvalho da manhã vem a zelar o meu sono.
Já não sou imortal como imaginava.
de Augusto Tafner Novelli
(mas que poema maravilhoso este... adorei toda esta atmosfera que consegues criar. Espero que seja apenas o primeiro de muitos poemas teus aqui. Um abraço)

Prayer by Piotr Kowalik
copyright of the photographer
Me perco em pensamentos vazios,
Em imagens de momentos
Que estávamos juntos,
Doces momentos felizes,
que não voltam mais.
É difícil ser o que sou,
Sentir o que sinto,
Ver o que vejo.
Nesta busca por mim
Me encontro em outros rostos,
Faces que riem e que choram,
Olhos curiosos e desatentos.
Este coração cansado de sofrer
Encontra consolo
Em ombros desconhecidos,
Em bocas que apenas trocam saliva,
Em corpos que apenas transam.
Este coração cansado de sofrer
Agora bate inutilmente.
Coração que apenas procura
Um outro coração para trocar
Risos e Lágrimas
Para o resto da vida.
de Pricila Kovalski
(mais um belo poema da Pricila... um beijinho para a poesia desse lado do Atlântico)

Passing Thought by Mitchell Miller
copyright of the photographer
Encontro-te nos escombros da nossa própria insensatez.
Para quê lutar por um amor há muito acabado?
Um amor inútil, dilacerado
Por discussões de espinhos e embriaguez.
de Leonardo Perpétuo
(um poema pequeno no tamanho e enorme no conteudo... abraço Leonardo, temos que colocar a nossa conversa em dia)

burned brain by vili ivanova
copyright of the photographer
Os dias parecem mais curtos
Começo mais cedo
Nunca estou só. As imagens...
Como uma película de filme a flutuar no meu sangue.
Pintei as unhas, para me lembrar que estou viva.
A cor das cores nas pontas das minhas mãos.
Como ramos que florescem dos meus ombros
Cigarros, frutos secos
Também eles se quebram no chão.
Hoje é dia de gritar beijos, trincar corações..
ver o tempo a passar pelos meus cabelos.
Ou dormir!
A chuva entrou-me pelo nariz.
Tenho os pulmões alagados
E o cheiro do sal na minha testa
Quando a minha mão me procura
num ímpeto de consolo
E os meus olhos se fecham
e se preparam para voar
Hoje é dia de café!
e nada mais
de Rita (Les Un)
(mais um poema teu Rita... como só mesmo tu sabes fazer. O teu cunho é inconfundivel naquilo que escreves e eu não consigo parar de ler)

Coffee by Pia K.
copyright of the photographer
Sua sina é ser cigana, menina
sua sina é soar feito sino
e sumir
deixar ecoar o som
e sair por aí
sua sina é não ter raiz
mas quem assim se fez
é pra ir ao léu
deixa o vento levar
Voe,
use as asas sorrindo
chorando
você ganhou olhos de águia
Sua sina é dizer adeus
depois de cada beijo cada abraço
é viver o agora sempre na guilhotina
que roto se rasga
esvai-se água e esgoto
sua sina é não ter rotina
por isso não se debata
não tenha medo de penhascos
voe,
use seus olhos e asas de águia.
de Luiz Carlos Martins
(uma estreia colorida e cheia de movimento do Luiz... ficarei à espera de mais poesia tua. Em baixo, podem ler mais sobre o autor para o ficarem a conhecer melhor)

pauleth#1 by marília campos
Copyright of the photographer
Luiz Carlos Martins é um amigo que nos chega por intermédio da talentosa Marta Silva, ele é professor da Universidade Federal do Amazonas, na área
de linguagem verbal e audiovisual. Trabalha com produção de textos e metodologia de ensino de língua e literatura portuguesa, por entre outras disciplinas.