dezembro 30, 2005

Luís um miúdo da minha rua

Luís um miúdo da minha rua perguntou-me?
- Também há o natal dos animais?
– É possível!
- E eles recebem presentes?
– Isso não sei.
- Se calhar os animais pobres não recebem
– É possível
– Ontem estive a conversar com o galo
– É?!
- Passou o dia todo a queixar-se.
- E do que é que se queixou?
- Disse que era contra o natal, sabes! Disse-me ele, não gosto do natal, noite de paz, noite de amor, mas é tudo conversa, quando eu menos esperar estou a enfeitar o prato na noite de consoada. Já reparaste se houvesse o natal dos bichos?! Imagina nós a cozinharmos o homem?!
- Nem sei o que dizer-te!
– Outro dia o teu pai entrou aqui armado em rei Herodes e zás cortou umas cabeças. Se o teu pai percebesse o meu cacarejar eu dizia-lhe que o menino Jesus só bebia leite com mel, se eu bebesse leite com mel ficava com a voz mais afinada, a ração que a tua mãe me dá deixa-me tonto.
- Gostava de te ajudar.
- Preferia que uma raposa me deitasse as unhas, conheci uma que tinha unhas para tocar guitarra, certa madrugada embalou com a sua voz a galinhada cá do bairro, num abrir e fechar de olhos entraram-lhe no papo.
- Gostas da árvore de natal?
- Nunca vi nenhuma!
– Não?!
– Às vezes passa por aqui o gato esse bicho anda sempre a troçar do meu bico. " Ontem provei uma canja de fazer eriçar os bigodes. - Isso é cruel. - Já imaginas-te como se sentiriam o burro ou a vaca se depois do que fizeram pelo menino Jesus acabassem no talho, deram-lhe calor.
- E tu?
– Eu canto, o meu canto é o melhor dos despertadores.
- Desculpa, acho que tens razão, vou pedir á minha mãe que não te cozinhe
– Que lhe vais dizer?
- Na verdade não sei, podia abrir-te a porta e tu seguias o teu caminho.
- Não ia ser fácil, o mundo está cheio de perigos e não é fácil arranjar trabalho, conheço um primo que passou por uma churrascaria, precisasse empregado dizia o letreiro, era no tempo dos contratos a prazo, acabou na barriga do patronato.
- Já ouviste falar na Etiópia?!
– Não.
- Há por lá muita fome, não se vê um pé de feijão, nem uma pata de frango.
- Deve ser dramático... a culpa são as guerras, juro que nunca me hei-de alistar no exercito, talvez no exercito de salvação.
– Olha a minha mãe está a chamar-me, tenho de fazer os deveres da escola.
– vai lá, gostei de conversar contigo, falar ajuda a passar o tempo.


de Lobo

(um Natal diferente... mas fantástico... obrigado amigo Lobo)

Good morning... by Palmi Einarsson
copyright of the photographer

Publicado por D_Quixote em dezembro 30, 2005 02:19 PM
Comentários
Comente esta entrada









Lembrar-me da sua informação pessoal?