setembro 27, 2006

Lê-me

Lê-me como se eu fosse um livro,
descobre-me em cada pagina,
conhece-me em cada palavra...
cheira-me com o mesmo desejo
com se cheira o papel novo,
toca-me com suavidade
e folheia-me a cada dia,
como se eu fosse o primeiro
livro que les...
deixarei em mim,paginas
com espaços em branco
para que tu mesmo, escrevas
e ilustres a nossa história...
nunca me feches,guarda-me junto a ti
para me leres nas horas boas e horas más,
abre o meu sorriso e inunda-te com ele,
bebe as minhas palavras
e entra na minha vida,
esta que é,um livro que les...

de Lua

EROGLYPHICA.3 by Eugeny Kozhevnikov
copyright of the photographer

(mas que bom que é ler-te amiga Lua... acho que tens mesmo muito talento e que não deves parar de escrever... não é facil levar-nos assim a passear por entre as estrelas como tu fazes. Jinho)

Publicado por D_Quixote em 09:25 PM | Comentários (6)

setembro 24, 2006

A folha de Outono que cai e a maneira como a vemos

Estende as tuas mãos vazias no escuro
E toca-me suavemente no rosto
Tudo num gesto funesto sem gosto
Como palavras pintadas num muro

Estende as tuas mãos vazias no nada
Toca-me os olhos vadios cansados
E devolve-me os momentos sugados
E a alma que me levaste roubada

Vai e rompe estas cordas do presente
As amarras vãs do tempo de nós
E cala as vozes de ontem que chamam

Por fim encontra um consolo dormente
Agora que estamos os dois tão sós
Nos sorrisos dos outros que amam.


de João Natal

Жизнь на два мира by а’ANTIst
copyright of the photographer

Publicado por D_Quixote em 04:26 PM | Comentários (9)

setembro 20, 2006

Dizeis:

Dizeis:
Deus criou o mundo em seis dias
ao sétimo descansou
por isso
descansamos também
como Deus
descansou

Dizeis:
Deus fez o homem à sua semelhança
e Eva de uma costela de Adão
Eva pecou
e retirou-nos
o paraíso
e por isso
Adão construiu este mundo
justo, honesto
e repleto de paz

Dizeis:
Amai e multiplicai-vos
e aí tendes
médicos, farmacêuticos,
poetas, astronautas,
adivinhos, condutores de automóveis,
suicidas,
assaltantes facínoras,
ciganos, pretos, brancos
amarelos, intocáveis,
servos
todos vassalos
e crentes em tão pretérita tessitura

Dizeis:
sete são os pecados mortais
e por isso
Hamlet e Ofélia
e Macbeth e Otelo
e Lear
indiferentes à sofreguidão
do espírito.

Dizeis:
amai o vosso semelhante
e as vossas crianças assassinas
e os cãezinhos
damas de companhia
e os velhos
e as suas pombas
crucru crucru crucru

Dizeis:
não ofendas o teu irmão
e o nosso benfazejo dia a dia
agradável ao devendo e aparecendo
e por isso
adornamos o mundo sem comédia de tristeza

Dizeis:
bendita sois vós entre as mulheres
e o nosso invólucro
e todos os embrulhos
à medida das utilidades
uma duas três quatro …
envoltórios desejáveis

Dizeis
e nós comparecemos
para fazer licença de existir.


de Nancy Brown

Buddha with a view by Seán Duggan
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(olá amiga, que bom poder contar de novo com a tua poesia num regresso tão teu... sim, a tua poesia tem um cunho tão próprio que se torna inconfundivel. Beijinhos e tudo de bom.)

Publicado por D_Quixote em 12:31 PM | Comentários (5)

setembro 18, 2006

Sabor a destino

Por vezes
soa forte
esse vento
da saudade

Por vezes
soa enorme
esse oceano
da distância ausente

Por vezes
soa a luar
essa luz
da ausência

Mas mesmo
nessas vezes
soa eterno
o caminho
das pétalas
com sabor
a destino


de Francisco Marques


The sisters trusted in miracles. by Eugeny Kozhevnikov
copyright of the photographer

(mais um poema teu Francisco, este é verdadeiramente inspirador e leva-nos a voar nesse vento da saudade)

Publicado por D_Quixote em 10:54 AM | Comentários (4)

setembro 14, 2006

Alma Vazia

Estas mãos, pálidas e esguias, não te acariciam... estes olhos nada vêem... este coração nada sente e o cântico que ouves é a morte que veio embalar os meus sonhos e acordar os pesadelos, monstros outrora enterrados em idílios esquecidos e abandonados. Na boca trago um sabor salgado fruto de emoções em prantos, desmedidas, irracionais... A minha alma, vazia, corre na tua direcção, em busca de conforto, de carinho, de amor; esta minha alma perdida, vagueia, perde-se no nada, na esperança que deixou de o ser. Se tu a visses, se a pudesses ver... se a imaginasses! Tenho saudades de mim, do que fui há muito, muito, muito tempo atrás: perdi a juventude, o amor-próprio, o orgulho... perdi-me e não mais me encontrei; fui, o que nunca mais serei, dei o que jamais darei. Sorri num tempo bondoso, chorei numa vida madrasta e vim morrer nos teus braços, minha mãe, nesses teus braços onde nunca fui criança... tu não deixaste... abandonaste-me e só fiquei nesta dor que me consome, nesta tristeza infinita, nesta velhice prematura. Ai, se tu pudesses ver esta alma vazia, perdida no nada... se pudesses sentir, sentir o que já não sinto ou o que não ouso sentir, se pudesses vir ao meu encontro e eu te pudesse abraçar, beijar, amar. Eu já te amo, mas tu não sabes, já te beijo mas não vês, já te abraço mas não sentes... E sabes o que nos separa meu amor? É a chuva... É a chuva...

de Adriana Leite

ожидая твоих шагов... by e_nika
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(mais um texto lindo e profundo, vindo directamente lá de dentro... adorei este, já te tinha dito. Jinho)

Publicado por D_Quixote em 04:54 PM | Comentários (3)

setembro 11, 2006

FADO BRASILEIRO

Abre-me os braços, oh bela Lisboa!
Aqui estou. Tracei-te em meu destino.
Corpo febril, ardendo em pleno cio,
quero saber-te a mãe, nunca o algoz.
Faz tempo que te corro como um rio
que busca avidamente pela foz.

Inda lembras Lisboa, quando um dia
chegastes, poderosa, em meu Brasil?
E eu, na mata virgem, nem sabia
que tu havias meu povo domado.
Escrava do teu trono, fui servil.
Ama-de-leite de todo um reinado.

Trago comigo toda a minha herança.
Modas de amor, cantigas de ninar.
Trago o chorinho e as rodas de criança.
Xaxado, marcha-rancho e boi-bumbá.
E trago da viola, o desafio
de escolher-te cheia de esperança.

Trago meu sol, para aquecer-te o frio.
Minha Amazônia, fértil e verdejante.
Meu oceano atlântico do sul.
Trago-te um rio de água borbulhante.
Os cântaros da chuva em pleno estio.
E pássaros cantando em céu azul.

E mais ainda, trago-te as rendas
das mulheres rendeiras do Sertão.
Da feira popular, o sanfoneiro.
Da meninas bonitas, trago prendas.
Trago o Cordel e o galo madrugueiro.
E as fogueiras do meu São João.

Então não vês, Lisboa, que és minha?
Não vês que o Tejo corre em minha veia,
e que o meu Pelourinho é a tua Alfama?
Quero-te minha amante, ao meu jeito.
E apesar da "Carta do Caminha",
guardo-te inteira dentro do meu peito.

Abre-me os braços, o bela Cidade!
Que eu trago o brado livre do poeta,
desenterrado dos "navios negreiros".
O grito do "quilombo" em liberdade.
Eu trago a dor dos fados brasileiros.
E um coração morrendo de saudade.


de Kátia Drummond

Torre de Belém by Nuno Borges
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(mas que poesia tão única... um fado com retoque a bossa-nova, simplesmente marabilhoso Kátia. É bom saber que os ares de Sintra te inspiram tanto para escreveres assim, é uma terra cheia de magia!)

Publicado por D_Quixote em 12:16 PM | Comentários (3)

setembro 07, 2006

Rosa de Sal

Lembras-me
A maresia em algum paraíso tropical,
O calor húmido
E pegajoso
Colado na pele.
Lembras-me
A agradável volúpia
Em lento e saboroso
Tempero carnal,
Perco-me
E afogo-me
Na tua Rosa de Sal.


de Manuel Monteiro

No tittle by Nana Sousa Dias
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(mais um poema delicioso e bem temperado do Manuel. Obrigado pelo poema, ficarei à espera de mais poesia tua)

Publicado por D_Quixote em 11:25 AM | Comentários (4)

setembro 05, 2006

Nosso segredo

...Esta manhã olhei-te, olhei para o teu ar cansado e nostálgico, como se tivesses ali, como se amanhã fosse o ultimo dia das nossas vidas...
Olhei-te com uma revolução de sentimentos, entre bruscos e doces, entre saudade e pena, entre ilusão e desgosto.
Olhei-te com a fórmula, com a palavra certa presa na agonia do meu coração, este despedaçado à força do desentendimento, da falta de sensibilidade que outrora existiu.
Mas que fizemos nós? Como destroçamos tudo o que acreditamos? Como nos desiludimos, e fizemos um temporal nas nossas vidas, culpabilizando os outros, a vida... Até os frutos colhidos por nós...
Olhei-te com uma agonia de desperdicio, com um desejo de te passar a mão no rosto, e dizer-te baixinho que tudo vai correr bem. Mesmo que o mundo se devaste, mesmo que as flores murchem, e as estradas estejam cortadas.
Tu foste o meu erro ortográfico, aquele ridículo, absurdo, embora inevitável, aquele tipo de erro, que se sente que não se está a escrever correctamente, mas avançamos, não corrigimos…Fica como está.
Esta manhã olhei-te, como se fosse o ultimo momento que estivesse a sós contigo, mesmo eu estando ali, e tu fisicamente sei lá aonde, mas observei e senti a tua presença, como se me visses, e soubesses que eu estava ali. E talvez soubesses, talvez adivinhasses a minha longa caminhada até ti, desarmada, descalça, e com as mãos vazias.
Esta manhã procurei-te... Nas ruas vazias, no frio na noite, na calçada mais pobre, e em todos os meus sonhos... Não sei porquê, afinal fui eu quem partiu, quem desistiu, quem seguiu outra estrada e te abriu uma nova porta... Como eu te amei... Esta manhã olhei-te para te sussurrar ao ouvido, aquele segredo....Ouviste?

de Joana Freitas

Mysterium Iniquitatis by Natalie Shau
copyright of the photographer

(mais um texto esplêndido da Joana! Peço desculpa pelo lapso da outra edição. Agora sim, material fresco... Joana... espero que envies mais trabalhos com esta qualidade a que já nos habituaste.)

Publicado por D_Quixote em 02:02 PM | Comentários (6)

setembro 02, 2006

O meu pensamento falha quando quero exprimir o que sinto

Absorvo o sangue do teu espírito.
As nossas mãos estão frias como se eu nos tivesse tirado a vida.
Mas o amor nunca morre. Só se esconde aqui no centro de mim.

Batalho como alguém que pensa conhecer a alma das coisas.
E como alguém que luta para recordar esse conhecimento.
Mas falta sempre o que não recordo.

Ganha-se a batalha e no chão soldados nossos mortos em morte paulatina.
Perco cem mil homens num só.
Exponho-me à carnificina por causa de ti.

És o meu homem abstracto.
Um ser inclinado que sorri do céu em queda livre.


de Sofia Vila Nova


the one you‘re looking for is not here. by James Parbleu
copyright of the photographer

(bravo amiga... no teu blog acham-se muitos tesouros destes, és certamente já uma certeza de boa escrita para quem te lê! Obrigado por este poema...)

Publicado por D_Quixote em 11:31 PM | Comentários (4)

setembro 01, 2006

Não há...

Que posso eu dizer,
que possa ter importância?
Não há dias, nem há meses,
nem quilómetros nem distância.

Não há perto nem há longe,
nem o tempo que corre em vão.
O meu tempo só é medido,
no bater do teu coração.

Não há alegria nem tristeza,
nem dias e noites sem fim.
Só tu, minutos e segundos,
a viver dentro de mim.

Mas que posso eu dizer...
que possa ser o bastante?
Apenas e só, que te amo.
Agora e por diante.

(Para aquela pessoa especial, pelo primeiro ano.)

de Luis Nascimento

Love me tender by Jean-Paul Nacivet
copyright of the photographer

(obrigado Luis por este momento bonito de poesia e amor... parabens e que seja motivo para festejarem juntos por muitos mais anos! abraço aos dois!)

Publicado por D_Quixote em 12:09 AM | Comentários (4)