Sinto-te triste
e nos teus olhos o brilho partido
das luzes tristes do Natal dos pobres
desenha-se em gatafunho o que te vai no coração
nas noites em branco de consumição
não chores, não chores
não chores assim comigo
que eu quero não chorar e não consigo
e aquele que chora contigo
tu sabes que chora porque chora
e chora assim porque é teu amigo
e a angustia que sentes
também a sinto
como este frio metálico que magoa
como sudário pesado que cobre o pensamento
e mortifica os dias que temos em lamento
não chores, não chores
não chores assim em pranto
que também não quero chorar assim tanto
sem alento nem encanto
preciso que me sejas forte
para conseguir ajudar-te entretanto.
Eu estou aqui para chorar contigo
de João Natal
28/11/2005

Merry Christmas to all of you!! by Alin Balanean
copyright of the photographer
Os meus votos de um feliz Natal cheio de paz e amor a todos os amigos, clientes e poetas do café.
Abraço natalicio.

Minhas lágrimas secaram
Neste vale de lágrimas que hoje sou.
Hoje sou resquício do que já fui
Uma réstia do meu ser que se esvai em letras
Um nada de sol neste céu enublado que me cobre
Hoje sou tudo...sou nada
Sou mera lembrança num álbum de sonhos
Empoeirado com o passar dos tempos...
Hoje sequei minhas lágrimas nas lágrimas de alguém
Hoje lavei minha alma sobre o choro dos deuses
Sobre o orvalho que caíu sobre mim
E gostei..
Hoje morri e nasci de novo
Hoje espero, espero, espero....
E sei que, neste momento,
Partiu para longe, bem longe de mim
Aquele que ao meu lado sempre esteve
Hoje, deixei que a chuva me levasse para longe,
Para bem longe de ti....e morri.
Hoje...
Sou tudo o que um dia já quis ser e não fui
Sou pedra, sou rocha, sou areia
Sou eu
E não me deixo de ser.
de Sónia Ferreira

gameby James Parbleu
copyright of the photographer
(mais um excelente texto no palco do Poetry. Aproveito a ocasião para apresentar as minhas desculpas pela inactividade recente do Poetry Café... os dias passam e o meu tempo escasseia para tudo o que faço... prometo mais dedicação como resolução de ano novo... vão ver...)
Não havia vento, não havia ondas, nem uma brisa se sentia naquele recanto de mundo a que alguém um dia chamou de praia.
Era cedo, muito cedo, a manhã estava com um céu azul tão brilhante que o mar sentia-se envergonhado por naquele dia não ter semelhante cor, mas ao mesmo tempo sentia-se protegido... mas não aquela concha que nessa manhã deu à praia (vamos chamar-lhe de A).
Mas não estava só... lá ao longe outra concha (a que vamos chamar de G) vislumbrava aquele acontecimento... a chegada de mais uma concha àquela praia.
Todos os anos este invulgar evento ocorria, este ano pertencia a A e a G.
Elas (as conchas) eram lançadas no alto mar por alguém (a que vamos chamar de destino) e as duas primeiras conchas a alcançar aquele aglomerado de torrões de terra, viviam para sempre felizes. Mas desta vez e infelizmente as coisas não acabavam com um final feliz... não desta vez.
Para G era a primeira vez que acontecia esta aventura... para A... também.
Contudo não seria a primeira vez que aquelas conchas se encontravam... aquele olhar trocado entre ambas dizia tudo... de certeza que em outra realidade já teriam partilhado confidências.
Este dia foi marcado por alegrias mil entre as duas conchas. Foi um dia de sussurros, de brincadeiras, de alegria partilhada, de maneiras iguais de ver o mundo e até várias cusquices sobre ele e sobre a vida, (a curta vida delas). G transbordava de alegria, tanta... tanta que poderia o mundo acabar ali aos seus pés que ele viveria para sempre feliz para onde quer que fosse.
O dia passou num ápice (rápido demais mesmo...) e G reparou que A estava quase desfalecida, o longo caminho percorrido até alcançar aquela praia era a razão.
G na sua simplicidade/cortesia, segurou em A e delicadamente deitou-a num leito de algas verdes (construídas por si)... Umas lindas algas verdes que davam cor de esperança aquele lugar.
Passaram-se vários dias e A não melhorava.
O dia de G era preenchido a tentar animar aquela outra concha.
Ele contava histórias, desenhava na areia lindas figuras só para a animar, procurava os melhores raios de sol para aquecê-la e quando ficavam fortes demais... procurava a melhor sombra.
G sentia-se contente por estar a ajudar, sentia-se útil, preenchido, alegre como uma criança traquinas, mesmo não tendo de A... qualquer gesto de ternura. Mas G não desistia, considerava que lhe estava destinado aquela sua maneira de ser útil.
Que engano, que engano ele estaria a cometer, mas também... não havia naquela imensidão de praia quem lhe ouvisse e ele não sabia falar nem com o mar nem com o vento, habitou-se a viver daquela forma.
Certa manhã A acordou muito melhor, G não viu... foi a brisa que lhe disse porque ainda continuava a dormir. A noite passada à procura de pauzinhos de madeira secos para fazer uma pequena fogueira e aquecer A, havia-lhe tomado as forças.
A levantou-se e olhou para G, mas nem lhe tocou... não sabendo bem porquê, retirou-se devagarinho sem barulho, nem mesmo amparou aquele manto de algas por cima de G para lhe aconchegar o sono... como ele lhe fazia todas as manhãs.
Sem destino caminhou sempre em frente e conseguiu sair daquele lugar, sem nunca olhar para trás... Como poderia ser? Como? Então não existiu nem um pingo de sentimento?
O brilho do Sol a tocar ligeiramente o mar fez desvanecer aquela figura aos poucos até ao ocaso total.
Já o Sol estava alto quando G acordou e olhando para todos os lados procurou por A muito preocupado... tinha receio que o frio e o vento da noite passada lhe tivessem levado, estando ela tão fraca.
Mas com o decorrer do dia, das semanas, dos meses, reflectiu interiormente que nunca mais veria a sua alma gémea.
Todo esse tempo fez com que aprende-se a falar com mar e mesmo com o vento que lhe apresentou à estrelas, mas também elas não sabiam o porquê de A ter partido.
Por vezes tem a noção de a ouvir ao longe a dizer: “estou aqui, estou aqui”... Mas de seguida tal momento desvanece-se com mais um pôr-do-sol. É apenas um engano momentâneo.
G passou a ser mais uma daquelas conchas a que nos habituámos a pisar quando percorremos a praia, foi apenas mais uma e... Ele que queria ser diferente...
Conta-se que... ao luar ainda a procura ao longo daquela praia escrevendo frases banais na areia como: “Onde andas?”, “Não te escondas”... À procura de uma saída daquele sítio porque sozinho não consegue, não consegue mesmo, porque... falta-lhe um A.
de Rui Maloveci

Porcelain skyby foureyes
copyright of the photographer
(amigo... antes de mais obrigado pelas tuas palavras de apoio, não serão esquecidas. Em segundo deixa-me dizer-te que escreves impressionantemente bem, que fiquei agarrado a esta pequena fabula devorando cada linha como se estivesse sentado na areia fresca a sonhar com o amor de duas conchas, tão perto das estrelas do mar...)
Prostro-me de joelhos perante o teu suplício diário..
Dás sem esperar nada em troca..
Os teus olhos estão queimados.. A tua carne dilacerada
Mas meu espírito alimenta-se do que sai da tua boca
Devias guardar os pedaços para ti mesmo, não tens alimento
O pouco que tens doas de boa vontade..
Deixas-me impotente, com consciência de que sou mono presente
Faço por isso das verdades de um moribundo a única verdade..
Dizias que o amor é um arte, com complexidade e beldade
Mas será o amor sequer real?
Nunca o vi. Não o vejo. Não estarei a ser traído pelo que sinto?
Tem de ser verdade.. Vi-te por ele a inundar as feridas em sal
Estás fora da compreensão humana, ninguém te entenderia
Desprezam a tua pobreza..
Apodreceram sozinhos no frio do sua alma calculista
Mas tu dizes para ignorar ignorantes e amar quem odeia!..
Aí contradizes-te.. Mas não nego a sapiência nas palavras e olhar
Os olhos dizem tudo..
Afogas-me sem botes de salvação no contacto telepático
E sou absorvido como é por lama o nosso mundo
Mas quando se fala da nossa sociedade tu não pronuncias nada
Não há comentário possível..
Este mundo está perdido se não agirmos com urgência
E essa foi a mensagem que me marcaste com o ultimo estertor de vida...
de Daniel Afonso

untitled by mehmet alci
copyright of the photographer
(de que modo melhor poderias começar a tua poesia por aqui Daniel?... poema fantastico que adorei ler. Espero que envies muitos mais. Abraço)