ainda faltam cinco horas para acordar, os sentimentos
despertam imersos na dificuldade de escrever no presente
sem passado ou futuro, é sábio o que existe no momento da escrita;
sem um nome que o signifique, avassala e invade - sem atormentar;
sem linearidades ou digressões possíveis, requer devassa vertical
esse existir que exubera sua realidade no corpo e na alma,
independe de crença: toma por inteiro, sem pânico
é
(houve)
será?
ao vestir a alma exterior
algumas notas num texto impressionista: assim a escrita diz
- ao recusar o senso comum - do incompleto e movediço.
é como conhecer sentindo, transgredindo o vigente
é como uma casca que se constrói num reino de sedução, nova versão
onde o falso e o verdadeiro se combinam numa relação metonímica,
sem alegorias que joguem com a palavra, esvaziando-a
mistérios interligam-se quando se expõe o secreto pelo avesso,
não há evasão da identidade que se realiza
ao vestir a alma exterior, a revelação possível da interioridade.
de Sónia Regina

Another sleepless nighttt by ~philhormonic
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(O que mais dizer amiga?... adoro o que tu escreves e a forma como o fazes. Tornaste-te com o tempo uma das colaboradoras mais constantes e dedicadas do café e eu agradeço-te de todo o meu coração por partilhares a tua poesia aqui. Beijinho grande!)
Quero abraçar o mar enfurecido
Num último sopro abraço sereno
Num último choro de adeus sofrido
Deste nosso amargo mundo terreno
Deixar-me cair absorto e ameno
Como morto cai o fruto caído
Ou se ceifa já seco o seco feno
Com a foice do tempo em vão perdido
E desossar este corpo cansado
De tanto viver longe de tudo
Mais velho que o tempo ou do que a idade
Pois dói-me tanto este corpo prostrado
Neste sofrer de bramido mudo
Em que aquilo que mais dói é saudade
de João Natal

Drowning Man by ~Janoosh
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Todas as vezes que nos encontramos ficamos estáticos a olhar um para o outro sem saber o que dizer. Antigamente era mais fácil, sorríamos ao primeiro olhar e corríamos aos braços um do outro. Ficávamos assim por longos minutos que pareciam sempre não ser suficientes. Não precisávamos dizer nada um ao outro, o simples respirar chegava. Agora não, agora há no ar a obrigação de soltar as palavras mesmo que não signifiquem nada. O pior é que não existem palavras presas, estamos vazios de palavras. Cheios de sentimentos, mas nenhum deles se escreve, nenhum deles se pronuncia, nenhum sequer tem tradução. Apenas se sentem e se transmitem por todos os sentidos menos o da fala. Continuámos estáticos a olhar um para o outro sem ter o que dizer, mas olhos nos olhos cada um sabe o que o outro sente. Não nos podemos tocar, um pequeno toque que seja separa-nos para sempre.
de E. Afonso

it's over by ~nicejakass
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(E as palavras que não temos para dizer ficam-nos tatuadas na alma para depois as passarmos ao papel assim, de forma tão bonita... obrigado pelo texto. Espero que envies mais! Jinho.)
Quero encontrar o local divinal...
Não tenho mapa, não tenho pistas...
Esse é o lugar onde querer muito é poder
Quantas vezes vi esse lugar... nos meus doces sonhos
Posso descrever-to, cada seu milimetro, cada pedrinha dos seus passeios..
As nuvens que são de marshmellows...
Os seus caminhos fazem-te levitar,
as paredes das casas e os muros são versos
toda a gente sorri, no meu lugar não há espaço para o cinzento...
As ruas cheiram a Jasmin, a maçã verde ou a pessego.
Não há pressas nem correrias
lágrimas nunca foram vistas e são um mito...
As más palavras não constam no dicionário...
Podes deitar-te nos bancos de arco-iris dos passeios
ouvir os passaros a cantar ou o som da air on a g string do Bach...
Pela noite, a escada rolante até à estrela do norte está a funcionar
então, podes ir até lá...
Contemplar o seu brilho e perder-te a contemplar todo o universo..
Quando queres algo, com muita alma e a natureza sente que és merecedor
esse teu algo acontece...
Eu hoje, vou-me aconchegar na minha mantinha
fechar os olhos esperançosa e com um sorriso
vou proferir o meu desejo...
quero encontrar o trilho
para o meu local divinal...
quero encontrar a passagem secreta, para o meu lugar divinal...
de Cátia Gonçalves

Unopened Letter To The World by ~eleMENTALKA
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(Este é o segundo texto da Cátia. Lindo como o primeiro... quem me dera Cátia que houvesse um lugar assim para onde pudessemos voar, para fugir de tudo o que nos deixa cinzentos e tristes no dia a dia. Obrigado pela contribuição. Beijinho.)
O Poetry Café tem o prazer de anunciar o lançamento do
livro "Fragmentos de mim" de Marina Raquel M. Ferraz, que terá lugar no
Sábado, dia 14 de Junho, pelas 15.30 na Casa Municipal da Cultura de
Coimbra.
É, aliás, com muito orgulho que faço este aviso e convite a aparecerem lá. Pois a Marina é mais uma poeta desta casa que vai ser editada.
Que o teu talento continue a fazer-te brilhar assim amiga.

Ser poeta é…
Para mim ser poeta é ser do mundo,
É ser flor, floresta e amanhecer
Para mim ser poeta é ser profundo,
É chorar, sentir saudades, sofrer
Para mim ser poeta é ser humano,
É ser pobre e ser rico em emoções
Para mim ser poeta é um engenho
E um modo de cantar desilusões.
Para mim ser poeta é ser sério
Mesmo num mundo de fantasia,
Para mim ser poeta é ser império
Um império de dor, solidão, magia
Para mim ser poeta é ser triste,
Para mim ser poeta é ser amor,
É criar um mundo que não existe
Sempre com o mesmo ar sonhador
Para mim ser poeta é ser quem sou,
Para mim ser poeta é ser assim:
Um louco que em versos se criou,
E que só, criou um mundo sem fim!
Para mim ser poeta é ser verdade,
Para mim ser poeta é ser ilusão,
Para mim ser poeta é ser saudade
E servir nobremente o coração!
2007-03-13
Marina Ferraz
É difícil escrever o que se sente
Se o que se sente está ausente
Perdido entre suspiros esquecidos
Submerso entre lágrimas enxugadas
Escondido entre sonhos doridos
Desnorteado em batalhas derrotadas!
é difícil escrever o que se sente
Se o que sente não pára de chorar
Se o que sente é uma ferida mal curada
Uma lágrima que teima em não cessar!
é difícil escrever o que se sente
Materializar todo o sentimento deste sentir
Toda a tristeza iminente
Neste acto de submergir!
é difícil escrever o que se sente
Se o que se sente não passa de um acto mal comandado
De uma poesia esquecida
De um fim não alcançado
é difícil escrever o que se sente
Se o sentido está no sentimento
é difícil escrever o que se sente
Quando isso vicia-nos o pensamento!
é Difícil escrever-te
Tu, que te sinto
Pois escrever-te é a beleza personificar
é difícil escrever o que sinto,
pois um pecado estaria a alimentar!
é Difícil escrever o que sinto,
Pois tu estás na essência do meu sentir
é difícil escrever o que sinto,
Triste sina da qual não consigo fugir!
Marco Veríssimo

The Last Letter. by ~galifardeu
copyright of the photographer
(é dificil colocarmos em palavras o que tantas vezes nos vai cá dentro... eu acho que tu o conseguiste muito bem. Parabens por isso. Gostei muito deste poema. Abraço!)
Existe em ti um pedaço de mim,
Cada pedaço de ceú, é o horizonte infinito do meu ser,
Cada nuvem, cada gota de chuva,
Palavras silenciadas, gritos calados e suspensos.
No teu peito acendo fogueiras de raiva e de loucura,
No teu ventre lagos de águas paradas, serenas,
Nos teus olhos desenhos de voos rasantes de gaivotas,
No teu sorriso um rio sem margens que me rasga o peito.
Invento constelações de estrelas para te ofertar,
És cosmos, universo, limite e ilimitado,
És o mundo, o mar onde navego sem rumo nem rota.
de Rogério Nunes

Faith of a Dreamer by `LuneBleu
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(um poema simples mas muito profundo e bonito. Obrigado Rogério por o teres enviado, espero que envies mais. Abraço.)
Pelas fantasias de uma outra vida.
Perdido na inocência de uma despedida.
Que se arrasta num querer passado.
Sentindo um outro momento.
Na plenitude de um presente.
Espero mostrar-te as verdadeiras estrelas.
Espero encontrar-te num outro espaço.
Que não este, só meu.
Onde grito a minha vida.
Onde quero gritar-te ao ouvido.
E dizer que sim.
Não és e nem serás a ultima.
Mas desde o momento em que te encontrar.
Nos meus braços estendida, esperando por absorver da forma mais viva e sentida.
Dizendo:
"Quando te encontrares, já te deixei.
E desde então, aprendes-te a suportar a dôr.
Por nunca ter sido parte de ti.
Mas sim de nós".
de João Santos
08.06.2007

Lovers by ~titegez
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(Que poema tão lindo João... parece uma confissão triste que se sussurra num ouvido. Gostei bastante, faz por enviar mais. Obrigado e abraço!)
Sento-me, e espero.
Espero pelo amanhã, que tarda em vir !
Ah, o amanhã. !
Espero por um simples sorriso, um abraço, ou um beijo, que me leve os meus
medos e me faça sentir de novo menino..!
Hoje, sinto-me lúcido..!
Lúcido como se não houvesse um amanhã, e eu tivesse todas as certezas do
mundo.
Mas espero. Espero porque realmente quero.
Espero por ti.
"Porque não vens agora, que te quero
E adias esta urgência?
Prometes-me o futuro e eu desespero
O futuro é o disfarce da impotência...
Hoje, aqui, já, neste momento,
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento
O desejo, o limite dos mortais."*
de Fábio Serôdio
* excerto de Miguel Torga

Waiting III by ~oralardabiri
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(Obrigado Fabio por este bonito poema que nos lembra Miguel Torga. E obrigado também pelo tempo que esperaste pela edição tardia. Abraço!)
A noite passada
A noite passada não adormeci
Respirei fundo mil vezes mil outras mil vezes
Perdi a conta das tantas vezes que virei o rosto na almofada
Eu que nunca durmo sobre ela... curioso
A janela semiaberta
O vento entrava furiosamente no quarto
Trazia o sal do mar
A lembrança do amor que seca os lábios
Que arrepia o corpo
Procurei acender a luz
Quis pegar num livro para ler
Quis acender a televisão para iniciar mais um zapping sem sentido
Quis pensar em tudo menos no que me tirava o sono
Não consegui
Fechei novamente os olhos
Comecei a escrever
O tecto, o quadro
O giz, uma estrela cadente que agarrei num sonho
As letras eram grandes, luminosas
Como o tamanho do silêncio que me percorre esta noite
As palavras intensas e roucas
Sem pontuação
Abri os olhos e tentei ler
Interpretar a escrita
O sentimento.
Estavam escritos os cinco sentidos mais um
Quantas imagens conseguimos salvar no cartão da nossa memória?
Quantos sons tem um momento de amor?
Quantos são os cheiros que combinados nos trazem apaixonados ao longo de uma
vida inteira?
Quantos sabores tem uma caminhada a dois numa praia?
Quantas são as curvas do corpo que temos de percorrer para nos entregarmos?
Quantos de nós já encontrámos a inteligência emocional na palavra Amor?
Somos perfeitos e ignorantes?
Procuramos a perfeição imperfeita?
Mas perdemos tanto de tudo.
No entanto, são estes pequenos nadas de tudo que nos fazem viver
Que nos fazem seguir...
E a noite passada segui...
Levantei-me e dirigi-me até à praia
A noite estava cerrada
A lua espreitava de quando em quando iluminando o caminho
Caminhei descalço sobre a areia
Deitei-me
A areia fina mas fria nas mãos
Fechei-as e senti-te na memória das mãos
Abri os braços e fiquei a olhar o astro
Perante tal imensidão de espaço
Invadiu-me a sensação de pequenez
O corpo
Vencido
Embalou ao som do mar...
Sempre o mar.
Onde as estrelas ainda nos chamam a atenção no astro
Onde sou imortal
Sou vida
Sou infinito
E convencemo-nos de que é possível voar
Porque a vida não pára e,
Os sonhos renovam-se a cada vaga
A cada som
Os olhos ficaram brilhantes
Lágrimas escorreram pelo meu rosto
Sem saber ao certo quando acabam
Lágrimas de saudade do teu beijo
Caminharam até ao mar
E quando se misturaram com o sal
Ouvi o mar sussurrar que era o Castigo da Ausência
de Miguel Cruz

Alone by ~wandereringsoul
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(Bom amigo Miguel, belo poema... se o nosso corpo se compõem maioritariamente de água... juntando-se o sal da vida, restam-nos as lágrimas. Obrigado por este passeio até à beira-mar com a tua poesia.)
Hoje não tocou o telefone, hoje e nos dias entornados de antes, até chegar àquele dia em que o telefone não precisava de tocar, há momentos que são como filas de espera sem pressa, estamos no corpo, talvez como uma nuvem sem serviço de chuva, um adorno de lugar sentado com vista para os olhos de ontem, hoje há silêncio pela casa toda, hoje e nos dias entornados de antes, nenhuma voz se levanta debaixo do tapete, nenhum ombro de casaco em qualquer porta.
No quarto onde não durmo tenho lá um coração de pó no chão, dobrei-me na procura de um documento e deu-me para o desenhar, não ficou perfeito, no outro quarto durmo eu.
de Miguel Patrício

Waiting by ~ImperialAerosolKid
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(Palavras para quê ao descrever um dos mais antigos e talentosos colaboradores do Poetry Café?... Obrigado Miguel por mais um pedaço épico de leitura... sabes que ainda há hoje pessoas que me dizem que o melhor do café foram os teus poemas?... aquele abraço e continuação de boa escrita!)
Entro em teu corpo e balanço no teu sorriso enquanto ao longe vejo o horizonte através de teus lindos olhos cor de mel. Entrego-me em tuas mãos e deixo que me leves através dos teus dedos sem medo de escorregar por entre as brechas onde o ar passa. Faço das tuas pernas o meio de transporte para o infinito que procuro sem cessar. Leva-me, eu confio nos teus passos nos teus caminhos mesmo que por vezes alguns buracos se entreponham entre nós e a estrada. Um caminho sem dificuldades não é caminho digno de se percorrer, depois tenho-te a ti para me socorrer de qualquer imprevisto. Sigo em ti e ao mesmo tempo trago-te em mim, nada nos separa, nada nos distância. Somos um só ser, uma só alma. Abraço-te em mim e sinto o teu coração palpitar, estou contente de tal forma que teus olhos choram como se fossem os meus.
Olho-me no reflexo límpido das tuas lágrimas e não me encontro. Talvez tudo não passe de um sonho. Talvez tudo isto mais não seja que uma enorme metáfora.

Underwater Dreams by *SAB687
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(talvez todos vivamos numa grande metáfora amigo... onde nem tudo faça sentido e o sonho por vezes tanto nos iluda. Bom pedaço de escrita, mais uma vez. Aquele abraço!)
Ao sorriso desenhado
Junto um
Olhar esculpido.
À palidez pintada
Junto um
Penteado colorido.
À mudez forçada
Junto um
Choro contido.
Ao discurso estudado
Junto um
Trejeito fingido.
À máscara forjada
Juntei um
Principio vivido.
de Manuel Monteiro

untitled by Natalie Shau
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(todos nós usamos mascaras para esconder quem somos, o que nos magoa, o que nos deixa tristes... todos nós usamos mascaras... bonito poema amigo... como sempre gosto de ter a tua poesia por cá. Abraço!)