outubro 03, 2007

Ele

São apenas anjos negros, às vezes doces como seda, de asas feias manchadas com o sangue da sua própria morte. Não são monstros, não têm garras, são apenas sós, tristes e muito negros...

Vozes escuras por entre a noite murmuravam-me.
Eu sentia-te como uma faca numa mistura de névoa e água. Sentia-te silêncio esquecido nos meus lábios na maneira como me odiavas.
Gritaste, e por um só segundo um grito mudo, amargo, esfomeado.
Gritaste como se fora algum dia força em ti, como se o vento chorasse sob ventanias que nunca suplicam.
Foi então que te vi! Vi as tuas asas enormes e desfeitas. Eu não tenho asas e não queria ter umas assim. Não sei se sabes que eram feias, mas os teus olhos lembravam pedras agoniadas pelo brilho de uma estrela. Ás vezes a pedra tem a fatalidade de um espelho….
Não conhecia a tua linguagem, mas o que não sabia era que a esquecera.
Esquecera a tua linguagem de sabor a ferro e fontes, esquecera-te no meu corpo, esquecera tanta coisa.
Não sabia que se pedisses um desejo seria cor-de-rosa, como quando eu pequena. E quando eu pedia desejos sabiam a jasmim e a flores mortas que nunca existiam.
Davas-me cabanas e dizias que eu era tua.
Davas-me um poema e julgavas ter a minha alma.
Arranjavas-me prisões como a de pássaros e cortavas as minhas asas com uma faca mal afiada. Depois reza-va-las sete noites junto ao mar e molha-va-las com o meu sangue coagulado.
Quando não gostaste das minhas linhas da mão com uma lâmina acrescentaste novas.
Depois o meu olhar......odiavas-me e ele era mais doce. Mas tu sabias que não. Tu também gostas de acreditar, era doce e tinha o teu nome.
E ficaste louco...
Eu beijava-te e tu não te apercebias do corpo demasiado pesado, dos olhos talvez vazios, mas que….eram doces e tinham o teu nome...
Houve um dia em que me pediste que te lavasse as asas, eu parti-as e num último beijo menti-te como veneno.
Depois deixaste de vir. O meu corpo cansado tinha tantas saudades do teu.
Nalgum dia sei que ainda fui, e às vezes quando sem o teu corpo bastava sê-lo nos teus olhos. Porque às vezes tinha medo, tu eras sempre igual e não me olhavas.
Queria que viesses porque eu também existia quando choravas e te perdias.
Depois os deuses abandonaram-te, mas foi a mim que me expulsaram...
Esqueci-te e nunca mais gritei o teu nome.
Andei perdida, vagueava de margem em margem e às vezes deixava-me ficar. Alguém aparecia e abraçava-me. Não sabiam quem eu era e também não faziam perguntas. Eu queria perguntar o universo inteiro.
Mas eles pressentiam que eu não era daquele mundo e vedavam-me os seus jardins e fontes onde eu me queria afogar. Depois simplesmente abandonavam-me em desertos que criavam só para mim. Eu que esquecera quem fora às vezes preferia permanecer naquelas imensidões áridas que ter de voltar a perder-me. Mas nelas nunca me encontrava. Em mim também não.
Quando vi o anjo não o reconheci e eu que sempre tive a força de demónios, fugi.
Passou-se muito tempo.
Um dia vi um ser belo de asas compridas, límpidas como cristal. Era o anjo!!!!
Senti o peso nas costas e quando me virei lá estavam elas, feias, grandes e manchadas.

São apenas anjos. Anjos que às vezes têm o meu nome e são como espelhos. Já não sei se as suas asas serão assim tão feias e partidas. Não sei se são pássaros, mas sei que não são monstros. Mas são tristes, muito tristes e velhos.

de Sofia Farinha

(Este é um texto escuro mas muito bonito Sofia. É preciso talento para escrever assim e espero que não deixes nunca de escrever e de te exprimires com esta intensidade)

Fallen Angel by Luis Royo
copyright of the photographer

Publicado por D_Quixote em outubro 3, 2007 01:47 PM
Comentários

"Mas eles sentiam que eu não era daquele mundo e vedavam-me seus jardins e fontes"
MAGNÍFICO
parabéns à Sofia e ao Nuno, por publicá-la. É sempre um prazer vir aqui, sempre renovado.

Beijos mil do Rio,

sonia

Afixado por: sonia regina[soreg] - http://sregina.zip.net em outubro 6, 2007 04:50 PM

Perdições reencontradas noutras formas... o poder belo das metáforas.

Afixado por: ás de copas em outubro 13, 2007 12:18 PM

Lindo. que posso mais dixer?


escrevam mais pff

Afixado por: Bruno em dezembro 8, 2007 03:25 PM
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