março 22, 2006

Dezembro 31

O ano despede-se. Sem pressas. O lento passar das horas lembra o adeus de dois amantes numa manhã de Setembro. O beijo que se prolonga e se repete. O abraço apertado, a acumular todos aqueles que a distância impedirá de nascerem. O voltar atrás para mais um beijo. E ainda mais um abraço. Ali junto à lareira, é 31 de Dezembro. E o correr arrastado do tempo é apenas uma ilusão criada pelo calor das labaredas. Nesta passagem de ano, as passas do costume são outras quase tão naturais. Os trajes mais ou menos de gala dão lugar a roupas quentes. Os especiais televisivos, esses estão desligados da corrente para que se oiça um som dançável mas triste. Num dos sofás kitsch lê-se uma obra com morte estampada no título. Uma história imaginada por um homem velho, que insiste em escrever sobre a vida. Noutro dos cadeirões com cheiro a mofo, sonha-se. Pelo menos, assim fazem crer os olhos cerrados, talvez desmentidos por uma expressão quase dolorosa. Junto à mesa, move-se um corpo. Em gestos leves e precisos, ensaiados para enganar a ausência de par. Não muito longe, num canto da sala, fazem-se planos de regresso a casa ao sabor de um cigarro enrolado à mão. Ali, junto à lareira, Dezembro termina. Sem que sequer se dê por isso.

de Alexandra Gil

(mais um pedaço de sonho que escreveste para nós, obrigado Alexandra, aos poucos "já começas a fazer parte da casa")

Arder Sereno
Copyright © 2005 by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em março 22, 2006 12:53 AM
Comentários

Adoro bebericar um cafézinho por aqui entre uma poesia e outra :O)

Afixado por: Noa em março 23, 2006 03:42 PM

Alexandra, é impossível ficar indiferente à tua escrita. Este foi um café maravilhoso, melancólico mas não triste...Adorei!

Afixado por: Senhora das Estrelas em março 25, 2006 09:56 AM
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