Tu és a rainha
do reino dos sonhos
que me atormentam
e perseguem
como se se saciassem
da minha dor
e sofrimento
tal sanguesugas
esfomeadas
sob corpo moribundo.
de Sérgio Pereira
(um pequeno poema belo e escuro... prometo que em breve vos darei a conhecer o motivo da minha recente falta de ânimo, mas neste momento não posso contar. Um abraço de obrigado a todas as pessoas que têm sido fundamentais para a continuação do Poetry pelo apoio que tenho recebido via e-mail)

tears of the lost beauty by DOU
copyright of the photographer
O poeta é a história, o percurso dos movimentos traçado no ar os gestos suspensos. Resolvo seguir o meu olhar pessoal no alto das montanhas rochosas.
Toco a penugem na tua pele junto ao oceano imerso, curto ,imenso e afectivo.
Desço para subir ao morro dos prazeres na “Cidade de Deus”, o grupo do pagode consome a lira os pássaros e os anjos para ensaiar milagres, ser profundo no corpo exaltação do interior á superfície o movimento mágico, no bar da loja do Lidador do Centro, salto depois a Santa Teresa, Parque das Ruínas, estilo arte-decó nas luminárias do Convento das Carmelitas descalças no Rio e bebo o beijo do vampiro o suco de fambroesa, vodka e hortelã, o bonde do largo carioca numa dialéctica do esclarecimento entre as Praias do Recreio e do Pontal. Danço contigo em Febre e Especial e no Nuth salto da mata espessa e faço o tempo voar na velocidade e no tempo do éolico cafariz accionado pelo vento na Barra, o catavento eco-poético, o catavento de maracujá, gengibre vodka e pimenta na galeria da Gávea, Mercedes Viegas com a escultura de Franz Weissman.
Solto-me ainda até ao parque zoobotânico De Marapendi, bebo água de coco, vodka e Suco de caju no portunhor absurdo.
O lugar onde o corpo entra noutro corpo liso e forte lê devagar e dança comigo o forró.
de José Gil
(mais um texto mágico e quente do José, enviado pela amiga Sónia Regina)

Dois irmãos and Sun by Ezequiel Lozada
copyright of the photographer
A bruma adensa-se quanto igualmente densa se torna a minha consciência. Como uma presença estranha apossa-se e controla os processos, gerando constante contradição. A custo me exponho se, por exemplo, me expresso e luto contra as palavras que, por entre a indecisão resultante da cisão de valores, teimam em tornar-se hesitantes. Apenas algumas se afiguram disponíveis, como quem abre um baú já muito antigo e encontra sempre os mesmos velhos objectos inúteis a preto e branco, totalmente explorados, sem que nem a saudade nostálgica de um significado longínquo lhes confira algum reminiscente sentido. Como uma vaga de fogo que devora em impiedoso crescendo tudo que o alimente, espaços que se enchem apenas de cinzas quando outrora tudo era verde e definido, das memórias apenas recordo que existiram mais vivas, o seu sentido apenas o posso atribuir como um rótulo.
Sinto o corpo como um vaso rachado sem consistência para acolher a raiz da planta que emaranhando se desenvolve, ocupando um espaço cada vez mais complexo e rígido. Sinto a vertigem que se acumula enquanto me disperso na minha própria essência, que tomo cada vez mais por inexistente. O fluxo contínuo de pensamento foi substituído por breves e desconexos relampejos que eclipsam a fonte donde jorram. As gotas produzem o efeito semelhante a um rápido e pontual desconcertante som agudo. A minha face não responde à maior parte dos estímulos para que reproduzam a projecção física daquilo que pretendo sentir. Não me entendo nem para os outros.
de Bruno Amaral
(um texto fantástico do Bruno, de quem já não viamos o talento à tanto tempo. Os amigos não se esquecem, talento assim ainda menos. Aqui fica o meu abraço Bruno)

For the Sake of It All... by Mitchell Miller
copyright of the photographer
Quero sair do abismo.
Esgravato, os dedos em sangue, a garganta seca de terra e pó.
Vejo-te em baixo, dei-te a mão para tentarmos os dois.
E tu, nem queres seguir-me!
Teus dedos não estão em sangue, conformaste-te em estar no abismo.
Cantarei ao chegar, talvez não ouças o eco do meu pranto.
Muito depois vou murmurar "estou saturada de não ser objecto de amor".
de Cristina Mesquita
(mais um belo pedaço de texto da Cristina, obrigado mais uma vez pela qualidade e quantidade de trabalho que envias... são pessoas como tu que me dão alento a continuar com o Poetry)

poetry by bianca van der werf
copyright of the photographer
Há pessoas que amam
com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
e quando as perdemos estão sempre
ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
a lua encontra o pão caiado que comemos
enquanto o riso das promessas destila
na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
e pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
que não precisa de voar.
de Rui Costa
(um poema do livro que saíu há pouco tempo e ganhou o Prémio Daniel Faria 2005... editado de novo desta vez completo)

The Edge of Fate. by Raphael Lopez
copyright of the photographer
Crescia por dentro, como um fogo em brasa ao vento. Lento comia pelas entranhas como vermes vivos festivos num banquete farto de carne putrefacta. Térmitas na madeira, acido na pele, lixívia no estômago. Queimava. Ora penetrava roendo nas paredes do coração, como subia pelo estômago deixando em ferida e carne viva as paredes intestinais. Rastejava lentamente num trilho de sangue, pela traqueia acima dificultando a fala, enrolando-se na língua e deixando-a seca. Por vezes entrava até no cérebro... onde furava a massa viscosa e mole do pensamento e se alojava no cerebelo junto às emoções mais primárias. Era um verme nojento, um parasita. Dominava o hospedeiro a seu bel-prazer, controlando os pensamentos, os movimentos, até o ritmo cardíaco.
Os infectados agiam todos da mesma forma, como máquinas programadas. Ficavam imbecis, dóceis e controláveis. Tinham um brilho estranho no olhar, e uma eloquência fluente no discurso. Tanta que ao falarem uns com os outros, o diálogo parecia erudita poesia ou mesmo musica. Quando o parasita não conseguia atingir o seu propósito o hospedeiro enlouquecia, entrava num processo de auto-destruição esquizofrénico, quase sempre irreversível.
O seu objectivo era simples, multiplicar-se desenfreadamente e tomar conta do mundo...
A ciência chamou-lhe amor.
de João Natal

imagem de autor desconhecido
Meu amor,
Virá o dia clarear
A escuridão das nossas noites?
Das noites sem luar,
De silêncios e foices?
Estendidos na cama,
Tocamos corpos estranhos.
Sentimos medo.
Sentimos a vertigem da queda
Num tempo finito.
Não existe nada para lá
De quatro paredes gélidas.
Mas existiu. Nós sabemos.
Fomos nós que fechámos as persianas
E transformamos em breu a luz das estrelas.
Tenho medo.
Acendo as luzes.
Onde estás que não te vejo?
de Leonardo Perpétuo
(mais um belo poema do amigo Leonardo, é de luz que escreves a tua poesia.)

blind child by Natalie Shau
copyright of the photographer
(ou a canção do nada - em islandês: Njosnávelin. Os amigos inventados e a mulher ausente)
Aquilo que construí foi nada. Todos os dias a minha porção de alienação, para suportar uma dor não sei de quê. Doi-me tudo, doi-me o mundo. O café para conseguir estar vivo, o whisky para me manter em pé no momento de cair, a poesia para equilibrar a loucura e a solidão. Sentir o corpo enfraquecer e encolher-se e recolher-se na sua dor, aconchegando-se, enquanto a mente voa e se conversa sobre a importância do Checo na literatura moderna. Voamos já, por sobre tudo, o corpo dobrado sobre si, restringindo o mundo à sua dor. Já é de manhã e não dormimos e bebemos mais café, e o whisky e tudo o mais já chegou ao fim, e mesmo que não tivesse chegado não beberiamos mais porque a mim ardem-me os lábios por causa do cieiro e a ti a cabeça anda à roda. Olhar o dia amanhecido e o silêncio entrecortado pelo ruído periódico do comboio. Vaguear pela cidade sozinho, com duas garrafas quase vazias, mas que não ouse deitar fora pela mínima quantidade que ainda têm dentro. Duas garrafas quase vazias, eu quase vazio. Tudo, um contentor vazio, tão cheio de vazio. Vagueio com um rumo que não conheço. Procuro um amigo que não existe. Sob pena de estar bêbedo o suficiente, bebo o que resta da cachaça e da vodka e lá vão as garrafas, que já estava farto de ter as mãos ocupadas. Paro de novo, noutro sítio, para beber outro café, e acordar um pouco mais para o mundo e adormecer-me um pouco mais, para a realidade de mim. Deambulo mais um pouco. É tão de manhã que ainda a cidade exala pureza. Ainda só os mendigos andam pelas ruas. Eu e os mendigos. Eu também sou um mendigo. Só não estendo a mão por uma moeda, mas sim por um pouco de afecto, um pequeno gesto. Os amigos invento-os eu. Ela não veio. Quase me esqueci de existir. São nove da manhã e o melhor que as pastelarias têm para beber é leite e Ballantines. Prefiro o leite, não sou esquisito com a marca. Bebo o leite, palpo a caveira. Durante algum tempo fico obcecado pelo mar e espero pacientemente que ele me traga o que quer que seja que preciso. Não trouxe. Os lábios ardem do cieiro, ardem insuportávelmente, mas o ardor dos lábios nem se assemelha ao ardor por dentro que nem sei bem onde é. "a dor de não saber aonde doi". Incrivelmente, aquele momento, parece-se com a felicidade.
de José Miguel Rodrigues
(obrigado José por este texto tão intenso e bonito, não havia melhor maneira de te estreares no palco do café. Ficarei à espera de mais trabalho teu, o Poetry só ganha com material desta qualidade. Abraço)

Осенью надо спешить by Oracle Studio
copyright of the photographer
Olá a todos.
Antes de mais peço desculpa pelas ausências prolongadas que o blog tem tido, os exames da Ordem já acabaram, por agora, e regresso ao activo do Poetry.
Antes de passarmos à poesia, e por ser correcto o que contem este manifesto, peço-lhes que cliquem no link seguinte, reflictam sobre o tema e procedam como quiserem a seguir. Mas a verdade é esta, NINGUEM poderá de forma legalmente admissivel, retirar provas contra contra um utilizador de internet do seu computador, sem prévia autorização de um Juiz de Instrução Criminal. E sem mais demoras...
Um grande abraço a todos e votos de uma excelente semana!
É só mais um momento em que a solidão se estende até ao último andar de um vulgar sentimento denominado desespero. A elevada altitude não a assusta, é apenas mais um convite entre tantos outros, uma promessa de conquistar a liberdade. Não tem nada a perder, nem mesmo a vida, que se terá já perdido algures entre a sanidade e a falta dela. A garrafa na mão, suada e trémula, é a sua melhor amiga; no líquido incolor afoga as mágoas e os pensamentos que a sua sobriedade desprezara há muito. Saboreia mais um trago, aquele gosto amargo que torna o tal momento doce e único. Sabe que o amanhã é uma incógnita e é no presente que confia a incerteza, a dúvida, a descrença...
O céu escuro e nublado apresenta-se-lhe estrelado, iluminado, um verdadeiro apelo ao sonho. Entra na dimensão heróica... fecha os olhos por uns instantes e sente a mente a viajar; a coragem de vencer a dor parece-lhe lá estar como uma fiel criada. Ela ri, fala, chora, grita, implora. Tudo faz sentido na confusão desconcertada. Costumava estar acompanhada. Já se terá sentido amada, desejada, mas agora está só com o seu eristoff, a companhia perfeita para quem tenta esquecer a sua própria existência.
-"Estás aí, alguém está aí?"-. O silêncio nocturno irrompe da funesta realidade que lhe perfura os tímpanos no ensurdecedor desgosto da saudade. Abrem-se brechas no solo que pisa; o amor-próprio cai por terra, terra que a cobrirá um dia... E mais um dia amanhece aqui ou no além.
Ela acorda e sorri. E eu sorrio também.
(depois de ver este teu texto lindo no teu blog, não o podia deixar de trazer para aqui. Pela sua beleza e pela sua força que o fazem impar.)

Микаин. Мой маленький ангел by Olegito
copyright of the photographer
Quanto mais te sinto,
mais receio sinto de o sentir.
O medo de perder o que não é
nunca tomado como certo.
Tão longe, e no entanto tão perto
que mais perto não poderias estar.
Aqui onde estou...
Aqui, neste lugar...
No sítio onde as memórias,
são palco de tantas histórias.
E no entanto, não é assim tão certo,
que sentir o não está perto
terá que ser triste!
Estes meus olhos que tu já viste
estão no local onde os deixaste...
Esperando...
Ansiando...
Pelo dia eu que tu digas:
"Amor, vou a caminho".
Para aqui onde estou...
Para este mesmo lugar...
Esperando...
Ansiando...
Por ti, linda flor.
Tu sabes quem és...
de Luis Nascimento
(que belo poema Luis... já cheira a Primavera no café! Peço desculpa a todos os leitores pela ausência de posts, mas ando muito atarefado com os exames da Ordem e preciso mesmo de os passar para começar a levar a advocacia um bocado mais a sério, na segunda fase do estágio. Depois do dia 8 tudo retomará o regular funcionamento. Abraço a todos e obrigado pela vossa presença.)

Diagonal Arm by sebastian free
copyright of the photographer