março 09, 2007

A Grande Viagem

Uma voz emocionada falou do outro lado
Uma frase
Deu-se inicio ao fim
a dissolução física de uma família até hoje completa

Estava longe
e dei inicio a uma caminhada
Que me angustiava a cada minuto que me aproximava
Como se a distancia permitisse não acreditar
Os olhos e a voz embargados numa luta entre o sonho e a realidade
Num desejar crónico que o tempo parasse
A qualquer momento
Para que alguém me acordasse
E dissesse... Está tudo bem.

Nunca tinha perdido ninguém
Mas hoje
Sei que não há defesas
Não há livro de instruções
Nada conforta os sentidos
Que nó é este que nos aperta o peito
Que impotência é esta que nos prende a alma
Somos Homens e tão frágeis
Magoamo-nos fisicamente,
fazemos guerras,
passamos dias sem comer
em (im)perfeitas angustias pessoais e profissionais,
e superamos... melhor ou pior.
mas a perda de alguém que amamos...
Sentimo-nos frágeis comos as asas de uma vida
Que não podia ser de outra vida.
É um sopro de pequenez
Que nos desperta para a vulnerabilidade daquilo que somos

E no dia seguinte ...
a realidade ...
Esperava-te sentado naquele mesmo cadeirão
A tua voz rouca a ecoar na casa
O teu riso e gargalhadas cristalinas
que soltavas do fundo do teu peito
Tantas tardes quentes de Verão que passámos juntos
Aquele Alentejo solarengo que só nós conhecemos
Os serões na (im)possível e escassa frescura da noite
Sentados cá fora ouvindo “estórias” do antigamente
Quanta sabedoria
Lembro de uma noite ter-te feito rir desalmadamente
Da avó me contar que te continuaste a rir já deitado;
Lembro de irmos à pesca e comermos o peixe debaixo de um chaparro grande
E de dormirmos a sesta na hora do calor
Os dias eram tão grandes
Não tinham fim
O céu, ao final do dia
ficava laranja
e tu dizias - com essa tua experiência de vida - "amanha vai estar mais
calor"
e estava.

Fica em mim parte de ti
Guardo e abraço tudo o que recebi

Escrevo-te,
não para exorcizar a dor
Mas para que saibas
Que fui sempre eu do teu lado
Que foi tudo incondicional
Que as ultimas palavras que ouviste foram as minhas
Que era eu que chorava desalmadamente como uma criança
Porque sim
Porque fazes falta.
Ponto.

Partiste no mês em que nasci,
Não sei para onde vais
Se olhas por mim, por nós
Mas se o fizeres
Fá-lo sempre com a mesma inocência com que viveste para mim
Como uma criança grande
Cabelos grisalhos e coração grandioso
Com o mesmo brilho nos olhos.
O Mundo é feito de Grandes Homens como tu

Boa Viagem Avô

Miguel Cruz

Dusty Death by Lars Raun
copyright of the photographer

(um belo e emocionado texto... obrigado Miguel por partilhares aqui no café... abraço!)

Publicado por D_Quixote em março 9, 2007 11:09 AM | TrackBack
Comentários

simplesmente lindo!

Um abraço

nc

Afixado por: Nino Carvalhaus em março 11, 2007 06:23 PM

Sentimentos e emoções tranformadas em palavras..o que li foi um momento genial de emoção traduzida em linguagem humana. Parabéns pela forma como o fizeste, Miguel. Parabéns

Afixado por: Ricardo P em março 12, 2007 11:24 PM

bem só kero dizer que encontrei este blog por acaso e tou simplesmente passada como um blog pode ser tao bonito!
os poemas são simplesmente brutais!
Continuem!!! Sempre que poder cá virei :) fique tua FÃ =))****

Afixado por: andreia em abril 22, 2007 12:23 PM
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