maio 19, 2008

O OURO E O CASCALHO

Sou o poeta das planícies,
Que do Alentejo do meu coração,
Onde molho o pão no azeite
Das Grandes-Oliveiras
E refresco a garganta com o tinto
Que o suor e calor criou;
Monto o burrico que me levou,
Ao ritmo do vento breve
Á Grande Cidade de Lisboa,
Que tanto amo.

Aqui vivo,
Como poeta vestido de negro
Bêbedo dos sentidos,
Vagabundeando pelas
Palavras,
Rodando na minha bicicleta ferrujenta e sábia,
Que só roda quando quer,
Como o espírito livre dos árabes.

Ruas de nevoeiro,
Aqui vou,
Dormindo nas esquinas relvadas,
No manto de folhas abandonadas
Pelas preguiçosas árvores
Do belo bairro dos Olivais.
Estou em casa!
Sou um cão magro e feliz!

Farto e cansado
Do jogo da simetria ambulante
Dos homens-comuns
Que tudo endireitam
Para satisfazer a sua luxúria de mentalidades.
A natureza é torta e bela,
Porquê simetria a mais do que aquela que
Deus nos quis dar?
Lixo! Lixo! Lixo!

Estranho os ciprestes e sequóias de betão,
Desenhadas por artistas cegos,
Mastodontes silenciosos
Esperando o armagedon
Que os livre.

Pena dos homens e mulheres,
Crianças de rosto triste
A lamberem os vidros de 4x4
Fedorentos que se bufam negramente
Para o ambiente que Jeová criou.

Jeová criou.

Vinho tinto, vinde,
Estou só.

Poeta pobre e feliz…
Hoje alimento-me de nevoeiro e neblina,
Amanhã de ar e relva,
De Whitman e sol.
Pobres oliveiras sós,
Esquecidas entre
Pomares de pedras cinzentas com olhos quadrados
Onde moram pessoas infelizes nas suas entranhas.

Bairro dos Olivais!
Alameda das Oliveiras Tristes!

Bicicletas ferrugentas com gordas mulheres
Com gordos sacos de compras
Com gordos braços a estender roupa
Com paredes de tijolo de burro
Ruas direitas e ruas tortas para pesadelo de carteiro
Por entre relvas centenárias
Nuas e carecas
Oliveiras riem-se ao vento
Incólumes e perversas na sua tranquilidade das décadas
Cães velhos vadios magros famintos doentes sós
Por aí
Gajos que não lembra ao diabo
Por aí
Que fazem Onde dormem O que comem
Tiveram mães e pais?
Rostos cavados de medo e sombra,
Para onde ides?

de Carlos Luis
in “Tijolos de Verde Rude”, Corpos Editora

Alentejo II by ~antipopmarket
copyright of the photographer

(o que dizer deste poema Carlos? É simplesmente genial e fez-me voar na imaginação por terras perdidas tão nossas deste Portugal. Escolhi-te um som do Pedro Barroso... porque para ilustrar um tão grande poema, fui buscar outro grande poeta cantor! Aquele abraço e ficarei à espera de mais textos assim tão bons como este.)

Publicado por D_Quixote em maio 19, 2008 12:39 AM
Comentários

Lindo e saboroso poema. Além das palavras, traz o mormaço, o sabor, o perfume do azeite e do vinho. E o som da bicletas ferrugentas.

Deu-me muita vontade de conhecer este Alentejo tão amado pelo poeta.

Só se pode agradecer ao Carlos Luis por tê-lo escrito.

Afixado por: Rodolfo em maio 22, 2008 09:29 PM

saudades
do além tejo
do pão
do sol
dos montes

:)
bjs do norte
hoje estou aqui:
http://miniminimos.blogspot.com/

Afixado por: hemisfério norte em maio 23, 2008 12:14 AM

Excelente!

Afixado por: Daniel em maio 24, 2008 06:11 PM

Sim... foi bom viajar assim por uma parte tão bonita deste nosso pequeno país.

Obrigado pela visita e pelos comentários

cervejas fresquinhas nas mesas

Afixado por: Nuno Peixoto Branco em junho 4, 2008 07:53 PM
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