março 23, 2009

Diário da tua ausência – página final

Esta cidade veste-se de penumbra e lágrimas conforme a forma como olhamos para ela. Nas pontes, nas encostas junto ao rio, no mosaico das casas pequeninas e tristes que preenchem o olhar. É uma cidade solidária que fica triste quando estamos tristes e que se alegra em quotidianos caricatos quando nos sentimos melhor. Hoje, ela partilha da minha tristeza e chora comigo.
No cimo da ponte contemplo melancólico as aguas verdes do Douro sujo. Passam lá em baixo como o tempo passou por nós, incansável e imparável. Levando com ele todas as historias que tínhamos como as aguas do rio levam toda a memória do que a cidade já viu. E assim penso em ti. E assim penso em nós.
Chego à conclusão de que nos perdemos pelo caminho Dalila. Os desencontros são demasiados para não parecerem mais destino. Os anos afinal não perdoam e as memórias de nós são grilhetas que não deixam nenhum dos dois ser verdadeiramente felizes. Sim. Estou a deixar-te ir. Estou a deixar-nos ir.
Até agora foste a medida de todas as outras coisas. A mulher pela qual todas as outras eram comparadas. A mulher completa que eu procurava aos pedaços quando olhava para outras. Numa o teu sorriso, noutra o teu olhar, mas em nenhuma aquela sensação que tinha contigo onde me sentia em casa nos teus braços. Perdido na felicidade que encontrava em nós.
Mas o João que te ama hoje salta desta ponte. O João que te ama hoje deixa de existir nem que seja eu a empurra-lo para o seu fim. O João que te ama coloca as mãos frias e tremulas no varão de metal que separa do precipício. Alça a perna esquerda e depois a direita. O João que te ama olha para trás, olha para mim. E enxugando uma ultima lágrima com as costas da mão diz-me. Estás livre agora para seres feliz. E mergulha no vazio até se fundir inerte nas águas lá em baixo e ser arrastado no rio como o nosso amor foi arrastado no tempo.
E o João que já não te ama segue o caminho, apanha o metro e volta para casa. Há uma nova vida algures lá fora. Deve haver alguma vida que reste longe das ruínas do amor que tivemos. Deve haver, espero.

de João Natal

Oporto by =m0riendi
Copyright of the photographer

(Acabo assim as páginas do diário da tua ausência. Tristemente a denuncia criminal pelo seu plágio nunca mais viu a luz do dia e a justiça ainda não foi feita. Continuarei a escrever outras coisas, como é claro. Mas prosa minha não será aqui exposta tão cedo. Se a MRP quiser novos best sellers... que os escreva ela. Abraço a todos)

Publicado por D_Quixote em março 23, 2009 01:00 PM
Comentários

Nuno lamento terem feito plagio dos teus escritos, mas parece-me que em tempos o plagio era uma coisa normal, parece que o eça plagiou um certo escritor quando escreveu as minas de Salomão, que também um certo escritor inglês fez o mesmo, o que escreveu romeu e julieta. na verdade embora com diferenças haveriam influencias comuns. Ja agora regista as tuas coisas na spa e vê se houve plagio realmente ou outra maneira de abordar o que escreves-te. Abraço

Afixado por: Lobo em abril 2, 2009 09:36 PM

=)

Hello Stranger... lindíssimo como sempre


miminhos

Afixado por: Lua_roxa em abril 5, 2009 11:40 PM

Muito bom!

Pesado, sentido e muito bem conseguido!

Afixado por: AlmaAzul em abril 7, 2009 08:03 PM

É lindo! Simplesmente lindo...

Afixado por: Marina Raquel Ferraz em abril 16, 2009 01:20 AM

Compenetrante, poetico e sentimental, PERFEITO!

Afixado por: Sophia em abril 23, 2009 06:35 PM

Só tu, para me tocares com as palavras que escreves carregadas de tanto sentimento. Só tu, para me levares ás lágrimas, pela forma como descreves o teu lindo amor e a profunda angústia e tristeza. Continua a brindar-nos com as tuas palavras, pois elas são a chave de sonhos de muitos de nós, que se esqueceram de como é bom sonhar.
Beijinho muito grande desta tua eterna amiga
Mariana
Bei

Afixado por: mariana em julho 15, 2009 10:58 PM
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