Passavam 7 anos mas ele não esquecia. A dor ainda amargava atroz no peito subindo à cabeça, tornando-a cheia e pesada. Como um travo amargo no fundo da boca seca. Faziam sete longos anos desde o dia em que ela partiu. E desde esse dia em que ele correu revoltado para o meio da floresta, nunca mais voltou. Sentou-se a chorar num tronco. Negou tudo o que conhecia. Negou o tempo que passava, os dias que corriam com o sol a gratinar-lhe a face. Negou a chuva, os insectos que o mordiam, chupando o pouco sangue que ia mantendo, negou a dor das feridas que o tempo abria e a dor das feridas que o tempo não fechava. Negou a sanidade mental.
Saciava a sede com as lágrimas que vertia, matava a fome com as folhas que o vento lhe atirava à cara.
Com o tempo, coisas estranhas se passaram. Algures um dia acabou por deixar de ser homem sem saber ao certo quando foi que morreu, ou até se morreu. As raízes das árvores cresceram nele, aproveitando a sua imobilidade insana. Todos aqueles anos sentado na mesma posição onde um dia se sentou a chorar até as lágrimas na face secarem. Nele as raízes penetraram, sugando o sangue para viver, misturando-o com a seiva. Cresceram ervas nas suas cavidades, os ramos das árvores vazavam-lhe o corpo e o olhar ficou vidrado numa expressão estranha de agonia e paz... de abandono.
de João Natal
(Olá amigos, regresso de vez em quando para quebrar a monotonia. O estudo lá corre, quanto ao resto, prometo novidades para breve... abraço enorme a todos.)

dead man's hand by michel bayard
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Olá amigos.
Faço este post para esclarecer aquilo que muita gente já vem a reparar há algum tempo, a minha angústia, a actividade mais fora do normal do café e os meus desabafos.
Não... não vou fechar o café de vez, embora a tristeza e a falta de forças por momentos me fizessem pensar nisso. Mas devo confessar, as palavras lindas e amigas que todos vocês me têm enviado, os vossos trabalhos que chegam com uma regularidade diária e sempre com qualidade, os 3 anos de existência deste sítio que tem sido a nossa casa. Não... não vou deitar nada disto a perder e não vou fechar o blog.
Sobretudo porque aí, ela ganharia... ela sairia vencedora. Agora fiz o que tinha a fazer e denunciei a Margarida Rebelo Pinto por plágio pelo uso indevido da obra "diário da tua ausência" que já é vossa conhecida há mais de dois anos aqui no café. O meu diário da tua ausência encontra-se devidamente registado antes de o livro dela estar à venda. Espero que a justiça funcione mesmo e o Ministério Público encontre na denúncia apresentada fundamentos suficientes para prosseguir.
Acho que acima de tudo está em causa o futuro da BLOGOSFERA portuguesa. Pois este caso vai determinar até que ponto o nosso conteúdo e de outros blogs está protegido ou não de pessoas maliciosas que precisam de talento alheio para serem alguém.
Se o MP não encontrar fundamento suficiente nos meus argumentos, ou se encontrar e depois a decisão em julgamento não for favorável, não me interessa. O que é importante para mim é as pessoas saberem a verdade, e a verdade é que o "diário da tua ausência" é uma obra minha, que a M.R.P. leu, gostou e adaptou de forma a tirar lucro com isso, dando-se ao luxo de nem o esconder mantendo o mesmo titulo.
Quanto ao encerramento temporário, isso deve-se sobretudo aos meus exames da ordem. A primeira fase não teve os resultados pretendidos e terei que fazer um esforço redobrado para passar ao resto das cadeiras em Julho. Para mim, a advocacia é algo de muito importante na minha vida... é algo que sinto que nasci para fazer, e por muito que a poesia me inebrie de felicidade e me faça sentir realizado com o serviço que o Poetry Café faz pelos seus escritores, preciso mesmo de me concentrar. Preciso de me dedicar a 100% ao estudo e passar aos dois exames que me faltam. Porque não terei uma segunda oportunidade, pelo menos este ano.
Até lá irei postar alguma poesia, sempre que possível.
Peço-lhes que compreendam, que não deixem de enviar a vossa poesia e que aguardem, porque em breve o Poetry Café retomará o seu ritmo normal de funcionamento e a vossa poesia regressa ao palco.
Porque este é um projecto em que acredito, ajudem-me a continua-lo com vocês por muitos mais anos.
Um abraço enorme a todos.
Nuno Peixoto Branco (João Natal)

Sundown by Nuno Peixoto Branco
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E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.
de Miguel Sousa Tavares
(obrigado Cristina Mesquita por estas palavras de apoio em momentos de perda)

empty cross... by Rodrigo Torres
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Não sei se você já morreu. Estou a escrever isto num comboio que atravessa a França de Montepellier a Paris, os solavancos da carruagem tornam-me a letra esquisita e não sei se você já morreu. Quando o vi no hospital do cancro, magríssimo, sem cabelo, sem forças, quase incapaz de falar, pensei
- Vai durar um ou dois dias, uma semana no máximo
e portanto não sei se você já morreu. Na cama ao lado da sua um homem olhava para mim de uma maneira que não vou esquecer, parecia um bicho aterrado. Você tinha atrás de si a fotografia da equipa do Belenenses, escrito à mão na fotografia - porque não havemos de ser campeões?
e mesmo que sejam campeões você não saberá porque você vai morrer. Vai morrer aos trinta e quatro anos (cedo não é?) vai morrer de cancro, não há um centímetro do seu corpo que não esteja apodrecido pelo cancro, você vai morrer Tó, você vai morrer. Vai morrer enquanto eu, em França, vivo o sucesso do meu livro, dos meus livros, tenho a imprensa e os leitores aos pés, o editor trata-me como se eu fosse (e sou) a criatura mais preciosa deste mundo, os críticos pulam de alegria, ando de apoteose em apoteose e você vai morrer, Tó, vai morrer e, se calhar, pelo facto de ir morrer, pensa que pode obrigar-me a pensar em si o tempo inteiro, a não ligar a esta barulheira à minha volta, a esquecer que sou um génio, que fui eu, não o Belenenses, quem ganhou o campeonato este ano, pensa que pode ocupar as minhas noites com o seu sorriso, a sua coragem, os seus dedos magríssimos a apontarem uma televisão pequenina
- Faz-me companhia
e as pálpebras a fecharem-se, exaustas, a sua dignidade, a sua ausência de pieguice, a sua morte tão próxima, Tó, a sua morte aqui mesmo porque você vai morrer. Ninguém é mais pobre que os mortos, disse uma escritora americana que também morreu nova, você não é só pobre morto, Tó, foi também pobre vivo, não tem o direito de perseguir um homem importante como eu (quem é você ao pé de mim, você não é nada ao pé de mim, você não sabe que não é nada ao pé de mim) deixe-me em paz, não me aborreça com a sua vontade de viver, a sua vontade de lutar, não seja mais valente do que eu (você não é nada ao pé de mim) porque sou eu que estou vivo, Tó, e você vai morrer, não me atormente com os seus projectos, os seus planos, você sente que vai morrer, Tó, você vai morrer.
Ao sair do instituto do cancro, depois de visitá-lo, só tive ganas para me encostar a uma coluna e permanecer ali, estupidamente, a olhar os arbustos, as árvores, as pessoas que entravam, o seu pai que tirou o lenço do bolso das calças quando a voz lhe tremelicou um bocadinho, o seu pai que se recompôs logo, Tó, num pudor que me custou ainda mais, o seu pai
- São uns dias
e você lá dentro, perto da janela, a morrer. Disse-me
- Gostava que lesse umas coisas que escrevi
isto não na visita ao instituto do cancro, um tempo antes, pelo telefone, eu
- Claro que sim
para não contrariar um moribundo, um rapaz de trinta e quatro anos todo roído pela doença, eu sem a menor intenção de ler fosse o que fosse, a desculpar-me, calado
- Não posso ler tudo o que me mandam e, no entanto
- Claro que leio, Tó, claro que leio
tentando ser agradável para si porque você é pobre, porque ninguém é mais pobre que os mortos e você vai morrer. Vai morrer e devia ter tido a educação de não me arrastar na sua morte trazendo-me à cabeça pessoas de quem gostei e que partiram, morreram de uma morte igual à sua, Tó, morreram e deixaram-me e agora é a sua vez, percebe, não tenha esperança, Tó, desista, não adianta ter esperança porque você vai morrer, está a morrer, você está a morrer e eu aqui, no estrangeiro, no meio deste aplauso todo (que vitória a minha, inveje-me) a voltar para o hotel, a fechar-me no quarto e a vê-lo o tempo inteiro à minha frente, Tó, o seu sorriso, o seu aperto de mão sem energia alguma, os seus gestos sem força e não se iluda que você vai morrer, não me mace com os seus planos (você não tem espaço para planos) os seus projectos (não há-de cumprir nenhum projecto) os seus sonhos (que veleidade a sua, ter sonhos) acabe com as fantasias, Tó, você vai morrer, um dia ainda, dois dias, cada vez mais sonolência, mais morfina, vai morrer longe de mim, em Lisboa, no meio dos outros cancerosos que vão morrer também, você vai morrer. Na janela do comboio árvores, rios, o sol, calcule, calor, calcule, um tempo lindo para mim, não para si, o tempo terminou para si, logo telefono para casa
- O Tó? (e, se calhar, um silêncio, o mais provável é que um silêncio, eu)
- O Tó?
e então, no meu ouvido
- O Tó morreu, sabias?
- O Tó morreu. Vou acabar isto, amigo, escrevi demais sobre a sua morte sem importância alguma, sobre os seus trinta e quatro anos sem importância alguma, quem era você? Por quem se toma você? Só acho que isto é um pesadelo, Tó, que não é verdade, só acho que nada disto é verdade, só quero achar que nada disto é verdade, percebe, garanta-me que nada disto é verdade, garanta-me que não morrerá, Tó, não morrerá, eu leio-lhe os contos, prometo, e pode ser que goste deles porque simpatizo consigo, porque (acho eu) gosto de si, porque me dói vê-lo morrer, Tó, faça-me um jeitinho, não morra, diga-me, com a sua cara magríssima, os olhos apagados, a boca sem cor que não morrerá, que, com um pingo de sorte, o Belenenses há-de ser campeão e precisa de viver para assistir a isso, precisa de assistir a isso, Tó, o Belenenses campeão, imagine a alegria que vai ser, meu Deus, o Belenenses campeão.
crónica de António Lobo Antunes
na revista Visão de 9 de Outubro de 2003

candels by Ghada Noman
(Volto a postar este texto... tanto tempo depois... o cancro continua a levar-me sádicamente a família e aqueles de quem gosto... sabem... a vida é demasiado curta e demasiado injusta para ser vivida com tanta guerra e tantos problemas... desculpem o desabafo...)
Miragem doce
a da onda
aquela que me sufoca
nas noites de insónia
a que me enrola
e leva para longe
onde o azul
nada mais é que infinito
não quero acordar
deste sonho feito medo
que não haja mais manhã
só mar
e esse azul
que me faz cerrar os olhos
e morrer aos poucos
de Alexandra Gil
(obrigado Alexandra por mais este poema maravilhoso, a tua escrita já tem o seu lugar próprio aqui no café)

Blue Sadness by Nuno Peixoto Branco
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do tempo das músicas tocadas ao som da luz das velas, hialinas certezas iluminam querelas que se dissolvem por entre paredes brancas, por entre clamores opacos, descendo pela goela um travo azedo cravado.
secam-se as ufanas latências que inundam o ego de restos, chamo-lhe ideias, chamam-se entre elas, e às suas vozes longínquas, perdendo-me por entre as formas da floresta, horrores que nego, faces de negro, e um torpor sonoro vem do fundo saudar-me
que esperas disto, espiral de branco, ou da panóplia de senso fora do conceito, fora do tempo, aguardando um gesto que afirme movimento,
de giz um ponto foge
de um tecto a água escorre, num fio de cal marcada, anos que se acumulam
oh, que sinto pedra as mãos na nuca, ou a cabeça pesa, por entre as pernas se sufoca.
oh, que tenho corpo e sinto-o, que tenho corpo e esqueço-o ou ele a mim, de lá me lembra.
da imagem de mim um nada, do plano ao horizonte a circular cadência que me enjoa, este corpo enoja-me
fios de forma e a fátua fadiga afaga, afaga, inerte retoma ao interno intento
sorri da força que resta, outro gesto se apaga, apaga o tempo
de Bruno Amaral
(mais um texto de um poeta que já contribui para o café, quase desde o seu inicio. Espero que esteja tudo bem contigo Bruno... um abraço)

"Blues" by Teresa Sousa
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Os teus dias são negros, frios, irreais
Os teus risos mentirosos, de demente,
São tristes, como tristes funerais
A ecoar na minha alma doente
E de tudo o que vivi nada me ficou
Nem miragem distante de um abrigo
Ninguém dos que amei, um só gesto me amou
A ninguém que cruzasse chamei amigo
Vivo moribunda na torre deste castelo
As pessoas que passam olham pasmas,
Passo horas ao espelho, a escovar o meu cabelo
E a sorrir… para os meus fantasmas
de Lavínia Matos
(obrigado Luisa por este poema lindo, acho que foi mesmo a melhor maneira de te estreares aqui no pequeno palco do café... agora espero que não queiras descer mais dele, fico à espera de mais)

hand mirror by Natalie Shau
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E o amor dos homens esvaiu-se nele como areia na ampulheta. Como tempo que acaba e se acaba finda, sem voltar nunca para trás. Os seus olhos ficaram duros, ausentes do que o rodeava, a sua boca seca e as expressões mirradas.
Sentou-se no topo do edifício mais alto que encontrou, anichou-se curvo e pensativo, abstraído do frio e da chuva, do vento cortante e do sol abrasador, que lhe chicoteavam ferozmente com escárnio e desdém.
Trocou os sonhos por asas de pedra, trocou as mãos vazias de amor por garras cruéis incapazes de acariciar alguém, agarrou-se ao chão sedento de pertença e transformou-se em pedra aos nossos olhos.
Rezam as lendas que ainda se mexe, quando o vento passa e traz na brisa, o aroma fresco do seu perfume. Por ela se tornou uma estátua, fria e morta, inanimada. Por ela renasce na sua monstruosidade mórbida, e tenta voar com as asas de pedra, em noites que a lua ainda quase, o faz sonhar.
de João Natal

Gargoyle and Paris Vista by Jim Emery
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