outubro 14, 2005

Sem Perdão

Espero o que não espero, nem sol, nem chuva. Apenas um vento gelado a agitar os dias que eu queria quentes.
Onde estás? Por onde andas? Sol quente do meu Verão tardio, já Outono, com folhas caídas e dias cinzentos. Gosto de sentir as tuas carícias tépidas enquanto me enrolo em recordações e sonhos agora irrealizáveis.
Olhos de carvão, bonitos... Sim, ainda lembro os teus olhos negros humedecidos pelas lágrimas enquanto me miram e murmuras:
"- Não me despeço! Não me vou despedir! Não te vou beijar aqui ou não poderei partir."
E vejo-te a ir, na escada rolante do Colombo. Partes uma e outra vez, tantas quantas aquela cena me vem à memória. E eu fico parada, continuo parada. Não corri para ti. Deixei-te ir, a ti e à mala que trazias na bagageira, preparado para ficares comigo.
Tive medo!
Perdi-te quando te deixei ir. Desde então senti que te afastavas, aos poucos porque doía, e íamos ficando cada vez mais distantes. Como se as centenas de quilómetros que nos separavam se fossem transformando em milhares.
Durante muito tempo nada fazia sentido. Sem ti não vi o sol nem a lua. Recusei o mar, os sorrisos e a alegria. Sem ti procurava, procurava-te, mas já não estavas… Aquela escada rolante levou-te de mim para longe e eu empurrei-te. Mesmo quando senti que fugias, mesmo quando não encontrava sentido para os meus dias, mesmo quando a dor da saudade me sufocava. Empurrava-te de mim, com medo do futuro que eu queria perfeito.
Mas o meu futuro, agora presente, não é perfeito, e não vivi o meu presente agora passado.
E hoje, vivo aos solavancos, na procura de um sentir igual que não encontro, que não existe. Não te tenho! Infelizes ambos, sem o futuro perfeito pela frente.
E sufoco a culpa, a minha culpa, porque deixei partir numa escada rolante a única pessoa com quem partilhei a alma.


de Cristina Mesquita

(Cristina... que dizer perante isto?! Este teu texto está absolutamente incrivel. Vou ficar à espera que mandes muitos destes, pois fiquei a gostar bastante do que escreves)

Time to say goodbye
Copyright © 2003 by Abdul Kadir Audah

Publicado por D_Quixote em outubro 14, 2005 12:37 AM
Comentários

Sensível e tão feminina, a tua escrita.
Às vezes, o universo barra-nos o caminho desejado para que possamos parar e reflectir sobre o que nos rodeia. Confia em ti mesma e nas tuas decisões, por muito impulsivas e erradas que elas agora te possam parecer. Para tudo existe uma explicação. Espera, a explicação virá e com ela a tranquilidade de mais um obstáculo ultrapassado.
Felicidades e espero voltar a ler-te.


Afixado por: Senhora das Estrelas em outubro 14, 2005 10:10 AM

Excelente texto :)

Afixado por: Betty em outubro 14, 2005 06:20 PM

Gostei da expressão olhos de carvão bonitos. gostei de ler como quem olha o outono pela janela

Afixado por: lobo em outubro 14, 2005 06:46 PM

Ai o Amor...
Muito bonito. Bjs

Afixado por: Milan em outubro 15, 2005 11:59 AM

pela vida fora fazemos muitas asneiras, umas + difíceis de suportar. Bem descrito. Bom f.s Bjs e ;)

Afixado por: TMara em outubro 15, 2005 02:38 PM

pela vida fora fazemos muitas asneiras, umas + difíceis de suportar. Bem descrito. Bom f.s Bjs e ;)

Afixado por: TMara em outubro 15, 2005 02:38 PM

Este é um daqueles textos que parece ter o dom de nos tocar a todos de uma ou outra maneira... eu gostei muito... confesso!

Afixado por: D Quixote em outubro 23, 2005 11:58 PM

Um texto cheio de sentimentos. Um mundo repleto de afectos.Fantástico! Sem palavras...

Afixado por: Maria em outubro 24, 2005 01:40 PM

Parabéns pelo blog. Esta prosa é sublime. Posso ter o contacto da autora?

Afixado por: Joca em outubro 27, 2005 08:51 AM

Há dias assim... un dia escorrega-nos das mãos outros foge-nos pela escada da vida! Costumo optar por perdoar apesar de nem sempre conseguir esquecer!!! Vá lá saber-se porquê????? Um texto lindo repleto de sentimento... :) PARABÉNS!!!

Afixado por: Maria São Miguel em outubro 29, 2005 09:45 PM
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