setembro 13, 2005

A poesia dos dias

É terça feira e as lágrimas correm pela rua no sentido contrário
Absortas na sua azáfama diária.
Ouvem as notícias e intelectualmente esforçam-se
Compreendendo o mundo no habitáculo transparente
Uma fila simétrica de lágrimas em profusão

À quarta feira as lágrimas continuam
Em sentido inverso
As crianças coram de júbilo pelo dia pequeno
E anseiam risonhas pela tarde
Frente à televisão
Vivendo com intensidade a poesia dos pokemons e Yu Gui Yos

À quinta feira as lágrimas desfalecem pela calçada
Secam e se por acaso a chuva as surpreende
Rabujam no seu lento caminhar
Ansiando a véspera de sábado

À sexta feira as lágrimas aumentam o som do rádio
E ouvem catherine interrogando inquisitoriamente
O político de ocasião
Também ele lacrimeja pelo mau estar neerlandês
Da população

Ao sábado as lágrimas soltam-se e espraiam-se alegremente
Pelos quintais e pela floresta contígua
correm nas pernas do corpo esbelto e suam nas calças de malha do ciclista
gritam nas gargantas das crianças
e evacuam nos aparelhos urinários dos cãezinhos de estimação

Domingo as lágrimas exaltam-se e lamuriam a sua falta de sorte
Recusam-se a viver
E encostam a tristeza na almofada do casamento em putrefacção
Inundam as almas e adormecem soluçando

Segunda feira as lágrimas ocultam os olhos inchados
E brincalhonas percorrem, uma vez mais, o sentido inverso
Correndo aflitas e deixando a tempo o filho na creche
A filha na escola e o trabalho acende-lhes um cigarro
Embora as lágrimas já não poluam o ambiente...


de Nancy Brown

(uma semana cheia de poesia num poema de um só dia... fantástico amiga, adorei)

white fragments of life by marília campos
copyright of the photographer

Publicado por D_Quixote em setembro 13, 2005 07:00 PM
Comentários

um poema com uma estrutura de fio corrido, muito bom.
http://amcosta,blogs.sapo.pt

Afixado por: ana maria em setembro 16, 2005 10:53 AM
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