A cidade amanhecia suave lá fora, alheia a eles, ou talvez não. Ganhava novas cores que ele nunca tinha reparado existir. Cores que o sorriso dela pintava agora nas paredes velhas dos seus sonhos de outrora. E o sorriso dela era-lhe âmbar, laranja e cor de mel, tons de vermelho quente e notas de jazz solto. Passeios à noite com as estrelas da cidade a dançarem nas águas do rio. E descobri-lo, era como a primeira vez que uma criança vê o mar. A vontade renovada de perguntar porquê e de descobrir um mundo lá fora, um mundo novo nos olhos dela.
Uma semente, uma pequena semente de ilusão. Semeamos aquilo que queremos colher. E somos seres cegos, tão cegos de olhos nas mãos à procura de algo que nem sequer sabemos o que nos falta. E eles trocavam assim todas as perguntas do mundo e todas as respostas dos seus corações. Numa fome estranha que lhes consumia a noite sem se lembrarem do tempo que envelhecia lá fora.
Mas todas as noites amanhecem, todas as sementes crescem, todos os sonhos terminam. É a sua essência tão fugaz que lhes conferem esta beleza trágica que nos prende. Este mundo é um mundo de barreiras, de fronteiras e de distâncias. Um mundo de redomas onde todos estamos sós. Os nossos corações são caixas vazias, que batem dentro de pessoas que são caixas vazias, que viajam em carros e comboios e metros que são caixas vazias, que circulam em cidades que são conjuntos de casas que são caixas vazias dentro de caixas vazias maiores, dentro de caixas vazias ainda maiores. O mundo é uma caixa vazia como nós. Numa busca obsessiva de nos enchermos com qualquer coisa que faça isto tudo ter qualquer sentido.
Dar toda a poesia que os dedos da nossa vida escreveram a alguém que não a vai ler. Abraçar com toda a força e entrega alguém que não nos abraça de volta. Abrir as portas do coração uma ultima vez para a luz entrar. Tornar-nos tão vulneráveis que somos transparentes num gesto carente de entrega. Como se o corpo perdesse a consistência dos átomos e se visse exposto o pulsar sincero e desamparado de um coração que tenta bater de novo.
A cidade já tinha amanhecido lá fora, alheia a eles, ou talvez não. Ganhava novas cores que ele agora nem repara existir. Cores que o sorriso dela pintava outrora nas paredes velhas dos seus sonhos de agora. As sementes da ilusão brotam desilusão quando regadas pela simples água fria da realidade. O sorriso dela ainda tem as mesmas cores, o dele é que mudou. E descobri-lo era apenas a velha certeza de como as coisas são e ele tão bem as sabia. E a vontade renovada de esquecer o mundo lá fora, aquele mundo velho nos olhos dele.
Semeamos aquilo que queremos colher. Mas no tempo em que a semente era apenas a promessa do que eles podiam ser, no tempo em que o sorriso dela era a semente do sorriso dele, ele foi feliz e sonhou de novo.
de João Natal

...alone by ~nunoramos0
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...um abraço
Afixado por: lobices em junho 11, 2009 08:37 PMcertamente nao és uma caixa vazia,parabens
Afixado por: maria pereira em junho 12, 2009 05:18 PMNada mais do que um simples... Bravo, ando desaparecido deste café, posso não dialogar convosco, mas ouço-vos constantemente, esta ultima conversa, é de beijar, e beber da sua água...
Afixado por: joao santos em junho 13, 2009 07:51 PMLindo, João.
E "postado" no meu aniversário. Obrigada!
Mas porque sou menos sombria, menos só, mais luz que trevas neste mundo onde andamos sozinhos mas lado a lado dos que nos amam e dos que amamos, aqui te deixo a minha resposta:
As cores dos meus sonhos são pintadas por alguém. E bafeja-me a sorte por não terem ainda findado. O novo amanhecer não traz o final da história, mas sim o começo de uma outra. E juntos, colorindo os sonhos um do outro, démos ao mundo a luz mais pura que nos foi permitido. E essa luz irá crescer, prevalecer e... bafejar com sorte, algum dia, o mundo de alguém.
Gostei deste cantinho. Hei de voltar cá.
Parabéns aos autores.