É terça feira e as lágrimas correm pela rua no sentido contrário
Absortas na sua azáfama diária.
Ouvem as notícias e intelectualmente esforçam-se
Compreendendo o mundo no habitáculo transparente
Uma fila simétrica de lágrimas em profusão
À quarta feira as lágrimas continuam
Em sentido inverso
As crianças coram de júbilo pelo dia pequeno
E anseiam risonhas pela tarde
Frente à televisão
Vivendo com intensidade a poesia dos pokemons e Yu Gui Yos
À quinta feira as lágrimas desfalecem pela calçada
Secam e se por acaso a chuva as surpreende
Rabujam no seu lento caminhar
Ansiando a véspera de sábado
À sexta feira as lágrimas aumentam o som do rádio
E ouvem catherine interrogando inquisitoriamente
O político de ocasião
Também ele lacrimeja pelo mau estar neerlandês
Da população
Ao sábado as lágrimas soltam-se e espraiam-se alegremente
Pelos quintais e pela floresta contígua
correm nas pernas do corpo esbelto e suam nas calças de malha do ciclista
gritam nas gargantas das crianças
e evacuam nos aparelhos urinários dos cãezinhos de estimação
Domingo as lágrimas exaltam-se e lamuriam a sua falta de sorte
Recusam-se a viver
E encostam a tristeza na almofada do casamento em putrefacção
Inundam as almas e adormecem soluçando
Segunda feira as lágrimas ocultam os olhos inchados
E brincalhonas percorrem, uma vez mais, o sentido inverso
Correndo aflitas e deixando a tempo o filho na creche
A filha na escola e o trabalho acende-lhes um cigarro
Embora as lágrimas já não poluam o ambiente...
de Nancy Brown
(uma semana cheia de poesia num poema de um só dia... fantástico amiga, adorei)

white fragments of life by marília campos
copyright of the photographer
um poema com uma estrutura de fio corrido, muito bom.
http://amcosta,blogs.sapo.pt