dezembro 26, 2005

O PAI NATAL VEIO DESCANSAR

Ninguém o ouviu entrar e por isso os pares continuaram rodopiando pelo salão. As crianças adornavam a casa, assaltando em jeito descuidado a baby sitter, uma jovem rapariga de piercings nas sobrancelhas e olho distraído pelo mundo.
A mesa opulenta do salão, retirada a um canto, permanecia embevecida pelo esplendor dos seus adereços, velas da China, rosmaninho da Índia, sedas e perfumes, especiarias várias, odores casados com outras paragens. Por isso o embevecimento do seu olhar comprometedor, atraía e aconchegava o tapete marroquino, um pouco desnorteado com o movimento colorido, e as personagens brilhantes e destapadas, esplendorosas, fervilhando efemeramente pelo salão.
A um canto o dálmata de olhos tristes dormitava ao som do crepitar da lareira e as suas pintas heterogéneas dançavam nos olhos calculistas do persa, enroscado desconfiadamente no cadeirão. A música incomodou-o repentinamente. Sentiu-se desconfortável no cadeirão e também lhe apeteceu rodopiar por todo o salão, mas os ombros doridos, as pernas cansadas, longas as caminhadas por todo aquele inverno, o corpo dorido, o trenó permanecia desconfortável, a obesidade, todos lhe ofereciam a ceia e a todos agradava com um ou outro aperitivo, bombom, bolo rei, filhoses, rabanadas, e até havia quem o obrigasse a jantar, pois a noite seria longa e necessário e urgente colmatar a fome que se avizinharia. Finalmente conseguira sentar-se. Os meses de trabalho terminaram naquele cadeirão confortável e vazio e não percebendo bem o porquê, de repente invadira-o uma leveza inquietante, mas ainda assim a paz, a imensa paz, convidaram-no a adormecer e foi assim, que espantou todos os convidados para a ceia.
E foi por isso que as crianças deixaram de assaltar os piercings da ama e aconchegaram de mansinho aquele velho homem de barbas, gordo, de faces bondosas, e afinal de tudo e apenas, com uma roupa vulgar e velha.
De manhã, quando acordaram, telefonaram para a televisão proclamando: gostava que dessem no telejornal uma notícia boa, nós os Afonso Henriques, habitantes do velho reino da Lusitania, descendentes de homens audazes e valorosos, proclamamos para todo o sempre: o Pai Natal existe, dormiu connosco esta noite e pede desculpa, mas não fala convosco porque... gosta pouco da fama.
Bem poderiam esperar as crianças pelo tratamento jornalístico, mas os jornais e jornalistas desta era, não acreditam no Pai Natal. Apesar de promulgarem o contrário.

de Nancy Brown

(eu também acredito no Pai Natal e na tua poesia linda Nancy... obrigado...)

Christmas time. by Gaetan Chevalier
copyright of the photographer

Publicado por D_Quixote em dezembro 26, 2005 05:46 PM
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