Ao respirar uma última porção de tempo, encerro a minha reflexão.
Deixo-a para quem nunca quis saber de mim. Deixo-a porque te amo.
Sei que a vais ler com um sorriso que nunca te vi. Será breve. O sorriso.
Suponho-te mesmo sentada na poltrona de molejo caduco,
onde me encontraste a dormir um sono demasiado profundo.
Sei que amanhã será outro a tomar o meu lugar. Talvez noutra poltrona, talvez noutro lugar. Não me importo. É isso que fazes e eu sempre soube.
Nas noites que tardavas em chegar, eu adormecia no preciso momento em que a tua chave rodava a fechadura.
Nas noites que sonhavas em voz alta nomes talvez ao acaso,
sussurrava-te o meu na esperança que o dissesses.
E nas noites que me amavas a fingir, eu fingia que me amavas.
Vivi uma farsa por vida. Até que a noite resumiu uma vida sem qualquer sentido. Ou alguém pela noite.
Quero que saibas que te observava quando preparavas o veneno no meu copo.
Por esta hora, já saberás que decidi bebê-lo.
Quero ainda que saibas que, apesar de tudo, amo-te como sempre te amei.

Poison by ~walti-w
Copyright of the photographer
(Escuro, corrosivo, mas com um gosto inconfundivel que fica... obrigado Gustavo por este texto tão bom de se ler. Abraço e envia mais por favor, quero ler mais textos assim!)
Publicado por D_Quixote em dezembro 3, 2008 10:18 AMEsquecido.
No dia em que o mundo caiu o meu coração morreu.
Tão pequeno que já não o ouvia bater.
Todo o mundo continuava a rolar pois ainda se lembrava dosom do seu bater e andava esquecido no passado.
O mundo caiu depressa e sem avisar e ninguem reparou que tinha parado.
O meu mundo parou de bater e o coração morreu.
Uma calma tão grande um silencio tumultuoso ocupou o espaço do seu som e ninguem reparou.
O sol ficou escuro e ninguem reparou.
Continuava-se a viver sem perceber que não havia som e o sol já se tinha apagado.
Enquanto se vivia sem som e sem luz ...ninguem reparou e continuava-se a viver.
Vivia-se com o resto do mundo.
O riso desapareceu pois sem som não se ouviam as gargalhadas e sem luz nem se viam e porque se continuava a rir? Porque ninguem reparou que a determinada altura tudo apagou e o coração parou e o mundo morreu.
E porque? Porque tudo esquecido se manteve igual.
Gustavo, gosto da forma como escreves. Gostei em especial do tom pesado dito com palavras mansas. Adoro isso.
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Afixado por: tndixsdq em dezembro 18, 2008 01:04 AMdeliciosamente fatal
Afixado por: olivia em dezembro 28, 2008 11:17 AM