Agora dissolvo o silêncio na água. Tenho frio, é ele que me leva pelo labirinto caótico das ruas. Agora dissolvo o silêncio na água e espero. Agora que me sinto água, que tenho silêncio e água no meu pensamento, enquanto espero poderia voar. Só um segredo teu me puxaria ao chão, o meu amor é o Deus das minhas orações. Agora fico e é o meu modo de ir com os olhos. A que deslumbramentos me levam os olhos, a que horrores se agarram as mãos quando já não se acredita no amor. Estes olhos e estas mãos, o sentido de um corpo ferido que se transforma no gesto esvoaçante sobre a pedra agreste.
Dissolvo o silêncio na água, flutuo na tua pele ou perco-me como uma sombra nas costas curvadas dos homens e dos soldados. Esta água e este silêncio é tudo o que me apetece arrancar do corpo e da terra profunda. Que não sejam só feridas aquilo que se arranca do amor. As mãos vertem água limpa e o milagre das mãos é o milagre das raizes. Dissolvo o silêncio na água, parece que apenas a simples canção cura esta doença, este frio em nós nem sempre é ausencia. Este frio toca-nos e depois nós nos sentimos fortes, faz a vida o sentido da morte que levamos. O AMOR, este silêncio e esta água este amor que é medo e este amor que é esperança. O frio leva-me ao labirinto caótico das ruas. Há o labirinto também das palavras. Grandioso o amor que se perde na forma fisica e que um dia é tão pequeno e universal como uma estrela no céu. Agora dissolvo o silêncio na água e com o silêncio da água adormeço.
de Lobo
(e nestes dias de chuva... esta água que nos dás é pura poesia para beber, amigo Lobo)

Beyond the Sea
Copyright © 2005 by Rafael Torcida
Querido Lobo,
As tuas palavras trouxeram-me o esperado Outono. Ou a certeza dele. Trouxeram-me a vontade de outros dias, menos coloridos, mais introspectivos.
De tantas palavras tuas, estas, são as que mais me disseram...não percebo porquê!
Beijo grande,
Estela.
Lobo,
Porque o amanhã poderá ser sempre longe, não quero perder esta oportunidade para dizer que tenho bebido frequentemente deste "silêncio feito água"... Que me tenho perdido neste "labirinto caótico das ruas" e que, hoje, depois de ter relido mais uma vez este texto, novamente me perco e me deixo deambular por esse labirinto também de palavras.
Obrigada!
Afixado por: Cátia Pinto em setembro 9, 2005 10:32 PM