abril 27, 2007

poemas de amar

escrevera muitas e muitas cartas ao marido que andava nos submarinos. ele nunca as recebia a tempo de responder às questões que se impunham no momento. então decidira mandar-lhe poemas de amor. despertara assim para a poesia. quando o marinheiro partiu para sempre, fez um luto prolongado. agora que algo mais profundo que o mar os separava, decidira parar de escrever. em vez disso, passava os dias a reler as mensagens que ele guardara na escrivaninha do escritório. as cartas banais que começavam com um como estás e se estendiam em narrativas de episódios do quotidiano. e as outras que culpavam a guerra de tantas pausas naquele amor. e contavam, em versos sem rima como cresciam os filhos e a saudade. até que um dia alguém lhe disse que bastava. que aquelas penosas leituras não o trariam de volta. que era hora de deitar fora a roupa negra e queimar as folhas de papel. cansada, acedeu. e recomeçou a escrever poemas de amor.

de Alexandra Gil

(à minha colega de curso de escrita que escrevia poemas de amor ao marido nos submarinos. e assim despertou para a poesia. uma das estórias mais breves e mais bonitas que ouvi nos últimos tempos, aqui acho que com uma pitada de ficção)

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Publicado por D_Quixote em abril 27, 2007 06:16 PM
Comentários

Parabéns Alexandra pelo texto...
Sem duvida que por vezes é melhor esquecer o passado e se para isso os poemas de amor ajudam, escreve pois o coração tb precisa de desabafar...

Beijinhos

nc

Afixado por: Nino Carvalhais em abril 28, 2007 12:58 PM

Que texto tão simultaneamente belo e trágico! As lágrimas iam-me afluindo aos olhos como crocodilos ao nilo

Parabéns pela bela narrativa.

Afixado por: Daniel Afonso em abril 28, 2007 01:04 PM

Belo texto e belo gesto ao publicá-lo. Tudo de bom.

Afixado por: poemar em abril 29, 2007 06:30 PM

palavras que se fazem sentir na doçura trágica de se saberem palavras...imagem bem conseguida...a força da natureza que se funde com a fragilidade do ser humano! "Porque sempre sou, mais um homem, mais humano...)
O fundamento de deixar-se levar...ocasião suprema do ingénuo, do verdadeiro saudável!

Parabéns pelo blog...
(música bem escolhida...uma bonita composição)

Afixado por: Locus em abril 30, 2007 02:01 PM

Não é justo deitar fora os poemas de amor....eles não tiveram culpa de ser escritos e precisamos muito deles :)

Afixado por: Stranger em abril 30, 2007 05:16 PM

muito bom esta escrita,a fotografia, a música.
fica sempre algo por dizer
depois de se ler algo que nos agarra por dentro. por isso,
deixo um abraço
e a vontade de cá voltar.

Afixado por: aidamonteiro em maio 1, 2007 08:01 PM
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