novembro 29, 2005

A água do Ribeiro

1.
Estalam as pinhas -
há foguetes, romaria
à entrada da aldeia.

já saltam os gafanhotos
no meio do capinzal.

2.
Um grande alvoroço
entre a folhagem dos plátanos -
o dia escurece.

os pirilampos voejam
à volta da romãzeira.

3.
Noite enluarada -
uma sombra de pardais
voa com as folhas secas.

na casca grossa da árvore
ainda resiste a cigarra.

4.
A flor amarela
é do chá de São Roberto -
o estômago flato.

sobre a mesa de pinheiro
há duas rosas vermelhas.

5.
Gota a gota cai
das mãos para as outras mãos
a água do ribeiro.


um casal de corvos de água
brinca na erva salpicada.

6.
Páginas rasgadas -
alguns encontros da vida
fogem para sempre.

vai coleccionando selos
dos mais diversos lugares.

7.
À luz do luar
brilham os pinheiros mansos
no tapete branco.

já há fiapos de neve
que escorrem pela cabeça.

8.
O velho cajado
caminhou muitos caminhos -
um pau de nogueira

a nuvem de folhas secas
assusta o cão rafeiro.

9.
Muitos girassóis
já começaram a abrir -
piam os abibes.

as andorinhas do sul
têm os primeiros ninhos.

10.
Brilham as giestas
enfeitadas com mil sóis -
fogo de artifício.

uma hera no jardim
seca por falta de água.

11.
Do buraco estreito
saem as formigas pretas -
acabou o velório.

à porta da velha igreja
o tilintar das moedas.

12.
A rã de bashô
não salta para o ribeiro
de água marulhante

na margem vários meninos
põem os pés na corrente.

13.
Um ramo de abetos -
quando a distância é longa
e vaza a planície.

as cerejas na ramada
brincam nas tuas orelhas.

14.
Com o espanador
os lábios cor-de-cereja
ficam mais carnudos.

a fotografia velha
regressa à adolescência.

15.
A lua de prata
pousa sobre as folhas secas
do cardo bravio.

meio século de vida
já são muitas estações.

16.
Searas vazias
com as alfaias agrícolas -
cheira a pão saloio.

os montes silenciosos
só albergam os pardais.

17.
Há uma desgarrada -
duas mulheres discutem
o peixe na lota.

as amendoeiras perdem
as flores de neve rosa

18.
A pirotecnia -
todas as ameixoeiras
já estão em flor.

as jovens adolescentes
descobrem os ombros alvos.


de José Félix

(em homenagem ao amigo Aníbal Beça)

Um kazen Renga tradicional

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Copyright © 2005 by Patrick Shuck

Nota: O Renga é uma forma poética japonesa que tem centenas de anos de exercício, no Japão. Evoluiu para o tanka que é composto de um poema de 2 versos de 17 sílabas (5-7-5) e um dístico(7-7).
Normalmente é feito por duas pessoas que fazem uma ligação poética segundo as regras de Jane Reichhold .
Convém ler alguma coisa sobre este assunto para poder e saber analisar o Kazen de Verão que eu acabei de escrever. É de notar que qualquer tipo de sentimento está sublimado em algumas frases ou palavras. Em alguns haikus percebe-se que fala da Primavera, outros do Verão, outros de Inverno, e outros ainda de Outono. As estações do ano e a Lua estão lá segundo o programa de Jane Reichhold. Se fossem dois interlocutores seriam mais de 18 partes em virtude disso mesmo. Como fui eu próprio que assumi o «eu» e o «outro» optei por classificar segundo o tanka.

por José Félix

Publicado por D_Quixote em novembro 29, 2005 11:37 PM
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