Estou cansada. O sono apodera-se de mim e adormece a desilusão que me abraça. Sou um farrapo que alguém usou e desprezou. Sou os restos mortais de alguém que amou sem nunca conhecer a infinitude de um ser maior. Chove por dentro de mim. Uma chuva torrencial que quebra a transparência do meu ser. Procuro-me nas tuas palavras na ânsia de me rever ontem, hoje e sempre. Procuro nelas o abrigo para o inverno que se faz sentir nas entranhas do meu ser. Encontro um abismo sem fim. Tudo oco. Tudo vazio. E tecla a tecla, vou imprimindo palavras soltas na tentativa de redesenhar o meu percurso, delinear novas metas. Vou tentando retirar-te da minha vida, apagar as tuas marcas e esquecer-te no mais íntimo de mim. Não sou poeta, falta-me o ser erudito, a eloquência para te satisfazer e te prender. Nunca o fui. Nunca a tive. Talvez por isso, me amasses menos. Talvez por isso, buscasses outros enredos. Outras aventuras.
Eu... sou o que sou e nada mais! Um ser imperfeito, inacabado. Às vezes, desejável, mas sempre insuficiente. Gostas de histórias de palácios e dragões. Princesas por resgatar, sentimentos por desbravar, sensações mágicas.... Eu sempre fui a realidade possível, a princesa de chinelos, sem palácio e sem dragões. O sentimento comum, a sensação vulgar. O beijo mais banal num contexto sofrível, mas no qual nunca precisaste de ser o herói. Comigo, nunca viste estrelas, nunca provaste o salgado, nunca andaste descalço. Nunca sentiste borboletas!
Eu... sou apenas o tempo ultrapassado. Um tempo que se desfaz em cinza por um espaço que se dilui a cada segundo. Sou as memórias de um livro por reinventar. As lembranças de uma história por reescrever. Sou um sonho que se esfumaça a cada passagem do teu ser. Uma lágrima a cada ponta do véu levantada.
Queria adormecer e não voltar mais a esta vida que visto, sem formas e sem cores. Queria despir-me do peso de um passado que não escolhi mas que agarrei. Queria despir-me de ti. Não mais sentir-te em mim, no modo como te instalas e sais impune. Queres palavras bonitas? Eu quero mais! Quero um amor talhado no céu. Um amor com as minhas insígnias. O meu nome inscrito em cada centímetro de pele. O meu rosto em cada olhar devolvido. O meu sorriso em cada gargalhada espontânea. Quero rever-me em alguém. Ser a alegria e a tristeza partilhada. Ser a vida e a morte de alguém.
Faltam-me as forças para quebrar este pensamento obssessivo, no qual as ideias se atropelam e nada revelam. Não cabem em papel. Não cabem na alma, na vida. Assumes a forma de um estranho que me despertou para uma consiência que depois abandonou. Um estranho que já me tocou e que viria a rejeitar-me no sonho que não partilhou. Procuro alcançar-te com as minhas mãos, mas sob elas encontro um papel em branco por preencher. Procuro gritar e chamar-te, mas outro chamamento prevalece. E enquanto tudo se redefine, o cansaço vai-me adormecendo e embalando a desilusão que tarda em abandonar-me!
de Cátia Pinto
(esta é mais uma explêndia estreia por estes lados... quando eu hoje olho para trás e penso na quantidade e qualidade dos poetas que já passaram por aqui e de repente tenho destes presentes na minha caixa de correio, fazendo-me sonhar com um futuro sorridente da literatura portuguesa... parabéns Cátia... continua, pois irei ficar à espera de mais trabalho teu)

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Cátia,
Quem assim escreve, tudo consegue, tudo alcança, tudo conquista.
Este homem aqui descrito, lembra-me um homem parecido, que existiu na minha vida e que de tanto procurar Borboletas na barriga, acabou por me perder sem nunca ter tido, de mim, tudo o que eu lhe queria ter dado...
Adormece, agora, para curares esta tua alma tão feminina, mas não te esqueças de acordar, amanhã, talvez, para encontrares outro alguém.
Tudo é possível, Cátia, tudo é possível!
Basta estar-se atento...
Estela.
Há corpos esmagados contra o colchão
Mas a alma é que está gasta
É a auréola baça dos homens mortais.
Tudo o que consumimos
Acabamos por destruir - e dói tanto.
E tudo com as mãos exuberantes de trabalho
Bêbados de lucidez.
E depois ainda arranjamos tempo de nos purificar
Buscando por entre as esquinas
O poder oculto dos demónios tribais
Inventando sempre novos rituais,
Sempre ao de leve como um crime.
O único elogio plausível do corpo
É dar-nos filhos - há sempre o dever de fazer algo.
E pode ser que eles um dia se tornem deuses
Mas isso é pura fantasia...
Gostava de receber uma carta escrita assim, não era preciso ser de amor, bastava que me tocasse, que me fizesse sentir vivo.
Afixado por: lobo em julho 30, 2005 02:38 PMIs easy if you can see...
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Gosto de tudo. Imagem e Texto fantásticos!!
Afixado por: lualil em julho 30, 2005 04:21 PMObrigada a todos... Simplesmente, obrigada!
Afixado por: Cátia Pinto em agosto 9, 2005 05:19 PMCátia... ÉS GRANDE,
quem me dera ter o teu talento de transformar sentimentos em palavras. Obrigado por o fazeres por mim.
Afixado por: Milan em setembro 4, 2005 01:01 PMrealmente fantastico..
gostava de conseguir exprimir-me por palavras desta forma...
continua a postar.
parabens ,esta tudo fantastico.
Afixado por: ivone em outubro 22, 2007 06:29 PMparabens ,esta tudo fantastico.
Afixado por: ivone em outubro 22, 2007 06:31 PM