abril 10, 2006

Felicidade

(ou a canção do nada - em islandês: Njosnávelin. Os amigos inventados e a mulher ausente)

Aquilo que construí foi nada. Todos os dias a minha porção de alienação, para suportar uma dor não sei de quê. Doi-me tudo, doi-me o mundo. O café para conseguir estar vivo, o whisky para me manter em pé no momento de cair, a poesia para equilibrar a loucura e a solidão. Sentir o corpo enfraquecer e encolher-se e recolher-se na sua dor, aconchegando-se, enquanto a mente voa e se conversa sobre a importância do Checo na literatura moderna. Voamos já, por sobre tudo, o corpo dobrado sobre si, restringindo o mundo à sua dor. Já é de manhã e não dormimos e bebemos mais café, e o whisky e tudo o mais já chegou ao fim, e mesmo que não tivesse chegado não beberiamos mais porque a mim ardem-me os lábios por causa do cieiro e a ti a cabeça anda à roda. Olhar o dia amanhecido e o silêncio entrecortado pelo ruído periódico do comboio. Vaguear pela cidade sozinho, com duas garrafas quase vazias, mas que não ouse deitar fora pela mínima quantidade que ainda têm dentro. Duas garrafas quase vazias, eu quase vazio. Tudo, um contentor vazio, tão cheio de vazio. Vagueio com um rumo que não conheço. Procuro um amigo que não existe. Sob pena de estar bêbedo o suficiente, bebo o que resta da cachaça e da vodka e lá vão as garrafas, que já estava farto de ter as mãos ocupadas. Paro de novo, noutro sítio, para beber outro café, e acordar um pouco mais para o mundo e adormecer-me um pouco mais, para a realidade de mim. Deambulo mais um pouco. É tão de manhã que ainda a cidade exala pureza. Ainda só os mendigos andam pelas ruas. Eu e os mendigos. Eu também sou um mendigo. Só não estendo a mão por uma moeda, mas sim por um pouco de afecto, um pequeno gesto. Os amigos invento-os eu. Ela não veio. Quase me esqueci de existir. São nove da manhã e o melhor que as pastelarias têm para beber é leite e Ballantines. Prefiro o leite, não sou esquisito com a marca. Bebo o leite, palpo a caveira. Durante algum tempo fico obcecado pelo mar e espero pacientemente que ele me traga o que quer que seja que preciso. Não trouxe. Os lábios ardem do cieiro, ardem insuportávelmente, mas o ardor dos lábios nem se assemelha ao ardor por dentro que nem sei bem onde é. "a dor de não saber aonde doi". Incrivelmente, aquele momento, parece-se com a felicidade.

de José Miguel Rodrigues

(obrigado José por este texto tão intenso e bonito, não havia melhor maneira de te estreares no palco do café. Ficarei à espera de mais trabalho teu, o Poetry só ganha com material desta qualidade. Abraço)

Осенью надо спешить by Oracle Studio
copyright of the photographer

Publicado por D_Quixote em abril 10, 2006 01:11 AM
Comentários

OLÁ, MUITO BOM O SEU BLOG. ACESSE: WWW.OCOVILDODEMONIO.THEBLOG.COM.BR É LÁ QUE EU APAREÇO. DESDE JÁ GRATO PELO ESPAÇO CEDIDO.

Afixado por: JAIME ARTUR em abril 10, 2006 11:34 PM

Absolutamente genial!

Afixado por: Cientista em abril 11, 2006 02:21 PM

gostei muito deste texto, senti-o como um cotidiano meu, uma cronica do amor da solidão de todos nós. se é uma estreia é uma boa estreia.

Afixado por: lobo em abril 11, 2006 03:27 PM

Li e reli...
Achei-o avassalador. Por favor dá-nos mais.


Afixado por: Senhora das Estrelas em abril 11, 2006 04:27 PM

obrigado pelos comentários.

Afixado por: José Miguel Rodrigues em abril 12, 2006 01:29 AM

Fantástico José! Como sabe, sou sua fã há quase um ano...
;o)

Afixado por: gertrud em abril 13, 2006 07:02 PM

Estou deslumbrada com tanta intensidade
Sorrio mais ainda pela coincidência da descoberta... noite de lua cheia!
Parabéns pelo blog!
Hei-de voltar, sem dúvida!! :)

Afixado por: Utopia em abril 15, 2006 08:21 PM

Fantastico! adorei o texto. Parabens pela força e expressao e sentido poetico.

Afixado por: Paulo em abril 19, 2006 08:33 PM

Lindo texto e que força tem tuas palavras José. Quero ler mais.

Afixado por: Roseli em abril 28, 2006 09:40 PM
Comente esta entrada









Lembrar-me da sua informação pessoal?