A tua casa era algo entre névoas. Era algo ameno e confortável, e tudo se podia navegar. O branco da vivenda ocupava sempre o lugar fresco do ar, e parecia impor-se às cores menos luzentes das outras casas. Ficava no canto da vila, virada para o bosque.
A tua casa eras tu à janela, no primeiro piso, a espreitar de dez em dez minutos para ver se eu já tinha chegado e a espreitar dez minutos depois para veres que eu já tinha chegado. Eu adivinhava um sorriso enquanto descias as escadas.
A tua casa estava sempre de entreluz por dentro e tinha cheiros de boas vindas. E andavas à minha frente levando-me pela mão, e falavas, mas pareciam-me pássaros a cantar e a dançar nas teclas de um piano.
A tua casa tinha molduras chamadas janelas onde estava pintado um bosque até ao azul celeste. E havia uma estrada de terra que atravessava o bosque e acabava num sítio que – se o visitássemos – decerto veriamos que ali começava outra estrada.
A tua casa permitia que os raios solares entrassem para desencobrirem dos teus olhos um índice de verde, e tudo parecia que era um filme feito a partir de alabastro. As películas eram segmentos das tuas pequenas unhas a passar pela minha face.
A tua casa calava-se quando eu sentia a energia dos teus braços sobre os meus, enquanto te abraçava e imitavamos asas. E incorporávamos a felicidade. E eram honestos e sinceros todos os arquipélagos que se formaram através da erupção do nosso amor, no fundo do mar.
A tua casa era quando alimentávamos a nudez pura com o desejo de sacrilégios. E seguiamos o trilho que nos levava á intimidade, com cuidado para não tropeçarmos um no outro. Acertavamos todos os passos de dança, no salão vitoriano, os deuses da paixão aplaudiam.
A tua casa era a última estrela a apagar-se naquele bairro, todas as noites. Como se, mesmo depois do sistema solar ter desaparecido, nós continuássemos a reluzir. E havia sempre calor e conforto e segurança e carinho.
A tua casa é uma morada perdida no tempo e na memória, e é o lar do meu refúgio nostálgico. Lá, ainda verias no tecto um pressentimento dos sonhos que sonhei contra ele. Lá, não existe o pranto deste abandono.
de Daniel Paiva

window to my soul by *don-paolo
copyright of the photographer
(obrigado Daniel por este texto que nos faz pensar tanto nas nossas "casas". Espero que envies muitos mais, porque adorei ler-te. Abraço e desculpa o atraso na edição.)
Publicado por D_Quixote em maio 7, 2008 11:41 AMEncontrei aqui sentimentos lindos escritos de uma forma poética e um sentimento de perda sem rancores, Só saudades! Belo como só quem sabe escrever e descrever o belo.
Afixado por: António Viana em maio 8, 2008 12:23 PMBelíssimo texto, sem dúvida
Afixado por: Olivia em maio 8, 2008 02:56 PMExcelente texto. Parabéns.
http://desabafos-solitarios.blogspot.com/
http://desabafos-solitarios.blogs.sapo.pt/
http://paixoes-longinquas.blogs.sapo.pt/
Hoje fazia-me falta ler algo assim.
Sim... há textos que efectivamente nos prendem de forma mágica... este foi um deles.
obrigado amigos pela visita e pelos comentários
cervejas fresquinhas
Afixado por: Nuno Peixoto Branco em junho 4, 2008 07:50 PM