dezembro 04, 2006

Duas conchas

Não havia vento, não havia ondas, nem uma brisa se sentia naquele recanto de mundo a que alguém um dia chamou de praia.
Era cedo, muito cedo, a manhã estava com um céu azul tão brilhante que o mar sentia-se envergonhado por naquele dia não ter semelhante cor, mas ao mesmo tempo sentia-se protegido... mas não aquela concha que nessa manhã deu à praia (vamos chamar-lhe de A).
Mas não estava só... lá ao longe outra concha (a que vamos chamar de G) vislumbrava aquele acontecimento... a chegada de mais uma concha àquela praia.
Todos os anos este invulgar evento ocorria, este ano pertencia a A e a G.
Elas (as conchas) eram lançadas no alto mar por alguém (a que vamos chamar de destino) e as duas primeiras conchas a alcançar aquele aglomerado de torrões de terra, viviam para sempre felizes. Mas desta vez e infelizmente as coisas não acabavam com um final feliz... não desta vez.
Para G era a primeira vez que acontecia esta aventura... para A... também.
Contudo não seria a primeira vez que aquelas conchas se encontravam... aquele olhar trocado entre ambas dizia tudo... de certeza que em outra realidade já teriam partilhado confidências.
Este dia foi marcado por alegrias mil entre as duas conchas. Foi um dia de sussurros, de brincadeiras, de alegria partilhada, de maneiras iguais de ver o mundo e até várias cusquices sobre ele e sobre a vida, (a curta vida delas). G transbordava de alegria, tanta... tanta que poderia o mundo acabar ali aos seus pés que ele viveria para sempre feliz para onde quer que fosse.
O dia passou num ápice (rápido demais mesmo...) e G reparou que A estava quase desfalecida, o longo caminho percorrido até alcançar aquela praia era a razão.
G na sua simplicidade/cortesia, segurou em A e delicadamente deitou-a num leito de algas verdes (construídas por si)... Umas lindas algas verdes que davam cor de esperança aquele lugar.
Passaram-se vários dias e A não melhorava.
O dia de G era preenchido a tentar animar aquela outra concha.
Ele contava histórias, desenhava na areia lindas figuras só para a animar, procurava os melhores raios de sol para aquecê-la e quando ficavam fortes demais... procurava a melhor sombra.
G sentia-se contente por estar a ajudar, sentia-se útil, preenchido, alegre como uma criança traquinas, mesmo não tendo de A... qualquer gesto de ternura. Mas G não desistia, considerava que lhe estava destinado aquela sua maneira de ser útil.
Que engano, que engano ele estaria a cometer, mas também... não havia naquela imensidão de praia quem lhe ouvisse e ele não sabia falar nem com o mar nem com o vento, habitou-se a viver daquela forma.
Certa manhã A acordou muito melhor, G não viu... foi a brisa que lhe disse porque ainda continuava a dormir. A noite passada à procura de pauzinhos de madeira secos para fazer uma pequena fogueira e aquecer A, havia-lhe tomado as forças.
A levantou-se e olhou para G, mas nem lhe tocou... não sabendo bem porquê, retirou-se devagarinho sem barulho, nem mesmo amparou aquele manto de algas por cima de G para lhe aconchegar o sono... como ele lhe fazia todas as manhãs.
Sem destino caminhou sempre em frente e conseguiu sair daquele lugar, sem nunca olhar para trás... Como poderia ser? Como? Então não existiu nem um pingo de sentimento?
O brilho do Sol a tocar ligeiramente o mar fez desvanecer aquela figura aos poucos até ao ocaso total.
Já o Sol estava alto quando G acordou e olhando para todos os lados procurou por A muito preocupado... tinha receio que o frio e o vento da noite passada lhe tivessem levado, estando ela tão fraca.
Mas com o decorrer do dia, das semanas, dos meses, reflectiu interiormente que nunca mais veria a sua alma gémea.
Todo esse tempo fez com que aprende-se a falar com mar e mesmo com o vento que lhe apresentou à estrelas, mas também elas não sabiam o porquê de A ter partido.
Por vezes tem a noção de a ouvir ao longe a dizer: “estou aqui, estou aqui”... Mas de seguida tal momento desvanece-se com mais um pôr-do-sol. É apenas um engano momentâneo.
G passou a ser mais uma daquelas conchas a que nos habituámos a pisar quando percorremos a praia, foi apenas mais uma e... Ele que queria ser diferente...
Conta-se que... ao luar ainda a procura ao longo daquela praia escrevendo frases banais na areia como: “Onde andas?”, “Não te escondas”... À procura de uma saída daquele sítio porque sozinho não consegue, não consegue mesmo, porque... falta-lhe um A.


de Rui Maloveci

Porcelain skyby foureyes
copyright of the photographer

(amigo... antes de mais obrigado pelas tuas palavras de apoio, não serão esquecidas. Em segundo deixa-me dizer-te que escreves impressionantemente bem, que fiquei agarrado a esta pequena fabula devorando cada linha como se estivesse sentado na areia fresca a sonhar com o amor de duas conchas, tão perto das estrelas do mar...)

Publicado por D_Quixote em dezembro 4, 2006 11:15 PM
Comentários

Muito bom o texto...
"Falta-lhe um A.."
Gostei imenso do blog.
Abraço

Afixado por: Sandro em dezembro 7, 2006 11:56 AM

...também senti a proximidade da maresia ao ler estas palavras. Muito real... muito profundo este texto... o que parte mas fica... porque o A de adeus é dificil de aceitar, compreender e conviver com o vazio que resta!... Adorei...muito!

Afixado por: mariasaomiguel em dezembro 9, 2006 09:29 PM

Absolutamente Fantástico...
Adorei mesmo...
Abraço

Afixado por: Pedro Silva em dezembro 16, 2006 12:31 PM

O k se passa com este blog? Era fantástico, dinâmico... ultimamente estagnou...
Lúcia

Afixado por: Lúcia em dezembro 18, 2006 05:52 PM

Vão-me desculpar mas este texto está horrível.. Está pobre a nível gramatical, a nível de vocabulário e a nível metafórico... Por favor, está mesmo mau. Ultimamente este blog não tem andado mt bem...

Afixado por: heritage em dezembro 21, 2006 03:55 AM

A melhor poesia é aquela que nos vem da alma, porque essa sim é verdadeira... além disso, o gostar ou não de algo escrito por outras pessoas é muito subjectivo... eu, pessoalmente, gostei deste texto do Rui... Talvez a heritage deva aprender a ler com o "coração" e não apenas com os olhos... porque é lá que os verdadeiros sentimentos existem... e que brotam para o "exterior" desta forma tão espontânea!

Um Santo e feliz Natal para todos... Acima de tudo, sejam felizes... e aprendamos de uma vez por todas a não construir a nossa própria felicidade à custa de sentimentos negativos e pejorativos. Eu diria mesmo depreciativos...

Um abraço!

Afixado por: Teresa em dezembro 22, 2006 11:15 PM

Sandro, e este blog gostou de ti... volta sempre amigo!

Maria... os adeus são sempre assim... dificeis de aceitar. Eu prefiro os até já. Nunca se sabe para onde a maré da vida nos leva. Eu prefiro pensar que um dia as conchas se voltam a encontrar.

Pedro, obrigado... e um abraço!

Lúcia... infelizmente é a falta de tempo. À medida que se cresce e se têm obrigações profissionais é dificil manter o ritmo das "outras coisas"... mas em 2007 farei um esforço redobrado no sentido da qualidade e frequência do blog.

heritage... leia um bocadinho de António Aleixo por favor... depois falaremos alegremente. Os melhores cumprimentos.

Teresa... :)... conhecemo-nos há tanto tempo que já antecipas as minhas palavras... beijinho!

Afixado por: D_Quixote em janeiro 6, 2007 01:56 PM

O meu muito obrigado, pelos comentários (por todos mesmo). Não vinha aqui há muito e por isso as minhas desculpas por só agora poder agradecer. Fica aqui a minha vénia, merci, merci
(Maloveci)

Afixado por: Rui Maloveci em maio 28, 2007 11:43 PM
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